Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos
XI Vamiré
Os seus adversários medem o perigo de uma luta aquática. O chefe proíbe que tentem o perigo... Todos então empunham os arcos; mas o tiro é inútil, porque a barca desaparece por trás de uma ilhota.{79}
XI
Vamiré
Estendido no fundo da pequena barca, Vamiré cobria com a mão o seu ferimento, coberto de sangue coagulado.
Havia uma hora que ele esperava uma reacção favorável para abicar na margem, porque a perda de sangue o mantinha prostrado, num suave meio-deliquio, em que ia perdendo a nítida concepção do seu ser. As coisas figuravam-se-lhe pequeninas, quase imperceptíveis, ao passo que o coração lhe vogava nas delicias de uma onda morna, asfixiante, confrangente.
Passou afinal a crise. Com a febre, renasceu a força. O Pzann pôde impelir a barca até à margem, desembarcou, e apanhou folhas balsâmicas e resina para o penso da ferida. Depois, lavou a ferida na água corrente, refrescou os lábios, e estendeu na ferida uma compressa de folhas embebidas de resina, e, por cima, uma atadura de pele. Este penso, de uma solidez a toda prova, permitia evaporação suficiente, e dava até lugar à supuração.{80} Ao cabo de oito dias, seria mister renová-lo; mas, até lá, graças às folhas aromáticas e à resina, pouco havia que recear.
Vamiré sentiu grande alivio; a inquietação, que toda doença importa, desapareceu, e um grande orgulho despertou, uma alegria de vencedor: comeu e bebeu voluptuosamente, e pôs-se depois em cata da madeira necessária para o fabrico de novas armas. De pronto adquiriu as hastes: doze, pequenas, para zagaias, e uma, grande, para lança.
Quando trabalhava, sentiu a tentação de ter um arco e frechas, à maneira oriental, feitas de madeira endurecida ao fogo. A banda do arco era chata, mas larga, com um encalhe redondo, para dirigir a frecha. Vamiré arrancou um pequeno freixo, cujas extremidades queimava, e passou depois longas horas a desgastar o tronco, servindo-se alternadamente do fogo e do sílex.
Era sol posto. Vamiré não concluíra o seu trabalho, e calculou que precisava de dois dias, afora o tempo para aguçar as frechas. De forma que, ao passo que buscava abrigo nocturno, planeava acabar primeiro a lança, as zagaias, os arpões, para se precaver contra qualquer ataque, aliás improvável.
Os orientais, com os seus dois mortos, com os seus feridos, entre os quais o chefe, não pensariam logo em reabrir hostilidades; e, de facto, dirigiam-se apressadamente para as suas estepes, levando consigo Élem. Vamiré sorria, ao pensar que eles a não possuiriam definitivamente, e adormeceu tarde, excitado pelos estratagemas que ele estudava para a readquirir.{81}
No outro dia, ao despertar, uma grande fraqueza o prendia ao solo. Começava a cicatrização... Arrastou-se com dificuldade até à margem, onde adormeceu, depois de se ter dessedentado, em risco de ser devorado pelas feras.
Quando acordou, ia o sol a pino. Vamiré dessedentou-se de novo. A cabeça ardia-lhe, as veias latejavam, as ideias eram confusas.
Compreendeu que o dia estava perdido, resignou-se, e meteu-se na barca, junto à ribanceira. Com intervalos, em que ele ia matar a sede como sonâmbulo, as trevas envolveram-lhe a existência, até a alvorada próxima. Abeirou-se do Nada. Em toda noite, a sua robusta organização agonizou nas sombras. Os períodos da crise sucediam-se como ondas de maré. Mas, com a alvorada, chegara a calma, o sono fora vigorificante, e, no quarto dia, Vamiré acordou com fome.
Examinou o penso. As dores haviam desaparecido. As carnes, quase unidas, mostravam apenas um pequeno lanho. A vermelhidão desaparecia do peito. A cabeça desanuviava-se.
Vamiré foi à procura de alimento, armado apenas de um arpão e uma lança, as únicas armas que lhe restavam. Debaixo das árvores, naquela ocasião, poucos recursos havia, e, além de tudo, só a emboscada era possível, porque o ferido não teria forças para um assalto às feras.
Decorreram três horas, em que apenas se lhe depararam pequenos carnívoros, de carne repugnante; e já a fome começava a atormentar vivamente o estômago{82} do caçador, quando apareceu um bando de cervas, guiado por um belo alce, macho.
Era caça grossa e perigosa, mas tanto mais tentadora, quanto os cornos do alce proporcionariam quanto era preciso, para pontas de lança, de arpões e de zagaias.
