Vozes indígenas na saúde: trajetórias, memórias e protagonismos

Ana Lúcia de Moura Pontes, Vanessa Hacon, Luiz Eloy Terena e Ricardo Ventura Santos (orgs.) · Capítulo 9 de 17

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Vozes indígenas na saúde: trajetórias, memórias e protagonismos

O governo tem o dever de cuidar

O governo tem o dever de

 

cuidar

 

Davi Kopenawa Yanomami

 

Meu nome é Davi Kopenawa Yanomami. Minha comunidade se

chama Watoriki. Ela divide Roraima e Amazonas e está próxima também à fronteira entre Brasil e Venezuela, no Alto Rio Negro, no rio Demini. Eu sou presidente da Hutukara Associação Yanomami (HUY). Sou representante do meu povo, os Yanomami de Roraima e do Amazonas, e de outros povos indígenas do Brasil. Eu faço a luta da Hutukara na cidade e na comunidade. Sou também pajé, e costumo curar pessoas doentes. Eu sou a sobrevivência do meu povo. Acho que foi em 1950 – eu era pequeno, eu era oxe, criança, e meu povo Yanomami não era reconhecido ainda – que, pela primeira vez, eu vi o homem da sociedade não indígena, que chegou à nossa comunidade. A comunidade se chama Marakana, xapono grande, casa grande. Havia cerca de 500 famílias morando dentro dessa casa.

Quando eu tinha mais ou menos dez anos, vieram os

missionários. Missionário não cuida da saúde. Eles cuidavam de outro trabalho. Queriam aprender a falar Yanomami e nos ensinar também a escrever a nossa própria língua. Naquele tempo, a saúde ainda não havia chegado, ficava muito longe.

Foi a Fundação Nacional do Índio (Funai) que cuidou primeiro da

saúde Yanomami, mas seus funcionários não conheciam ainda toda a região da terra Yanomami. Não andavam, não tinham avião, não tinham carro. Eles chegavam só de barco. Chegar às comunidades que ficam mais longe era muito difícil. Naquele tempo não havia pista de pouso. Também não havia muitos funcionários que trabalhavam dentro do posto Yanomami. Eram poucos e por isso o meu povo ficou doente e morreu. Eu sou a sobrevivência do meu povo. Eu não quis morrer. Eu queria lutar. Até hoje estou aqui, lutando, apanhando, mas também aprendendo cada vez mais.

Quando a Funai repassou a saúde indígena à Fundação Nacional

de Saúde (Funasa), a Funasa assumiu o projeto de saúde dos Yanomami, mas não conhecia meu povo nem nossa língua para conversar, para dialogar. Era muito difícil chegar nas comunidades e eles não sabiam andar no mato, dormir no mato, porque a floresta é diferente da cidade. Eles acabaram não sabendo administrar o dinheiro, o trabalho. Gastaram muito dinheiro e deixaram o meu povo morrer, em Surucucu, Auaris, maloca Paapiú, Homoxi, Ericó, Toototobi, Balawaú e outras regiões.

Em 1986, vieram os garimpeiros. Eram cerca de 40 mil. Quem

liberou isso foi o presidente da Funai no tempo do governo de José Sarney, o Romero Jucá. Os garimpeiros contaminaram nossa terra, usaram nossas índias. E o Exército também.

 

Quando entraram os garimpeiros, entrou a doença: malária, gripe, tuberculose, sarampo, câncer e outras doenças que ninguém conhecia.

 

Não havia essas doenças na terra Yanomami. Foi uma luta muito

forte, muito difícil, muito perigosa. Não conseguiram controlar a malária e nós adoecemos porque as autoridades, o governo brasileiro, não cuidaram da saúde antes de entrar, de invadir a área. Por isso morreram muitos.

O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso também

não foi bom no cuidado com os povos indígenas do Brasil. O pessoal que entrava no governo não gostava de índio. Não conhecia e por isso não dava valor para a saúde do índio e para o índio. O ministro Alceni Guerra foi um bom amigo e nos apoiou. Lutou muito pela saúde. Mas então passaram o ministério para outro.

