Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos

J.-H. Rosny aîné · Capítulo 21 de 24

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Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos

XX Assalto à ilhota

XX

 

Assalto à ilhota

 

Prolongaram-se as tréguas.

Os orientais recuaram a sua fogueira para o abrigo do matagal. Os cães estavam invisíveis, mas os seus uivos trovejavam na espessura.

Os comedores de vermes recaíam no sono, à parte alguns velhos mais resistentes.

Vamiré fortificava o retiro de Élem com grossas ramadas e preparava as suas armas. O fumo das fogueiras flutuava sobre a água, entre clarões purpúreos.

Não se ouviu mais uma palavra de paz. Parecia que de ambos os lados se faziam preparativos para uma luta próxima.

Vamiré trabalhava e velava.

De uma vez, pareceu-lhe avistar um oriental que, a pouca distância da água, se erguia, desaparecendo depois no mato. De outra vez, um bando de cães veio beber ao rio; mas nada anunciava uma investida. Julgou{152} portanto que o chefe oriental aguardaria a manhã, e recomeçaria as negociações.

Acabava de depor a seu lado a décima segunda frecha, untada de veneno, quando notou um rápido movimento e o formigar de muitos vultos na margem.

—Eô! Eô!—gritou ele, enquanto os tardígrados arrancavam do sono os companheiros.

Lá adiante, impetuosos, os cães mergulhavam e nadavam, aos milhares, de olhos fosforescentes em suas cabeças húmidas e luzidias, fazendo, com a sua imersão, erguer o nível das águas nas costas da ilhota. Silenciosos e terríveis, nadavam intrepidamente, sob a saraivada de pedras, ossos e achas, com que eram acolhidos.

Vamiré, verificando que entre eles não havia nenhum homem, depôs o arco e empunhou a clava.

Élem, armada de uma lança, poderia defender o seu abrigo.

Os tardígrados, animados pelo Pzann, mostravam-se enérgicos, postados em pequenos grupos, de costas para o centro, com espaço livre para manejarem os seus bastões.

Antes que tocassem terra, os cães foram atacados tão vigorosamente, que recuaram para fora de alcance. Mas de pronto se dividiram em duas fortes colunas, uma das quais singrou para o ponto mal fortificado da ilha, defendido por Vamiré, enquanto a outra retomava directamente a ofensiva.

A precipitação dos tardígrados em auxiliar o seu salvador poderia tornar eficaz aquela táctica dos agressores.{153} Mas Vamiré repeliu energicamente o reforço, e obrigou cada um a reocupar o seu posto.

Apenas a coluna, contra ele dirigida, tocou em terra, a carnificina do Pzann espalhou nela o terror.

A sua alta corporatura, a sua clava enorme, a sua formidável destreza em despedaçar crânios, a agilidade dos seus movimentos, a sua voz autoritária, soberbamente humana, tudo isto pareceu produzir nos animais uma impressão como que supersticiosa.

Cheios de pânico, latindo desordenados, foram recuando.

Entrementes, a segunda coluna conseguira invadir a ilhota, sem desconcertar todavia a táctica dos comedores de vermes, sempre reunidos em grupos, e defendendo-se sem desanimo.

Do lado dos cães, as perdas eram consideráveis, e os tardígrados contavam uma vintena dos seus, postos fora de combate.

O animal sentia-se vencido, quando algumas frechas ervadas, partindo da margem, fizeram duas vítimas. Produziu isso um certo terror, e os grupos da costa aproximaram-se do centro. Os cães redobraram o seu furor, e, a pouco trecho, era terrível o número dos feridos humanos.

No entretanto Vamiré, depois da sua vitória, notara que os asiáticos despediam frechas, quase a descoberto, de trás dos arbustos. Por seu turno, tendido o arco, despediu algumas frechas.

Os orientais tiveram que se retirar para trás de grandes troncos, de onde os seus tiros eram muito incertos;{154} e contentavam-se em açular os seus aliados quadrúpedes, os quais, respondendo-lhes com latidos formidáveis, assaltaram com mais vigor os seus adversários. A situação agravava-se, tanto mais que a coluna, repelida por Vamiré, tinha entrado pela outra extremidade da ilhota, levando reforço.

O pobre tardígrado viu-se perdido, e o seu grito de guerra tornou-se plangente como um gemido de agonia.

Mas o grande nómada do Ocidente levava-lhe já o auxílio do seu braço, e a sua clava abria caminho por entre crânios e espinhaços despedaçados. De todos os lados, o animal, inquieto, aterrorizado, reconhecia naquela voz e naquela força a força e a voz das raças vitoriosas, por forma que os tardígrados retomavam coragem, e os cães, repelidos para a água, voltavam ao campo dos asiáticos.

Uma ebriedade de vitória inflamava os olhos dos comedores de vermes. Voltando-se para o homem loiro, cantaram a melopeia do triunfo, a que Vamiré correspondeu com um belicoso clamor.

Na outra margem, à beira das florestas seculares, resoava o latir furioso dos cães e as maldições dos homens do Oriente.

Decorreu a noite naquele tumultuar terrível, repercutido pelos ecos, e em que os dois bandos inimigos exaltavam o seu valor não vencido e prenuncio de novos combates.

Os tardígrados trataram acuradamente dos seus feridos, e, para maior segurança, foram colocá-los perto{155} do sitio, em que Vamiré acampava com Élem. Dos cães, postos fora de combate, desembaraçaram-se os tardígrados, lançando-os à água, em que alguns acabavam de morrer, ao passo que outros, ao grado da corrente, chegavam à outra margem.

Vamiré fora ter com a sua companheira. Cheia ainda do desgosto que lhe causavam os comedores de vermes, Élem permanecera no seu abrigo, sem necessidade de se defender.

Vamiré falava-lhe da vitória, do número das vitimas, da ferocidade dos assaltantes, da probabilidade de novos recontros; e ela escutava-o, pensativa e triste por aquele incidente, fazendo votos pelo advento de uma paz imediata.

Manifestava a esperança de que as negociações se retomariam de madrugada, e o nómada aprovava, mas esquivava-se a quaisquer concessões, relativamente aos tardígrados.

Fatigada, Élem adormeceu por fim. A maior parte dos vermívoros também dormia. Vamiré velava sempre.{156}{157}