Via Láctea
Capítulo XXVI
Mergulhavas ansioso e descontente,
E, quando à tona vinhas de repente,
Cheias as m ãos de pérolas trazias;
Tu, que do am or e pelo am or vivias,
E que, com o de lím pida nascente,
Dos lábios e dos olhos a torrente
Dos versos e das lágrim as vertias;
Mestre querido! viverás, enquanto
Houver quem pulse o m ágico instrum ento,
E preze a língua que prezavas tanto:
E enquanto houver num canto do universo
Quem am e e sofra, e am or e sofrim ento
Saiba, chorando, traduzir no verso.
XXVI
Quando cantas, m inh’alm a desprezando
O invólucro do corpo, ascende às belas
Altar esferas de ouro, e, acim a delas,
Ouve arcanj os as cítaras pulsando.
Corre os países longes, que revelas
Ao som divino do teu canto: e, quando
Baixas a voz, ela tam bém , chorando,
Desce, entre os claros grupo das estrelas.
E expira a tua voz. Do paraíso,
A que subira ouvindo-te , caído,
Fico a fitar-te pálido, indeciso...
E enquanto cism as, sorridente e casta,
A teus pés, com o um pássaro ferido,
Toda a m inh’alm a trêm ula se arrasta...