Foi a Urihi-Saúde Yanomami que cuidou dos Yanomami, junto à

Comissão Pró-Yanomami (CCPY), depois da saída dos garimpeiros. Quando os garimpeiros estavam na terra indígena, a Funasa era responsável por nossa saúde. Mas não conseguiam cuidar, só gastavam muito dinheiro. Então o governo Fernando Henrique ofereceu à CCPY a responsabilidade de cuidar da saúde Yanomami e Ye’kwana. A Cláudia Andujar, da CCPY, foi reconhecida e o governo ofereceu e repassou a ela a responsabilidade. Ela aceitou, e depois convidaram outros parentes, amigos, médicos para assumir a responsabilidade, aqui em Boa Vista. A Urihi-Saúde Yanomami foi a única instituição que foi boa para salvar as nossas vidas.

Eles já tinham experiência, sabiam pensar, organizar um grupo

bom, guerreiro. Tinham pouco dinheiro, mas o usaram bem, prepararam um grupo com enfermeiros, técnicos, dentistas, médicos. Conseguiram comprar remédios de qualidade e levar à terra Yanomami. Em todos os polos base, onde os aviões pousavam, eles levavam exames para serem analisados por boas equipes, que sabiam ler lâminas de malária e tratar a doença. Também tinham máquinas boas para bater chapas, quando alguém estava com o peito doendo com tuberculose. Foi assim que a saúde Urihi funcionou, e assim conseguimos controlar a malária. Mas faltou muito para comprar equipamentos de saúde, para continuar a trabalhar. Como o governo não quis mais dar apoio, a Urihi acabou saindo e a Funasa continuou no controle.

Três institutos entraram para cuidar da saúde indígena depois

disso, mas não conseguiram. Nós começamos a reclamar com a Funasa. A Funasa não comprava os remédios e os equipamentos direito. Eles não resolviam o que nós pedíamos. Até hoje não conseguem. Brigamos, pedimos para que o novo coordenador saísse, ele não estava trabalhando direito, não estava cuidando do povo Yanomami, estava deixando todo mundo doente, deixando todo mundo morrer.

Foi então que nós pensamos em criar uma Secretaria de Saúde

Indígena. Eu lutei muito por isso. Conversei com o ministro, conversei com o presidente Lula, quando ele assumiu a presidência. Ele escutou. Eu agradeço o trabalho do governo com a vacina. Se não tivéssemos tido a vacina, muita gente teria morrido. Por outro lado, a doença continua. Falta melhorar muita coisa para acabar com a malária. Porque a malária vai e volta. Pode entrar médico bom, pode entrar remédio bom, mas ela acaba voltando. Eu aprendi a olhar para a doença. Eu também trabalho com os xapiri. Quando eu trabalho com os xapiri, junto com meus colegas, com o meu grupo, nós também enfrentamos a doença. Ajudamos com o medicinal da cidade e o medicinal da floresta. É assim que nós estamos vivendo.

 

A criação do Distrito Sanitário

 

Yanomami (DSY)

 

A luta pela criação do DSY foi muito grande e difícil. Conseguimos

na época em que acabou o convênio com a Urihi-Saúde Yanomami. Quando esse convênio acabou, não havia mais nada e quem ficou na administração foram o Dr. Cláudio e a Dra. Deise, da Funai. O Dr. Cláudio me explicou: “Davi, eu quero que você lute, fale com as autoridades, com o ministro ou com o Lula. Você tem força para pedir, você consegue.” Foi assim que eu comecei a conversar. Não consegui rápido.

 

O costume de vocês não é muito rápido. Tem que falar muito, esperar os papéis, pensar, conversar mais, estudar mais. É assim que o trabalho das autoridades funciona.

Então, nós lutamos. Eu, meu filho e outras três lideranças

Yanomami fomos a Brasília conversar com as autoridades, explicando que os Yanomami queriam que o governo criasse o Distrito Sanitário Yanomami. E outros povos indígenas, como os Kayapó, os Xavante, os Xinguano e os Macuxi, se reuniram em Brasília e foram falar junto. Fomos nós, índios, que pedimos para o governo criar os distritos. E nós conseguimos. Demorou, mas conseguimos. O distrito está aqui.

