Vozes indígenas na saúde: trajetórias, memórias e protagonismos
Saúde é voltar a ter cultura
Lourenço Krikatí
Sou da aldeia Jerusalém, município de Sítio Novo, no Maranhão,
do povo Krikatí, do território indígena de Krikatí. Em documento, me chamo Lourenço Borges Milhomem, mas o pessoal me conhece mais, como liderança, por Lourenço Krikatí. O meu povo, meus pais, me chamam, na nossa língua, pelo apelido de Cryhyh. A minha participação como liderança no movimento indígena acontece desde 1991, quando participei do 1º Encontro dos Povos Indígenas dos estados do Maranhão, Pará, Amapá, Mato Grosso e Tocantins, que aconteceu em Belém. Na época, eu era estudante. Comecei a me envolver no movimento, fui conhecendo algumas lideranças que já atuavam (em especial, uma liderança Kaingang) e achei interessante participar e acompanhar as lutas. Antes disso, em 1989, com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), veio o movimento organizado mesmo, instituído.
Ali eu achei interessante, porque havia uma organização regional.
Através dos encontros eu fui conhecendo a organização e me chamaram a atenção as várias discussões, inclusive as que eu não conhecia e queria conhecer. Me interessei, e comecei a me envolver participando, errando, acertando, gaguejando. No 1º Encontro Nacional das Lideranças Indígenas do Brasil, que aconteceu em Luziânia, eu fiquei totalmente mudo. Mas foi ali que começou a minha participação mesmo, com discussões para a construção de políticas públicas no Brasil.
No campo da saúde, a grande mudança que eu acompanhei foi a
transição da Fundação Nacional do Índio (Funai) para a Fundação Nacional da Saúde (Funasa), em 1999. Ali eu fui entender que a Funai era responsável pela saúde. No período em que atuava nas aldeias, a Funai tinha as Equipes Volantes de Saúde, mas havia um técnico que ficava tomando conta e atendia as aldeias. Então, a equipe volante passava – não me lembro de quanto em quanto tempo –, fazia exames, trazia equipamentos, microscópios. Eu me lembro que, na época, havia muita gente com tuberculose. Foi então que entendemos que aquilo precisava melhorar. Quando vimos que a equipe estava demorando muito para voltar, começamos a cobrar.
Com a mudança da Funai para a Funasa, a Funasa fez convênios
com os municípios e os profissionais do município assumiram o atendimento. Não foi a Funasa que contratou os profissionais diretamente. Nessa discussão, houve grupos que acharam que pelo município ficariam mais próximos da gestão, que ficaria mais fácil contratar as pessoas. Nós defendemos a Funai, porque ali estava todo o recurso: para a educação, a saúde, o apoio à agricultura, a parte social. Os mais velhos defendiam o fortalecimento da própria Funai. Mas o governo decidiu e a saúde indígena foi para a Funasa.
Com a separação, ficou mais difícil para nós. No papel, o projeto
que criou o Subsistema de Saúde Indígena estava bonito, mas, na prática, não aconteceu. Nunca imaginei que alguns municípios teriam uma política diferente, com gestores anti-indígenas. Foi aí que nós enfrentamos problemas em alguns territórios e aldeias, não só no Maranhão, mas em todo o Brasil.
O monitor de saúde da época da Funai aplicava injeção, dava
medicamento. Era um trabalho técnico. Hoje, o agente indígena não faz isso. Quem faz é só o técnico de enfermagem. O monitor, na época, conhecia medicamentos, medicinas tradicionais, valorizava os pajés. Às vezes, ele usava muito mais medicina tradicional do que medicina ocidental.
Com a mudança para a Funasa, começaram a desvalorizar a
medicina tradicional. Os técnicos tiraram a responsabilidade dos agentes indígenas de saúde. Na época, tinha o parteiro indígena e o próprio monitor fazia parto também. Não precisava trazer para a cidade, tudo acontecia lá na aldeia mesmo. Mas quando mudou para a Funasa, qualquer coisa era na cidade mais próxima, no hospital mais próximo. Um exemplo nosso, Krikatí, foi Montes Altos. Contrataram um agente indígena que tinha conhecimentos não indígenas, mas só o técnico podia medicar os pacientes indígenas.
O atendimento dentro das aldeias começou a acontecer com
políticas diferentes, e os índios perceberam: “Agora, esse agente indígena só chega e olha, não pode mais medicar. Só os técnicos.” Depois de um tempo, nós observamos que não estávamos tendo espaço para participar e decidir junto à administração da Funasa. Nós indígenas até discutíamos, mas não havia a decisão conjunta.
