Vozes indígenas na saúde: trajetórias, memórias e protagonismos

Ana Lúcia de Moura Pontes, Vanessa Hacon, Luiz Eloy Terena e Ricardo Ventura Santos (orgs.) · Capítulo 11 de 17

Páginas do PDF

Vozes indígenas na saúde: trajetórias, memórias e protagonismos

Lutar pelo que era nosso

 

Iolanda Pereira Macuxi

 

Eu sou Iolanda Pereira da Silva, da etnia Macuxi, da comunidade Uiramutã, em Roraima. O meu nome Macuxi é Kaiwono'. Trabalho com a saúde indígena. Sou filha de um pajé que é também tuxaua, liderança da comunidade há 45 anos, atuando até hoje na saúde indígena. Eu sempre morei na aldeia indígena Uiramutã. Nasci na comunidade, cresci ali. Comecei a estudar aos sete anos de idade e aos onze parei, porque a escola da comunidade era uma escola não indígena. Em 1988, foi inaugurada a primeira escola indígena da região das Serras e fui estudar nessa escola. Passei só um ano e meio estudando ali, porque não tínhamos material, não tínhamos apoio do governo, era muito difícil ficar. Voltei para a comunidade, mas não quis mais estudar na escola não indígena, porque havia muita discriminação. Eu só falava a língua macuxi, e na escola era proibido falar a nossa língua. Quem falasse, levava reguada, ficava de castigo. Tínhamos que aprender a falar o português. Nós aprendemos e acabamos deixando de falar a nossa língua.

 

Quando fui estudar na escola indígena, eu vi que a nossa cultura, a nossa língua, era uma coisa muito preciosa, que não podia acabar. Na escola indígena eu aprendi muita coisa. Eu aprendi a fazer as coisas que a gente não fazia em casa, como trançar, fazer tipoia, colares, pinturas. Eu estudei numa escola que estava resgatando os nossos valores, e gostei. Quando voltei para casa, falei para o meu pai que eu não iria mais estudar na escola não indígena. Eu só iria estudar se na nossa comunidade abrissem uma escola indígena. Então fui trabalhar com o meu pai, que era pajé.

Aos onze anos ele me escolheu para ser assistente dele. Como eu sabia escrever um pouco, eu tinha que escrever para ele, relatar algumas coisas que ele fazia, como as receitas, o tratamento dos pacientes que ele recebia em casa. Nós tivemos um trabalho muito árduo nesse período (por volta de 1987), porque era muita gente doente, e não havia um posto de saúde próximo, não havia ninguém que trabalhasse com saúde. Era muita gripe, já havia malária, tuberculose, doenças que a gente não conhecia. O pajé tinha dificuldade para tratar aquelas doenças. Ele tinha que pesquisar.

Em 1987, criou-se o Conselho Indígena de Roraima (CIR). Eles ainda estavam se organizando, vendo quais eram os melhores meios para organizar as comunidades, e eu acompanhei essa trajetória. Eu andava com meu pai, viajava muito, participava de muitas reuniões de organização das comunidades, fazia os relatos. Era muita gente, reuniões regionais e estaduais. Nas reuniões eles debatiam muito sobre a organização da comunidade, as plantações, a criação de animais, a retomada das terras. Porque não tínhamos mais terras. As nossas terras estavam invadidas por garimpeiros e por fazendeiros, e tínhamos que nos organizar para retomá-las. Foi uma época muito difícil. Não tínhamos apoio do governo. A Fundação Nacional do Índio (Funai) atuava, mas pouco, não tinha muita força.

Nós, os Macuxi, fomos buscando conhecimentos junto aos outros povos que se uniram para formar o CIR, com sede aqui em Boa Vista. Havia os Wapichana, os Patamona, os Ingarikó, os Taurepang. Eu fui acompanhando essa trajetória toda, era uma menina ainda. Como a primeira mulher dentro dessa organização, eu não podia falar, porque eles não deixavam a mulher falar. Tínhamos só que acompanhar. Mas eu fui teimosa e aos 13 anos comecei a falar. Quando meu pai viajava, eu já respondia na comunidade por ele, fazia todos os relatos, todos os documentos.

Morávamos numa região muito polêmica, que é a Raposa Serra do Sol, onde há muito recurso, muito minério, e onde ficavam as grandes fazendas dos não indígenas. Até hoje é um lugar muito cobiçado. A gente lutava para conseguir nosso espaço. Vendo que tínhamos muita coisa para fazer, o meu pai e outras lideranças começaram a ocupar espaços. Nesse período, começamos a ocupar terrenos com pequenas criações, e a Igreja Católica também doou alguns projetos de gado. Nessas ocupações, conseguimos fazer todo um trabalho junto com as comunidades. Por exemplo, quando se fazia um retiro, uma casa, e o fazendeiro mandava queimar, o pessoal ia lá e construía duas. Se queimassem as duas, fazíamos três, quatro. Há lugares em que a comunidade foi construída assim. Era para fazer só um retiro, o fazendeiro mandou queimar, e aí fizemos mais duas, três, quatro casas. O que eles queimavam ia se multiplicando. Mas a gente nunca agrediu ninguém. O nosso trabalho sempre foi pacífico. Eles vinham com tudo: Polícia Militar, Exército, todo mundo para cima dos indígenas. Mas a gente não revidava com armamentos ou qualquer outra forma de violência. A gente só queria o nosso espaço, e conseguimos dessa forma.

