Vozes indígenas na saúde: trajetórias, memórias e protagonismos
Tem que chamar para participar
Megaron Txucarramãe Mebêngôkre
Meu nome é Megaron Txucarramãe, sou da etnia Mebêngôkre,
conhecida como Kayapó, do grupo linguístico Jê. Moro na Terra Indígena Capoto/Jarina, em Mato Grosso. Os Kayapó ocupam dois estados: sul do Pará e Mato Grosso. Em 1950, eu conheci os irmãos Villas-Bôas. Eu era criança e fui crescendo, crescendo, e em 1964 meu pai me deixou partir com Orlando Villas-Bôas para aprender a falar português e trabalhar, com a intenção de ajudá-lo. Mas meu pai faleceu quando eu estava com 20 anos, e eu não pude ajudá-lo. Eu fui com Orlando da minha aldeia para Posto Leonardo e assim eu fui trabalhando, aprendendo a falar português, a ler e escrever, e a entender um pouco do mundo do homem branco. Eu não tinha ideia de que tinha que receber dinheiro pelo trabalho, mas, com o tempo, Orlando reconheceu o nosso esforço e nos contratou para trabalhar na Fundação Nacional do Índio (Funai).
No começo, fui trabalhar com outros rapazes e meninas, e eu
nem sabia como trabalhar. Fui varrer, lavar prato, acender fogo, rachar lenha, depenar pássaro, descascar peixe. Quando crescemos, mudamos de trabalho – Pioni foi meu professor e me ensinou a dirigir tratores e caminhonetes. Assim, nós começamos a aprender sem escola. Em 1970, o Orlando me contratou junto com outros indígenas para trabalhar na frente de atração da BR Cuiabá-Santarém, no contato com os Panará.
Quando Orlando se aposentou, Olympio Serra o substituiu como
diretor do Parque Indígena do Xingu e foi mudando o nosso trabalho, reconhecendo que nós já tínhamos responsabilidade para cuidar do posto. Contratou o Marawy como chefe do Posto Diauarum e me contratou como chefe do Posto Indígena Kretire. Antes era o pessoal da Funai que chefiava, mas o Olympio foi mudando isso, porque os indígenas já podiam assumir a chefia dos postos. Quando o Olympio saiu, outras pessoas o substituíram na direção do Parque. Em 1984, Cláudio Romero me escolheu, e fiquei até 1995 como diretor do Parque, quando fui trabalhar com o meu pessoal Kayapó.
Como diretor, ajudei a criar postos de vigilância no limite do
Parque para podermos fiscalizar a nossa área, e pedi à Funai para contratar pessoas indígenas do Xingu para trabalhar ali. Antes de ser diretor do Parque, ajudei meu tio Raoni e outros tios a fazer com que a Funai demarcasse nossa área. O Parque já era reconhecido, mas, quando a BR-080 o cortou, começaram a ocupar o entorno e nós perdemos nosso território de Capoto/Jarina. Foi o começo do nosso contato com o homem branco. As lideranças vinham falar com a Funai através do diretor do Parque, que as trazia para Brasília para tratar da demarcação da terra. Assim, a primeira terra demarcada foi Capoto/Jarina.
Desde o contato com Orlando e a equipe dele, nós e outras etnias
no Alto Xingu pegamos gripe e sarampo, que antes não tínhamos e nem conhecíamos. Morreu muita gente. Morreu muito Kalapalo, Matipu, Kuikuru, Waurá, Kamaiurá, muita gente. Esse primeiro sofrimento começou na década de 1950.
Então o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) criou uma equipe de
médicos profissionais para nos dar assistência de saúde. Na época,
eu conheci o Dr. Noel Nutels, o Dr. Antônio Nunes de Miranda1 e a equipe deles. Eles levavam equipamentos, técnicos, até dentistas. Iam em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), desciam de barco até a minha aldeia e tiravam na hora o raio X. Trataram muita tuberculose. Acho que na época ainda não havia vacina contra a tuberculose, a gripe, essas coisas – morria muito índio. Não davam nem conta de enterrar, deixavam o corpo assim mesmo. Meus pais precisaram fugir com a gente para não morrermos.