Para nós, aqui, o convênio com o município acabou facilitando,
pois a equipe, a cidade, o hospital mais próximos nos atendiam bem. Mas para outras regiões, com acesso mais difícil, ficou mais complicado. Piorou. Então, ficou um lado dizendo que era positivo e outro que era negativo. E nós começamos a discutir entre nós, indígenas.
Eu participei por duas vezes das Conferências de Saúde. Fui
convidado para participar pela Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (Coapima), como movimento indígena. O atual sistema de distritos já vinha sendo discutido há muito tempo, observando o olhar dos indígenas e a sua necessidade de um atendimento específico. Desde a mudança da Funai para a Funasa, nós já vínhamos discutindo a participação indígena e a necessidade de se criar um conselho no qual os próprios indígenas decidiriam a forma como queriam ser atendidos – e não mais o indicado político dentro da gestão. Só que nunca tínhamos colocado em prática. Assim, na época, começamos a perceber: “Alguém tem que escrever. Temos que começar a documentar nossos pensamentos para ver se realmente dá certo.”
Então, planejávamos: “Gostaríamos que fosse assim na aldeia,
que houvesse um carro, que criassem um laboratório para evitar que os índios se deslocassem para a cidade, já que eles não têm local para ficar.” E ao final concluímos que íamos ter que pôr em prática, escrever e começar a cobrar. Foi através desses levantamentos, tanto das condições da região Norte, quanto das do Sul e do Centro Oeste, que começamos a pensar e colocar para os parceiros que precisávamos documentar as ideias dos povos indígenas do Brasil e cobrar do governo de que forma aquilo seria mudado.
Esses documentos eram encaminhados para a Coiab e para as
organizações de base regionais Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpin Sul) e Grande Assembleia do Povo Guarani (Aty Guasu). Essas grandes organizações regionais criaram na época o Conselho de Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil (Capoib). O Capoib juntava as lideranças das principais organizações indígenas e as levava para discutir no Ministério da Saúde, junto do Ministério Público, o projeto ideal. Tudo acontecia graças às nossas organizações de base. Nós temos nossa organização pequena, que é a da comunidade, mas há também a estadual, que é filiada à regional, que é a Coiab. Na época, a Coiab criou o Capoib e do Capoib foi para a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
A articulação de grupos e
organizações
A primeira organização de base que se criou foi a Federação das
Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), na região amazônica, em 1987, com o objetivo de defender os direitos das comunidades daquela região e, principalmente, a bandeira da demarcação dos territórios indígenas. Antes disso, existiram algumas organizações na cidade, na capital, mas isoladas. A própria União das Nações Indígenas foi criada sem consenso da população da base. Foi por interesse em nos organizarmos para nos defendermos. A Foirn começou com a organização indígena de base de Roraima, o Conselho Indígena de Roraima (CIR), criado primeiro. A Foirn veio depois e foi espalhando as informações para outros estados.
Em 1991, foi criada no Maranhão a Associação dos Povos
Indígenas Tupi de Mato Grosso, Amapá, Pará e Maranhão (Antapama), que reuniu alguns estados para trabalhar com a Coiab. As lideranças da Coiab vinham às regiões dizer como tínhamos que nos organizar para fortalecer a nossa aliança, defender nossos direitos e, principalmente, demarcar nosso território, fazendo a autodemarcação. Como em 1988 [com a Constituição Federal] foram aprovados os direitos dos povos indígenas, isso nos fortaleceu, e as lideranças foram criando essas organizações. Nossa região, na época, tinha lideranças, mas não tinha uma organização instituída.
Em 1994, foi criada uma organização do povo Krikatí para
defender os direitos constitucionais, como território, educação e saúde, depois de diversas iniciativas com a Funai e o projeto da Serra dos Carajás. Em 1995, surgiu a ideia de criar uma organização que fosse só do estado do Maranhão Coapima. A partir daí, explodiu a criação de associações nas aldeias, em quase todas as regiões do Maranhão.
Tínhamos apoio de organizações indígenas e não indígenas. Era
o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), não indígena, que nos orientava e acompanhava. No Maranhão, todas as organizações que se formaram foram acompanhadas pelo Cimi. A Funai não valorizava nem acompanhava as organizações locais.