Já na região onde hoje é o polo base Willimon, as comunidades indígenas trabalharam nos garimpos e se juntaram para comprar as terras e fazendas que ficavam lá dentro. O Willimon era uma fazenda onde se criava muito gado, havia um alambique e algumas outras coisas ali. A gente conseguiu desocupar uma boa parte das terras sem entrar em confronto. Foram terras compradas.

Nesse período de luta, era o pajé quem cuidava das questões de saúde. As parteiras cuidavam das mulheres grávidas, o pajé cuidava dos pacientes, e havia pouquíssimos atendentes que trabalhavam pela Funai, pela Missão Evangélica da Amazônia (Meva) e pela Diocese de Roraima. Na nossa região (Maturuca, Willimon, Flexal, Caraparu e Monte Moriá II), acho que só havia uns cinco.

Esses atendentes faziam de tudo. Extraíam dentes, suturavam, faziam curativos, davam injeção, soro, tudo que pudessem fazer.

 

Antes dos garimpos não havia muita doença. Depois que eles foram abertos, tivemos epidemias de malária, tivemos muita tuberculose, doenças sexualmente transmissíveis, e outros tipos de doença foram chegando.

 

Morreu muita gente, muita criança. No trabalho com o meu pai, muitas vezes chegávamos numa casa e estava todo mundo doente. Não tinha ninguém para fazer nada para ninguém. Nos trabalhos que fazíamos, quando a gente encontrava uma família toda doente, a gente deixava alguém para cuidar dela. Quando a família começava a melhorar, aquela pessoa adoecia. Era difícil. Foi um período de muita luta.

 

Uma história de luta

 

Meu pai era pajé. Muita gente levava filhos doentes, levava parentes doentes, e a gente trabalhava com plantas. Meu pai pedia para fazer banhos, chás, inalação, o que o paciente precisasse. Como assistente dele, eu fazia esse trabalho.

Eu tinha 14 anos quando um enfermeiro passou na casa dele e deixou um kit de primeiros socorros. Eram duas seringas de vidro, soro, alguns remédios, soro antiofídico. Mas não houve aquele cuidado de ensinar como se fazia, como se cuidava do material. Meu pai aplicava nas pessoas que precisavam. Às vezes elas chegavam muito mal. Depois a gente levava tudo para o Willimon, a comunidade mais próxima que tinha um atendente, e o atendente desinfetava o material do meu pai. Depois, já com 15 anos, ele me ensinou, e eu mesma passei a fazer a esterilização do material. Como pajé, meu pai curava muita gente, e a casa dele, que é bem grande, servia para fazer a internação dos pacientes. Eu gostava desse trabalho. Aprendi muito. Ele me ensinou muitas coisas sobre as plantas.

Até que, aos 16 anos, eu saí de casa. Me casei, fui morar numa outra comunidade, mas não deixei o trabalho. Continuei trabalhando junto com as lideranças, só que não mais como eu trabalhava com meu pai, mas levando documentos, fazendo denúncias. Já não deixávamos mais os não indígenas entrarem e fazerem casas. As terras já eram nossas, pois tínhamos comprado, e tínhamos muita coisa.

 

Eu me lembro que apareceu um senhor que queria arar as terras e levou o primeiro trator, a primeira máquina pesada que entrou lá. Me avisaram que ele já estava na roça e que ia começar a fazer o trabalho. Fui procurar o pessoal da comunidade, que não quis ir: “A gente não vai lá, porque a máquina é grande.” Eu chamei a minha irmã e disse: “Você vai comigo. Não vamos deixar.” Fomos até lá e eu avisei: “Não vão fazer isso, porque o meu pai não está e ninguém pode fazer isso sem autorização.” Ele me perguntou quem iria impedir. Eu fui para a frente do trator: “Vocês só vão fazer se passarem por cima de mim”. A minha irmã gritava, mas o motorista não teve coragem (já o outro, que estava com ele, pedia para avançar!). Muitas vezes, a gente faz coisas por impulso. Fomos para a delegacia, para a prefeitura, e eles não conseguiram entrar nas nossas terras. Foi assim que conseguimos manter as nossas terras e fazer com que nos respeitassem mais. Não chegaram a invadir outra vez. A gente levava as denúncias para a Polícia Federal, para a Funai. Às vezes éramos ouvidos, às vezes não.

Outro momento forte foi quando o Exército foi se instalar na comunidade. Também não havia outra pessoa que respondesse pelo meu pai. Era só eu. E fui enfrentar o Exército. Entramos na Justiça contra eles.

