21 Lições para o Século 21
Introdução
Num mundo inundado de informações irrelevantes, clareza é poder. Em
teoria, qualquer um pode se juntar ao debate sobre o futuro da humanidade, mas
é muito difícil manter uma visão lúcida. Muitas vezes nem sequer percebemos
que um debate está acontecendo, ou quais são suas questões cruciais. Bilhões de
nós dificilmente podem se permitir o luxo de investigá-las, pois temos coisas
mais urgentes a fazer, como trabalhar, tomar conta das crianças, ou cuidar dos
pais idosos. Infelizmente, a história não poupa ninguém. Se o futuro da
humanidade for decidido em sua ausência, porque você está ocupado demais
alimentando e vestindo seus filhos — você e eles não estarão eximidos das
consequências. Isso é muito injusto, mas quem disse que a história é justa?
Como historiador, não posso dar às pessoas alimento ou roupas — mas posso
tentar oferecer alguma clareza, ajudando assim a equilibrar o jogo global. Se isso
capacitar ao menos mais um punhado de pessoas a participar do debate sobre o
futuro de nossa espécie, terei realizado minha tarefa.
Meu primeiro livro, Sapiens, investigou o passado humano, examinando como
um macaco insignificante dominou a Terra.
Homo Deus, meu segundo livro, explorou o futuro da vida a longo prazo,
contemplando como os humanos finalmente se tornarão deuses, e qual pode ser
o destino final da inteligência e da consciência.
Neste livro quero analisar mais de perto o aqui e o agora. Meu foco está nas
questões atuais e no futuro imediato das sociedades humanas. O que está
acontecendo neste momento? Quais são os maiores desafios e escolhas de hoje?
Qual deve ser o foco de nossa atenção? O que devemos ensinar a nossos filhos?
Claro, 7 bilhões de pessoas têm 7 bilhões de agendas, e, como já observado, pensar no contexto geral é um luxo relativamente raro. Uma mãe solteira
lutando para criar dois filhos numa favela em Mumbai está preocupada com a
próxima refeição; refugiados num barco no meio do Mediterrâneo perscrutam o
horizonte em busca de qualquer sinal de terra; e um homem que está morrendo
num hospital superlotado em Londres reúne todas as forças para respirar mais
uma vez. Todos têm problemas muito mais urgentes do que o aquecimento
global ou a crise da democracia liberal. Nenhum livro pode dar conta de todas as
angústias individuais, e não tenho lições a ensinar às pessoas que estão nas
situações que descrevi. Posso apenas esperar aprender com elas.
Minha agenda aqui é global. Observo as grandes forças que dão forma às
sociedades em todo o mundo, e que provavelmente vão influenciar o futuro do
planeta como um todo. A mudança climática pode estar muito além das
preocupações de quem está em meio a uma emergência de vida ou morte, mas
pode futuramente tornar as favelas de Mumbai inabitáveis, enviar novas e
enormes levas de refugiados através do Mediterrâneo, e levar a uma crise
mundial dos serviços de saúde.
A realidade é formada por muitas tramas, e este livro tenta cobrir diferentes
aspectos de nosso impasse global, sem pretender ser exaustivo. Diferentemente
de Sapiens e de Homo Deus, ele não tem a intenção de ser uma narrativa
histórica, e sim uma coletânea de lições, as quais não têm por conclusão
respostas simples. Elas visam a estimular a reflexão, e a ajudar os leitores a tomar
parte em algumas das principais conversas de nosso tempo.
O livro, na verdade, foi escrito em diálogo com o público. Muitos dos
capítulos surgiram como resposta a perguntas de leitores, jornalistas e colegas.
Versões anteriores de alguns segmentos foram publicadas em diferentes
formatos, o que me deu oportunidade de receber feedbacks e refinar meus
argumentos. Algumas seções têm por foco tecnologia, algumas política, outras
religião ou arte. Certos capítulos celebram a sabedoria humana, outros destacam
o papel crucial da sua estupidez. Mas a questão mais abrangente em todos é a
mesma: o que está acontecendo no mundo hoje, e qual é o significado profundo
dos eventos?
Qual é o sentido da ascensão de Donald Trump? O que podemos fazer ante a
epidemia de fake news? Por que a democracia liberal está em crise? Deus está de volta? Haverá uma nova guerra mundial? Qual civilização domina o mundo — o
Ocidente, a China, o Islã? A Europa deveria manter portas abertas aos
imigrantes? O nacionalismo pode resolver os problemas de desigualdade e
mudança climática? O que fazer quanto ao terrorismo?
Embora a perspectiva deste livro seja global, não negligencio o nível pessoal.