Vamiré sentiu deveras, naquela hora, o não ter arco, que lhe permitisse o ataque de longe, porque o alce costumava vingar energicamente o morticínio das suas cervas.
O alce era um veado colossal, do tamanho dos maiores cavalos da actualidade, e as suas pontas espalmavam-se-lhe por cima da cabeça, como ramos de faia desfolhada; duas forquilhas primeiro, e depois um tabuleiro guarnecido de pontas recurvas.
O troglodita, encoberto pelas ramadas, com infinitas precauções, aproximou-se do bando; mas a distância era ainda bastante, para esperar que arremessaria proficuamente o seu único arpão. Esperou pois.
Os animais pasciam, e saltavam, por forma que uma das cervas foi pulando até o alcance da mão do homem. O arpão silvou, embebeu-se; um bramir de agonia, e o animal prostrou-se, enquanto o rebanho, espantado, desfilava pelo balsedo, deixando o alce imóvel, a devassar com os olhos a espessura da mata.
Um minuto depois, o grande veado aproximou-se da vitima, e escarvou nervosamente o solo, dominado, ao mesmo tempo, pelo desejo da vingança e o receio do desconhecido.
Entrementes, a soberba e comovida atitude da fera{83} impressionou Vamiré; por um movimento de irreflexão e fraqueza, o caçador saiu do esconso, de lança em riste.
O herbívoro hesitou, estirando a pupila oblonga pela melania do matagal. Mas o homem já recuava, e o instinto da fera viu nisso uma fraqueza. A súbitas, baixando a cabeça até o solo, atirou-se contra o bárbaro. Este viu-a aproximar-se, suspendeu-lhe das pontas o seu pesado manto; e, enquanto o cervo se desembaraçava do manto com um movimento formidável, o caçador cravou-lhe a lança entre as costelas, fazendo-a entrar até o coração.
O animal caiu, e Vamiré sentou-se, extenuado pelo esforço. A pouco trecho porém, levantou-se, acendeu lume, e assou uma posta de cerva.
Satisfeito o apetite, assaltou-o grande tristeza: faltava-lhe Élem. E, ausente, parecia-lhe mais preciosa ainda, com os seus olhos pretos e o seu ar, altivo e terno a um tempo. Lembrou-se das peripécias daquela luta, em que ela o não abandonara. O olhar dele procurou-a por entre as sebes, e Vamiré sentiu confranger-se-lhe o coração, intoleravelmente. Chamou-a pelo seu nome, e meditou, amargamente, nos meios de a reaver.
Hora de calma, silêncio nos bosques. O sol espelhava-se no rio, e coava-se, por pequenas elipses, através da folhagem das balsas. As ramarias repoisavam como grandes nuvens, e o espaço, velado pelas mais altas frondes, entremeadas de clarões esparsos, tinha perspectivas confusas, profundezas de abismos.
Repassado de dor e de solidão, a contemplação{84} destas coisas abalava todo o ser do troglodita, até o sofrimento. Ora sentia o desejo de dormir, ora o de trabalhar; perpassava na memória o dia em que ele, nas cavernas, esculpiu um bastão de comando, e isto lhe trouxe à ideia o alce e as novas armas.
Provido de um sílex serreado, pôs-se a trabalhar. À noite, havia já cortado as pontas da cabeça do alce.
Sentiu alguma febre então, porque o vaivém do braço lhe irritava o ferimento.
Descansando, e não podendo dormir, espicaçava-o o desejo de uma expedição, em procura de Élem. Meteu-se na barca e acompanhou a corrente.
A noite abrigava-o em manto de trevas. O rio parecia uma voz de segredo, baixa, murmurosa, de que apenas ressaía o rouco e triste coaxar dos batráquios. Nas superfícies, em que se alternavam as sombras e os reflexos, o voo do morcego perdia-se e reaparecia, incessantemente. A faixa de céu estrelado, dilatada para cima das árvores, cavava um abismo nas águas.
Com algumas remadas, Vamiré aproximou-se da margem, onde combatera com os orientais; depois, deixou-se ir ao grado da corrente, abaixando-se de maneira, que o barco pudesse parecer de longe um tronco de árvore.
Primeiro, atravessou solidões conhecidas, em que a fauna permanecia tranquila; depois, vagos indícios que poderiam sugerir receios. Por fim, avistou montões de pedras, que designavam túmulos; e, decorrida uma hora, o clarão de uma fogueira denunciou-lhe a vigília dos inimigos.{85}
Vamiré quedou-se observando, por muito tempo. Élem deveria estar deitada defronte do brasido. Fazia sentinela um guerreiro, que, de quando em quando, para não adormecer, erguia para o céu uma das mãos. A fogueira projectava este movimento numa sombra enorme para além do rio.
