Vozes indígenas na saúde: trajetórias, memórias e protagonismos

Ana Lúcia de Moura Pontes, Vanessa Hacon, Luiz Eloy Terena e Ricardo Ventura Santos (orgs.) · Capítulo 8 de 17

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Vozes indígenas na saúde: trajetórias, memórias e protagonismos

Valorizar o saber indígena

 

Ivani Gomes Pankararu

 

Me chamo Ivani, sou da etnia Pankararu. Comecei a trabalhar

com a saúde indígena nos anos 1980, em Recife, com 19 anos. Naquela época, não tínhamos os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), ainda era a Fundação Nacional do Índio (Funai) que fazia a assistência. Eu comecei a vir de Pankararu para Recife por causa de uma cirurgia que tive que fazer. Ficava nas casas de apoio (hoje as Casas de Apoio à Saúde do Índio, Casais) e não havia quem acompanhasse as pessoas para ir aos hospitais. As Equipes Volantes de Saúde só passavam pelas aldeias, identificavam situações e encaminhavam a gente para Recife.

 

Por eu permanecer muito tempo na capital, comecei a ir para os

hospitais e acabei ajudando a cuidar dos pacientes. Eu não sabia de nada, mas fui aprendendo e ficando. Depois disso, eu fiz um curso de auxiliar de laboratório no Hospital das Clínicas e, logo em seguida, conheci o meu marido, que trabalhava na Funai – na época ele era motorista. Fomos para o Maranhão, onde eu engravidei da minha filha mais velha, e ele foi chefiar o posto Angico Torto, nos Guajajara. Lá ficamos em 1985, 1986, e de 1987 para 1988 retornamos para Recife. Naquela época, o sistema da Fundação Nacional do Índio (Funai) fazia a parte curativa e a então Fundação Nacional de Saúde (FNS), atual Funasa, fazia a parte de prevenção, incluindo as vacinas. E eu fazia tudo na Funai. Brinco que sempre trabalhei na Funai e nunca recebi, mas cuidava de tudo isso: da saúde à radiofonia.

Depois que voltamos para Recife, em 1988, meu marido foi

trabalhar em Paulo Afonso, na Bahia. Naquela época, quem era atuante politicamente era o meu pai. Meu avô, Joaquim Serafim, que já estava bem velhinho, era o pajé da aldeia e viajava muito para Brasília, e quem dava muito apoio era o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Quando o meu avô não conseguiu mais ir para Brasília, meu pai começou a fazer essas viagens. Ele sempre foi uma pessoa muito atuante, em busca de direitos, porque sabia que a gente não tinha nada. Me recordo que a única coisa que chegava mesmo na aldeia era a Equipe Volante de Saúde e alguns guardas que passavam e davam remédio (não sei se já era a época da Superintendência de Campanhas de Saúde Pública). Eu ouvia meu pai falar muito das dificuldades, de não termos acesso à saúde.

Quando voltamos do Maranhão para Recife, eu, que tinha parado

de estudar, voltei a Jatobá, município de Pernambuco, e terminei o segundo grau técnico em contabilidade. Mas estava sempre dentro da comunidade e participava das reuniões que havia na Funai. Eu digo que a Funai ajudou e atrapalhou muito, porque não existia um pensamento coletivo, era aquilo de quem gritava mais forte. Então, algumas aldeias tinham mais, outras menos. Sempre se observava uma certa rivalidade entre as comunidades. Nessa época, meu pai buscava a demarcação das terras indígenas de Pankararu junto com outros povos. Inclusive, hoje Pankararu e Entre Serras são dois territórios. Eu diria que a culpa disso é do governo e de uma fraqueza dos meus parentes. Se não tivessem aceitado essa divisão, talvez não estivéssemos com tantos problemas hoje.

