Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos

J.-H. Rosny aîné · Capítulo 19 de 24

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Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos

XVIII Os vermívoros

Era mister entretanto precaução contra a extraordinária ameaça, e segurança contra o perigo de ser esmagado pela cega corrida de herbívoros, que prosseguia nas trevas.

Vamiré avistou, a meio do rio, uma ilhota, em que cresciam freixos. Dirigiu para lá a embarcação, e acendeu pequenas fogueiras, pondo-se assim a salvo de ataque directo e em posição excelente para observar tudo.

Depois da refeição, nem ele nem a companheira pensaram em dormir.

Rio abaixo e rio acima, findara a corrida dos animais. Uns aventuravam-se contra a corrente, outros seguiam-na; e este curioso movimento tinha a singularidade{131} curiosa de se efectuar nas duas direcções, em sentido inverso, como se os animais que seguiam para cima e os que seguiam para baixo procurassem fugir da zona florestal, que terminava quase em frente da ilhota.{132}{133}

 

XVIII

Os vermívoros

Os comedores de vermes marchavam na direcção do grande-lago. Ainda que tristes em geral, à sua exploração não era estranha uma certa satisfação no inicio das paragens. Espalhavam-se então, e, como a colheita da manhã era individual, tinham exclamações a cada bom achado, e mostravam puerilmente o que colhiam, túbaras, caracóis, raízes doces de umbelíferas, frutos agridoces...

Sob os longos e negros topetes, com a sua cara proeminente, a disposição daqueles topetes sobre o rosto tornava-os mais parecidos a qualquer cão do que a um antropóide. Os seus braços curtos, o seu peito em quilha, o indeciso ganido do seu rir, completavam a semelhança.

Demais, entre as tribos braquicéfalas corria a lenda, de que tinha existido ou devia existir no extremo Oriente uma raça de homem-cão, aniquilada a pouco e pouco pelos verdadeiros homens, pelos filhos do animal,{134} das águas, únicos e legítimos possuidores da Estepe e da Floresta, do Rio e dos Grandes-Lagos.

E assim, ou folgando entre os vastos arvoredos, ou perseguindo-se através dos matagais, de ventre em forma de odre cheio, de dorso curvo, marchando muitas vezes a quatro patas, conservavam a instintiva orientação que guia os animais emigradores.

A linguagem, reduzida a alguns sons, exprimia o medo, a alegria, a fome, a sede. Quanto ao mais, serviam-se da mímica animal, e ainda da comunicação oculta, da transmissão simpática do terror ou da ira.

Os velhos, sem ferocidade, eram os guias. Dois deles comandavam uma vanguarda de batedores; outro, o mais velho, fechava a marcha. Quando atravessavam os fojos das grandes feras, os chefes, com um grito agudo, reuniam a coorte; e, então de clava pronta, não se pode imaginar que solidariedade corajosa os impelia a investir sem temor contra o urso ou o leopardo.

Depois do meio-dia, reuniam as provisões comuns, as que serviam para o repasto da noite, antes de adormecer. Cada um ali depunha a sua colheita individual, sem lhe tocar com os dentes.

Feita a divisão, junto de um regato ou de uma fonte, comiam e bebiam sobriamente, e todos adormeciam, fatigados do seu trabalho diário, com sonhos tão vagos, como os do leão ou do lobo, que rosnam dormindo.

Marchavam. A floresta húmida espalhava sobre eles a sua sombra. Graves e pueris, a sua atenção desviava-se constantemente, acendia-se o seu pobre riso e apagava-se, como os fogos que flutuam nos pântanos; e{135} a sua vida expandia-se em ligeiras comoções, em esboços de ideias, em artifícios de quem amamenta um aborto, em lineamentos de memória e previsão. Lavasse-lhes a chuva os crânios duros, açoitasse-lhes o vento as nucas com varas de frio, fizessem-lhes os espinhos sangrar os pés, perfurassem-lhes a epiderme milhares de parasitas, eles tudo aceitavam. Acumulava-se-lhes no cérebro uma herança inteira de resignação.

