Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos
XVII Os aliados
XVII
Os aliados
Animais corredores, ligeiros,—élafos, gamos, elãos,—chegavam espavoridos ao rio e atravessavam-no. Formavam bandos consideráveis, dominados do pânico herbívoro. O seu número ia crescendo com o declinar do dia, e com eles se misturavam cavalos e alguns uros.
Vamiré, espantado, baldadamente procurava uma causa simples daquela extraordinária fuga: incêndio, emigração...
Interrompia o remar, e Élem murmurava esconjurações.
E o galope dos animais ia-se acelerando. Aos cervídeos, aos bovídeos, aos cavalos, juntaram-se lobos, chacais, raposas. O ruído do mato patenteou a corrida de animais menores,—lebres, doninhas, fuinhas e lontras. Apareceram enfim carnívoros,—ágeis panteras e{130} ursos de marcha pesada. Ao longe, os macacos clamavam alarma, como sentinelas escrupulosas, e o seu clamor atravessava, como um furacão, as altas ramadas, transpunha o rio e difundia-se nas regiões desconhecidas.
Anunciava-se formosa a noite: nenhum sinal de tempestade, nenhum sintoma de perturbação atmosférica. Mas, como um prodígio misterioso, a fuga das feras despertava no intimo do homem e da mulher os mais sinistros presságios.
Todas as vozes, na serenidade do crepúsculo, vibravam de um medo enorme, e espalhavam o contágio do terror... Vamiré entrevia, não o receio do animal perante a natureza, mas o receio dos seres perante outros seres, o êxodo das raças vencidas, o desalento de uma espécie perante a espécie dominadora.