Vozes indígenas na saúde: trajetórias, memórias e protagonismos

Ana Lúcia de Moura Pontes, Vanessa Hacon, Luiz Eloy Terena e Ricardo Ventura Santos (orgs.) · Capítulo 5 de 17

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Vozes indígenas na saúde: trajetórias, memórias e protagonismos

Conhecer as plantas, ouvir as mulheres

Conhecer as plantas, ouvir as

 

mulheres

 

Letícia Yawanawá

 

Meu nome em português é Letícia, meu nome na minha língua é Matahuxaw Yawanawá. Eu sou da Terra Indígena Rio Gregório e da região de Tarauacá, no Acre. O meu povo é Yawanawá. Atualmente estou na coordenação geral da Organização de Mulheres Indígenas do Acre, Sul do Amazonas e Noroeste de Rondônia (Sitoakore). Saí da minha aldeia em 1984. Sou filha e neta de lideranças, meu pai foi pajé, e eu trago comigo um pouco dos exemplos do meu pai, que era um líder. Nosso povo tem um só lugar, e foi quase dizimado. É um povo que sofreu muito, mas hoje estamos lutando pelo nosso fortalecimento cultural. Eu sou casada com o Antônio Apurinã, que também é uma liderança e foi coordenador geral da União das Nações Indígenas do Acre e Sul do Amazonas, a UNI-Acre.

 

Vendo toda a luta histórica do movimento indígena – a luta dos homens –, a gente percebia que as mulheres não tinham participação. As mulheres indígenas começaram a se organizar timidamente em 1994. Você ia para um lado, ia para o outro, e só homens estavam sempre à frente. Geralmente, uma mulher ouve muito a situação da outra, então, nesse sentido, a gente começou a se unir e a verificar como poderíamos fazer um trabalho com as mulheres indígenas que sofriam preconceito por serem índias e mulheres. Na UNI-Acre só havia mulheres secretárias, que não eram indígenas, nunca uma mulher indígena ficava ali trabalhando. Então, criamos um Grupo de Mulheres Indígenas (o GMI), dentro da UNI-Acre, e as mulheres votaram na assembleia da UNI-Acre em 1995.

Em 1998, fizemos o nosso primeiro encontro. Naquela época, a UNI-Acre tinha um trabalho muito consistente nas comunidades, atuando com a questão do reconhecimento e da demarcação das terras, e preocupada também com a questão ambiental, a saúde e a educação. A UNI-Acre levava e trazia muitas pessoas para fazer cursos e promovia a capacitação de lideranças. A saúde indígena, naquela época, estava na Fundação Nacional do Índio (Funai). Depois, foi para a Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Nesse momento, a UNI-Acre fez um convênio com o Ministério da Saúde. Foi nesse mesmo período que começamos a fazer nossso trabalho, fomos para as aldeias, mas nunca trabalhamos diretamente dentro da saúde indígena oficial.

Nós passamos a trabalhar numa saúde específica, no fortalecimento e valorização do conhecimento tradicional. Por quê?

 

A criação da saúde indígena deixou os pajés e as parteiras de lado. As parteiras têm muito conhecimento. Elas são as doutoras, elas são formadas, mas na sua tradição, no seu conhecimento das plantas medicinais. Os pajés também.

 

A UNI-Acre tinha um papel fundamental. Ela trabalhou com a Saúde Sem Limites, que foi muito importante, porque ia até as comunidades, dava palestras e também fortalecia a questão do uso e da valorização das plantas medicinais. Iam e levavam cartilhas na língua indígena para que os parentes indígenas lessem e passassem para os mais velhos.

