Vozes indígenas na saúde: trajetórias, memórias e protagonismos

Ana Lúcia de Moura Pontes, Vanessa Hacon, Luiz Eloy Terena e Ricardo Ventura Santos (orgs.) · Capítulo 10 de 17

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Vozes indígenas na saúde: trajetórias, memórias e protagonismos

Segurar a bandeira dos antepassados

Segurar a bandeira dos

 

antepassados

 

Álvaro Tukano

 

Eu sou o Doéthiro, nome de cerimônia do povo Tukano. A maioria dos nossos nomes tem a ver com as coisas sagradas: Doéthiro foi o primeiro homem da nossa humanidade. Eu sou do povo Ye’pâ-masa, conhecido, hoje, como povo Tukano. Nasci numa aldeia chamada Itãtitha na língua tukano, conhecida como São Francisco pelos brancos. Sou de Pari-Cachoeira, que é um dos distritos do município de São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas. Hoje estamos numa nova comunidade que fundamos na região do Pico da Neblina, chamada Balaio. Eu venho de uma família de curandeiros: o meu avô tinha um espírito de cantor, o espírito das aves. Fazia cerimônia usando cigarro, compartilhando a coca, ensinando aos filhos as músicas e como se faz a cura no paciente – algo difícil de saber quando a gente não domina essas tradições.

 

Nós escrevemos a história de quatro gerações com as nossas histórias antigas que falam da vida, da saúde, de nossos sofrimentos e conquistas. Durante esse percurso, também falamos sobre as nossas doenças e que tipo de reza a gente faz para o paciente. O meu avô materno era do povo Desano. Ele era Yaí (pajé), e sonhava e se comunicava quase o tempo todo com os espíritos. Esses espíritos são grandes reveladores da medicina, e nos ensinam a interpretar as doenças e evitar os lugares perigosos. Assim, meu pai teve uma formação precisa tanto por parte do nosso povo Tukano, quanto por parte do povo Desano. Eu aprendi essas coisas com ele desde pequeno. Conhecendo as histórias da colonização, nós defendemos as tradições e o território que sempre nos pertenceu.

Quando os missionários salesianos chegaram aqui, em 1914, o meu avô estava em São Gabriel há mais de 20 anos. Ele passou 40 e poucos anos observando a atitude dos comerciantes espanhóis, portugueses e brasileiros que fizeram os seus primeiros contatos para ampliar as fronteiras do Brasil. Quando os missionários chegaram, levaram uma instrução para ensinar os índios a ler e a escrever, e meu pai foi um dos primeiros alunos em Pari-Cachoeira. Já em 1963, o meu pai me colocou na escola que ele ajudou a construir e lá eu aprendi as primeiras letras, o suficiente para defender o meu povo.

 

Sempre participando das discussões antigas, aprendemos como é importante valorizar as culturas e as cerimônias, que são escolas onde não se dá nota, onde não há prédios ou salas de aula.

 

São aulas verbais, de meditações, de festas. Essas festas dão oportunidade para falarmos de muitas coisas: educação, saúde e espiritualidade.

A chegada dos missionários foi importante para alfabetizar, mas ruim porque eles combateram os nossos curandeiros e os nossos chefes tradicionais. Eu defendi a questão indígena diante dos salesianos por sermos proibidos de curar nossos doentes ao nosso modo. Eu preferi segurar a bandeira dos meus antepassados.

Os padres, que não eram comerciantes, sempre levavam os índios para trabalhar nas missões, que fundaram para catequizar. Os padres tinham ciúmes dos seus índios; militares, antropólogos e ambientalistas também. Mas eu não pertenço a eles. Eu pertenço ao meu povo, à minha cultura.