O Pzann apertava o seu arpão, calculava a eventualidade de um ataque, impelindo-o para a temeridade a sua febre e a sua fraqueza.
O rumor dos bosques crescia com o roçar da viração. A água iluminava-se de uma fosforescência pálida, de um fundo de halo, em que viviam ramagens longínquas, calhetas povoadas de caniços. O trabalho das nuvens alterava a cada momento a superfície das águas, lançando sobre elas um véu plúmbeo, uma luzinha trémula, ou um arroio de constelações.
Um drama conturbou a alma de Vamiré. Atrás do brasido, com os olhos fixos na fogueira, deixou-se ver Élem.
Ah! tornar a possui-la, levá-la consigo, como noutro tempo! Mas, com o esforço interior, reconheceu mal fechada a sua ferida, impotente o seu braço!
Contudo, alguns dias mais, e ele teria readquirido todas as suas energias. No entretanto, seguiria a pista, e escolheria a sua hora.
Depôs vagarosamente o arpão, empunhou o remo, e, antes de voltar à sua última paragem, deixou-se levar pela corrente à margem oposta. Dali, remou com prudência, lentamente ao princípio, e depois com progressiva velocidade.{86}
Decorrida uma hora, a barca vogava com dificuldade, se bem que Vamiré seguisse a ribanceira. Afora o impulso da corrente, tinha de lutar com as algas, em que se embaraçava a proa e que lhe sobrecarregavam o remo.
Estava quase resolvido a saltar para terra, quando o animou uma espécie de canal entre os caniços.
Impeliu para ali a barca e, durante alguns minutos, navegou com facilidade; mas, em seguida, cerrou-se o canal com longas plantas aquáticas.
Com a esperança de achar águas livres a pouca distância, o Pzann desviou o obstáculo, e entrou.
Salvo curtos intervalos, os pântanos cobertos de lentilhas, os caniços, as algas, os juncos, continuaram a travar-lhe o andamento, a ponto de que um extremo cansaço se apoderou do homem, e este teve de estender-se por algum tempo no fundo da sua piroga.
Ia adiantada a noite. O zénite empalidecia aos prenuncios da alvorada; e erguia-se da espessura o canto dos galos silvestres. O ligeiro rumorejar da folhagem, o chapinhar de uma lontra, o eterno murmúrio do rio, entremeado de notas claras, eram os únicos ruídos daquela solidão. As coisas pareciam emergir em bruma pardacenta, meio-transparente; apenas, da outra banda do rio, se avistava a orla negra da floresta, entre as águas e o céu.
Vamiré ergueu-se. Sentia extraordinário entorpecimento, que o convidava ao sono. Teve pressa de achar o fundeadoiro, e calculou a distância da margem. Pareceu-lhe considerável, até porque a vegetação aquática se tornava cada vez mais espessa.{87}
Chegou a pensar em desistir de fundear e adormecer na canoa; mas, a qualquer movimento, poderia voltar-se a embarcação, e o ferimento ainda não permitia o gesto largo do nadador.
Resignado, prosseguiu, ajudando-se com o remo, ensanguentando as mãos nas folhas cortantes dos caniços, empurrando a frágil embarcação, parando de espaço a espaço, fatigado, nervoso.
Rompia a manhã, e tudo pareceu pálido ao homem extenuado: as águas, o céu, a floresta. O grande rio saía de um horizonte de cinza, e em cinza se alongava ainda.
A ribanceira enfim! Vamiré desembarcava. Desviando as hastes mais altas, avistou uma pantera em briga com um mamute, ainda novo. O pequeno herbívoro, coitado, debalde tentava desviar com a tromba o seu adversário. Avistava-se ao longe a corrida impetuosa da fêmea, em socorro da sua progénie; e o grito do macho entre os caniçais anunciava que se dirigia a nado para a margem. Mas a pantera, de um salto, ficou sobre o dorso do pequeno elefante; já penetrava com as garras o espesso coiro, e dirigia os dentes para o ventre da presa, quando interveio o compassivo nómada. Soltou um grito de guerra, arremessou o arpão e caminhou para o felino.
O arpão fizera apenas sangue na pele mosqueada. A pantera recuou, rugindo, quando surgiu a cabeça enorme do mamute macho. Quase ao mesmo tempo, apareceu a fêmea.
Então a pantera refugiou-se na selva, e os enormes{88} proboscidios, pendulando as suas trombas, afastaram-se.
Vamiré viu-os desaparecer ao longe, radiante de alegria e ufano da sua coragem. Depois, tomou a piroga aos ombros, internou-se na mata, e empregou as suas últimas forças em apanhar alguns ramos, para consolidar o seu abrigo sob a piroga.