Com o convênio que a UNI-Acre fez com a saúde indígena, ela passou a fazer o trabalho do governo, e não teve mais tempo de ir às aldeias, conversar com os parentes. Isso foi um erro. E quando nós, mulheres indígenas, questionávamos alguma coisa na UNI-Acre, não éramos convidadas. Então, um rapaz chamado Michael, vindo da Alemanha, disse que queria nos ajudar. Nós já tínhamos ido às aldeias e visto que ninguém queria mais trabalhar com as a parteiras e os pajés. A saúde indígena não teve a preocupação de incluir a parteira e o pajé para que eles dessem continuidade e passassem seu conhecimento para os jovens, para os agentes de saúde. Eles foram deixados de escanteio, e os pajés já não queriam mais fazer a cura com as plantas medicinais. Então, procuramos o Michael e explicamos que queríamos trabalhar com as parteiras e os pajés, para eles começarem a passar seu conhecimento para os mais jovens. Ele gostou muito da ideia e passou a nos apoiar, e ainda buscou outros apoios com a Fundação das Parteiras da Alemanha, que também nos ajudou.

A UNI-Acre começou o trabalho de saúde indígena e nós não fomos incluídas, porque muitas vezes a gente discordava de algumas coisas. Mas nós não ficamos paradas e buscamos apoio. Fomos para as aldeias e começamos a fazer cursos de aperfeiçoamento das parteiras. A parteira e o pajé já são formados na sua medicina, no seu conhecimento. Buscávamos apenas aperfeiçoar o conhecimento que eles já tinham com o conhecimento ocidental. Foi esse o trabalho que a gente começou entre 1999 e 2002, junto com a revitalização da planta medicinal e a valorização do seu uso. Isso nós já levamos para Roraima, para o Mato Grosso, com as mulheres Xavante (elas já fizeram o Primeiro Encontro das Parteiras), para os Xukuru, de Pernambuco. Lá as aldeias são diferentes das nossas e não têm as plantas que nós temos, mas elas também trabalham com planta medicinal. Naquela época, nós começamos o projeto só com a troca de experiências: como a outra faz parto, como passa o conhecimento para outras pessoas. Nós trabalhamos com 18 povos e sempre dizemos que os partos naturais não são iguais. Cada um tem a sua especificidade, a sua dieta, a sua planta medicinal, e formas de cuidar do parto, da grávida, do pós-parto.

No segundo momento do projeto – entre 2015 e 2017 – trouxemos a revitalização e a valorização das plantas medicinais, a questão da segurança alimentar dos povos indígenas e a questão da sustentabilidade, com foco no artesanato. O nosso artesanato está ligado à nossa cultura, à nossa espiritualidade, à nossa comida, à nossa planta medicinal, à nossa terra. Ele tem uma história, não é feito de qualquer jeito.

 

Por isso sempre dizemos: “A nossa terra é o nosso corpo, é o nosso espírito.”

 

E por que a segurança alimentar? Vimos que nas aldeias indígenas – não em todas, mas em muitas –, se não tivermos o cuidado, o nosso povo só come comida industrializada, enlatada. Nas nossas aldeias, antes, amanhecia o dia e tinha sempre um cipó cheio de banana, a criança dizia “eu quero comer banana” e tirava a sua banana. Fazíamos caiçuma de milho, de banana, de mandioca. Hoje você vê isso muito pouco. Na minha aldeia, tínhamos sete tipos de caiçuma: de milho, abacaxi, mamão, batata, batata doce, inhame, de tudo. Hoje você não vê mais isso. Hoje você vê o suco de pacote, amanhece o dia e você vê a criança comendo aquele isoporzinho amarelo. A gente também observa que os nossos velhos morriam com cento e poucos anos e hoje você vê mulheres e homens morrendo com 50, 60 anos, com hipertensão, diabetes. Isso não existia no nosso meio! Não existia câncer de mama e hoje já tem mulher indígena que tem. Por isso temos feito esse trabalho, que começou na época da UNI-Acre e segue até hoje.

No trabalho com as parteiras, chegamos a alcançar mais de 300 parteiras, mais de 270 pajés. Nós fizemos um diagnóstico com 18 povos e 13 oficinas em todas as regiões da Amazônia (Acre, Noroeste de Rondônia etc.), de uma enorme quantidade de espécies de plantas medicinais utilizadas na cura do câncer, da leishmaniose, em picada de cobra, para engravidar, para parar de engravidar, tudo o que se pode imaginar.

