Via Láctea

Olavo Bilac · Capítulo 14 de 19

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Via Láctea

Capítulo XXVI

Mergulhavas ansioso e descontente,

E, quando à tona vinhas de repente,

Cheias as m ãos de pérolas trazias;

Tu, que do am or e pelo am or vivias,

E que, com o de lím pida nascente,

Dos lábios e dos olhos a torrente

Dos versos e das lágrim as vertias;

Mestre querido! viverás, enquanto

Houver quem pulse o m ágico instrum ento,

E preze a língua que prezavas tanto:

E enquanto houver num canto do universo

Quem am e e sofra, e am or e sofrim ento

Saiba, chorando, traduzir no verso.

 

XXVI

 

Quando cantas, m inh’alm a desprezando

O invólucro do corpo, ascende às belas

Altar esferas de ouro, e, acim a delas,

Ouve arcanj os as cítaras pulsando.

Corre os países longes, que revelas

Ao som divino do teu canto: e, quando

Baixas a voz, ela tam bém , chorando,

Desce, entre os claros grupo das estrelas.

E expira a tua voz. Do paraíso,

A que subira ouvindo-te , caído,

Fico a fitar-te pálido, indeciso...

E enquanto cism as, sorridente e casta,

A teus pés, com o um pássaro ferido,

Toda a m inh’alm a trêm ula se arrasta...