21 Lições para o Século 21
9. Imigração: Algumas culturas talvez sejam melhores que outras
9. Imigração
Algumas culturas talvez sejam melhores que outras
Embora a globalização tenha reduzido as diferenças culturais por todo o
planeta, ela ao mesmo tempo fez com que ficasse muito mais fácil encontrar
estranhos e se aborrecer com suas esquisitices. A diferença entre a Inglaterra
anglo-saxônica e a Índia do Império Pala era muito maior que a diferença entre a
Grã-Bretanha moderna e a Índia moderna — mas a British Airways não tinha
voos diretos entre Delhi e Londres nos dias do rei Alfredo, o Grande.
À medida que cada vez mais humanos cruzam cada vez mais fronteiras em
busca de empregos, segurança e um futuro melhor, a necessidade de confrontar,
assimilar ou expulsar estrangeiros cria tensão entre sistemas políticos e
identidades coletivas formadas em tempos menos fluidos. Em nenhum lugar o
problema é mais agudo do que na Europa. A União Europeia foi construída
sobre a promessa de transcender as diferenças culturais entre franceses, alemães,
espanhóis e gregos. E pode desmoronar devido a sua incapacidade de incluir as
diferenças culturais entre europeus e imigrantes da África e do Oriente Médio.
Ironicamente, foi, em primeiro lugar, o próprio sucesso da Europa em construir
um sistema próspero e multicultural que atraiu tantos imigrantes. Os sírios
querem imigrar para a Alemanha, e não para a Arábia Saudita, o Irã, a Rússia ou
o Japão não porque a Alemanha fica mais perto ou é mais rica que todos os
outros destinos potenciais — e sim porque a Alemanha tem um histórico muito
melhor de receber e absorver imigrantes.
A crescente onda de refugiados e imigrantes provoca reações mistas entre os
europeus e desencadeia discussões amargas sobre a identidade e o futuro da
Europa. Alguns europeus exigem que a Europa feche seus portões: estarão traindo os ideais multiculturais e de tolerância europeus, ou só adotando
medidas sensíveis para evitar um desastre? Outros clamam por uma abertura
maior dos portões: estarão sendo fiéis ao cerne dos valores europeus ou serão
culpados de sobrecarregar o projeto do continente com expectativas inviáveis?
Essa discussão sobre imigração quase sempre degenera numa gritaria na qual
nenhum dos lados ouve o outro. Para esclarecer a questão, talvez fosse útil
considerar a imigração como um trato entre três condições ou termos básicos:
Termo 1: O país anfitrião permite a entrada de imigrantes.
Termo 2: Em troca, os imigrantes têm de adotar as normas e os valores
centrais do país anfitrião, mesmo que isso signifique abrir mão de alguns de seus
valores e normas tradicionais.
Termo 3: Se os imigrantes se assimilarem num grau considerado suficiente,
com o tempo tornam-se membros iguais e integrais do país anfitrião. “Eles”
passam a ser “nós”.
Esses três termos suscitam três debates distintos sobre o significado exato de
cada termo. Um quarto debate concerne ao cumprimento dos termos. Quando
pessoas discutem sobre imigração, muitas vezes confundem os quatro debates, e
ninguém compreende o que de fato se está discutindo. Por isso é melhor
considerar os três debates separadamente.
Debate 1: A primeira cláusula do trato sobre imigração diz apenas que o país
anfitrião permite a entrada de imigrantes. Mas isso deve ser entendido como um
dever ou como um favor? O país anfitrião é obrigado a abrir seus portões para
todo mundo, ou tem o direito de escolher, e até mesmo de sustar totalmente a
imigração? Os pró-imigracionistas parecem pensar que os países têm o dever
moral de aceitar não apenas refugiados mas também pessoas de países pobres
que buscam empregos e um futuro melhor. Especialmente num mundo
globalizado, todos os humanos têm obrigações morais para com outros
humanos, e os que se esquivam a essas obrigações são egoístas ou até mesmo
racistas.
Além disso, muitos pró-imigracionistas salientam que é impossível parar
completamente a imigração e, não importa quantos muros e quantas cercas forem construídos, pessoas desesperadas sempre acharão um meio de atravessá-
los. Assim, é melhor legalizar a imigração e lidar com ela abertamente do que
criar um vasto submundo de tráfico de pessoas, trabalhadores ilegais e crianças
sem documentação.