 

Com esse diagnóstico queremos que os velhos passem o conhecimento adiante e que a sociedade e a saúde indígena reconheçam que esse conhecimento precisa ser multiplicado para os mais jovens da aldeia.

 

Se nós, indígenas, e os nossos parceiros não estivermos preocupados, todo esse conhecimento vai morrer. Porque o meu avô e o meu pai, eles tinham um conhecimento muito grande, mas eles o levaram embora. Eles falavam, mas nós não tivemos como registrar, filmar, tirar fotos naquela época. Ficou só na nossa memória. Tudo o que estou dizendo está para ser publicado e buscamos quem possa nos apoiar para não deixar o nosso trabalho morrer.

 

Hoje, a saúde indígena está muito diferente de como foi pensada no passado. A UNI-Acre, junto da Saúde Sem Limites, tinha poucas pessoas, mas elas iam de um canto ao outro e passavam mais de um mês nas aldeias. Diziam: “Olha, parente, veja aquelas plantas. A mulher está com muita cólica. Vocês vão buscar tal planta e plantar perto de casa.” Incentivavam a farmácia viva. A saúde indígena não faz isso hoje, mas poderia fazer. A gente tem lutado para que esse conhecimento se fortaleça, porque a gente não quer que a saúde indígena acabe, a gente quer que o nosso conhecimento continue. Estamos pedindo que a saúde indígena tome isso como uma preocupação, para que ela deixe a sua recomendação em cada comunidade, em cada povo. É importante fortalecermos a nossa farmácia natural, que são as nossas plantas, que não precisamos pagar para tirar. Nesse sentido, a nossa luta é incansável.

 

A fundação da Sitoakore

 

De início, a gente falava uma coisa e os parentes homens diziam: “Ah, a mulher falou? Ah, nada! Ela não sabe de nada, não.” Hoje eles já ouvem as mulheres um pouco. Também porque já fizemos um bocado de coisas. E o que nós fizemos naquela época? Deixamos os homens para lá e fomos fazer o nosso trabalho de formiguinha. Nós fazíamos pequenos projetinhos, e víamos os homens comprando casa, moto, carro, indo para restaurante. Nós fazíamos uma farofinha, botávamos num saco, cozinhávamos um ovo, botávamos uma farinha, chegavam três, quatro, cinco mulheres, dividiam a farofinha. Naquela época, só eu recebia no projeto. Eram 60 reais que eu dividia para nós quatro. Daí cada qual comprava uma coisinha para depois voltar para casa às 17h.

Às vezes, nós não tínhamos dinheiro para a passagem de ônibus, então saíamos cedo, eu ia a pé da minha casa para o centro da cidade, gastava 1 hora e 40 minutos. Às vezes alguma de nós estava menstruada, tinha cólica, pegava aquele sol quente. Mas, mesmo assim, eu fiquei contente, porque prestamos conta direitinho e hoje eu não tenho processos na organização. Eu tenho orgulho de mim mesma e das minhas colegas parentes, porque dávamos força uma para a outra: “Olha, o que nós temos é isso, nós não temos dinheiro para pagar um restaurante, mas você trouxe uma farinha, você trouxe um pouquinho de arroz, eu trouxe uma banana, uma macaxeira, um ovo cozido. Vamos misturar e comer.” E eu via entre os meus parentes homens que, depois de dois, três meses de projeto, já estavam nos dando carona de carro, de moto. E a gente, depois de tanto tempo, não conseguia. Até hoje não temos. Mas isso serviu de aprendizado, porque a gente fez as coisas bem feitas e com calma.

Até que acabou a UNI-Acre, o prédio foi leiloado. Para a gente até hoje parece um sonho: o prédio que tinha sido comprado em nome dos povos indígenas. Foram quebrando o prédio e nós fomos tentando tirar as nossas coisinhas, fomos para a rua, chorando, “O que é que nós vamos fazer?” E pronto. Acabou a UNI-Acre.