Eu sempre fui essa pessoa de muita coragem. Meu pai falava que a gente tinha que lutar pelo que era nosso e para que os nossos filhos tivessem um futuro melhor. Eu não tinha nenhum filho, mas já pensava neles. Meu pai, quando era criança, foi vendido. Ele foi escravo. E a gente não queria isso para a nossa vida. Ele nunca deixou a gente trabalhar para ninguém, nós tínhamos que lutar pelo que era nosso. Ele foi essa pessoa. Eu tinha que fazer tudo isso, porque não ia ter ninguém que fizesse por mim.

 

Se a gente não tivesse feito tudo que fez até aqui, ninguém respeitaria os povos indígenas. A nossa terra, a gente conquistou assim, com muita luta.

 

Eu era muito menina, eu não tive infância e não tive adolescência, porque a responsabilidade de estar à frente com meu pai, de responder se ele não estivesse, era muito grande, encaminhando os documentos que, muitas vezes, o pessoal da comunidade não tinha coragem de encaminhar. Quem iria assinar se a gente não estivesse lá? Quem iria responder? Foram momentos muito difíceis para mim.

O Exército passou dois anos tentando até que ganharam (claro, a Justiça sempre está do lado deles) e conseguiram fazer o quartel. Mas aí, também, nós pedimos que houvesse regras. Se aquele local era deles, eles ficariam naquele local, mas não poderiam entrar nas comunidades. Até hoje a gente mantém isso. Para a sede eles vão, mas entrar nas comunidades de qualquer jeito, eles não entram.

Mais um momento muito forte foi a construção da sede da prefeitura. Queriam fazer dentro da nossa comunidade. Estava todo mundo na roça, e o meu irmão foi me chamar e disse: “Mana, vão construir a casa do prefeito lá na comunidade. Já estão limpando, já estão até enfiando umas madeiras.” Nós fomos para lá. Quando chegamos, tinham limpado o terreno e já estavam esquadrejando. Era muita gente, inclusive o pessoal da Polícia Militar. Eu fui conversar com o sargento e ele disse: “Aqui quem manda é a gente.” Eu olhei para ele, ri e disse: “Nunquinha vocês mandaram aqui. Isso, aqui, vocês não vão fazer.” Eu disse à minha mãe, que ficou preocupada: “Mãe, não tem conversa. Isso aqui é nosso. Ele que vá construir dentro da vila, porque aqui não vai fazer.” Tirei os piquetes e o meu tio chegou para me ajudar a tirar as madeiras que já estavam por lá. Levaram a gente para a delegacia. Eles falavam que só não me prendiam porque eu era mulher. No outro dia, quando meu pai chegou, conseguiu um rádio da Funai e repassei o ocorrido. Chegaram um dia depois, coisa de filme. Quando chegaram, a gente já tinha feito eles pararem e procurarem outro lugar para construir. Assim, conseguimos manter a nossa comunidade sem outro meio de ocupação não indígena. Daí em diante foi só trabalho. Fui trabalhando e buscando meios para ajudar mais o nosso povo.

 

As retomadas e o acesso às políticas

 

públicas de saúde e educação

 

Nas nossas grandes reuniões, falavam das retomadas das terras, mas também falavam de educação e de saúde. Diziam que tinha que ser do nosso jeito, uma educação indígena, uma saúde indígena. Tinha que ser indígena. Isso foi um debate muito forte em 1986, quando surgiu a escola indígena no Canta Galo. A primeira escola do estado de Roraima foi no Canta Galo, a Escola Siminy’o. Essa escola foi fruto de um debate da assembleia sobre que escola queríamos. Já havia as escolas não indígenas e as escolas dos missionários, que eram internatos no Surumu. Para lá eram mandados muitos indígenas. O meu irmão mais velho estudou no Surumu. Quando fizemos o debate sobre educação, discutimos que escola queríamos, como iríamos criar essas escolas, de que forma iríamos trabalhar, quem daria suporte a essas escolas. A questão foi se colocando da nossa forma. De início, a Diocese nos ajudou na criação das escolas indígenas. Na saúde, foi do mesmo jeito. A Diocese foi muito importante para a saúde indígena dentro das comunidades.

Não sabíamos tratar alguns tipos de doença, e fomos entendendo que só o não indígena poderia tratar aquelas doenças. Fomos vendo também que nós não tínhamos que tratar, porque não eram doenças nossas, não eram doenças dos indígenas.

 

Sempre digo que os tuxauas não eram estudados, não sabiam ler nem escrever, mas foram grandes pensadores. Eles pensaram num futuro muito grande.

 

Quando se criou a escola indígena, eles já pensaram na universidade para que os professores indígenas pudessem estudar e não precisássemos mais do não indígena para ensinar os nossos filhos. Foi assim que se criou também a saúde indígena.