Os anti-imigracionistas retrucam que com força suficiente pode-se parar
completamente a imigração, e que, exceto talvez no caso de refugiados que
escapam de uma perseguição brutal num país vizinho, você nunca é obrigado a
abrir sua porta. A Turquia pode ter o dever moral de permitir que refugiados
sírios desesperados cruzem sua fronteira. Porém se esses refugiados tentarem
depois ir para a Suécia, os suecos não têm a obrigação de absorvê-los. Quanto a
imigrantes que buscam empregos e assistência, fica totalmente a critério do país
anfitrião decidir se os quer ou não, e sob quais condições.
Os anti-imigracionistas ressaltam que um dos direitos mais básicos de todo
coletivo humano é se defender contra uma invasão, seja sob a forma de exércitos,
seja de imigrantes. Os suecos trabalharam duro e fizeram numerosos sacrifícios
para construir uma próspera democracia liberal, e, se os sírios não conseguiram
fazer a mesma coisa, não é culpa dos suecos. Se os eleitores suecos não querem
que entrem mais imigrantes sírios — seja qual for o motivo — é seu direito
recusar a entrada. E se aceitarem alguns imigrantes, deveria estar totalmente
claro que é um favor que os suecos estão fazendo, e não uma obrigação que estão
cumprindo. O que significa que os imigrantes aos quais se permite que entrem
na Suécia deveriam sentir-se extremamente gratos pelo que for que conseguirem,
em vez de virem com uma lista de exigências, como se fossem os donos do lugar.
Além disso, dizem os anti-imigracionistas, um país pode ter a política de
imigração que quiser, e até filtrar os imigrantes não só em função de seu registro
criminal ou seus talentos profissionais, mas até mesmo em função de
características como religião. Se um país como Israel só quer permitir que
entrem judeus, ou um país como a Polônia concordar em aceitar refugiados do
Oriente Médio sob a condição de serem cristãos, isso pode parecer detestável,
mas faz parte dos direitos dos eleitores israelenses ou poloneses.
O que complica a questão é que em muitos casos as pessoas querem tudo ao
mesmo tempo. Numerosos países fazem vista grossa para a imigração ilegal, ou
até aceitam trabalhadores estrangeiros temporários, porque querem se beneficiar de sua energia, seu talento e seu trabalho barato. No entanto, esses países se
recusam depois a legalizar o status dessas pessoas, dizendo que não querem
imigração. A longo prazo, isso poderá criar sociedades hierárquicas nas quais
uma classe superior de cidadãos integrais explora uma subclasse de estrangeiros
impotentes, como acontece hoje no Qatar e em vários outros Estados do Golfo.
Enquanto esse debate não é resolvido, é extremamente difícil responder a
todas as perguntas subsequentes quanto à imigração. Como os pró-
imigracionistas pensam que as pessoas têm o direito de imigrar para outro país
se assim quiserem, e os países anfitriões têm o dever de absorvê-los, eles reagem
com indignação moral quando o direito de imigrar é violado, e quando países
deixam de cumprir seu dever de absorver. Os anti-imigracionistas ficam pasmos
com essa visão. Eles consideram a imigração um privilégio, e a absorção, um
favor. Por que acusar pessoas de serem racistas ou fascistas só porque recusam a
entrada em seu próprio país?
É claro que, mesmo que permitir a entrada de imigrantes seja um favor e não
um dever, uma vez estando os imigrantes estabelecidos, o país anfitrião
gradualmente assume numerosos deveres para com eles e seus descendentes. Por
isso não se pode justificar o antissemitismo nos Estados Unidos hoje em dia
alegando que “nós fizemos à sua bisavó um favor deixando-a entrar neste país
em 1910, assim agora podemos tratar você como quisermos”.
Debate 2: A segunda cláusula do acordo de imigração diz que, se lhes
permitirem entrar, os imigrantes têm a obrigação de se assimilarem à cultura
local. Mas até onde deveria ir essa assimilação? Se imigrantes passarem de uma
sociedade patriarcal para uma sociedade liberal, eles terão de se tornar
feministas? Se vierem de uma sociedade profundamente religiosa, precisarão
adotar uma visão de mundo secular? Deverão abandonar seus códigos de
vestimenta e tabus alimentares tradicionais? Os anti-imigracionistas tendem a
colocar o sarrafo muito alto, enquanto os pró-imigracionistas o colocam muito
mais baixo.