Meu marido foi convidado pelo Seu Dinarte, da Funai, para ir a

Roraima retirar garimpeiros da área Yanomami. Na época, finalzinho de 1990, estava acontecendo uma invasão muito grande. Ele foi para lá e, depois de três meses, mandou me buscar. Acho que fui a primeira mulher a ir morar com o marido na área Yanomami, e foi muito bom. Eu não diria que foram os melhores anos da minha vida, mas foram os melhores em termos de aprendizado. Ali o que importava não eram as nossas necessidades; eram as necessidades deles, que, muitas vezes, a gente não entende. Hoje já existe a lei, mas ainda não se consegue enxergar as diferenças. As pessoas ainda acham que tudo tem que ser feito de acordo com a política do Sistema Único de Saúde (SUS). Concordamos que somos cidadãos brasileiros, mas temos as nossas particularidades. Entre os gestores, inclusive no próprio controle social, a tomada de decisão por vezes não reflete a realidade de todo mundo.

Quando chegamos nos Yanomami, a retirada dos garimpeiros foi

traumática para nós, que não vivenciávamos aquilo. Eu nunca tive malária na minha vida, mas, na época, cuidei de 140 pacientes em um mês. Percebíamos que não havia assistência. Naquele tempo, a Funai ainda fazia todo esse trabalho, junto com a FNS. Quando chegamos, tinha muita gente morrendo e para eles era como se nós fôssemos levar a salvação. Quando entrei, um pouco antes do contrato do DSEI Yanomami, eu era técnica de contabilidade e auxiliar de laboratório. Só que, como auxiliar de laboratório, me faltava o curso de microscopia (no Nordeste não havia malária). Então a Dra. Ivone Menegolla, do Rio Grande do Sul, me convidou, eu fiz o curso na FNS/Funasa e fui trabalhar como microscopista.

Naquele tempo, logo no início, não havia equipe, mas já havia um

trabalho dos Médicos sem Fronteiras, que faziam a formação de microscopistas. Me lembro que, nessa época, eu trabalhava com o Jaime e o Nilo Parima, que era Ye’kwana. A gente fazia coleta e leitura de lâminas, resultados e medicação. Os meninos me ajudavam na coleta ou, se fossem para uma comunidade de barco, já traziam as lâminas. Muitas vezes baixava a comunidade inteira com malária. Os meninos faziam a parte da borrifação e

termonebulização com DDT.1 Inclusive, acredito que o Nilo tenha morrido por causa dessa manipulação de DDT entre os Ye’kwana. Como a área Yanomami é muito grande, não havia enfermeiros e médicos suficientes: tinha um enfermeiro ou outro para fazer esse roteiro, além da Dra. Cida, que era infectologista e médica da Funai, muito boa e dedicada, e que prestou um grande serviço. Ela ficava mais no Surucucu e fazia um rodízio entre as comunidades.

Eu ficava no Alto Catrimani. As enfermeiras que eu conhecia no

início eram as freiras missionárias da Missão Catrimani, a Irmã Auristela e a Irmã Florença, que sempre pediam socorro através da radiofonia. Foi uma época muito difícil: já tinha havido a invasão dos garimpeiros e com isso a malária acabou se alastrando. E logo depois veio a tuberculose. Imaginem eu, naquela época, a única microscopista no Alto Catrimani, tendo que fazer tudo, identificar tudo. Se fosse uma picada de cobra, tinha que ligar correndo para vir um avião fazer a remoção. Tudo era pela radiofonia.

Logo depois, vieram outras doenças febris. Muitos foram fazer

exames: a gente coletava a sorologia, enviava para Belém e mandava a remoção para Boa Vista, tudo identificado pela Dra Cida. Alguns morreram, houve muitas mortes de indígenas por conta do garimpo, da malária e do mercúrio, gerando muitas denúncias. Com essas denúncias, a sociedade, a Funai e as organizações indígenas começaram a se mobilizar. Davi Kopenawa Yanomami já era atuante nessa época, e os Yanomami estabeleceram um elo em Boa Vista com as lideranças do Distrito Sanitário Especial Indígena Leste de Roraima (DSEI Leste RR), que também já eram atuantes. Foi uma luta conjunta das lideranças, na época, para conseguir a Casa de Apoio à Saúde do Índio (Casai). Ainda não havia aquela coisa específica da pessoa do conselheiro, mas havia as lideranças que faziam com que a informação chegasse até as comunidades.