Quando houve a epidemia de malária, em 1988, 1989, eles buscaram apoio no exterior pela primeira vez. Já na década de 1990 (por volta de 1991, 1992), o tio Jacir de Souza foi de novo para o exterior. Ele sempre viajou para reuniões fora e, numa dessas grandes reuniões (acho que na Noruega), ele falou da saúde. Nessa viagem, ele conseguiu doze microscópios e uma parceria com os Médicos sem Fronteiras. Foram eles que vieram fazer a formação dos primeiros agentes indígenas de saúde.

 

Em 1992, explicaram na assembleia como esses médicos iam chegar e como ia ser a formação dos agentes de saúde. Então, os tuxauas pediram que eles acompanhassem o tratamento da saúde indígena como já vinha sendo feito e que incluíssem o trabalho do pajé, do rezador, da parteira. Foi um momento importante, porque falaram da saúde diferenciada. Não aceitaram só o tratamento não indígena.

Eu nem pensava em ser agente de saúde. Eu gostava muito da batalha pela terra, de estar junto das grandes lideranças. E eu queria muito ir para o convento. Vemos a dedicação das missionárias para ajudar o povo. Eu queria muito isso, mas a minha mãe não deixou. Então, em 1993, quando os agentes de saúde foram escolhidos pelas próprias comunidades, me escolheram. Aí pronto! Acabou meu trabalho com as lideranças indígenas pelas terras e vim para a saúde.

 

O início da experiência na saúde

 

Em setembro de 1993 fizemos o primeiro curso no Surumu para esperar os Médicos sem Fronteiras. Como eu já acompanhava o trabalho do meu pai e tinha noção do tratamento que se fazia com o pajé, não foi difícil. Foi fácil. Era só eu saber fazer o diagnóstico. Eu já sabia mais ou menos onde aplicar uma injeção ou como esterilizar o material, porque eu tinha aprendido na marra. De 1993 até 1998, ficamos com os Médicos sem Fronteiras. Naquela época, não havia ninguém cuidando da saúde indígena. A Funai entrava algumas vezes, mas não era sempre.

Quando os Médicos sem Fronteiras chegaram, eles ficaram nas comunidades com a gente durante a nossa formação, porque havia muita gente doente, muita gente com malária. Já não era mais como em 1988, 1989; era uma epidemia, mesmo. Aconteciam remoções de 150, 200, 300 pessoas. Foi muito difícil fazer aquele trabalho, mas ele foi feito. Nós conseguimos fazer, baixar o índice de malária, e tivemos uma formação geral, em tudo.

Essa formação incluía cursos e a supervisão dos Médicos sem Fronteiras. Eles davam cursos de 15 dias e então vinha o período de supervisão. O trabalho da gente era supervisionado todo o tempo por médicos e enfermeiros. Até hoje nós não tivemos trabalho igual ao dos Médicos sem Fronteiras. Eles foram únicos.

Em 1987, o Seu Clóvis Ambrósio falou sobre uma conferência da qual ele tinha participado. Eu tinha só 11 anos, não conseguia prestar muita atenção, escrevia aquilo que dava, mas o ouvi falando sobre a criação de um subsistema de saúde indígena. Depois, nós tivemos um grande movimento pela saúde. Ele colocou para nós que era preciso decidir como iríamos participar de uma nova Conferência Nacional de Saúde Indígena que iria acontecer.

Tivemos algumas reuniões, incluindo uma reunião grande aqui em Boa Vista, para a qual o Seu Clóvis Ambrósio trouxe o assunto, e houve toda uma movimentação para a Conferência. Nessa época, eu não era muito ligada à questão da saúde. Sempre que havia grupos de trabalho sobre educação, saúde ou terra, eu ia para o grupo da terra. Em 1993, a história mudou totalmente. Eu deixei aquilo de lado, tentei entender a saúde. Eu queria saber o que realmente íamos fazer.

Quando me envolvi com a saúde, eu já era parteira. O meu pai, como pajé, acolhia as pessoas, e sempre apareciam algumas grávidas com o bebê transverso ou pélvico, para ele ajeitar. Às vezes, elas já ganhavam o neném na casa dele mesmo, e eu ajudava. Fiz o primeiro parto de uma mulher aos 18 anos. Eu nem tinha filhos ainda, estava grávida de três meses, nem sabia como era. Fiz esse parto porque o meu pai estava na roça e a mulher sentiu dor. Como ele tinha o material dele, eu só esterilizei e fiz o que podia para ajudar a mulher. A partir daí, o pessoal passou a me chamar. Então, quando eu me tornei agente de saúde, eu já era parteira, e outras coisas eu fui aprendendo depois.

Para que tivéssemos uma saúde diferenciada, como os tuxauas colocaram, não bastavam as coisas do branco. Tínhamos que trabalhar as duas partes: a saúde do branco e a saúde do índio. E mais uma vez a Diocese entrou na nossa história. As irmãs nos ensinaram a fazer remédio, xarope, tintura, pomada. O trabalho era muito árduo. A gente se juntava em 10, 15 agentes de saúde e ia passando de comunidade em comunidade, ajudando agentes que tinham muita gente para tratar. Às vezes, passávamos uma semana em uma comunidade, depois íamos para outra.