Os pró-imigracionistas alegam que a própria Europa é extremamente
diversificada, e que suas populações nativas têm um amplo espectro de opiniões,
hábitos e valores. É exatamente isso que faz a Europa ser vibrante e forte. Por que deveriam os imigrantes ser obrigados a aderir a alguma imaginária identidade
europeia que poucos europeus de fato adotam? Você quer forçar imigrantes
muçulmanos no Reino Unido a se tornarem cristãos, quando muitos cidadãos
britânicos quase não vão à igreja? Quer exigir que imigrantes do Punjab desistam
de seu curry e de sua masala em troca de peixe com fritas e bolinhos de
Yorkshire? Se a Europa realmente tem valores fundamentais comuns, são os
valores liberais da tolerância e da liberdade, o que implica que os europeus
deveriam demonstrar tolerância em relação aos imigrantes também, e conceder-
lhes tanta liberdade quanto possível para seguirem suas próprias tradições,
contanto que não seja em detrimento da liberdade e dos direitos de outras
pessoas.
Os anti-imigracionistas concordam que tolerância e liberdade são os mais
importantes valores europeus, e acusam muitos grupos de imigrantes —
especialmente de países muçulmanos — de intolerância, misoginia, homofobia e
antissemitismo. Exatamente porque a Europa acalenta a tolerância, não pode
permitir que entrem muitas pessoas intolerantes. Enquanto uma sociedade
tolerante é capaz de lidar com pequenas minorias não liberais, se o número
desses extremistas exceder um certo limite, toda a natureza da sociedade se
transforma. Se a Europa permitir a entrada de uma quantidade excessiva de
imigrantes do Oriente Médio, ela vai acabar se parecendo com o Oriente Médio.
Outros anti-imigracionistas vão muito mais longe. Eles ressaltam que uma
comunidade nacional é muito mais do que um conjunto de pessoas que se
toleram mutuamente. Daí que não é suficiente a adesão de imigrantes aos
padrões europeus de tolerância. Eles também têm de adotar muitas das
características singulares da cultura britânica, alemã ou sueca, seja lá quais
forem. Ao deixá-los entrar, a cultura local está assumindo um grande risco e um
enorme custo. Também não há uma razão para que ela destrua a si mesma. Ela
oferece uma posterior igualdade total, por isso exige assimilação total. Se os
imigrantes têm algum problema com certas peculiaridades da cultura britânica,
alemã ou sueca, estão convidados a irem para outro lugar.
As duas questões-chave deste debate são o desacordo quanto à intolerância do
imigrante e o desacordo quanto à identidade europeia. Se os imigrantes são
realmente culpados de uma incurável intolerância, muitos europeus liberais que hoje são a favor da imigração cedo ou tarde passarão a se opor a ela
amargamente. Ao contrário, se a maioria dos imigrantes provar-se liberal e
tolerante em relação a religião, gênero e política, isso irá desarmar um dos mais
eficazes argumentos contra a imigração.
Contudo, isso ainda deixará em aberto a questão das identidades nacionais
singulares da Europa. A tolerância é um valor universal. Existirão normas e
valores unicamente franceses que deveriam ser aceitos por todo aquele que
imigrasse para a França, e haverá normas e valores unicamente dinamarqueses
que imigrantes na Dinamarca têm de adotar? Enquanto os europeus estiverem
divididos quanto a essa questão, dificilmente poderão ter uma política clara de
imigração. Mas, uma vez sabendo quem são, 500 milhões de europeus não teriam
dificuldade em absorver alguns milhões de refugiados — ou os recusar.
Debate 3: A terceira cláusula do acordo de imigração diz que os imigrantes
devem fazer um esforço sincero para se assimilar — e, especialmente, para adotar
o valor da tolerância — e que o país anfitrião tem o dever de tratá-los como
cidadãos de primeira classe. Porém, quanto tempo exatamente precisa passar até
que os imigrantes se tornem membros da sociedade? Deveria a primeira geração
de imigrantes da Argélia se sentir melindrada se ainda não fosse considerada
totalmente francesa após vinte anos no país? E quanto à terceira geração de
imigrantes, cujos avós chegaram à França na década de 1970?