A medicina que temos que defender

 

O nosso povo não sabia o que era aplicar uma injeção, o que era uma vacina ou como curar a paralisia infantil. Essa medicina chegou na região com os salesianos, nas primeiras décadas do século XX, e foi importante. Hoje, é muito difícil encontrar casos de paralisia infantil. O governo começou a dar mais apoio só depois. Os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) são recentes, apareceram na metade da década de

1990, quando chegou o Programa Calha Norte.1 Sempre se pensou que alguma parte da verba pudesse ser aplicada naquela região na construção de hospitais. Não que faltasse hospital, pois os salesianos já tinham feito hospitais em todo o rio Negro, e já existiam também aeroportos e muita infraestrutura. A saúde do branco, para nós, não era novidade. Só que não éramos independentes, porque não tínhamos, naquela época, acadêmicos nas universidades fazendo medicina ou outras matérias.

Muita gente queria trabalhar na área da saúde, e eu fui um dos primeiros na minha família a tratar de saúde fora do contexto da comunidade indígena. Fui padioleiro no hospital em São Gabriel da Cachoeira, em 1976 e 1977, e vi como era difícil e, ao mesmo tempo, gostoso tratar de saúde indígena. Recebia muitos parentes que não sabiam falar português e vinham para São Gabriel trazidos pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Naquela época, a Funai prestou muitos serviços, e continua prestando. A Força Aérea Brasileira (FAB) também nos deu apoio, trazendo os índios em seus aviões ou helicópteros, pousando nos lugares mais difíceis. Os hospitais que foram construídos pelos salesianos encontram-se por lá. Foram desvalorizados por motivos ideológicos, mas o objetivo é o mesmo: ajudar as comunidades indígenas. Se não funcionou, foi pela briga de brancos por causa de índios.

Naquela época, havia uma equipe de saúde do governo chamada Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam), que combatia a malária e levava algumas equipes de saúde. Quando chegou o projeto Calha Norte, nós tivemos diálogo até com o governo em Brasília, que dizia: “Vamos construir hospital e, onde o índio estiver precisando, o governo irá buscar o paciente.” E isso aconteceu, realmente, várias vezes. Muitas vezes, porém, tivemos que reclamar, porque muita coisa foi mudando no governo, na Funai e, com o crescimento de pesquisadores, nossas palavras foram jogadas para escanteio.

 

Tem muita gente que rouba nossas ideias e esquece aquilo que nós queremos. Isso acontece dentro das igrejas, das instituições de saúde e no

meio das ONGs também. Mas nós continuamos em nosso próprio barco.

 

Nas nossas reivindicações em Brasília, costumávamos reclamar por escrito, e assim construímos muitos aeroportos e postos indígenas. Quem mais atuou nesse papel duro foi a FAB, desmontando trator, colocando e transportando as peças dentro dos helicópteros. O governo não estava nos dando esmola, o que nós queríamos era aquilo.

Hoje, de saúde mesmo, não tem nada, só bons relatórios. O dinheiro é muito mal utilizado, nós temos postos que não têm sequer remédio, o SUS não funciona, só serve para marcar atendimentos. Enquanto o paciente está esperando, ele morre no meio da fila. Coisa de pajelança é diferente: você vai lá, joga água, joga baforada de cigarro, mexe com os espíritos. Essa é a medicina que nós temos que defender.

Segundo os antigos, por exemplo, a mulher grávida não pode degustar de tudo, porque o feto vai engordar demais e, quando ela for parir, vai sofrer muito. Precisa também de cerimônia espiritual para que o Grande Pai alimente o feto através da mãe, assim ela terá um bom parto. Antes do branco, nosso povo nunca havia se submetido a uma cirurgia. Hoje virou moda esterilizar mulher. A gente não precisa, nós temos as plantas medicinais para controle de natalidade.

Para viver bem, é preciso ter cerimônias para rezar ao meio ambiente, para jogar as energias fora. Nós conhecemos o tabaco, que é uma das medicinas mais antigas para defumar os nossos filhos e o nosso meio ambiente. Nós temos muitos chás para oferecer aos nossos filhos e filhas. Temos animais como, por exemplo, a jiboia ou outras cobras, das quais extraímos o óleo para tirar as dores de artrite. Tomamos ayahuasca, que faz bem para desenvolver o nosso espírito.