Passamos assim o início dos anos 2000, sem o nosso trabalho, até que dissemos: “Nós não estamos mortas, nós somos resistentes.” Eu disse: “Gente, o que é que vamos fazer? Nós não temos mais organização, associação, nós não temos mais nada.” As mulheres já tinham voltado para a aldeia, outras foram trabalhar como domésticas. Então, em 2003, 2004, nós começamos a pedir ajuda ao Cimi, à Funai, aos amigos, para apoiar o nosso encontro. Em 2005, fizemos uma grande assembleia e constituímos a Sitoakore, que hoje é a Organização de Mulheres Indígenas do Acre, Sul do Amazonas e Noroeste de Rondônia. Nós nunca fomos dirigentes da UNI-Acre, mas já sabíamos como lidar com projetos, como prestar contas, como levar os projetos para as comunidades, como fazer com o pouquinho que recebíamos. Quando nós assumimos a Sitoakore e fomos eleitas com homens e lideranças presentes, continuamos a fazer o que a gente já vinha fazendo, buscamos outros parceiros e retomamos as nossas atividades.

Nós ainda não entregamos tudo para o pessoal que está no Subsistema de Saúde Indígena, mas já passamos um pouco para eles. E estamos em discussão para criar um Departamento de Plantas e Conhecimento Tradicional, dentro do DSEI. Tem que ter. Tem que ter o Departamento do Conhecimento Tradicional, que é a planta medicinal. Tem que ter um espaço para essas discussões dentro da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde. Estão perdendo muito quando não ouvem nossos gritos de “reconheçam”. Eu faço isso porque meu pai já se foi.

 

Meu pai dizia: “Minha filha, se você conhecer as plantas, pelo menos uma parte delas, você vai salvar sua família, seus filhos, seus netos.” Os velhinhos estão aí e ninguém está ligando. Estão todos preocupados em trazer mais remédio, mas não com esses conhecimentos que os parentes têm.

 

A luta e o lugar das mulheres indígenas

No meu povo, naqueles lugares onde pisavam apenas os pajés, homens, e onde minha avó ia deixar comida para 150 homens nas cerimônias de pajés com passos curtos, hoje nós temos mulheres pajés. Elas pisam no terreiro mais sagrado, onde só os homens pisavam. Às vezes, a gente tem que dizer que nós, mulheres, somos capazes. Eu posso dizer que, no Brasil, a mulher Yawanawá quebrou uma regra que foi imposta desde a nossa ancestralidade. Ela quebrou! Porque ela também queria conhecer! E nós sempre falamos que o espírito aceitou e ensinou.

Hoje eu tenho orgulho das minhas irmãs, por terem essa iniciativa. A gente tem isso com muita força. Eu sou conselheira distrital. Eu falo. Não quer me deixar falar? Eu vou lá, pego o microfone e falo. Digo também: “Vocês não nos pariram, fomos nós que parimos vocês, então vocês têm que ouvir a gente.” A gente tem muita garra e eu acho que a gente vai lutar até um dia conseguir. Nós queremos fazer o primeiro Encontro dos Saberes Sagrados Femininos, aqui na Universidade Federal do Acre, e a gente quer abrir para outros estados, instituições e países.

Quando nos encontramos com mulheres de outros estados, juntamos nossas vozes e dizemos: “Nós queremos que o conhecimento tradicional, que a planta medicinal, esteja incluída no plano de saúde.” E agora entrou! Entraram as questões da planta medicinal, das parteiras e dos pajés nas pautas de discussões dos conselhos locais, distritais e nacional. Isso ainda não está sendo implantado nos DSEIs, mas para nós já é um começo.

As mulheres ainda precisam pedir apoio para as lideranças: “Olha, eu não estou lá, mas você está, você tem que apoiar, porque isso é importante para nós. Eu quero pedir que a gente tenha um Encontro Nacional da Mulher Indígena.” Nós tivemos um encontro nacional, mas não foi de mulheres indígenas. E gostaríamos de ter um de mulheres indígenas, porque é uma especificidade, é o nosso costume. A gente vai ver experiências de vários estados, de vários povos, de várias mulheres. O nosso trabalho e as nossas atividades caem na invisibilidade. Nós fazemos todo o trabalho, mas quem aparece é a liderança: o homem, o coordenador, o presidente da associação. Mas os homens não falam de saúde da mulher. Quem fala somos nós. Por isso nós queremos que seja um Encontro Nacional de Mulheres Indígenas.