A criação das organizações atendeu a um critério regional. As
lideranças disseram: “Eu tenho o mesmo problema que você na minha região e não há por que a gente criar outra organização.” Como o Maranhão é porta de entrada para a Amazônia, todos os seus territórios indígenas constam como se fossem parte da região Norte para a organização indígena. Os objetivos da criação das organizações eram o fortalecimento, o amadurecimento e a discussão de uma política melhor, principalmente para demarcar alguns territórios indígenas.
Saúde e território
Até então, o território do povo Krikatí não era demarcado. A
demarcação só começou em fevereiro de 1997. A organização, representada pelas lideranças, cobrava da Funai que ela agilizasse e finalizasse o processo de identificação, delimitação, demarcação e homologação, principalmente daqueles territórios que já tinham estudos de identificação.
Quando começamos a usar a Constituição, o Ministério Público
abraçou a causa. Nós cobrávamos do Ministério Público, que acionava e cobrava da Funai. Foi nessa época que começamos a dizer:
“Como é que nós teremos saúde se não temos território? Se nosso território está todo invadido? A nossa saúde, primeiro, é o território desocupado, para que voltem a caça, a pesca, as frutas, e nós possamos dizer que nós temos saúde. Voltar a ter cultura.”
O foco principal da saúde para nós é o território. Só o Maranhão é
cortado por quatro biomas, tem tudo que precisamos para sobreviver. Temos os alimentos, a comida é saudável, o que a natureza oferece é saúde. Essa é uma das bandeiras que nós levantamos. Se nós não tivermos o território, vamos consumir aquilo que não é sadio e rapidinho adoeceremos.
Mas a discussão sobre a saúde não andou junto com a discussão
sobre o território. Por uma questão política e de recursos financeiros, ficou muito mais difícil a demarcação do território, e essa discussão ficou para trás. Já a discussão sobre os cuidados com o corpo, sobre realmente melhorar o atendimento, nós conseguimos levar adiante. Tivemos que discutir isoladamente. Como os políticos engavetaram a discussão sobre o território, não pudemos levar junto, e aconteceu a separação. Pelo menos, um avanço que tivemos foi melhorar um pouco o atendimento à saúde. Ainda não é aquilo que nós queremos, mas mudou.
A Cisi e o Conselho Nacional de
Saúde
Nos anos 1990, quando a Comissão Intersetorial de Saúde
Indígena (Cisi) foi criada, não havia nela representantes indígenas. Eram todos brancos. Só houve participação quando a Coiab e outras organizações começaram a lutar e a cobrar. Com muita luta, conseguimos espaço no Conselho Nacional de Saúde e então se discutiu a necessidade de se ter alguém também na Cisi. Foi só depois disso, com os indígenas lá dentro, que começamos a apresentar propostas, a convencer, e se fortaleceu um atendimento específico. É recente essa nossa participação no Conselho. Eu fiz parte do Conselho Nacional de Saúde de 2012 a 2015, pela Coiab. Integrei a Comissão Nacional de Políticas Indigenistas (CNPI).
Dentro da área que acompanhei, primeiro tive que me apoderar
da discussão da saúde, conhecer a questão técnica. Eu tentei, junto de outros colegas conselheiros, atender ao máximo os problemas comuns. Sabemos que a nossa decisão não alcança todos os problemas que estão acontecendo na comunidade, mas pelo menos minimiza os maiores. Não é fácil. Às vezes, você precisa ter um bom conhecimento e argumento para discutir de igual para igual com os técnicos e convencer os colegas não indígenas, e o próprio indígena também. No Conselho, as pessoas acreditaram na gente e principalmente no meu ponto de vista. Foi uma experiência boa, que ajudou muito.
Dissemos que queríamos uma educação e um atendimento de
saúde diferentes, que respeitassem a diversidade de cada povo e questões de religião, costume, crenças.
Tem indígena que, por uma questão cultural, não quer ser atendido do jeito branco, não quer deitar na cama, prefere a rede, e ainda tem indígena que não entende português. Por todas essas coisas, nós demandamos um atendimento diferenciado, respeitando os valores de cada povo.
Para isso, a Constituição ajudou muito, além da ratificação de leis
internacionais.
Não foi fácil. Acabamos tirando a gestão dos municípios, porque
alguns lugares não atendiam bem. Por isso houve esse entendimento dos distritos, com participação política, administrativa e financeira.