Criação e cotidiano de trabalho nos

 

Distritos Sanitários

 

No ano de 1991, conseguimos a criação do primeiro DSEI, o DSEI

Yanomami (DSY).2 Na época, quem atuava era a Comissão Pró-Yanomami (CCPY) e os Médicos sem Fronteiras. Claro que, como tinha o pessoal da Missão Catrimani, havia esse elo forte com a Igreja Católica. A Missão Evangélica da Amazônia (Meva) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR) já eram bem atuantes também. Eu diria que essa conversa toda sobre a criação do DSEI existia e era muito forte entre as organizações, com a participação de algumas lideranças que falavam das suas necessidades. Mas não me lembro se houve reuniões pontuais com os indígenas, comunidade por comunidade. Acredito que não, pela urgência e pela necessidade. Nessa época, a Funai também foi muito atuante na fiscalização. Acredito que o modelo de distrito se assemelhava ao modelo do Programa de Saúde da Família. Foi um tempo bom.

Quando os serviços começaram a ser organizados no DSEI

Yanomami, a partir de 1991, com duas, três pessoas em cada polo, a gente passava sete dias nas aldeias, saía de maloca em maloca coletando amostras e fazendo a parte de entomologia. Então íamos embora e ficava uma pessoa fazendo a medicação por quinze dias. Foi uma época em que as mortes diminuíram, porque se conseguiu intensificar o atendimento. Essas equipes eram pequenas, mas eram atuantes.

Nesses tempos, havia o pessoal dos Médicos sem Fronteiras, que

também fazia o serviço, e a CCPY, que contratava microscopistas por meio dos convênios com o Ministério da Saúde e a FNS. Era uma dificuldade prestar assistência dentro da área Yanomami. Todos atuavam ao mesmo tempo, mas em locais diferentes, divididos por região. Os mais atuantes eram CCPY, Médicos sem Fronteiras e Meva, e, logo depois, houve convênios com algumas organizações indígenas, como o CIR, que atuava mais na área Leste.

Por outro lado, os trabalhadores não tinham condições básicas de

trabalho. Naquela época, ainda não havia casas, não havia polo base e todos tinham que ficar juntos, na maloca, compartilhando o que a comunidade tinha para ofertar. Depois de muitas denúncias devido à ausência de atendimentos básicos nas comunidades indígenas, houve um processo seletivo. A partir daí (1993-1999), se intensificou a quantidade de trabalhadores contratados pela FNS e pelo Ministério da Saúde para a assistência à saúde indígena no DSY.

O DSEI Yanomami foi uma escola para todos. Eu trabalhava no

DSEI Yanomami e Paulo Pankararu, advogado, trabalhava no Conselho Indígena de Roraima. Em 1999, fomos convidados a apresentar à Funai e a todas as lideranças indígenas o modelo do distrito em Pernambuco e discutir a criação dos DSEIs. Viemos falar como fazíamos esse atendimento, como era esse modelo, como era a organização dos serviços. Os índios estavam preocupados com a situação, não sabiam o que eram os distritos, e a Funai, na época, era contrária à criação dos distritos sanitários. Eu acredito que a briga é sempre por recursos financeiros, e a Funai não aceitava. Um índio Fulni-ô e um Pankararu não queriam que acontecesse a apresentação. Então eu e Paulo dissemos: “Meus parentes, viemos aqui mostrar o trabalho que a gente faz e o modelo dos distritos. Ele é bom.” Eu disse que ia depender dos índios para dar certo, e tomaram a decisão. Saíram o Fulni-ô e o Pankararu, e conseguimos mostrar como funcionava o DSEI Yanomami. Eu falei da organização e o Paulo da parte jurídica. Claro que ninguém aceitou que fosse criado um DSEI para Pernambuco, Alagoas e Sergipe, e foi feito como está hoje, o DSEI Pernambuco.

 

Controle social

 

Começamos a dialogar com os gestores de que forma faríamos o

controle social. Só que, naquele momento, nem entendíamos o que era isso. Eu e Paulo nos encontramos com o antropólogo Renato Athias, da Universidade Federal de Pernambuco, saímos de Recife e fomos para Pankararu, onde organizamos, junto com minha irmã Aparecida (Cida), a agente de saúde Gildarque Robson Barros, o Cícero Soares da Cruz e outras lideranças, a Associação dos Profissionais Indígenas de Pankararu (Aproisp) e o primeiro Conselho Local de Saúde Indígena (CLSI).

