Vamiré: Romance dos Tempos Primitivos
XXII O incêndio
O chefe não respondeu, e continuou a recuar, sempre de zagaia apontada, até que viu erguer-se o seu companheiro. Fugiu então. Mas o Pzann desatou a correr,{164} alcançou os orientais, obrigou-os a voltar à ribanceira, arremessou o mais novo ao rio, tirou a zagaia ao velho e obrigou-o também a deitar-se a nado.
Com o afastamento dos homens, os cães latiram amarguradamente. A desordem estendeu-se às matilhas distantes, Vamiré interveio, soltando clamores de vitória. Animados, os tardígrados tomaram a ofensiva; as matilhas recuaram desordenadas, e depois desbaratadas.
O Pzann e os seus aliados ficavam senhores da ilhota.
Morrera um milhar de cães, e os asiáticos eram apenas dois!{165}
XXII
O incêndio
Ardia a ilhota.
O vento impelia as labaredas, por forma que era perigoso acampar no pontal, onde se achava o abrigo de Élem.
Tinham-se apinhado ali os tardígrados, e ali curavam dos seus doentes.
A rapariga, comovida pela coragem daquela pobre gente e pelos serviços que tinham prestado a Vamiré, sopeara a sua repugnância, e ajudava a tratar os feridos.
Naquelas tristes fisionomias, acabrunhadas de fadiga, perpassava uma expressão de alegria, como o ondear de um tanque, ao verem passar Vamiré ou a sua companheira.
Muitos tinham adormecido, na sua posição habitual, e, através do pesado sono, faziam reviver o pesadelo da peleja; soltavam gritos, rosnavam, erguiam de entre os braços o rosto frenético, estendiam a grossa maxila.{166}
Vamiré encontrara o oriental cativo. Depois de perseverantes mas inúteis esforços para partir os seus liames, o desgraçado, rebolando, chegara à beira do rio, na intenção de se deitar à água, e chegar à outra margem. Fê-lo hesitar porém a violência da corrente e quis ao menos partir as correias que lhe ligavam as pernas, mas não pôde realizar esse intento, antes da chegada do Pzann.
As labaredas subiam, penetrando as trevas. O voo das aves, que se aninhavam nas elevadas cimas do arvoredo, cruzava os clarões; as estrelas desapareciam atrás das volutas da fumarada, claras na base, esbranquiçadas depois, sombreadas como nuvens, esburacadas de perspectivas, profundas como abismos.
Sob a acção do vento, aquilo seguia um rumo, alongava-se em grandes nós ondulados, abaixava-se, palpitava como coisas vivas, e, nas fases de extinção, produzia o terrível aspecto da queda de grandes rochedos, de uma espessa chuva de cinza, de uma sólida condensação das trevas.
Dardejantes, as línguas de fogo ressurgiam purpureadas, ufanas de vencer. Nas suas contorções, levavam a crepitação das fibras secas, as explosões das seivas aquecidas, e, da sua cumeada, deixavam cair centelhas abundantes, um tanto frouxas, como pequenas gotas de saliva, como orvalho de uma cólera que se esvai comprimida.
No espelho das águas, tudo se conjugava: as labaredas simétricas e ondeadas, as nuvens de fumo, e as faúlhas fictícias, associando-se à queda das faúlhas reais.{167}
Quando a rápida fúria dos gases em ignição abandonava um moitedo, levando consigo os finos estofos do vapor, a ramaria esboçava as folhas de um livro mágico, animadas de estranhos hálitos, franzindo-se a qualquer bafejo da viração, e como atravessadas por ondulações, ora luminosas, ora obscuras.
Nas espessuras mais densas, o incêndio alimentava-se, rasteiro, lento, carregado, por baixo de frocos de fumo húmido; depois, crepitava, rompia, arrojava-se, mordia as pequenas franças, as folhas correadas, flamejava sobre as ervas secas, lambia demoradamente as grandes árvores, e, inopinadamente, difundia-se em feixes desacordes, última expansão das suas forças.
Do seu acampamento, atrás das moitas, os asiáticos viam arder a ilhota.
A sua situação não era lisonjeira. Debalde procuraram levar os cães a terceiro assalto. Estavam sem armas, à excepção das do ferido, as quais cumpria reservar para defesa extrema.
Demais, inquietos quanto ao destino do companheiro desaparecido, e na perspectiva de se verem abandonados pelos cães, os mais novos julgavam próximo o seu aniquilamento, e lastimavam o não se haverem confiado à prudência do chefe. Este, fatalista, cheio de resignação, não dizia nada, inclinado para a fogueira, de semblante anuviado de tristezas.
Os outros falaram-lhe humildemente sobre o seu desbarato e sobre a necessidade de acordo com o inimigo.