O Distrito Sanitário Especial Indígena
(DSEI)
Como já tínhamos alguns indígenas atuando na área da saúde,
eles já tinham uma visão de que seria melhor termos um atendimento específico: “Esse atendimento, quem tem que criar, da forma que nós queremos, somos nós. Isso nós já tentamos, não é bom, tem que fazer assim.” Queríamos uma secretaria na qual tivéssemos uma participação direta para dizer a forma como queríamos que fosse estruturada a saúde indígena. Assim, discutimos mais e começamos a buscar o distrito. Claro, observando também a participação da base, da comunidade, com o representante levando para a coordenação geral como a população queria ser atendida. Essa ideia foi amadurecendo até que foram criados os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), junto com os conselheiros.
No Maranhão, a experiência da criação do DSEI foi muito
complicada. No início, com a mudança da Funai para a Funasa, pensamos que tudo iria melhorar, a contratação da equipe seria pelo município, e estaríamos mais perto para cobrar. Em muitos lugares, deu certo. Em outros não, ficou ainda mais difícil.
Por conta disso, criamos [posteriormente, em 2010] a Secretaria
Especial de Saúde Indígena (Sesai), uma estrutura para atender a regional, que, por sua vez, atenderia a base, com uma estrutura pequena perto do território, com funcionários dormindo, observando, atendendo, com medicamento chegando na hora certa.
Em relação à secretaria, nós também pensamos: “Será que os
indígenas vão participar diretamente?” Deram espaço, com representantes acompanhando e discutindo, mas na base a maioria dos indígenas, para se tornarem profissionais na área de saúde, dependiam de formação e estudo. Isso nós também discutimos.
Finalmente instalamos o DSEI, mas com a participação dos
indígenas ainda precária. Poucos entendiam a importância da representação no conselho distrital para discutir como seria administrada a saúde indígena. Então, a coordenação do DSEI, no terceiro pleito, começou a dominar politicamente, resultando em conflitos entre a população indígena. Na época da Funasa, houve convênios para fazer a administração financeira atender à necessidade de materiais, medicamentos, exames, combustível.
Tudo era feito através do convênio. Os profissionais eram contratados pela prefeitura.
De 2010 para cá, com a criação da Sesai, começamos a observar
questões de gestão. As lideranças observaram que quem estava à frente não estava administrando e estava consumindo e desviando recursos. Foi o primeiro passo para uma divisão que ocorreu dentro de algumas regiões. Vendo isso, algumas lideranças começaram a criar polos e fazer convênios para acompanhar a população (o polo era o lugar mais próximo que o convênio atendia), o que prejudicou algumas associações. Isso criou um problema maior no conselho, porque os próprios conselheiros, e o presidente do conselho, estavam facilitando essa divisão na região.
Então, foi contratada uma consultoria. Quando viram o que a
maioria havia feito, os que estavam fazendo bem a sua parte acabaram entrando no mesmo saco. Encerraram os convênios e as empresas começaram a trabalhar.
Houve dois momentos de conflito aqui no Maranhão, e a
mobilização indígena se espalhou para buscar uma melhoria na área administrativa. Na época do primeiro coordenador, houve muitas declarações falsas de quilometragem de carros. Para tirá-lo, fechamos por dois meses a ferrovia. Na segunda vez, descobrimos que o coordenador estava com esse mesmo esquema de desvio de recurso, junto do presidente. Fizemos mais um movimento para o fechamento do DSEI, com parada da ferrovia e derrubada da Rede Eletronorte para chamar a atenção do governo federal, porque eles estavam segurando a pessoa no cargo.
Precisamos fazer tudo isso para sermos ouvidos. Nós já tínhamos
encaminhado vários documentos, cobrado, a imprensa noticiou, mas não fomos ouvidos e tivemos que fazer isso. Antes de derrubarmos esse coordenador, nós tentamos avisar. Como o governo não nos ouvia, conseguimos mobilizar mais de mil lideranças indígenas para São Luiz, em uma reunião no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Lá, apresentamos para essas pessoas o que estava acontecendo e de lá aproveitamos e fechamos a ferrovia. Depois de um tempo derrubamos a Rede Eletronorte para chamar a atenção. Só então nos chamaram para discutir.
Passamos dois anos brigando para tirar uma pessoa da
coordenação. Então, o próprio movimento tomou a frente. Tivemos apoio de algumas instituições não indígenas que viram o que realmente estava acontecendo. Nós observávamos e o Ministério Público não dava atenção. Até que mostramos a realidade e viram que tinham que fazer essa mudança. Mas foi muito difícil, tivemos que conversar não sei quantas vezes com o ministro, dizer o que estava acontecendo. Eu mesmo fui várias vezes a Brasília. As organizações (Coiab, Apib) marcavam audiências com o ministro ou com representantes do governo para nós. Éramos recebidos, pelo menos para sermos ouvidos, mas muitas coisas não eram atendidas. Só atendem quando há pressão, acompanhada pelo Ministério Público.