Em 1964, o Orlando fez um convênio com a Escola Paulista de
Medicina (EPM). 2 O Dr. Carlos D'Andretta Jr., o Dr. Roberto Baruzzi e outros médicos e técnicos foram ao Posto Leonardo e começaram a ajudar os indígenas. Desciam também até o Diauarum, até o Porori, aldeia do meu pessoal. Naquele tempo eu não tinha nem ideia de como eles se organizavam para nos dar essa assistência quando tínhamos pneumonia, gripe, tuberculose, esse tipo de doença. Antes, quem curava era o pajé, o curandeiro, o raizeiro, mas quando chegaram essas doenças, não teve como.
Na época, os pajés respeitavam muito o trabalho da Escola
Paulista, do Orlando, e da equipe do Dr. Noel e do Dr. Miranda, e eles também respeitavam o trabalho dos pajés, raizeiros, curandeiros e parteiras. A equipe do Dr. Baruzzi (EPM) chegava na aldeia, relacionava todos os nomes, fazia uma ficha para cada família e examinava na hora. Quem tinha problema eles já mandavam fazer tratamento, assim como faziam o Dr. Noel e o Dr. Miranda. Com isso, eles sabiam de tudo. Até hoje, a equipe do Dr. Baruzzi (que era aluno na época) assume o atendimento.
Naquele tempo era difícil, não havia nenhuma vila em torno do
Parque. Para chegar era preciso um avião da FAB. Hoje não: estamos vendo a cidade crescer em torno do Parque e os indígenas estão frequentando essas cidades. Mudou muito, das décadas de 1960, 70 e 80 para cá. Só depois de muito tempo se começou a discutir o Sistema Único de Saúde (SUS). Foram fazendo reuniões, nós fomos participando, e eles explicavam que o SUS era uma coisa para todo mundo. Na época, me lembro que participei junto com o Dr. Douglas Rodrigues e a Dra. Sofia Mendonça: eram eles que nos chamavam para participar da discussão aqui em Brasília.
Assistência diferenciada nas aldeias
Quando eu participei da 1ª Conferência Nacional de Proteção à
Saúde do Índio, eu nem imaginava como isso iria funcionar. Agora é diferente: eu entendo que o SUS é para todo mundo (índio, negro e branco) e está espalhado em todos os estados e municípios. Então médicos, secretários de saúde e hospitais não podem se recusar a receber o índio, eles têm que dar assistência. A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) também é responsável pela saúde, de forma mais específica. Além de nós, indígenas, não há nenhum outro grupo com essa secretaria.
Antes dela ser criada, uma mulher chegou no Pavurú e reuniu
todos nós para perguntar se queríamos que criassem uma sala no Ministério da Saúde para cuidar da saúde indígena. Nós falamos que não, que queríamos outra coisa, um pouquinho maior, uma secretaria, uma fundação ou um instituto. Eu disse para ela: “O grupo daqui vai discutir isso.” Aí foi grupo para lá e grupo para cá. No grupo do qual participei, estava também o Cacique Suyá, que deu a ideia de criar a Sesai. Nós fizemos um documento e meu tio Raoni e outras lideranças Kayapó entregaram esse pedido para o Ministro da Saúde, que na época era o José Serra.
Para nós era muito importante ter um sistema de saúde
específico. Na terra indígena Capoto/Jarina, a gente se acostumou com a equipe do Dr. Noel – e depois com a do Dr. Baruzzi – dando assistência especial, diferenciada na aldeia. Não existiam municípios no entorno e nem hospitais.
Mesmo com as cidades próximas de hoje, o sistema tem que
continuar diferenciado, índio tem que ser tratado diferentemente, porque muitos não falam português. É preciso ter intérpretes junto com o agente de saúde. Em São Paulo mesmo, na Casa de Saúde Indígena (Casai), é preciso ter intérpretes para acompanhar os indígenas que não falam português, assim como no Xingu. É esse atendimento diferenciado que nós queremos que aconteça.