Naquele momento, já estavam nessa associação as parteiras, o

pessoal que trabalhava na Funai e os agentes de saúde, que não recebiam. Então, saímos em cada comunidade buscando pessoas para formarmos o primeiro conselho. Foi quando o pai da Carmem Pankararu, que era uma liderança, falou: “Estou tão velho, não posso. Mas vou colocar minha filha.” Minha irmã, Cida, também começou a atuar desde essa época junto com a Carmem. O controle social aqui tomou uma forma diferente da dos outros.

Depois da discussão sobre o Distrito Sanitário Especial Indígena

Pernambuco (DSEI PE), eu fui para Roraima e só voltava nas nossas festas culturais de início de ano. Como minha irmã, Cida, e a Carmem eram muito atuantes no que dizia respeito ao controle social (a Cida inclusive foi presidente do CLSI), eu tentava passar para elas o que estávamos fazendo em Roraima e elas foram caminhando, cada uma no seu ritmo. Sempre digo que a situação no Leste de Roraima é muito parecida com a que temos no Nordeste, as dificuldades do povo, das etnias.

O Distrito Sanitário Especial Indígena

 

Leste de Roraima (DSEI Leste RR) e

 

suas particularidades

 

O trabalho no Leste de Roraima também foi muito gratificante. Em

1997, eu saí da área Yanomami, grávida, e fiquei trabalhando na sede. Ainda voltei com minha menina duas vezes para o Catrimani, porque estava havendo muita malária, mas acabei ficando na Funasa fazendo a supervisão dos laboratórios, inclusive dos do Leste, até finalizar o contrato.

Em junho de 1999 terminou o contrato e em outubro entrei no

Conselho Indígena de Roraima, que já estava com o convênio firmado com a Funasa. De lá para cá só parei em 2006, por três anos, para estudar em Manaus. Fiz a faculdade de Enfermagem e uma pós-graduação em Saúde Pública. Passei quase quatro anos como secretária-executiva do Conselho Distrital de Saúde Indígena do DSEI Leste RR. Assim, toda a minha trajetória foi na saúde indígena.

No Leste de Roraima, a capacitação dos agentes indígenas de

saúde acontecia nas comunidades. Tentávamos valorizar da melhor maneira possível a mão de obra local, os agentes indígenas de saúde. Eles tiveram vários cursos com os Médicos sem Fronteiras, com os Médicos do Mundo, tinham uma formação e prática que muitas vezes nem os enfermeiros tinham.

 

No caminhar dos anos você percebe que os agentes indígenas foram realmente protagonistas daquela situação, principalmente na época dos convênios com o CIR.

Independentemente da criação do DSEI, o Leste sempre teve as

suas particularidades. Antes mesmo do distrito, ele já se dividia em nove regiões (hoje 11) numa forma de organização muito boa. Havia também uma organização interna nas comunidades e entre suas respectivas lideranças, entre elas os tuxaua e os capatazes (indígenas responsáveis pela coordenação do trabalho na aldeia). Quando chegou o momento da criação dos conselhos de saúde, não houve muitas dificuldades, porque já existia no Leste de Roraima a ampla formação de lideranças indígenas. Foi só se adequarem à formatação do controle social na saúde indígena em todas as regiões. Os povos do Leste, sabendo das dificuldades do DSEI Yanomami, sempre estiveram juntos na luta contra o garimpo no território indígena. Inclusive os Yanomami participam no CIR, onde discutem os problemas comuns. Existe um elo muito forte entre as lideranças dos dois DSEIs.

Eu diria que o diferencial do Leste de Roraima era realmente o

controle social, que tomava as decisões nas reuniões. Lá, o plano distrital era trabalhado de acordo com cada comunidade, que falava da sua necessidade de saneamento, postos de saúde, poços, agentes indígenas de saúde, agentes indígenas de saneamento. Tínhamos uma periodicidade de discussão dos problemas, um calendário de reuniões no ano. Nas reuniões do conselho local, a equipe participava, porque quem avalia são os conselheiros, é a comunidade que diz como eu estou trabalhando. No Leste de Roraima, todo mundo estava acostumado a ir para a frente escutar o que os índios tinham a dizer. Existia essa troca, e essa organização era muito forte nas regiões.