A nossa região – que é a região das Serras – sofreu muito com a malária. As regiões perto de Boa Vista também. Até hoje a região conhecida como “Lavrado” tem muita malária. Nós, já com os Médicos sem Fronteiras, formamos o nosso primeiro microscopista, que foi o tio Dionito, irmão do Seu Jacir. Levaram ele para fazer a formação em Manaus – não só para examinar malária, mas também outras coisas.

 

A criação do Distrito Sanitário Especial

 

Indígena Leste de Roraima

 

Em 1998, os Médicos sem Fronteiras saíram e nós ficamos com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Só que a Funasa não tinha enfermeiros suficientes para cuidar da área indígena. A enfermeira Constância dava aula às sexta-feiras, por radiofonia, para os agentes de saúde. A gente não conhecia a nossa enfermeira, só a ouvíamos pelo rádio. Quando a gente queria alguma coisa, chamava por rádio e ela falava, também por rádio, o que a gente tinha que fazer. Tinha que ser muito bom para dar o diagnóstico do paciente!

Não havia muitas remoções de pessoas. Nós tínhamos muitos medicamentos, injetáveis, antibióticos. Quanto às suturas, a gente só informava que tinha um paciente e ela orientava como fazer. Éramos voluntários. Eu passei três anos como voluntária, outros passaram cinco anos. Depois, entrei num dos convênios da Diocese. Na época, acho que recebíamos 50 reais, era bem pouquinho. Mas conseguimos mesmo assim. A Funasa nos deu aulas de 1998 até 2000.

Em 2000, foi plenamente implantado o Distrito Sanitário Especial Indígena Leste de Roraima (DSEI Leste RR), finalizando um processo que vinha desde meados da década de 1990. Eu nem acreditava que isso ia acontecer. No mesmo período foram criados os centros na região das Serras, o polo base que existe hoje. Na época, eles foram criados por essas lideranças que eram analfabetas, mas que pensaram muito grande.

 

As lideranças mapearam a região e foram dizendo “tal comunidade vai pertencer a tal polo”, definindo com quantas comunidades aqueles polos iam ficar.

 

Eles fizeram um mapeamento com micro-áreas. Só que eles não imaginavam que estavam criando um sistema. Era a forma de organizar para que os tuxaua pudessem acompanhar como estava sendo a evolução dos agentes de saúde, se eles estavam trabalhando bem. Precisavam de líderes e esses centros foram criados para poderem ter esse acompanhamento.

Eu me lembro que já existia uma briga entre as comunidades que apoiavam os fazendeiros e as que não apoiavam. Nas nossas reuniões, o pessoal colocava: “Mas esses centros aqui vão ficar com os parentes e comunidades que apoiam os fazendeiros? Nós vamos acompanhar?” Então, a Diocese nos mostrou que, na educação e na saúde, era preciso incluir todo mundo: “A saúde é tratada assim. Se a gente deixar, quem é que vai cuidar? O medicamento que vocês têm, eles também devem ter. Lá tem parentes seus, os pais, os filhos.” E todos entenderam.

Essa discussão sobre não deixar os parentes de fora foi trazida pelos missionários, como Padre Pedro, Padre Lírio. O Dr. Paulo também nos incentivou muito, ajudou muito nessa formação, inclusive para a entrada dos Médicos sem Fronteiras. Ele andou nas comunidades para ver quem seriam os agentes de saúde, explicando mais ou menos o perfil desejado. Foi nessa armação que eles me acharam!

Em 2000, nós tivemos uma assembleia dos tuxauas para explicar o trabalho da saúde indígena e como ela estava sendo criada. Foi quando o Dr. Paulo falou: “A organização que vocês fizeram nas Serras pode valer para outras organizações de outras regiões.” O Seu Jacir era o coordenador regional e fez um desenho de como era a organização da região das Serras, com o centro regional (Maturuca) que tínhamos criado. O Dr. Paulo pediu para apresentar para outras regiões, para fazerem daquele mesmo jeito, colocando os polos nos centros que já estavam organizados. Não foi difícil criar os polos base, porque eles já existiam como centros das comunidades indígenas.

 

O convênio CIR-Funasa

Quando tivemos a reunião com a Funasa, ela se apresentou como a instituição que iria cuidar da saúde indígena. Como eu já estava na saúde e me interessava pelas coisas, comecei a acompanhar o trabalho da Funasa de perto. Eu acompanhava muito a gestão deles. Eu vinha da comunidade, ia conversar, saber como é que fariam. Minha preocupação era como eles iam abordar as comunidades indígenas, como iam fazer para chegar em cada comunidade. Porque havia comunidades em que nunca tinha ido ninguém. Essa foi uma preocupação que me fez acompanhar a gestão.