Depois que o homem de braços longos chegou através dos tempos, tinham deixado de progredir: conservavam-se. Nada mais havia para eles. A terra imensa desprezava-os; e, entrementes, a vida esgotava-lhes os meios, endurecendo-lhes a epiderme, erguendo-lhes velos no peito, e estendendo-lhes refegos de gordura à volta dos quadris.

Mas o circulo das raças rivais ia-se-lhes sempre fechando adiante, e o pobre homem antigo tinha de durar menos que as feras carniceiras, porque estava desarmado pela longa crise de transição, em que as forças musculares se reduzem e se transformam, na luta contra as adaptações que o cérebro realiza no mundo exterior.

Na penumbra dos arvoredos, tinham companheiros de êxodo, aos quais se haviam desacostumado de fazer mal: numerosos bandos de gamos e chacais, dirigindo-se para o Sul, ou o tugir dos roedores, que se encaminhavam para o Poente. Saudavam com um longo clamor o pacifico barrito do elefante oriental, o buzinar dos pequenos cavalos de boca papuda, cujas hordas militares cruzavam as suas.{136}

Na noite do segundo dia da sua viagem, o chefe dormia na sua choupana de ramos, a fogueira nocturna ia-se apagando, e os tardígrados, acocorados, encolhiam-se com o frio, quando o grito do vigia pôs todos a pé.

A palavra, que significava o leão, trocou-se entre eles, e um grande terror lhes fez bater os queixos. O chefe agrupou os mais corajosos, e todos se reuniram, de clava erguida.

O pavoroso vulto do leão entrou no âmbito, frouxamente iluminado pela fogueira que se extinguia, e estacou, por um minuto, diante dos clamores belicosos dos homens.

Mas, ou porque tivesse escasseado a caça, ou porque preferisse a carne dos primatas à dos outros animais, abaixou-se, arremessou-se com um salto prodigioso, e caiu sobre a horda. Esta havia recuado, abrindo espaço, segundo uma táctica milenária, e mais de cinquenta clavas desceram sobre o crânio, sobre o focinho, sobre os olhos, sobre o espinhaço da fera.

O leão defendeu-se, levantou-se, e com três lances de garras prostrou quatro adversários. Os outros, estimulados à luta, tornaram-se mais audaciosos, atacaram o focinho ensanguentado; e o hércules do grupo, com uma pancada, partiu uma das pernas dianteiras do animal, ao passo que mais dez pancadas paralisavam as pernas traseiras.

Vencido, o leão procurou fugir, mas os vermívoros, tornando-se ferozes, não lho consentiram. Arrojaram-se todos contra ele; e, enquanto uns o seguravam, procuravam{137} outros estrangulá-lo. Não o conseguiram logo, e receberam golpes terríveis; mas, afinal, tendo o chefe enterrado a clava na goela aberta, o leão entrou de estertorar; e então, ferozes e vingativos, todos acabaram com ele.

Viu-se que dois companheiros expiravam e cinco estavam gravemente feridos. Os mortos, longamente pranteados, foram depositados no fetal, e os feridos foram desveladamente tratados. De manhã, quando prosseguiram na marcha, os mais feridos foram levados em braços.

Os tardígrados, não obstante as suas perdas, ufanavam-se de, mais uma vez, haver dado lição severa ao seu temível antagonista, e erguiam galhardamente a clava, mutuando gestos de triunfo e confiança.

A floresta agora parecia-lhes melhor. Os seus pés descalços pulavam ligeiros pelo caminho, a sua estatura aprumava-se quase, e os seus pobres olhos de deserdados pareciam brilhar.

É certo que, perante a simples possibilidade da vitória, uma expansão de seiva lhes teria dilatado o crânio; mas as vitórias restringiam-se ao animal: como uma pressão material, como uma ligadura das artérias, como uma degenerescência dos pulmões, o medo dos braquicéfalos acanhava-os, imobilizava-os; aniquilava-os, até de longe. E, assim, o circulo das suas ideias era tão limitado como o da sua vivenda, ou porque não ousavam pensar no que não podiam realizar, ou porque não podiam pensar no que não tinham realizado.