Eu organizava todas essas reuniões do conselho e planejava com

eles as pautas. A gente discutiu contratos de transporte, de pessoas, vagas de agentes indígenas de saúde. Tentávamos reproduzir a mesma pauta para todas as regiões: se era avaliação, levávamos para todas as regiões. Levávamos aquela pauta comum a todos e eles traziam suas pautas específicas para discussão e votação. Hoje, há muita briga pelo poder e por esses espaços. Em alguns casos, o controle social passou a ser só uma pessoa e não a representação da comunidade. É complexo.

Depois que a Funasa assumiu, muita coisa mudou, foi traumático.

Com a chegada das equipes para atuar dentro das comunidades, não houve uma valorização dos agentes indígenas de saúde ou do sistema tradicional indígena. Equipes sem experiência entravam nas comunidades, desvalorizando o agente indígena e o seu saber, o seu conhecimento, isolando-o praticamente de tudo.

 

Era o agente indígena quem fazia a busca ativa, sabia quem estava doente, sabia qual medicamento estava sendo administrado, sabia de tudo e realmente era o nosso elo. Só que começou a ser desvalorizado e não fazer mais nada. Isso não aconteceu só em Roraima, aconteceu em todos os lugares. Perdemos muito.

 

A entrada de um governo sem nenhuma experiência, sem pedir

ajuda, sem valorizar aqueles protagonistas que já estavam atuando, foi um desastre. O agente indígena acabou se afastando das suas atividades e finalmente saindo, para dar lugar aos mais novos – e começou a desvalorização dessa mão de obra. Em Roraima, por muito tempo, a gente teve esse atrito com as equipes, não por culpa delas, mas pela falta de conhecimentos específicos ou entendimento mínimo da política de saúde indígena. E isso aconteceu em todos os lugares. Aqui, temos um contexto diferente, mas o povo está sofrendo do mesmo jeito. Não pensem que as coisas hoje estão às mil maravilhas. A saúde indígena está um caos. E agora nós estamos vivendo uma situação mais crítica ainda.

No estado de Roraima, há muita política partidária que envolve as

comunidades indígenas e isso é muito ruim. Levam-se muitas emendas parlamentares para as comunidades, mas, infelizmente, o dinheiro não é utilizado da forma correta. Em vez de buscar o controle social para verificar quais são as necessidades de acordo com o nosso planejamento, com o plano distrital, querem beneficiar determinada região por causa do eleitorado.

Seu Clóvis Ambrósio, liderança Wapichana, passou muitos anos

sendo presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi). Trabalhei com ele por muito tempo e é uma pessoa que admiro muito. Ele saiu em 2016. Era para ter saído antes, mas com essa situação de politicagem, ficamos preocupados que pudesse entrar uma pessoa manipulável politicamente. Assim, ele teve um papel fundamental de fazer essa transição em função da sua trajetória e do seu conhecimento do controle social e da política de saúde indígena.

 

As conferências de saúde e a Lei

 

Arouca 3

 

Eu sempre participei das conferências de saúde, tanto das locais

quanto das distritais. Quanto às Conferências Nacionais de Saúde Indígena, eu fui à 4ª, mas não à 5ª. Na 5ª conferência, fui secretária-geral pelo DSEI Leste RR. Fomos para todas as regiões, fizemos todas as conferências locais, discutimos o assunto, elegemos os representantes da melhor maneira possível, mas, ao final, não fui ao encontro nacional. Fiquei triste, porque alguns trabalhadores não conseguiam enxergar a importância daquele momento e quem realmente deveria estar ali discutindo assuntos específicos estava de fora. Diziam: “Vai fulano.” Eu respondia: “Mas fulano não tem nem ideia!” Eu não concordei, fiquei zangada e fiz questão de não ir. Pode ser que eu estivesse errada e às vezes penso que eu poderia ter participado da escolha que representava o meu segmento, mas você olha e vê que não é nada daquilo. Por isso digo: “Temos ideias divergentes.”