Quem tiver essas forças e tradições, vive muito bem. Quem não tiver, fica com artrite e diabetes, que é uma doença externa causada pelo excesso de Coca-Cola, comidas enlatadas, essas coisas que chegam matando as populações indígenas.

 

É preciso ter cuidado. Hoje, nós precisamos de muitos curandeiros. Estudar a medicina deve ser o papel dos novos pesquisadores indígenas, para dizer que nós somos capazes de apresentar a nossa alternativa para a saúde.

Os padres combateram muito as nossas tradições, mas não substituíram nada. Nós temos, hoje, muitos ayahuasqueiros, curandeiros e juremeiros, índios que estão aprendendo a rezar para curar suas doenças. São cuidados espirituais dentro da nossa cultura. Aqueles que perderam essa cultura ficam sujeitos ao hospital de base de São Gabriel da Cachoeira, que muitas vezes não tem dinheiro, não tem médico, é mais burocracia do que saúde. Hoje, no rio Negro, tem muita gente começando a tomar ayahuasca de novo. Quando acontece isso, os padres e outros doutrinadores de índio vão embora. Isso é recuperar, isso é falar de autodeterminação na saúde indígena. Mas isso não quer dizer que nós vamos ficar impedidos de usar a alta tecnologia, de receber novos pesquisadores. O alcoolismo, por exemplo, é uma doença gravíssima. Então, temos que educar e ouvir quem combate isso.

 

Como queremos que o Brasil seja

 

Quando eu nasci, os indígenas do rio Negro eram conhecidos pelos missionários e militares como índios bonitos, fardados. Fazíamos recepções calorosas às comitivas militares, aos cardeais, generais e políticos. Foi bom, mas também foi ruim, porque fomos impedidos de aprender todas as coisas que eu já coloquei aqui, tanto na saúde quanto na organização social indígena. Nós não fomos treinados para defender a demarcação das terras indígenas – que são territórios antigos – dentro de nosso pensamento histórico. Na nossa cabeça, não havia necessidade de demarcar a terra, mas quando o colonizador chegou, ele disse: “Essa terra é do Estado, essa terra é minha.” Daí começou a confusão. Eu participei da Constituinte e participo ativamente das demarcações das terras indígenas no rio Negro para garantir a vida, a organização social coletiva, os estilos antigos.

O que aconteceu durante a Ditadura Militar foi no sentido de combatê-la, demarcar as terras indígenas, criar as organizações indígenas. Hoje, depois que nós garantimos a Constituição brasileira, temos que ter a capacidade de falar, de aperfeiçoar, de formar uma nova geração de líderes com medicina própria dentro de seus territórios. Nós temos que fazer uma plataforma para dizer como queremos que o Brasil seja.

 

O Brasil só será respeitado quando as populações indígenas estiverem cultural e economicamente equilibradas.

 

Índio é hoje um problema sério para o Estado, porque existe muito preconceito neste país. Muita gente fala mal do índio. O índio fala línguas próprias, dá nome às plantas, aos animais, a todas as doenças, tem história própria, tem sabedoria. Nós construímos um grande mosaico de culturas e de curas. Nós temos muitas plantas medicinais espalhadas nos nossos territórios e nossas populações estão cada vez maiores.

Para saber quantos somos, os povos no rio Negro tradicionalmente sabem fazer suas contagens (quem é Tukano de tal clã, quem é filho de quem). Outros parentes fazem a mesma coisa. Portanto, nós sabemos. Mas ultimamente a Igreja e o Estado têm atropelado esse tipo de controle, trazendo novas formas de fazer a contagem que não conferem com os nossos conceitos. É todo um outro modo de contar. Por exemplo, o índio, para muita gente, deve ser contabilizado lá no mato. E como fica aquele índio que nasce no hospital de São Gabriel da Cachoeira, em Manaus ou em outros hospitais do Brasil? Na nossa contagem, aqueles índios urbanos são índios de algum clã. Ainda tem muita gente que tem sangue indígena. Nós temos parentes que estão na Colômbia, na Venezuela, no Equador, no Brasil.