O velho ouviu-os, guardou silêncio por muito tempo, e depois falou:{168}
—Rapazes, o bom conselho, transmitido de pais a filhos, manda que se proponha a paz no princípio da guerra, enquanto as hostes são vigorosas e os destinos incertos, não podendo a proposta significar humilhação; mas ensina que na hora da derrota, é preciso morrer, para que não caiam sobre o vencido os sarcasmos do vencedor. Na hora da paz, queríeis vós a guerra, na hora da guerra quereis a paz. Possível é que o nosso inimigo, em que tudo revela tino e coragem, prefira a certeza de uma conciliação aos acasos de um combate final. Talvez o incêndio o force a abandonar a ilha, e, se ele entender que deve falar, falará. Aliás, cumpre que nos preparemos para a vitória, para a morte ou para a fuga.—
A aurora tingia de lilás pálido o oriente. O incêndio, mais intenso e como receoso de que o dia lhe atenuasse os esplendores, saltava aos píncaros do arvoredo em labaredas mais altas, mugia como um rebanho de búfalos atacados por feras, ou crepitava, seco e cruel, em pequenos estalidos, em pequenos gritos, como bandos ruidosos de gafanhotos destruidores das gramíneas, como legiões ácidas de formigas em marcha contra os casais. Os seus claros hélices de réptil cingiam os grandes troncos, e atingiam as folhas, encarquilhadas desde logo, devoradas depois, e que se baloiçavam chamejantes à brisa matinal, como borboletas de luz, como enxames de vespas em desordem.
O calor era enorme. Inquietos e sonolentos, os tardígrados iam recuando sempre para a extrema ponta da ilha.{169}
Vamiré, pensativo, contemplava o incêndio. Tinha em lugar seguro a canoa e as armas. Élem dormia no seu abrigo. O saguim, despertando ao ruído e à claridade, agarrava-se às ramarias.
Entrementes, com o destroço dos grandes ramos, lambidos pelo incêndio, as labaredas avultavam mais, descrevendo estreitas curvas, que se avivavam caindo, e que, no ar, pareciam leves e vaporosas, mas que, ao tocar no solo, crepitavam asperamente, jorrando cóleras de centelhas.
O Pzann desligara os pés do oriental e interrompera o sono de Élem, para que esta lhe servisse de interprete:
—Pergunta a teu irmão,—disse-lhe ele,—se não julga que chegou a hora de se fazer paz.
—A morte,—disse o asiático,—não me assustaria.
—Sei que és valente,—disse Vamiré;—mas não é um fraco aquele que se salva, salvando seus irmãos.
—Os meus não foram vencidos!
—Não,—disse o Pzann,—mas são apenas dois, e os cães aprenderam a temer-nos.—
Seguiu-se longa pausa, durante a qual o asiático meditava.
A alvorada subira um grau.
A cor do lilás passara à da turquesa e uma semiclaridade aquosa se estendia por todo o horizonte do rio; e, nesse horizonte, as árvores, o céu, as ribanceiras acusavam uma frescura extrema, em confronto com a vibrante sequidão do incêndio.{170}
O Pzann sentiu desejos de prosseguir na sua viagem pela face verde das águas, de continuar a subir o grande rio, e a ver as suas florestas, as largas desembocaduras de ribeiras, as suas penedias, ouvir o rugido das cascatas, o leve rumor das pequenas quedas de água, observar a correnteza dos rápidos, a sombra dos pequenos canais povoados de mouchões, a claridade dos extensos álveos...
No entretanto, as chamas completavam o seu assamento feroz, palidejando com a luz nascente, agitadas em línguas monstruosas, ou disseminadas em delicados tecidos, aderentes às retículas dos pequenos ramos.
Ao longe, no esconso das florestas, ouvia-se o ladrido dos cães em caça, o que arrancou o oriental à sua meditação. Viu que Vamiré percebera a ausência dos cães e a facilidade de um acto de força no campo inimigo.
—Que queres tu de mim?—perguntou ele ao Pzann.
—Que fales a teus irmãos—respondeu este.
O oriental ergueu-se, e, acompanhado de Vamiré e Élem, caminhou até a beira da ilha, e soltou a voz de chamamento, conhecida das tribos:
—Ré-á, ré-á!—
O chefe braquicéfalo saiu então do mato, acompanhado pelo moço válido:
—O nosso irmão está cativo do homem das regiões desconhecidas?
—Está cativo.
—Vem pedir-nos auxilio ou vingança?{171}
—Não; o homem do montante do rio pede paz.
—Desligue ele pois as tuas mãos, porque é justo que fales dessas coisas como homem livre.—
O oriental transmitiu a Vamiré o desejo do velho.