Participação indígena nas
Conferências
Naquele tempo, quem cuidava da nossa saúde era a Funai junto
com a Escola Paulista de Medicina. Não tinha essa discussão sobre o SUS, e nós nem tínhamos ideia do que era isso. No meu caso, como liderança, eu tinha que chegar e explicar para o pessoal: “Ó, esse sistema vai mudar.” A discussão começou aí. Mas naquele tempo não havia municípios, não havia hospitais no nosso entorno. O tratamento de saúde dos índios era aqui em Brasília ou em São Paulo, por causa da Casai e da Escola Paulista, que nos recebiam.
Hoje os indígenas sabem e querem participar da discussão de qualquer coisa. Se o governo estiver programando alguma coisa, tem que chamar o índio para participar.
Mas às vezes isso não acontece, o governo planeja alguma coisa
sem consultar o índio, sem consultar as lideranças.
Quando tiraram a saúde e a educação da Funai, ela ficou com
pouca coisa: só assistência, demarcação de terra e fiscalização, inclusive do trabalho do SUS. É por isso que se qualquer prefeitura, Secretaria de Saúde ou hospital fizer qualquer coisa de errado conosco, temos que denunciar para o Ministério Público. E, tanto na educação como na saúde, eu fiscalizo através do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi). Qualquer erro que eles cometerem, eu denuncio para o Ministério Público.
Das aldeias para as cidades
Com o trabalho do Orlando e das equipes do Dr. Noel e do Dr.
Baruzzi, começaram a nascer mais crianças. Eles vinham acompanhando e tinham o controle do crescimento da população indígena do Xingu. Mas eu, como diretor do Parque, não tinha esse levantamento. Seguimos sem fazer o nosso levantamento populacional, mas a equipe do distrito agora faz. Chegam para contar a população, ver quantas crianças e adultos estão crescendo ou morrendo. E nós também percebemos que a população está crescendo. No meu cálculo, acho que há de 6 a 7 mil Kayapó Mebêngôkre.
Por outro lado, a caça está diminuindo e os peixes também, então
temos que separar a aldeia e fazer outras aldeias onde há caça e peixe. Meu tio Raoni, no Acampamento Terra Livre, falou: “Nós estamos crescendo, precisamos de espaço, de conservar a terra, porque daqui a um tempo aquela terra não vai ser suficiente para nós.”
Hoje, a maioria mora na aldeia, mas muitos indígenas estão
trabalhando tanto na Funai como no distrito sanitário. E, no mundo de vocês, tem que estar todo dia trabalhando, então tem que morar na cidade. A Funai também acabou com o posto indígena e criou a Coordenação Técnica Local (CTL) na cidade, o que foi muito ruim. Hoje em dia tem também esse dinheiro que a pessoa recebe via Bolsa Família, salário maternidade, aposentadoria, e muitos indígenas que são aposentados tentam morar na cidade, mas não têm dinheiro suficiente para se manter. Eles acham que com aquele salário podem se manter na cidade – mas não, eles sofrem.
Estamos comendo comida que não comíamos, como açúcar, sal, comida da cidade, comida guardada. Não comemos mais comida natural, a nossa comida, que é colhida e feita na hora.
Por isso, é preciso cuidar não só da saúde, mas da nossa
educação. Hoje a Funai não cuida nem da saúde, nem da educação indígena. Eu quero falar para a Presidência da República que resolva a educação de qualidade para todo brasileiro, para que o brasileiro possa respeitar um ao outro, seja branco, negro ou índio. Muitos brasileiros não conhecem os indígenas, alguma coisa aparece na televisão e é só isso que eles veem. Mas, nos livros, é preciso contar essa história. Por isso, precisamos não só de saúde, mas também de educação de qualidade.