Os pró-imigracionistas exigem uma aceitação rápida, enquanto os anti-
imigracionistas querem um período de prova muito mais longo. Para os pró-
imigracionistas, se a terceira geração de imigrantes não é considerada nem
tratada como cidadãos iguais, isso significa que o país anfitrião não está
cumprindo suas obrigações, e se isso resulta em tensões, hostilidade e até mesmo
violência — o país anfitrião não tem a quem culpar, a não ser seu próprio
sectarismo. Para os anti-imigracionistas, essas expectativas são infladas e
constituem grande parte do problema. Os imigrantes deveriam ser pacientes. Se
seus avós chegaram aqui há quarenta anos e você agora entra em manifestações
nas ruas porque acha que não é tratado como um nativo, então você fracassou no
teste.
A raiz desse debate tem a ver com a diferença entre uma escala de tempo pessoal e uma escala de tempo coletiva. Do ponto de vista dos coletivos
humanos, quarenta anos é pouco tempo. É difícil esperar que uma sociedade
absorva completamente grupos estrangeiros em poucas décadas. Civilizações
passadas que assimilaram estrangeiros e os tornaram cidadãos iguais — como o
Império Romano, o califado muçulmano, os impérios chineses e os Estados
Unidos — levaram séculos, e não décadas, para realizar a transformação.
No entanto, do ponto de vista pessoal, quarenta anos parecem uma
eternidade. Para uma adolescente nascida na França vinte anos após seus avós
terem imigrado para lá, a jornada de Argel para Marselha é história antiga. Ela
nasceu lá, todos os seus amigos nasceram lá, ela fala francês e não árabe, e nunca
esteve na Argélia. A França é o único lar que conheceu na vida. E agora dizem a
ela que não é seu lar, e que ela deveria “voltar” para um lugar no qual nunca
habitou?
É como se você pegasse uma semente de eucalipto da Austrália e a plantasse
na França. De um ponto de vista ecológico, os eucaliptos são uma espécie
invasora, e levará gerações até que os botânicos os reclassifiquem como plantas
nativas da Europa. Mas, do ponto de vista da árvore individual, ela é francesa. Se
você não a irrigar com água francesa ela vai murchar. Se tentar arrancá-la, vai
descobrir que ela deitou raízes profundas no solo francês, assim como os
carvalhos e os pinheiros locais.
Debate 4: No topo de todas essas discordâncias relativas à definição exata do
acordo de imigração, a questão definitiva é se esse acordo está efetivamente
funcionando. Os dois lados estão cumprindo suas obrigações?
Os anti-imigracionistas tendem a alegar que os imigrantes não estão
cumprindo o termo 2. Não estão fazendo um esforço sincero para se assimilar, e
muitos deles agarram-se a visões de mundo intolerantes e preconceituosas. Por
isso o país anfitrião não tem por que cumprir o termo 3 (tratá-los como cidadãos
de primeira classe), e tem todo motivo para reconsiderar o termo 1 (permitir que
entrem). Se pessoas de uma determinada cultura mostraram consistentemente
que não estão dispostas a cumprir o acordo de imigração, por que permitir que
entrem mais e criem um problema ainda maior?
Os pró-imigracionistas respondem que é o país anfitrião que está deixando de cumprir sua parte no acordo. Apesar dos esforços honestos da grande maioria
dos imigrantes para se assimilar, os anfitriões estão fazendo com que isso seja
difícil para eles e, pior ainda, os imigrantes que conseguiram se assimilar são
tratados como cidadãos de segunda classe mesmo na segunda e na terceira
gerações. É possível, é claro, que ambas as partes não estejam cumprindo seus
compromissos, alimentando reciprocamente suas suspeitas e seus
ressentimentos, num círculo vicioso crescente.
Este quarto debate não pode ser resolvido antes de esclarecer qual é a
definição exata dos três termos. Enquanto não soubermos se a absorção é um
dever ou um favor; qual o nível de assimilação a ser requerido de imigrantes; e
quão rapidamente países anfitriões devem começar a tratá-los como cidadãos
iguais — não poderemos julgar se os dois lados estão cumprindo suas obrigações.