Ali ninguém gostava de índio. Algumas pessoas tinham certas rejeições quando eu chegava. Então eu dizia: “Não estou aqui para vocês gostarem de mim, e não vou sair daqui sem resposta.” Tinha que ter uma resposta sobre o que ia ser feito, como ia ser feito, por que ia ser feito. Então, em março de 2000, foram criados o conselho local e o distrital.

Como eu já tinha acompanhado a criação do Conselho Indígena de Roraima (CIR), para mim foi muito fácil fazer esse trabalho de controle social na nossa região. Nós também tivemos muita ajuda da equipe multidisciplinar criada pelo convênio CIR-Funasa. A organização do CIR firmou o convênio com a Funasa e foi trabalhar no atendimento da saúde indígena. Eram poucas equipes de saúde. Mas agora já havia os agentes de saúde, e bons agentes! Fazíamos tudo. A gente aprendeu de tudo. Não existia mais aquela dificuldade de você chegar e o enfermeiro não ter um auxiliar para fazer o trabalho. E, quando o enfermeiro saía, a gente não sentia falta, porque a gente fazia o mesmo trabalho que ele fazia. O período de 2000 até 2006 foi muito bom para a saúde indígena. Conseguimos realizar muitos trabalhos durante esse período, com o CIR coordenando.

Só que não foi fácil a experiência da organização indígena estar à frente da contratação e execução das ações de saúde, porque a Funasa nunca viu o CIR como um parceiro. Existia uma rejeição. Eles não gostavam de indígenas. Não acompanhavam o trabalho nem orientavam, só criticavam, e a coordenação do convênio tinha que se virar para fazer as coisas. A Funasa entregava o dinheiro e não havia supervisão. Então a nossa solução era buscar apoio da Diocese. O Dr. Paulo, da Diocese, coordenou o convênio.

Houve contratação do pessoal da sede e do setor administrativo, mas nós, agentes de saúde, não fomos contratados. Eu acho que nessa questão o CIR errou. Ficamos recebendo bolsas de 2000 até 2006. Essas bolsas eram entregues em espécie. Eu fui coordenadora do polo base de 2003 a 2006 e, nesse mesmo período, também fui presidente do conselho da minha região. A gente fazia os pagamentos em espécie. O dinheiro vinha em envelopes, a gente recebia e tinha que abrir para ver se estava tudo direitinho. Então eu assinava os recibos. Era um negócio meio doido. Só em 2007 nós, agentes de saúde, fomos contratados com carteira assinada.

Depois que eu entrei para a área de saúde, já com o convênio CIR-Funasa, a Funasa sempre pagou as minhas passagens para ir às reuniões como representante indígena. Às vezes, eu ia para representar um programa (Saúde da Família, Tuberculose, DST-Aids), outras vezes ia para reuniões de pactuação. Eu não entendia quase nada, mas eu estava lá. Aprendi muito. Com isso, eu me dedicava mais e já não deixava a gestão andar de qualquer jeito. Eu tinha que fazer isso. Quem iria saber como estava o nosso convênio?

Tivemos um problema muito sério no período do convênio CIR-Funasa. O nosso coordenador da Funasa nos informou que estavam acabando os recursos das horas de voo. Fomos atrás e, já que ninguém queria fazer as investigações, nós fizemos. Pedimos para o Tribunal de Contas da União e para a Controladoria Geral da União acompanharem, e houve a prisão de 25 pessoas. Foi um período em que ninguém queria mais me dar informações, mas como eu já sabia o caminho das pedras, fomos atrás do mesmo jeito.

Por outro lado, com o CIR-Funasa nós tivemos formação. De 2000 a 2007, foram formados 372 agentes, mas isso não teve continuidade na gestão seguinte. Parou. Naquela gestão, conseguimos também muitas coisas, porque o pensamento da gestão coincidia com o pensamento indígena. A gente não aceitava política partidária, por exemplo, e eles aceitaram essa nossa colocação. Hoje não; os políticos são parceiros da coordenação e para nós isso não é bom. A política partidária interfere na política pública de forma negativa. Ela não vem para realizar nada. Ela vem somente pela autopropaganda. Muitas vezes fazem propaganda de coisas que não são realizadas, e isso é muito difícil. Eu vejo, também, que muitas vezes um gestor tem medo de realizar por conta da possibilidade de não dar certo. A gente não tinha esse medo. A gente fazia.

O convênio CIR-Funasa terminou em 2009, e passamos para a gestão direta da Funasa. Então, houve uma chamada pública e a Secretaria de Estado da Saúde de Roraima (Sesau) ganhou. Mas nós não aceitamos estar na mão do governo estadual. Se o governo nunca ligou para nós, nunca quis cuidar dos indígenas, só porque agora tinha muito dinheiro ele ia querer? Não aceitamos! Eu tinha guardado na minha agenda um panfleto em que o nosso governador falava que as terras indígenas eram zoológicos humanos. Foi esse panfleto que nos salvou. Eu o entreguei ao presidente da Funasa, em Brasília, e falei: “Isso aqui mostra que ele não tem interesse. O que ele vai fazer?” Eles então apresentaram a ONG Missão Evangélica Caiuá para trabalhar conosco, e aceitamos.