Pautas em transformação

 

 

Nosso trabalho e nossas questões foram mudando. Quando criamos o Grupo de Mulheres Indígenas (GMI), primeiro trabalhamos com palestras. Porque, como mulheres, víamos que os homens iam para as cidades e traziam muitas doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Então, começamos a fazer um trabalho para aprender o que eram as DSTs para depois falarmos delas, junto com a preocupação da medicina tradicional. Começamos a fazer um trabalho de capacitação das mulheres jovens, de incentivo aos estudos, para que elas viessem a assumir. Naquela época, não tinha ainda essa questão do salário maternidade, as mulheres não se aposentavam, os parentes indígenas não se aposentavam. Quando a gente passou a conhecer isso, levamos para a aldeia: “Olhem, vocês têm esse direito!” Para as mulheres, tirar a documentação foi um desafio muito grande, porque os homens que iam para a cidade tinham documento, mas as mulheres, que não saíam da aldeia, não tinham documento.

A partir da Sitoakore, a gente ampliou o trabalho, com foco na segurança alimentar, nas mudanças climáticas e na violência contra a mulher indígena. Com o trabalho que fizemos, identificamos a questão da violência contra a mulher indígena, que fica muito invisibilizada. Não tem nenhum dado da prefeitura, do estado, simplesmente não tem! O IBGE faz levantamentos, mas sobre as mulheres da cidade e não as indígenas. Fomos nós que identificamos isso e fomos para as aldeias conversar. E essa questão da violência contra a mulher é delicada, não dá para você chegar dizendo “Eu vou denunciar!” Não. Você tem que respeitar o costume e as penalidades daquele povo. Então, eu vou aos poucos, devagar, e digo: “E aí, parente, chama a sua mulher, a sua filha, a sua sobrinha para participar da reunião. As nossas vozes com os homens só têm a somar.”

Tem um jeito de convidar os parentes, tem uma forma de falar. Você não vai sair denunciando, esculhambando, pois senão você nunca mais entra naquela aldeia. A partir do momento que você é amiga daquelas lideranças, daquelas mulheres, você tem livre acesso para chegar e ser bem recebida, com comida, com caiçuma. E vai ganhando aquela mulher para somar com você. Eu vejo que o trabalho da Sitoakore hoje é somar com os homens, para a defesa da nossa terra, da nossa floresta e do nosso bem-estar. Tem algo mais que a gente quer, também. A gente está dizendo: “As mulheres indígenas têm que estudar, elas têm mais dificuldade.” A mulher está com a sua criança, bota a criança na tipoia, dá de mamar, escreve. A gente vê que ela quer sair dali, mas sem ferir ninguém, sem ferir seu povo, suas lideranças, respeitando, mas ela quer sair daquela invisibilidade. Por isso, eu vejo que o nosso trabalho se ampliou.

Ainda hoje nós temos dificuldades, vivemos da venda de artesanato. Nós dissemos ao governo do estado que precisamos de espaço. E, pela primeira vez na história do Acre, temos um espaço de venda das artesãs indígenas que fica no centro da cidade de Rio Branco.

Com o trabalho da segurança alimentar, nós mandamos um projeto para o Consulado do Japão e ele foi aprovado. Nós queremos trazer nossa comida tradicional para a mesa do brasileiro, do acreano. Ela tem que ser higienizada, ser bem-feita, mas queremos dizer que aquela comida é tradicional, que aquela verdura é tirada da aldeia, que aquela caiçuma de macaxeira é saudável. Eu quero que a sociedade reconheça isso. No Encontro dos Saberes Sagrados Femininos, a gente vai ter as comidas tradicionais, a caiçuma tradicional, a cerimônia de mulheres, a cura das mulheres pajés, nós vamos ter as nossas medicinas sagradas.