Os convênios com a Fundação
Nacional de Saúde – Funasa
O ponto positivo do período em que as associações indígenas
foram as conveniadas para executar as ações foi o atendimento em si. Qualquer coisa que precisássemos, como um medicamento especializado, a equipe comprava logo. Se houvesse uma emergência para fazer uma cirurgia – ao contrário do SUS, que demora muito –, o próprio conveniado bancava e agilizava o atendimento.
O ponto negativo foi que isso acabou facilitando para algumas
lideranças que têm seu interesse próprio, que têm ganância, se aproveitarem. Por estarem à frente, como lideranças, acabaram usando seu nome dentro do convênio e se beneficiando com o desvio de recursos, deixando de atender a população que tanto precisa. Esse foi um ponto negativo do convênio – não o convênio em si, mas as pessoas que estavam administrando. Para nós, Krikatí, foi ruim, porque nós tivemos muito cuidado em administrar. Só que olhando de cima para baixo eles não querem saber. Não fazem a separação entre os índios que souberam e os que não souberam administrar. Alguns conveniados que estavam fazendo tudo certinho acabaram sendo prejudicados.
Com o fim dos convênios, cortou-se o atendimento rápido e a
compra de medicamentos e outros materiais que precisávamos. Hoje, com a demora na compra de medicamentos, o indígena precisa passar um tempo sem se medicar. Nesses casos, fazemos "vaquinhas". Hoje também temos demora no atendimento. Isso vem acontecendo. Por outro lado, hoje temos mais participação dos indígenas diretamente como profissionais. Temos indígenas técnicos (a maioria é agente indígena), alguns assistentes sociais, odontólogos. O próprio indígena está trabalhando com indígenas e a comunicação na própria língua facilita muito para nós.
O controle social via conselho
distrital e as tomadas de decisão
Em alguns lugares os conselhos distritais funcionam, em outros
não. Nós temos que conhecer melhor a parte técnica para ver o que está errado e cobrar mudanças. Não basta ouvir; temos que propor e repassar informação à comunidade. Caberia aos conselhos preparar as pessoas que estão chegando. O controle social foi discutido entre a comunidade, entre as lideranças, para que fosse possível nossa participação direta no acompanhamento da execução da saúde, na fiscalização na aldeia, no controle junto à equipe. Acho que os representantes ainda têm dificuldade porque não passaram por um processo de formação, não sabem qual é seu papel. O papel do conselheiro é muito importante junto ao gestor. Ele tem o poder de dizer sim ou não. Mas falta conhecer a importância desse papel, falta formação, falta conhecer política e a parte técnica e administrativa.
Hoje isso está mudando um pouco, porque o conselheiro tem
atuado diferentemente de outras gestões. Ele acompanha, fiscaliza, discute, mas faltou um local para fortalecer. É muito difícil o conselho se reunir. Todos sabem que eu não sou parte do conselho, mas eu cobro, discuto com o médico, com a técnica, com o agente indígena. Acho que o conselho não está se reunindo porque tem gente à frente tentando acompanhar, organizar e garantir que os profissionais cumpram suas funções. Nós discutimos nas reuniões, mas falta que os conselheiros eleitos participem diretamente.
Nós, Krikatí, separamos as discussões. Temos a decisão do
cacique, fruto de discussões culturais junto às lideranças tradicionais. Com base nessas discussões, fazemos festa, caçamos, trabalhamos. Por outro lado, para as decisões sobre saúde e educação, agendamos uma reunião e todos participam para discutir apenas aquele problema. Os mais velhos ficam só observando, às vezes dão um palpite, mas quem decide são as pessoas com uma mente mais voltada para as políticas modernas. Se há um conflito entre nós, de fora para dentro, quem resolve é o conselho moderno, as lideranças modernas. Nesse sentido, nós buscamos não misturar. Quando é festa, todo mundo participa. Questão política, a gente discute, briga, mas não podemos misturar as coisas. Isso é o que nós temos feito aqui. Temos 16 territórios indígenas no Maranhão, 12 povos, dois troncos linguísticos (Tupi e Jê), e temos diferenças entre nós.
Essas diferenças aparecem nas reuniões do Conselho Distrital de
Saúde Indígena (Condisi). Nós classificamos as situações de forma diferente e respeitamos a forma de ver dos demais. Nas tomadas de decisão, se for algo comum, decidimos juntos. Mas nós fazemos o que é diferente também, respeitamos e adotamos as diferenças, porque temos culturas diferentes.