Desde a fresca alvorada até um terço da manhã,{138} não houve incidente na marcha. No agradável arvoredo, só havia animais inocentes. O sol tornava tépido o humo das clareiras, e os seus raios penetravam na espessura. A tal ponto a vida se expandia, que eles se puseram a cantar.

Por volta do meio-dia, a vanguarda de quinze homens recuou vivamente.

Achavam-se num azinhal interminável. Todos se alimentavam de trufas. Abundavam os javalis, fugindo adiante dos emigradores; e, por cima das trufeiras, esvoaçavam legiões de moscas gulosas.

Marchando, parando para escavar, a vanguarda avistara uma fêmea de antropóides.

Era raro que os antropóides atacassem os vermívoros, sobretudo quando estes não levavam mulheres no seu bando; pelo contrário, uma espécie de confraternidade animava o grande macaco, e os tardígrados já nele tinham tido um precioso auxiliar contra o urso e os felinos.

Formou-se conselho, e resolveu-se destacar um pequeno grupo, que fosse assegurar as suas pacificas intenções ao homem das árvores.

Aquele grupo, devidamente vigiado, atraiu a atenção dos antropóides, com gritos de alegria e sinais de benevolência.

Surpreendidos a principio, os antropóides pareceram logo reconhecer aliados, e assim o mostraram, gesticulando com gravidade, e avançando lentamente.

Minutos depois, estavam reunidas as duas hordas. Os vermívoros ofereceram aos antropóides uma refeição{139} de túbaras, pevides e folhas tenras. Os homens das árvores aceitaram estas coisas com prazer, porque o seu regime alimentício era idêntico ao dos tardígrados.

As duas raças deserdadas ficaram depois em silencio, por muito tempo. A sua natureza parecia comportar um fundo comum de melancolia; e a melancolia do grande macaco parecia mais pesada que a do tardígrado, como se fosse proporcional ao vigor dos músculos e à largura do peito. De maneira que o homem foi o primeiro a rir, a brincar, enquanto o macaco permanecia grave e meditabundo. Mas um deles pareceu impressionar-se com uma recordação longínqua, despertada pela analogia das circunstâncias. Entrou em laboriosas explicações. Os tardígrados, inclinados, escutavam-no, sem chegar a compreendê-lo; mas a recordação pareceu germinar noutros antropóides, que se juntaram ao primeiro; a confusão porém era cada vez maior, até que um deles se lembrou de apanhar uns ramos secos e indicar o movimento de uma chama.

Os vermívoros viram então que os antropóides se referiam ao lume; e, cheio de orgulho, o chefe tirou de dois pedaços de pau seco o fogo necessário.

Quando se fez a chama e se difundiram as línguas amarelas, entre volutas azuladas, os homens das árvores ficaram, por um momento, receosos e assombrados, enquanto os tardígrados riam de boa vontade.

Era a comunhão dulcíssima de parias nas fronteiras da animalidade; um prazer reciproco em se compreenderem; e como que uma curiosidade do Espírito das{140} coisas em conhecer os progressos por ele realizados na disposição da matéria.

Separaram-se como amigos,—os tardígrados avançando para o Oriente, os antropóides dirigindo-se para o Sul,—depois da troca de presentes: o homem deu clavas ao macaco; e o macaco deu ao homem ovos tirados dos mais altos ninhos.

E havia apenas três horas que a separação se dera, quando os vermívoros viram os primeiros sintomas da fuga dos animais, que ao depois tanto inquietou Vamiré. Primeiro, viam-se os hóspedes vulgares daquela região, élafos, javalis, e por isso não se impressionaram muito os tardígrados; mas horas depois, avistavam-se, como companheiros de êxodo, os gamos, refluindo em bandos consideráveis.

E então os vermívoros, tomados igualmente de pânico, retrocederam também.{141}