Ao contrário, quero enfatizar as conexões entre as grandes revoluções de nossa
era e a vida interior dos indivíduos. Por exemplo, o terrorismo é tanto um
problema de política global quanto um mecanismo psicológico interno. O
terrorismo manipula o medo em nossa mente, sequestrando a imaginação
privada de milhões de indivíduos. Da mesma forma, a crise da democracia liberal
se desenrola não somente em parlamentos e seções eleitorais, mas também nos
neurônios e nas sinapses. Dizer que o pessoal é político é um clichê. Mas, numa
era em que cientistas, corporações e governos estão aprendendo a hackear o
cérebro humano, esse truísmo é mais sinistro do que nunca. Portanto, o livro
apresenta observações sobre a conduta de indivíduos bem como de sociedades
inteiras.
Um mundo global exerce uma pressão sem precedentes sobre a conduta e a
moralidade pessoais. Cada um de nós está enredado em numerosas e vastas teias
de aranha, que restringem nossos movimentos, mas ao mesmo tempo
transmitem nossos mais minúsculos movimentos a destinações longínquas.
Nossa rotina diária influencia a vida de pessoas e animais do outro lado do
mundo, e alguns gestos pessoais podem inesperadamente incendiar o mundo
inteiro, como aconteceu com a autoimolação de Mohamed Bouazizi na Tunísia,
que desencadeou a Primavera Árabe, e com as mulheres que compartilharam
suas histórias de assédio sexual e deram origem ao movimento #MeToo.
Essa dimensão global de nossa vida pessoal significa que é mais importante
que nunca revelar nossos vieses religiosos e políticos, nossos privilégios raciais e
de gênero, e nossa cumplicidade involuntária na opressão institucional. Mas será
este um empreendimento realista? Como poderei achar um terreno ético firme
num mundo que se estende muito além de meus horizontes, que gira
completamente fora do controle humano, e que suspeita de todos os deuses e
ideologias?
O livro começa examinando o atual impasse político e tecnológico. No final
do século XX tudo levava a crer que as grandes batalhas ideológicas entre
fascismo, comunismo e liberalismo tinham resultado na vitória arrasadora do
liberalismo. Democracia política, direitos humanos e capitalismo de livre
mercado pareciam destinados a conquistar o mundo inteiro. Mas, como de
costume, a história dá voltas inesperadas, e após o colapso do fascismo e do
comunismo agora o liberalismo está emperrado. Então para onde caminhamos?
Essa pergunta é especialmente incômoda, porque o liberalismo está perdendo
credibilidade justo quando as revoluções gêmeas na tecnologia da informação e
na biotecnologia enfrentam os maiores desafios com que nossa espécie já
deparou. A fusão das duas áreas pode em breve expulsar bilhões de seres
humanos do mercado de trabalho e solapar a liberdade e a igualdade. Algoritmos
de Big Data poderiam criar ditaduras digitais nas quais todo o poder se
concentra nas mãos de uma minúscula elite enquanto a maior parte das pessoas
sofre não em virtude de exploração, mas de algo muito pior: irrelevância.
Comentei extensivamente a fusão da tecnologia da informação com a
biotecnologia em meu livro anterior, Homo Deus. Mas, enquanto aquele livro
focava nas perspectivas a longo prazo — perspectivas de séculos e até de milênios
—, este livro concentra-se na crise social, econômica e política mais imediata.
Meu interesse aqui é menos pela criação, no futuro, da vida inorgânica, e mais
pela ameaça ao Estado de bem-estar social e a determinadas instituições, como a
União Europeia.
O livro não tenta cobrir todos os impactos das novas tecnologias. Embora a
tecnologia encerre muitas e maravilhosas promessas, minha intenção é destacar
principalmente as ameaças e os perigos que ela traz consigo. Já que as
corporações e os empreendedores que lideram a revolução tecnológica tendem,
naturalmente, a entoar loas a suas criações, cabe a sociólogos, filósofos e
historiadores como eu fazer soar o alarme e explicar o que pode dar errado.
Depois de delinear os desafios que enfrentamos, na segunda parte do livro
examinaremos uma ampla gama de respostas possíveis. Poderiam os engenheiros
do Facebook usar inteligência artificial para criar uma comunidade global que
vai salvaguardar a liberdade e a igualdade humanas? Talvez a resposta seja
reverter o processo de globalização e tornar a fortalecer o Estado-nação? Será que devemos retroceder ainda mais, e ir buscar esperança e sabedoria nas fontes de
antigas tradições religiosas?