Um problema adicional diz respeito a contabilidade. Ao avaliar o acordo de
imigração, os dois lados atribuem muito mais peso a transgressões do que a
cumprimento. Se 1 milhão de imigrantes são cidadãos que respeitam a lei, mas
cem juntam-se a grupos terroristas e atacam o país anfitrião, isso significa que,
no geral, os imigrantes respeitam ou desrespeitam os termos do acordo? Se um
imigrante de terceira geração passa pela rua mil vezes sem ser molestado, mas
uma vez na vida alguns gritos racistas o ofendem, isso quer dizer que a população
nativa está aceitando ou rejeitando imigrantes?
Mas por baixo de todos esses debates espreita uma questão muito mais
fundamental, relativa a como entendemos a cultura humana. Será que entramos
no debate sobre imigração com a suposição de que todas as culturas são
inerentemente iguais, ou achamos que algumas culturas talvez sejam superiores a
outras? Quando os alemães discutem a absorção de 1 milhão de refugiados sírios,
poder-se-á alguma vez dar razão a eles por pensar que a cultura alemã é de algum
modo melhor do que a cultura síria?
DE RACISMO A CULTURISMO
Um século atrás os europeus tinham certeza de que algumas raças — em
especial a branca — eram inerentemente superiores às outras. Depois de 1945
essas ideias tornaram-se cada vez mais um anátema. O racismo era não só considerado moralmente deplorável mas também cientificamente desacreditado.
Os geneticistas apresentaram evidências científicas muito fortes de que as
diferenças biológicas entre europeus, africanos, chineses e nativos da América
eram insignificantes.
Ao mesmo tempo, no entanto, antropólogos, sociólogos, historiadores,
economistas comportamentais e até mesmo neurocientistas acumularam grande
quantidade de dados que indicavam a existência de diferenças significativas entre
as culturas humanas. Realmente, se todas as culturas humanas fossem as
mesmas, por que sequer precisaríamos de antropólogos e historiadores? No
mínimo deveríamos parar de financiar todas essas dispendiosas excursões para
trabalho de campo no Pacífico Sul e no deserto de Kalahari e nos contentar com
estudar povos em Oxford ou Boston. Se as diferenças culturais são
insignificantes, tudo o que descobrirmos sobre estudantes em Harvard deveria
valer também para caçadores-coletores do Kalahari.
Refletindo um pouco, muita gente admite a existência de ao menos algumas
diferenças significativas entre culturas humanas, em coisas que vão de costumes
sexuais a hábitos políticos. Como então deveríamos tratar essas diferenças?
Relativistas culturais alegam que diferença não implica hierarquia, e que não
devemos preferir uma cultura a outra. Humanos podem pensar e se comportar
de várias maneiras, mas deveríamos celebrar essa diversidade e atribuir valor
igual a todas as crenças e práticas. Infelizmente, essa abertura de espírito não
resiste ao teste da realidade. A diversidade humana pode ser ótima quando se
trata de culinária e poesia, mas poucos acham que queimar bruxas na fogueira,
infanticídio ou escravidão são fascinantes idiossincrasias humanas que deviam
ser protegidas contra a ingerência do capitalismo global.
Ou considere o modo como diferentes culturas se relacionam com estranhos,
imigrantes e refugiados. Nem todas as culturas são caracterizadas pelo mesmo
nível de aceitação. A cultura alemã no início do século XXI é mais tolerante com
estrangeiros e mais receptiva a imigrantes do que a cultura saudita. É muito mais
fácil para um muçulmano imigrar para a Alemanha do que para um cristão
imigrar para a Arábia Saudita. Na verdade, provavelmente é mais fácil até mesmo
para um refugiado muçulmano da Síria imigrar para a Alemanha do que para a
Arábia Saudita, e a partir de 2011 a Alemanha recebeu muito mais refugiados
sírios do que a Arábia Saudita.1 Da mesma forma, as evidências sugerem que a
cultura da Califórnia no início do século XXI é mais amigável com imigrantes do
que a cultura do Japão. Daí que, se você acha bom tolerar estranhos e receber
bem imigrantes, não deveria também achar, ao menos no que diz respeito a isso,
que a cultura alemã é superior à cultura saudita, e que a cultura californiana é
melhor que a cultura japonesa?