 

Do controle social à gestão

 

A gente da região das Serras sempre cobra muito. Até hoje eu busco, me informo, faço a ligação entre a gestão e a minha região. Esse trabalho todo tem sido muito bom, mas difícil, porque eu deixo muito a minha família. A minha família me cobra porque eu saio muito de casa, viajo, trabalho fora, mas é uma questão de missão. A gente tem uma missão a cumprir.

Em 2009, fui chamada pela Secretaria de Saúde do meu município. Trabalhei como secretária durante um ano. Em 2010, voltei para a Funasa e conheci mais o lado da gestão, já com outra visão. Já não estava ali só para fazer controle social.

Quando trabalhava no controle social, eu não tinha uma visão concreta do que era a gestão. Era tudo muito obscuro. Eu tinha que entender, por exemplo, por que, apesar de haver muito recurso, ele não chegava para nós. Ninguém te explica o que realmente está acontecendo. Só quando eu conheci a gestão eu entendi, e hoje tenho um outro olhar. Eu sei que as burocracias existem, e eu sei quando é ou não um problema de burocracia. Eu sei quando o gestor quer fazer e quando não quer. Hoje, eles podem até enganar o meu povo, mas só quando eu não estou lá.

Quando eu passei para esse outro lado, o da gestão, eu tive uma ajuda muito grande da Funasa, porque o coordenador foi o meu assessor. Ele colocou oito pessoas à disposição para me assessorarem e disse: “Se você errar nessa gestão, você vai estar do lado errado o tempo todo.” Então eu tinha muito cuidado. Na Secretaria municipal, o prefeito só pagava as minhas mensalidades, mas não tinha poder sobre mim. Quem tinha era a Funasa, que me repassou todo o material necessário. A prefeitura me pagava, mas eu não tinha carro, não tinha combustível, não tinha nada. Eu tinha recursos dentro da prefeitura, mas não era a gestora financeira. Eles faziam o que queriam e, quando não queriam, não faziam. Então eu fui entendendo os dois lados. Fui entendendo o que é fazer uma gestão de verdade e o que é enganar o povo.

Em março de 2010 eu voltei para a Funasa e em novembro pedi demissão, porque achei que não dava mais. A gente via que havia muito recurso e faltava o que era necessário. Não tinha infraestrutura, não tinha posto de saúde, não tinha transporte... Nem medicamento, que já foi tão fácil conseguir, não tinha nesse período. E não era falta de recurso. Era falta de vontade. Então, pedi demissão: “Se for para continuar assim, prefiro estar na minha roça.”

Em janeiro surgiu uma viagem para Brasília. A coordenadora me ligou e disse: “Vai ter uma reunião para falar sobre o perfil do agente de saúde. Não temos ninguém para mandar para Brasília. Você vai?” Eu disse: “Eu não sou mais agente de saúde.” Ela sugeriu: “E como colaboradora eventual?” Concordei. Eu nunca disse não. E fui.

No encontro, fui conversar com o secretário da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que era o Antônio Alves. Falei que tinha pedido demissão e ele disse: “Não! Você vai voltar. Não podemos te perder!” Na reunião do conselho, o coordenador do Serviço de Edificações e Saneamento Ambiental Indígena (Sesani) informou que tinham me contratado. Eu não compareci, voltei para a minha casa, conversei com meu esposo. “Queria ver o que você vai dizer. É para trabalhar na sede, em Boa Vista.” Ele não aceitou. Eu disse: “Passei a vida inteira pedindo uma vaga para um indígena. Eu não queria essa vaga, mas se ela veio para mim, eu vou.” O que adianta falar o tempo todo que um indígena tem que estar lá, tem que ocupar esse espaço, que é nosso, e não ir quando chega o momento? “Vou passar dois anos”, eu disse. Trabalhei, passei dois anos e depois pedi para sair.

É muito diferente quando temos indígenas na gestão, porque quem não é indígena não sabe das necessidades que existem nas comunidades. A pessoa quer receber o seu salário no final do mês, mas nunca para prestar um serviço de verdade para o parente que está lá. Não vê com um olhar diferenciado todas as necessidades que existem. Quando eu vim para Boa Vista, a região das Serras, que é a minha região, ainda não tinha sido atendida com abastecimento de água, porque o pessoal tinha medo de cavar os poços e não dar certo. Eu disse: “Vamos experimentar, vamos fazer projetos.” Fizemos projetos, o trabalho deu certo e fomos buscando mais para alcançar mais comunidades das Serras.