 

A experiência no Conselho Nacional de

 

Segurança Alimentar e Nutricional

 

(Consea)

 

Depois que eu passei a acompanhar o movimento indígena, eu falei na Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), em Manaus, que a questão da segurança alimentar era importante. Então, eles me indicaram para o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Eu fui a primeira indígena a trabalhar como conselheira no Consea, pela Coiab. Eu fiquei com o Xavante Agnelo, que era o titular. Fui escolhida por votação, todos os nove estados votaram. Acho que eles votaram em mim porque eu gosto de cobrar muito. Fiquei dois anos como suplente, até que o Agnelo não quis mais participar, ele tinha muita dificuldade com o português. Ele dizia: “Eu não entendo.” Tudo o que eu via, eu escrevia no meu caderninho, eu cobrava, tentava acompanhar.

O Consea foi a minha escola, porque eu ali percebi a diferença entre as comidas saudáveis e as que faziam mal, e nós indígenas somos ricos em comidas saudáveis. Agora, precisamos nos aperfeiçoar. No Consea, eu também encontrei muitos quilombolas, ribeirinhos, e isso foi muito importante. Eu cobrava muito, eu queria saber, eu perguntava, eu perdi um pouco da vergonha e dizia, na plenária cheia: “Eu quero saber sobre isso aí! Eu não estou entendendo direito, me explica.” Eles tinham paciência em me ensinar. Eu participava muito das reuniões, levava propostas, mandava para todo o estado.

Então saiu o 1º Inquérito Nacional de Saúde e Nutrição dos Povos Indígenas, que dizia que, de mil crianças indígenas que nasciam, cem

morriam.1 Quando eu li aquele documento, eu disse numa plenária: “Está aqui o 1º Inquérito Nacional de Saúde e Nutrição dos Povos Indígenas, tem os dados completos, muitos países participaram, fizeram esta pesquisa. E não vai dar resultado? Se o Consea não apoiar o Encontro de Mulheres Indígenas para discutirmos a questão da segurança alimentar neste país, eu renuncio como conselheira indígena e vou dizer para todo o meu estado que renuncio porque eu não estou aqui só para fazer pesquisa.” Todos os meus colegas se levantaram, bateram palma, me abraçaram e não foi nem preciso ir para votação. Eu disse: “A gente vê morte de mulher, a gente vê morte de criança, a gente vê morte de povos indígenas. Servimos só para pesquisa? Onde estão os resultados em benefício dessas mulheres que estão morrendo?” Foi aí que nos apoiaram no 1º Seminário de Mulheres Indígenas e Segurança Alimentar e Nutricional.

Na passagem pelo Consea, nós vimos também as parentes Terena e Guarani falando que aviões jogavam veneno sobre eles e que até o leite do peito das mulheres era contaminado. Eram muitas experiências de vários estados que eu levava, e eu era ouvida, as pessoas me respeitavam. As quilombolas, as ribeirinhas e as trabalhadoras rurais também levavam suas experiências e eram ouvidas.

 

Para mim, acabar com o espaço do Consea foi acabar com um avanço que o Brasil teve.

Eu fiquei muito triste, não quis mais responder minhas amigas, chorei bastante. Porque ali nós também falávamos do cuidado com as sementes crioulas, as sementes tradicionais, visitávamos a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Por conta do Consea, eu levei à Embrapa a fava que minha avó plantava.

Quando saí do Consea, eu disse: “Eu não consigo abraçar o Brasil, então eu vou fazer um pouquinho no meu estado.” Foi por isso que eu comecei a ampliar o projeto, a troca de experiências com as parteiras e pajés, o debate sobre segurança alimentar. Hoje nós temos esse trabalho, mas nós queremos fazer mais: queremos juntar e guardar as sementes, queremos transformar a medicina.

Estamos na Sitoakore desde 2005, há 14 anos. É um trabalho que a gente faz com dificuldade, mas que não queremos parar. Como me disse uma parteira: “Nós somos uma voz no meio da floresta e poucos nos ouvem.” Poucos têm essa sensibilidade em relação à questão da planta medicinal. Mas nós a valorizamos muito. Quero que as pessoas conheçam mais sobre o nosso trabalho.