Além disso, mesmo quando duas normas culturais são em teoria igualmente
válidas, no contexto prático da imigração ainda seria justificado julgar a cultura
do anfitrião melhor. Normas e valores que são adequados num país talvez não
funcionem bem em circunstâncias diferentes. Examinemos atentamente um
exemplo concreto. Para não sermos presa de preconceitos bem estabelecidos,
imaginemos dois países fictícios: Friócia e Calorlândia. Os dois países
apresentam muitas diferenças culturais, entre as quais está sua atitude para com
as relações humanas e o conflito interpessoal. Os friocianos são educados desde a
infância com a ideia de que se você entra em conflito com alguém na escola, no
trabalho ou mesmo em sua família, a melhor coisa é reprimir o conflito. O
friociano deve evitar gritar, expressar raiva ou confrontar a outra pessoa —
explosões de raiva só pioram as coisas. É melhor elaborar seus sentimentos e
deixar as coisas se acalmarem. Enquanto isso, restrinja seu contato com a pessoa
em questão, e, se o contato é inevitável, seja conciso, porém polido, e evite tocar
em questões delicadas.
Os calorlandeses, em contraste, são educados desde a infância a externar
conflitos. Se um deles estiver envolvido em conflito, não deixa que ele fique
cozinhando, e não reprime nada. Aproveita a primeira oportunidade para
expressar suas emoções abertamente. Tudo bem ficar com raiva, gritar e dizer à
outra pessoa exatamente como se sente. Essa é a única forma de elaborar as
coisas juntos, de modo honesto e direto. Um dia gritando pode resolver um
conflito que, de outra maneira, poderia durar anos, e, embora um embate direto
nunca seja agradável, todos se sentirão muito melhor depois.
Ambos os métodos têm seus prós e contras, e é difícil dizer que um seja
sempre melhor do que o outro. O que poderia acontecer, no entanto, se um
calorlandês imigrasse para a Friócia e conseguisse um emprego numa empresa
friociana?
Sempre que surge um conflito com um colega, o calorlandês dá um soco na
mesa e grita, esperando que isso foque a atenção no problema e ajude a resolvê-lo
rapidamente. Vários anos depois um cargo sênior fica vago. Embora o
calorlandês tenha todas as qualificações necessárias, o chefe prefere promover
um funcionário friociano. Quando questionado sobre isso, ele explica: “Sim, o
calorlandês tem muitos talentos, mas ele tem também um problema sério de
relacionamento. Ele é irascível, cria tensões desnecessárias a sua volta e perturba
nossa cultura corporativa”. Essa mesma sina recai sobre outros imigrantes
calorlandeses na Friócia. A maioria deles permanece em cargos subalternos, ou
não conseguem emprego em geral, porque os gerentes pressupõem que, como
são calorlandeses, provavelmente serão funcionários irascíveis e problemáticos.
Como os calorlandeses nunca chegam a posições seniores, é difícil para eles
modificar a cultura friociana.
Algo muito parecido sucede com friocianos que imigram para Calorlândia.
Um friociano que começa a trabalhar numa empresa calorlandesa logo adquire a
reputação de ser esnobe ou frio, e faz poucos amigos, se é que faz algum. As
pessoas pensam que ele não é sincero, ou que lhe faltam habilidades básicas de
relacionamento. Ele nunca progride para cargos seniores, e portanto nunca tem a
oportunidade de mudar a cultura corporativa. Os gerentes calorlandianos
concluem que a maioria dos friocianos é inamistosa ou tímida, e preferem não
contratá-los para cargos que exigem contato com clientes ou estreita cooperação
com outros funcionários.
Ambos os casos parecem cheirar a racismo. Porém na verdade não são
racistas. São “culturistas”. As pessoas continuam a travar uma luta heroica contra
o racismo tradicional sem perceber que a frente de batalha mudou. O racismo
tradicional está desaparecendo, mas o mundo está agora cheio de “culturistas”.
O racismo tradicional está fundamentado em teorias biológicas. Na década de
1890, ou na de 1930, havia a crença generalizada em países como Inglaterra,
Austrália e Estados Unidos de que alguns traços biológicos hereditários faziam
com que africanos e chineses fossem inatamente menos inteligentes, menos
empreendedores e menos morais que os europeus. O problema estava em seu
sangue. Essas ideias gozavam de respeitabilidade política assim como de um
amplo respaldo científico. Hoje, em contraste, ainda que muitos indivíduos façam afirmações racistas desse tipo, elas perderam todo o seu respaldo científico
e a maior parte de sua respeitabilidade política — a menos que as reelabore em
termos culturais. Dizer que pessoas negras têm tendência a cometer crimes
porque têm genes inferiores está fora de questão; dizer que elas têm tendência a
cometer crimes porque provêm de subculturas disfuncionais, não.