Em relação à Lei Arouca, houve uma discussão com os povos do

Leste de Roraima. A minha participação se deu com eles. E a nossa participação era no sentido de fortalecer e valorizar o que a gente tem de mais importante. Essa política foi traçada especificamente para suprir uma necessidade do povo indígena, mas as pessoas não respeitam e aqueles que estão à frente dela não conseguem discutir o seu contexto ou se transportar para as especificidades dos povos indígenas. Essa é a realidade. Já querem modificar a política da forma como está colocada antes mesmo de discutirem. E o governo não faz questão de divulgá-la, porque acha que é algo que não deveríamos ter, já que existem as políticas públicas do SUS para todos. As pessoas não conseguem entender a situação dos povos indígenas no Brasil, mas é nossa obrigação fazer com que todo trabalhador entenda. Independentemente de política, é preciso realmente entender o outro, se colocar no lugar do outro, indígena ou não – e, no caso dos indígenas, diferentemente, porque o acesso é outro.

Quando eu cheguei na área indígena Yanomami, foi um impacto

enorme ser vista como uma salvadora da pátria sabendo que eu não era aquilo, mas tentando, da melhor maneira, fazer com que entendessem que eu estava ali para ajudar. Aí chegava outro e fazia tudo errado. Um exemplo nos Yanomami: os índios estavam na comunidade deles, com a tanga deles, do jeito deles, e chegava alguém de fora e a primeira coisa que fazia era tirar a camisa e dar para o índio vestir. Na mente dessa pessoa, talvez ela estivesse fazendo a melhor coisa, mas não sabia o mal que fazia ao índio. O índio não lavava a camisa, ficava com a roupa dura no corpo e tinha problemas de pele. As pessoas não param para pensar por esse lado. Davam a roupa, mas não davam sabão, não ensinavam que tinha que lavar. Então, não conseguiam enxergar e respeitar o habitat do índio, a forma dele viver.

Quando cheguei no Leste, aquilo me fortaleceu, porque a gente

conseguia enxergar o parente. O DSEI Leste de Roraima é uma escola: lá você tem várias regiões, tudo é diferente de um lugar para o outro e eles têm uma forma de organização que consegue proporcionar minimamente um diálogo para levar a quem tem menos, promovendo equidade. São essas coisas que, às vezes, as equipes não conseguem discutir, porque, quando são contratadas, não lhes é explicada a política e suas diretrizes.

Agregar o conhecimento indígena ao

 

 

científico

 

Foi um tempo muito bom o que passei entre os Yanomami, mas

hoje está muito difícil trabalhar no DSY. Temos bons trabalhadores, mas muitos com maus vícios. Existe uma dificuldade também de monitoramento das ações por parte da gestão. Mas uma coisa boa hoje é que temos agentes indígenas Yanomami que são agentes e intérpretes. Mesmo assim, a língua ainda é um dos maiores problemas para os trabalhadores do DSY.

Hoje estou na Casai – DSEI PE, e ainda temos muitos problemas

graves relacionados à nossa saúde. Não são mais aquelas doenças que se curavam só com o chá ou a reza tradicional.

 

Temos diabetes, hipertensão, obesidade e câncer, cada coisa com sua gravidade. Essas doenças vão muito além daquilo que temos na aldeia, por conta de mudanças na cultura, na alimentação e nos hábitos, de forma geral. Mas tenho tentado colocar para os meus colegas que precisamos agregar o conhecimento tradicional indígena ao conhecimento técnico científico.

Precisamos valorizar o saber indígena, buscando averiguar se

aqueles sob nossos cuidados estão ao mesmo tempo sob tratamento tradicional. Isso serve para que tenhamos uma abordagem diferenciada e adequada ao momento. É um acolhimento. Penso que devemos ter esse olhar para ofertar uma atenção à saúde diferenciada e com qualidade.

Sou enfermeira, hoje trabalho na Casai, mas tento mostrar para

os meus colegas que dependemos muito da gestão central. Não adianta nada os DSEIs se matarem de trabalhar, quando, a nível central, não querem entender a política. Não adianta me pedir cumprimento de metas quando eles não cumprem uma meta simples, que é a nossa política indígena. Que é enxergar que eu tenho uma parteira, um curador, uma benzedeira ou quem conhece as raízes. Eles não conseguem enxergar a nossa política como sendo nossa.