Via Láctea
Capítulo XIV
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, m uita vez desperto
E abro as j anelas, pálido de espanto...
E conversam os toda a noite, enquanto
A via-láctea, com o um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado am igo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem , quando estão contigo?”
E eu vos direi:”Am ai para entende-las!
Pois só quem am a pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.
XIV
Viver não pude sem que o fel provasse
Desse outro am or que nos perverte e engana:
Porque hom em sou, e hom em não há que passe
Virgem de todo pela vida hum ana.
Por que tanta serpente atra e profana
Dentro d’alm a deixei que se aninhasse?
Por que, abrasado de um a sede insana,
A im puros lábios entreguei a face?
Depois dos lábios sôfregos e ardentes,
Senti – duro castigo aos m eus desej os –
O gum e fino de perversos dentes...
E não posso das faces poluídas
Apagar os vestígios desses beij os
E os sangrentos sinais dessas feridas!