Via Láctea
Capítulo XXIX
- Tristeza singular, estranha m ágoa
De que vej o coberta a natureza,
Porque a vej o com os olhos rasos d’água.
XXIX
Por tanto tem po, desvairado e aflito,
Fitei naquela noite o firm am ento,
Que ainda hoj e m esm o, quando acaso o fito,
Tudo aquilo m e vem ao pensam ento.
Saí, no peito o derradeiro grito
Calcando a custo, sem chorar, violento...
E o céu fulgia plácido e infinito,
E havia um choro no rum or do vento...
Piedoso céu, que a m inha dor sentiste!
A áurea esfera da lua o ocaso entrava,
Rom pendo as leves nuvens transparentes;
E sobre m im , silenciosa e triste,
A via-láctea se desenrolava
Com o um j orro de lágrim as ardentes.
XXX
Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar m e vej o,
Não basta o afeto sim ples e sagrado
Com que das desventuras m e protej o.
Não m e basta saber que sou am ado,
Nem só desej o o teu am or: desej o
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beij o.