 

Controle social e novos projetos

 

No controle social, em 2003, eu fui eleita presidente. Fiquei até 2006, quando saí do conselho. Mas eu acompanhava o trabalho, participava das reuniões. Nós éramos oito coordenadores de polo que sempre estávamos aqui, em Boa Vista, discutindo como estava a região, o trabalho, o atendimento. Tínhamos sempre um coordenador informando como estava a situação na sua região. Fazíamos um relatório conjunto e todos assinavam. Esse acompanhamento foi bom, porque a gente não deixou solto. O coordenador da saúde sabia que tinha alguém ali, nas regiões, que estava acompanhando. Quando a gente pedia a prestação de contas, a gente não queria só uma planilha com informações dizendo o que foi comprado, o que foi gasto. A gente queria uma prestação de contas.

Nesse tempo todo, de lá para cá, nunca deixei o controle social. Por mais que eu não seja conselheira, estou lá como liderança. Por mais que eu não possa votar, estou lá para dar as minhas opiniões. A minha região confia muito em mim e no meu trabalho.

No período do CIR-Funasa, eles compraram materiais permanentes, carros, todo o mobiliário dos postos de saúde, e levaram para a área. Até hoje são esses os materiais que existem. Nós não tivemos outros, desde que o convênio terminou, em 2009. Em 2017, comentamos: “Não tem nada, não vem nada. O que está acontecendo?” E numa reunião do conselho local, a conselheira sugeriu: “Vai lá saber.” Então eu vim fazer um diagnóstico situacional da gestão para saber por que não estava funcionando, se tinha recurso.

Só que, quando nos deparamos com uma situação na qual o controle social é barrado, tem alguma coisa estranha. Então a quem recorrer? Eles pediram: “Faz um relatório, traz, e daremos encaminhamento.” Eu confiei nisso, fiz um relatório, e não veio nada. Não houve resposta nenhuma da região, nem do estado. Eu passei para o CIR estadual – e não somente para o CIR regional – e nada. Fiz esse trabalho em outubro e novembro. Em outubro eu fui eleita pelas lideranças das regiões para coordenar a medicina tradicional no distrito. Me disseram: “Você não pode fazer nada contra o DSEI, porque agora vai estar trabalhando aqui.” E eu respondi: “Se eu sou liderança, não vou me deixar levar por conta de um salário. O distrito pode ter um coordenador, mas o dono do recurso é o meu povo. Eu não vou me calar.” Fui conversar com o coordenador do Setor de Recursos Logísticos (Selog) a respeito da gestão. Eles tinham que me dar alguma resposta. Perguntei: “O que aconteceu? Por que tudo o que temos aqui é da gestão passada? Nesta gestão parou por quê? O senhor vai nos dar uma resposta?” Mas essa resposta é muito lenta, muito difícil.

Este ano [2018] é o ano das eleições dos conselhos em todas as regiões. Eu fico preocupada, porque entra muita gente nova, que não conhece, e não me vejo fora do controle social, independentemente do lugar em que estou. Eu faço meu trabalho de liderança.

Um dia o coordenador fez uma reunião e nos disse que somos parte da gestão, que somos a gestão. Muita gente não entendeu e achou que o coordenador tinha tirado a liberdade deles. Eu disse: “Negativo. Ele me empoderou. Ele disse que eu sou a gestão, então eu vou fazer. E ele, como gestor, tem que nos dar suporte para trabalharmos. Se ele quer que façamos a nossa gestão, nós temos que pensar grande, como gestores.”

É o que estamos fazendo. Estou trabalhando no DSEI e temos uma visão muito ampla. Eu trabalho também com o pessoal da educação num projeto de medicina tradicional. Hoje nós já temos retorno do primeiro projeto que criamos, em 2005. Temos três acadêmicos em medicina, duas nutricionistas e duas enfermeiras. E agora estamos levando esse projeto para o distrito, buscando implantá-lo em todas as regiões.

Esse trabalho da medicina tradicional é algo como o que eu fazia com meu pai, só que evoluiu mais, e eu pesquisei muito. Além desses trabalhos todos que eu faço, eu faço as minhas pesquisas. Fazemos vários tipos de xarope, pomadas, tinturas, que são levados para dentro do posto. É um projeto que a gente quer expandir para todo o DSEI. Estamos construindo também para que seja um programa dentro da Divisão de Atenção à Saúde Indígena (Diasi), mas essa construção está sendo lenta demais, porque a gestão não entende a necessidade desse programa.

Em relação a esse trabalho, não conto somente com o DSEI. Estamos buscando parcerias, porque, pelo que a gente acompanha da saúde indígena, o presidente Jair Bolsonaro pode acordar um dia e acabar com tudo isto aqui.

 

Pela forma como está sendo feito o desmonte do SUS, penso que é muito fácil eles procurarem também cortar a saúde indígena.

 

E, por isso, vamos buscar outros parceiros. Começamos uma conversa e vamos ter que aprofundá-la mais ainda, para poder buscar parcerias que entendam a necessidade dessa prática. Para todo trabalho que fazemos temos um retorno, e eu espero muito que esse retorno seja positivo para o meu povo. Porque deixar tudo para trás e estar aqui é difícil.