Na terceira parte do livro vemos que, embora os desafios tecnológicos sejam
sem precedentes e as discordâncias políticas sejam intensas, o gênero humano
poderá enfrentar a situação à altura se mantivermos nossos temores sob controle
e formos um pouco mais humildes quanto a nossas opiniões. Essa parte investiga
o que pode ser feito quanto à ameaça do terrorismo, quanto ao perigo de uma
guerra global, e quanto aos vieses e ódios que desencadeiam esses conflitos.
A quarta parte enfrenta a questão da pós-verdade, e pergunta em que medida
ainda somos capazes de compreender desenvolvimentos globais e distinguir os
malfeitos da Justiça. Será o Homo sapiens capaz de dar sentido ao mundo que ele
criou? Haverá ainda uma fronteira nítida entre realidade e ficção?
Na quinta e última parte, eu junto todas essas diferentes tramas e lanço um
olhar mais geral à vida na era da perplexidade, quando as antigas narrativas
históricas desmoronaram, e nenhuma outra surgiu até agora para substituí-las.
Onde estamos? O que deveríamos fazer na vida? De que tipos de habilidades
necessitamos? Considerando tudo que sabemos e que não sabemos sobre ciência,
sobre Deus, sobre política e sobre religião — o que podemos dizer sobre o
sentido da vida hoje?
Isso pode soar ambicioso demais, mas o Homo sapiens não pode esperar. O
tempo está ficando escasso para a filosofia, a religião e a ciência. As pessoas têm
debatido o sentido da vida por milhares de anos. Não podemos continuar esse
debate indefinidamente. A crise ecológica iminente, a ameaça crescente das
armas de destruição em massa e o surgimento de novas tecnologias disruptivas
não o permitirão. Talvez o mais importante seja o fato de que a inteligência
artificial e a biotecnologia estão dando à humanidade o poder de reformulação e
reengenharia da vida. Muito em breve alguém terá de decidir como usar esse
poder — com base numa narrativa implícita ou explícita sobre o sentido da vida.
Filósofos são muito pacientes, mas engenheiros são muito menos, e investidores
são os menos pacientes de todos. Se você não sabe o que fazer com o poder de
reengenharia da vida, as forças do mercado não vão esperar mil anos por uma
resposta. A mão invisível do mercado imporá sua resposta cega. A menos que
você se compraza em deixar o futuro da vida à mercê de relatórios de contabilidade, é preciso ter uma ideia clara do que é a vida.
No capítulo final eu me permito algumas observações pessoais, falando de um
Sapiens para outro, antes que a cortina desça sobre nossa espécie e comece um
drama completamente diferente.
Antes de embarcar nesta jornada intelectual, eu gostaria de destacar um
aspecto decisivo. Grande parte do livro discute as imperfeições da visão de
mundo liberal e do sistema democrático. Faço isso não por acreditar que a
democracia liberal é excepcionalmente problemática, e sim porque penso que é o
modelo político mais bem-sucedido e versátil que os humanos desenvolveram
até agora para lidar com os desafios do mundo moderno. Mesmo que não seja
adequado a toda sociedade em todo estágio de desenvolvimento, ele provou seu
valor em mais sociedades e em mais situações do que qualquer uma de suas
alternativas. Portanto, ao examinar os novos desafios que temos diante de nós, é
necessário compreender as limitações da democracia liberal, e explorar como
podemos adaptar e melhorar suas instituições atuais.
Infelizmente, no atual clima político, todo pensamento crítico sobre
liberalismo e democracia pode ser sequestrado por autocratas e vários
movimentos não democráticos, cujo único interesse é desacreditar a democracia
liberal, em vez de se envolver numa discussão aberta sobre o futuro da
humanidade. Ao mesmo tempo que ficam mais do que satisfeitos em debater os
problemas da democracia liberal, não toleram críticas dirigidas a eles.
Portanto, como autor, tive de fazer uma escolha difícil. Deveria expor minhas
ideias abertamente, arriscando que minhas palavras fossem interpretadas fora de
contexto e usadas para justificar as novas autocracias? Ou deveria censurar a
mim mesmo? É uma marca dos regimes não liberais dificultar a livre expressão
até mesmo fora de suas fronteiras. Devido à disseminação desses regimes, está
ficando cada vez mais perigoso pensar criticamente sobre o futuro de nossa
espécie.
Após uma reflexão íntima, optei pela discussão livre e não pela autocensura.
Se não criticarmos o modelo liberal não seremos capazes de corrigir suas falhas
ou ir além dele. Mas é importante notar que este livro só poderia ter sido escrito
num mundo em que as pessoas ainda são relativamente livres para pensar o que quiserem e se expressar como quiserem. Se você dá valor a este livro, deveria
valorizar também a liberdade de expressão.