 

As conquistas da sociedade indígena

 

Em 1981, houve a 1ª Reunião Técnica sobre Problemas das Populações Indígenas na Região Amazônica, uma conferência internacional em Puyo, no Equador. Lá conheci os parentes Shuar. Eram um grupo bem organizado e forte economicamente. Tinham uma organização política e uma emissora de rádio, e estavam há 50 anos organizados com apoio da Congregação Salesiana. No Brasil, tínhamos o Dom Miguel Alagna, que foi o bispo mais rico que eu conheci, e eu fui seu secretário. Ele implantou ginásios, escolas de segundo grau, foi excelente nesse sentido, mas nunca tratou da cultura. Sempre esteve ao lado dos militares. Assim, eu comprei a briga no lugar do meu pai e dos meus antepassados, porque estava mais preparado. Eu fui o primeiro índio a sair do Brasil e denunciei todos esses crimes que aconteceram e acontecem no rio Negro.

No Equador havia a Federação do Centro Shuar. Eu disse: “Muito bem, quando eu chegar ao rio Negro, vou fundar a Foirn – Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro.” Eu estava em São Paulo, voltei a Brasília, peguei o dinheiro no Palácio do Planalto, juntei militares, todo mundo, para fazer uma grande reunião e construir aeroportos, hospitais. Tudo que está lá fui eu que fiz.

A Foirn primeiro serviu para dizer que nós existimos! Nós somos os povos originários desta terra, com histórias próprias, diferentes, histórias de irmãos. Nós tínhamos que nos juntar, esquecer os padres, esquecer os interesses da Funai. E qual era o nosso interesse? A demarcação da terra. Assim, quando fundamos a Foirn, muita gente que tinha medo de ser índio tomou coragem. Muitos deles são os Baré e outros povos indígenas que nasceram naquelas regiões mais próximas dos seringais e piaçavais. Nós ensinamos a eles a ser “gente indígena”.

Nós fomos lideranças de fato, porque sempre brigamos contra o Estado brasileiro, contra os missionários, contra outros interesses políticos. Isso se fez em Pari-Cachoeira e continua sendo feito lá. Ninguém pode nos diminuir dizendo que somos índios coitadinhos. Nós somos tão preparados quanto eles e isso deve ser respeitado.

Naquela época, aqueles que queriam a demarcação da terra eram os Pari-Cachoeira, os Taracuá, timidamente os Iauaretê e uma parcela dos Içana. Depois chamamos os Yanomami. Entendemos que éramos irmãos, cunhados. Nós falamos de assuntos indígenas, dissemos que éramos daquela região, donos daquela terra, e o Brasil tinha que demarcar, praticar a lei brasileira.

 

Quem demarcou as terras indígenas fomos nós, com as Forças Armadas. Elas não podem dizer que as ONGs estão internacionalizando a Amazônia, isso não é verdade.

 

Quem demarcou as terras indígenas foi o Exército brasileiro com recursos do governo federal e apoio da Funai, e quem solicitou fomos nós. Eu estive presente.

Na época, dissemos claramente: “Nós somos brasileiros.” Dissemos também: “Temos este acordo interno, temos acordos internacionais.” Então, o governo entendeu. Algumas pessoas acham que o índio tem muita terra, mas não é verdade, é terra da União. De modo geral, os índios estão hoje com 13% do território nacional. É lá que se encontram todas as riquezas minerais, água, madeira e plantas medicinais. É nos territórios indígenas que está a parte mais verde do Brasil. Nós prestamos grandes serviços no rio Negro e vamos continuar assim. Como é uma região de muita mineração, acontece muito contrabando, e disso ninguém fala. Hoje há mais de 2 mil pessoas naqueles buracos na Serra do Traíra. No Brasil, nós temos mais de 2.500 garimpos ilegais! São mais de 5 milhões de garimpeiros. Levam violência, cachaça, prostituição, as índias mais uma vez estão sendo violentadas. E onde está a Funai, onde estão os organismos? Não tem ninguém.