 

A luta política

 

Eu aprendi a cobrar dos brancos com outras lideranças Macuxi,

Wapichana, com o tio Raoni e com o Ailton Krenak. Fui acompanhando e conversando com autoridades. Autoridade pequena não resolve. É preciso ir lá em cima, em Brasília. É lá que estão os chefes. Tem que saber conversar, saber cobrar. Não é para bater, falando brabo, chamando de ladrão. O branco não gosta. Tem que fazer um pequeno documento. Escrever, saber colocar o que o governo não está fazendo. O governo tem o dever de cuidar da gente. Se eu não consigo, procuro a Funai. Se a Funai não conseguir nos atender, eu vou para o Ministério Público, para a Procuradoria Geral da República. Eles nos apoiam.

O branco, napë, não respeita os indígenas. É por isso que

estamos lutando para defender a nossa saúde. Mas temos que saber cobrar, temos que saber reclamar, senão o homem da cidade não escuta. Ele escuta, mas não cumpre o que promete. Vivemos reclamando. Alguns estão trabalhando, mas outros ficam enrolando, atrapalhando esse trabalho. É assim que o mundo branco funciona.

E nós, indígenas, ficamos cobrando para eles trabalharem, para

mandarem equipes boas à base. São poucos os profissionais que trabalham em cada polo base. Precisamos de muito mais. O pessoal tem medo de cobra, de andar no mato, de onça, de chuva, não quer molhar o pé, o sapato! Como não tem televisão, não tem celular, eles pedem para voltar para a cidade. É assim o pensamento, o costume do não indígena.

Hoje existem oito associações para trabalhar na própria

comunidade e dialogar com os coordenadores de saúde. Nós estamos aprendendo cada vez mais. Os meninos – nós temos alguns poucos jovens indígenas que falam português – estão indo bem, estão sabendo cobrar para conseguir remédios da cidade. Aqui em Boa Vista não tem fábrica de remédio. Para chegar, demora um mês, porque vem de avião, caminhão ou navio. E quando chega não basta, porque a terra Yanomami é grande. O meu povo Yanomami hoje tem 25 mil pessoas e está crescendo. Os velhos estão morrendo, mas outros estão nascendo e crescendo. Precisamos de um bom governo para cuidar da nossa saúde, mas muito pouco está sendo feito. A gente pede saúde de qualidade, eles não dão. Queremos melhorias para acabar com a doença que está no mato. Curar as pessoas para diminuir as remoções. Estão mandando muitos Yanomami para a cidade. A Casa de Apoio à Saúde do Índio (Casai) está cheia de Yanomami, mas os médicos não conseguem cuidar e os Yanomami não estão acostumados a ficar um mês, dois meses fora de casa.

Eu participo das reuniões do Conselho Distrital de Saúde Indígena

(Condisi) em Boa Vista. Os conselheiros de saúde são Yanomami. E o presidente que organiza o Conselho de Saúde Yanomami, junto com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e com a Missão Caiuá, é Yanomami. Eu participo do Conselho do Distrito de Saúde Yanomami. O conselheiro que vai à comunidade conta o que está acontecendo. O não indígena escuta, mas depois parece que esquece. E eu sempre digo aos meus parentes que os conselheiros Yanomami não podem ficar calados. Nós temos o direito de reclamar, de cobrar, até conseguirmos. É difícil o napë nos escutar, mas não podemos abaixar a cabeça.

 

Garimpo, território e saúde Yanomami

 

Quarenta mil garimpeiros invadiram nosso território em 1986. O

presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) naquela época, Romero Jucá, e o presidente José Sarney, os deixaram entrar. São várias as autoridades que gostam de ouro, os empresários que mandam buscar o ouro e mandam destruir a terra indígena. Nos pegaram de surpresa. Eu não estava preparado, não esperava que fosse acontecer. Foi muito feio. Entraram com máquinas grandes, helicópteros, aviões, fizeram 131 pistas de pouso clandestinas. Então começaram a trabalhar, a cavar buracos nos igarapés, e a sujeira saiu, matando os peixes, contaminando a água. Os Yanomami beberam a água, porque não sabiam que estava contaminada com mercúrio. Em 3, 4, 5 meses, nós começamos a adoecer. Eles trouxeram uma gripe muito forte e também a bebida alcoólica. Fizeram um grande acampamento de garimpo na comunidade Maloca Paapiú, e de lá começaram a se espalhar até que chegaram na minha comunidade. Foi muito difícil para mim, porque eu não conhecia o trabalho do garimpo. Mataram também 16 Yanomami a tiros. Eu era sozinho naquele tempo, mas tinha apoio da CCPY, da Diocese de Roraima, da Funai, do Ministério Público e de outras lideranças. Não consegui ajuda rápido, demorou muito. Foram quatro anos. A doença aumentou muito.