O principal problema que estamos tendo é a questão da
infraestrutura: a construção de postos de saúde, a perfuração de poços de água. Isso porque, depois do convênio, foram construídas muitas aldeias pequenas, sem um planejamento. Isso virou um problema para nós, e o conselho também tem pensado em como beneficiar essas populações, que precisam. Temos uma aldeia que está há nove anos esperando um poço artesiano. Mas é um trabalho que também depende muito da gestão municipal, além da atuação do conselho.
A luta por direitos hoje
Participei de diversas conferências nacionais de saúde indígena.
Eu acredito que a construção de propostas que ocorre ali vem para aprimorar o atendimento: ver e ouvir mais, atender melhor. A conferência traz também propostas para orientar o governo, administrar recursos. Mas na maioria das vezes eu vejo que aquilo que está no papel não é cumprido. Gasta-se muito recurso para construir uma proposta para o gestor, para realmente beneficiar a todos, mas aquilo que propomos não é cumprido. As coisas que discutimos na última conferência nunca saíram do papel. Se o governo tivesse a intenção de melhorar a saúde da população indígena, já teria feito isso. Como a gente vê que hoje as políticas não são para todos, acaba sendo um desgaste.
O ponto positivo é que estamos participando, propondo e dizendo de que forma queremos que a população indígena seja atendida, valorizando o nosso conhecimento e melhorando o atendimento para o futuro.
Temos que persistir, ter insistência, buscar e também mostrar ao
governo que nós podemos mudar alguma coisa. As conferências nacionais estão acontecendo não porque o governo quer, mas porque nós cobramos e queremos melhorar a saúde. Pelo menos algumas coisas estão sendo atendidas, mas a maioria não.
Na época do 1º Encontro de Povos Indígenas, em 1991, tínhamos
outros políticos. Eles tinham uma visão diferente, valores, sensibilidade, respeito com a população brasileira. A discussão era mais fácil. Estávamos mais otimistas, com mais esperança de que as coisas melhorassem. Tanto que a Constituição Federal de 1988 teve um papel importante na garantia da nossa sobrevivência.
De lá para cá muitas coisas mudaram, se tornaram mais difíceis,
principalmente a questão orçamentária para o órgão oficial que defende o direito indígena. Naquela época, a Funai tinha condições de atuar junto à população indígena.
A política também está mudando. Hoje é mais difícil passar uma
proposta ligada à defesa dos direitos indígenas, quilombolas e das minorias. Os interesses capitalistas não vêm atender à necessidade e à demanda das minorias que são, na realidade, a maioria da população, que é carente.
Tudo ficou mais difícil para nós por conta dessa dificuldade
política. O maior impacto de se negar e violar direitos está acontecendo no território, e se nós indígenas não começarmos a nos preparar, buscar o conhecimento, buscar um entendimento, e, principalmente, uma participação política partidária, nós vamos perder todas as nossas origens e acabar nos afogando no meio. Temos que nos preparar para participar e sermos protagonistas da nossa história, da nossa vivência, da nossa defesa. Temos que passar por um processo de formação. Temos também que nos adaptar, sem deixar nossa realidade, nossa vivência, nossa cultura.
A melhor estratégia para fazer avançar as nossas demandas é ter
participação direta na discussão, argumentar melhor, construir um propósito e defendê-lo, mas também ter pessoas lá em cima que garantam a sustentação.
A gente tem que estar dentro da política partidária, porque é ali
que se decide a legislação. Essas pessoas têm também que estar preparadas psicologicamente para não se deixarem levar pela ganância. A maioria no Congresso tem hoje uma força grande contra nós. Não só contra nós, indígenas, mas também contra outros que não têm sua representação. Mesmo que tenhamos diferenças culturais, precisamos ter comunicação, pois temos problemas em comum. A gente vem tentando ter esse intercâmbio de entendimentos, visitar uma aldeia ou outra, conhecer, e dali criar força de ideias. A estratégia é conhecer melhor o outro. Temos também que nos preparar melhor tecnicamente em todas as áreas, como saúde e educação.
Hoje eu não tenho mais forças para brigar, aguentar o dia todo.
Estou mais diplomático, estou mais para apaziguar as coisas. Eu já briguei muito, busquei muito defender os nossos direitos na saúde e em outras áreas também. Hoje eu deixo a linha de frente para outras pessoas.