Outro órgão que criamos no movimento social foi a União das Nações Indígenas (UNI), que nasceu em Campo Grande, onde estavam a Carmen Junqueira e o Darcy Ribeiro, um amigo pessoal. Em certo momento, em 1982, nos encontramos em São Paulo e fizemos uma nova chapa de índios para concorrer às eleições para a UNI. Assim, fomos levando a mensagem de organizar as comunidades indígenas e, em poucos anos, conseguimos mais de 240 organizações de base da UNI. Conjugamos as forças para discutir como deveria ser a Constituição brasileira ao tratar dos índios. Por isso existem os artigos 231 e 232 da Constituição, que são fruto de muitos eventos, batalhas e vitórias.

O Ailton Krenak era jornalista, estava em São Paulo e, por isso, baseamos a sede da UNI em São Paulo, onde se falava de política de transformação no Brasil. Estivemos ao lado do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos do ABC, fomos e somos amigos do Lula até hoje, fizemos grandes avanços sociais na história do Partido dos Trabalhadores (PT). Foi uma construção precisa e necessária. Na década de 1990, em todo o país aconteceram reuniões com enfermeiros e membros da academia. Foram experiências múltiplas, coletivas, que se transformaram em documentos belíssimos. O Sérgio Arouca foi muito admirado nesse momento, porque ele era bom pensador, praticante e defendeu a Lei Arouca no Congresso Nacional, a favor dos indígenas.

Hoje nós temos a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a Apib, que deu sequência às nossas atividades. Temos muitos índios acadêmicos espalhados nas universidades pelo país, que são nossos mensageiros. Temos novos curandeiros e curandeiras, pais e mães, e estamos felizes com isso.

Quando a Constituição brasileira chegou, a UNI acabou. Depois, cada um constituiu sua organização regional. O que a gente tem que entender é que o Brasil tem uma legislação nacional que foi uma conquista da sociedade indígena. Essa lei deve ser mantida intocada, por isso a necessidade de ter índios nas câmaras municipais, assembleias estaduais e no Congresso.

 

Temos que acreditar em nós mesmos

 

O modo de organização que temos hoje no Congresso Nacional é difícil, porque eles não pensam nas questões indígenas. Eles são capitalistas. A eles interessa fazer estradas de ferro, favorecer o agronegócio ou negociar as suas campanhas junto às empreiteiras. É um Congresso corrompido, sem ética. Confiar nesse parlamento é perder tempo, mas nós temos prefeitos e vereadores indígenas em São Gabriel há muitos anos. Para nós, ser parlamentar nas bases não é novidade. Tivemos vice-prefeitos, prefeitos, soldados, sargentos, tenentes, pastores, homens e mulheres. Isso não quer dizer que deixamos de ser índios.

Temos no Congresso alguns apoiadores e aliados dos partidos da esquerda, que são bons, mas seria importante mesmo se esses partidos tivessem mais índios. Quando falta o índio, aparece o Jair Bolsonaro. É por isso que precisamos fazer presença nesses lugares, defender leis específicas para os povos indígenas, como defendemos um subsistema dentro do SUS. Isso porque o subsistema nos permitiu fazer pajelança dentro do hospital – o que é bom, porque há muitos médicos que não acreditam no pajé, não deixam nem entrar. Foi bom nesse sentido, por termos algo mais específico e diferente. Há médicos da universidade, mas há também curandeiros.

Está na hora da gente mudar o nosso modo de pensar sobre a história de saúde indígena neste país. Dizer com clareza que nós temos muitos conhecimentos tradicionais na área de medicina e que muitas curas encontram-se nas comunidades indígenas. O Brasil é um país que tem muitos indígenas com grandes estoques de conhecimentos tradicionais. Devemos organizar melhor a saúde dentro de cada comunidade, de cada povo. Nós temos que formar novos líderes que vão falar, cantar, fazer cerimônias com os nossos conhecimentos tradicionais. Nós temos que acreditar em nós mesmos e desenvolver o lado técnico também, com bons médicos e enfermeiras. É isso que vai salvar a nossa comunidade.