Eu comecei a reforçar minha posição e falar com as lideranças,

cerca de dez pessoas. Avisei que ia entrar na luta e pedi para me protegerem, falarem com policiais, com a Funai. Foi assim que eu fui salvo. Mas a doença não obedeceu e começou a matar crianças, adultos. Adoeceu todo mundo. A equipe de saúde entrou, mas não deu tempo, não deram conta, porque a doença e os garimpeiros já tinham se espalhado. Fizeram armadilhas para nos pegar de surpresa. Foi isso que o governo fez para matar o meu povo Yanomami.

Na época, juntei um grupo de 40 pessoas e fomos para o garimpo

conversar com eles. Gastamos três dias andando para chegar aonde estavam os invasores. Não fomos para matar, fomos para conversar com o chefe dos garimpeiros, mas não conseguimos. Nós não temos armas pesadas, só arco e flecha. Eles tinham tudo: revólver, espingarda. Por isso não conseguimos expulsar o garimpo que estava na terra Yanomami. Como não conseguimos resolver, fomos para Boa Vista, falamos com a Funai. Naquele tempo, a Funai estava um pouco mais forte e, junto com a Polícia Federal, levamos eles para tirar os invasores. Como não tiraram todos, fomos para Brasília. Lá, me falaram: “Davi, os invasores são brabos, estão armados.” E eu respondi: “O senhor é autoridade. Fala que é perigoso e que eles estão armados. Mas e o Exército? A Polícia Federal está armada! Tem que ser enviada para expulsar os invasores.”

Nós fizemos uma carta (meus colegas me ajudaram) e mandamos

para a Organização das Nações Unidas (ONU). Resolvemos falar com o “chefe grande” e a ONU cobrou do governo do Brasil que tirasse os garimpeiros e depois demarcasse a terra dos Yanomami. Foi assim que conseguimos. Nesse tempo, eu tirei meu passaporte, saí do país e ganhei o prêmio Global, que abriu o meu caminho.

Na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o

Desenvolvimento (ECO-92), a notícia começou a se espalhar. Ali as pessoas começaram a escutar o nome dos Yanomami. Porque o governo brasileiro escondia muito. Eu contei sobre a situação do meu povo, que tinha problemas. O nome do povo Yanomami se espalhou no Brasil e fora dele. Assim começou a minha luta.

 

O papel do xamã e a medicina dos

 

brancos

 

O xapiri Yanomami é muito importante para o povo. É como o

médico. A comunidade precisa de xapiri para cuidar da saúde, das doenças conhecidas da floresta. Essas doenças são espíritos maus: pegam a sombra, levam para casa e a pessoa fica doente. Então, eu tenho que cuidar. Esse é o compromisso do xapiri com o povo. Eu tomo yãkoana, olho a pessoa deitada, com muita febre, e enxergo: “Ah, você está com xawara”. O xapiri luta contra a doença (que se chama xawara) para salvar a vida do colega. Assim nós trabalhamos, sem agulha ou faca.

 

Antigamente, não tinha remédio, vacina, médico, enfermeiro, nada. Por isso o xamã é importante nas comunidades e hoje trabalha junto com o médico. O índio trabalha primeiro, e o médico da cidade tem que esperar.

 

O índio termina o trabalho, lava o corpo, e então o paciente toma

remédio da medicina ocidental. É assim que nós trabalhamos: o medicinal do xapiri junto com o medicinal da cidade.

Dos brancos, nós, Yanomami, Ye’kwana e outros povos indígenas

de Roraima, sempre pedimos remédios de qualidade que curem uma pessoa doente. Está com malária? Remédio de malária. Mas ele não chega. Existe uma outra doença, que se chama tuberculose. Se for feito o tratamento correto, a pessoa fica boa. Então, nós indígenas achamos bom. Outros remédios, que não curam, achamos fracos. Tem muito pouco remédio bom e poucas pessoas que trabalham bem. Os médicos que trabalham para a saúde não querem ficar no mato. Querem ficar na cidade. Na saúde bucal também precisamos de pessoas boas, com equipamentos. Geralmente não tem. Sempre falta. Aqui na Casai, na cidade, também está faltando muito. A gente pede, mas eles não conseguem liberar. Não querem gastar dinheiro com o que nós pedimos. Agora estão começando a aparecer doenças de novo.

 

Onde tem garimpo, a malária está aumentando e começando a poluir os rios. Nós estávamos quase ficando bons.

 

Onde não tem ninguém garimpando, onde não chegam invasores,

as pessoas estão bem. Mas na minha aldeia, no rio Uraricoera, onde estão mais ou menos 5 mil garimpeiros, a situação está muito ruim. Os índios estão começando a adoecer, porque estão tomando água suja. Não tem outra água, limpa. Não tem poço. Tem a água que passa no rio. Eu fico muito triste e revoltado com a autoridade que está mandando os garimpeiros. Fico triste também com a Sesai, que não está tomando providências para não deixar as pessoas adoecerem.

A saúde da mulher também não está funcionando, só fica no

papel. Não estou vendo ninguém que vá para as comunidades cuidar da saúde da mulher. As doenças estão crescendo, o câncer, o HIV. Isso é preocupante. Além disso, estamos muito preocupados porque apareceu outra doença. Ela apareceu com outro povo, os Warao. São parentes Warao, que moram na Venezuela. Como na Venezuela a saúde não é boa, eles estão vindo para o Brasil. E, quando chegam aqui, chegam doentes, com catapora. A catapora matou a minha família quando eu tinha três, quatro anos. Eu sei que a catapora não brinca com ninguém. Ela mata.

Pedi para a Sesai preparar uma boa equipe para ir lá para o mato.

Não podem deixar essas pessoas morrerem. Essa é a nossa luta, a luta da Hutukara. O papel da Hutukara é lutar para cuidar, defender a saúde do povo Yanomami, proteger a terra, conservar a floresta, não deixar os rios sujos.

 

A criação da Hutukara Associação

 

Yanomami

 

Tudo começou quando visitei o Conselho Indígena de Roraima

(CIR). Eu participei da reunião deles, escutando, pensando e perguntando: “Como é que vocês conseguiram? Quem ajudou?” Eles me explicaram que era preciso lutar muito. Então conheci outra organização, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Fiquei pensando, observando. Depois da demarcação da terra Yanomami, eu pensei em criar a Hutukara. Primeiro, preparei os meus filhos para aprender a falar português, entender a língua dos brancos, a língua capitalista, a língua moderna. Para nós, é difícil. Os Ye’kwana também se prepararam. Então eu comecei a conversar com meus amigos antropólogos (Alcida Ramos, Bruce Albert), perguntando o que uma associação fazia, como funcionava, qual era o papel de uma associação para os napë. Meus amigos me perguntaram: “Você está querendo criar uma associação?” Eu respondi: “Sim. A Hutukara, para representar o povo Yanomami na cidade, como a Embaixada brasileira. A Hutukara vai defender primeiro a terra, segundo a floresta, terceiro a saúde, depois nossa língua yanomami.” Falei com a Cláudia Andujar e com o Carlo Zacquini, com o Bruce Albert, com o Marcos Wesley, de São Paulo, e eles me explicaram: “Você está certo. Nós vamos dar apoio, a CCPY vai ajudar. Vai dar dinheiro para pagar horas de voo para trazer outras comunidades.” A Embaixada Norueguesa também nos apoiou.

Então, mandamos aviões para buscar tuxauas (lideranças) de

outras comunidades e levar até onde eu moro. A Cláudia, a Alcida, o Bruce, a Diocese de Roraima, outros Macuxi, foram junto. Expliquei direitinho: “O papel da Hutukara é defender nossa terra, nossa língua, nossos costumes, nossas danças, nossos cantos, nossos xapiri, o direito do povo.” Deu muito certo. Temos grupos que nos dão apoio: a Catholic Agency for Overseas Development (Cafod), da Igreja Católica, o Instituto Socioambiental (ISA), a Embaixada norueguesa e a Fundação Rainforest dão um pouquinho de dinheiro para fazer a associação funcionar (pagar água, luz, comida quando fazemos reunião, equipamentos). Foi assim que criamos a associação para representar o povo Yanomami aqui em Roraima, no Brasil e no mundo. Esse é o trabalho da Hutukara e a minha luta. Eu viajo para longe para continuar a contar sobre a situação dos povos Yanomami, Ye’kwana e tantos outros.