Nos Estados Unidos, por exemplo, alguns grupos e líderes apoiam
abertamente políticas discriminatórias e fazem afirmações depreciativas sobre
afro-americanos, latinos e muçulmanos — mas quase nunca, ou nunca, dirão que
tem algo errado com seu DNA. O problema supostamente está em sua cultura.
Assim, quando o presidente Trump descreveu Haiti, El Salvador e algumas
partes da África como “países de merda”, pelo jeito estava oferecendo ao público
uma reflexão sobre a cultura desses lugares, e não sobre sua constituição
genética.2 Em outra ocasião, Trump, referindo-se aos imigrantes mexicanos nos
Estados Unidos, disse que “quando o México envia pessoas, não envia as
melhores. Envia pessoas que têm muitos problemas, e que trazem esses
problemas. Trazem drogas, trazem crime. São estupradores, e alguns, suponho,
são boa gente”. Essa é uma declaração muito ofensiva, mas socialmente ofensiva,
e não biologicamente ofensiva. O que Trump disse não implica que o sangue
mexicano é um impedimento à bondade — apenas que os bons mexicanos
tendem a ficar ao sul do rio Grande.3
O corpo humano — o corpo latino, o corpo africano, o corpo chinês — ainda
está no centro desse debate. A cor da pele importa muito. Caminhar por uma rua
de Nova York com montes de melanina na pele significa que, para onde quer que
esteja indo, a polícia pode olhar para você com muita suspeita. Mas pessoas
como o presidente Trump ou como o presidente Obama explicarão o significado
da cor da pele em termos culturais e históricos. A polícia olha para a cor de sua
pele com suspeita não por qualquer razão biológica, mas devido à história. É de
se presumir que pessoas como Obama explicarão que o preconceito dos policiais
é um infeliz legado de crimes históricos, como a escravidão, enquanto pessoas
como Trump explicarão que a criminalidade entre os negros é um infeliz legado
dos erros históricos cometidos por liberais brancos e comunidades negras. Seja
qual for o caso, se você for na verdade um turista de Delhi que não sabe nada da
história americana, terá de lidar com suas consequências.
A mudança da biologia para a cultura não é somente uma mudança
insignificante de jargão. É uma mudança profunda com consequências práticas
de longo alcance, algumas boas, outras ruins. Para começar, a cultura é mais
maleável que a biologia. Isso significa, por um lado, que os culturistas de hoje
podem ser mais tolerantes do que os racistas tradicionais — basta os “outros”
adotarem nossa cultura e os aceitaremos como nossos iguais. Por outro lado, isso
pode resultar em muito mais pressão sobre os “outros” para que se assimilem, e
críticas muito mais duras se não fizerem isso.
Não se pode culpar pessoas de pele escura por não embranquecer sua pele,
mas pode-se acusar — e se acusa — africanos ou muçulmanos de não adotarem
normas e valores da cultura ocidental. O que não quer dizer que essas acusações
sejam necessariamente justificadas. Em muitos casos, não há motivos para se
adotar a cultura dominante, e em muitos outros, essa é uma missão totalmente
impossível. Afro-americanos de uma favela pobre que tentem se adequar à
cultura hegemônica americana podem primeiro ter o caminho bloqueado por
uma discriminação institucional — e depois serem acusados de não terem feito
esforço suficiente, e assim não terem ninguém a quem culpar, a não ser a si
mesmos, por seus problemas.
Uma segunda diferença fundamental entre falar sobre biologia e falar sobre
cultura é que, não como no tradicional sectarismo racista, os argumentos
culturistas podem ocasionalmente fazer algum sentido, como no caso da
Calorlândia e da Friócia. Os calorlandeses e os friocianos de fato têm culturas
diferentes, caracterizadas por estilos diferentes de se relacionar. Como as relações
humanas são cruciais em muitos empregos, não seria antiético uma empresa
calorlandesa penalizar friocianos por se comportarem segundo sua herança
cultural?
Antropólogos, sociólogos e historiadores ficam extremamente incomodados
com esse raciocínio. Por um lado, ele soa perigosamente como racismo. Por
outro, o culturismo tem uma base científica muito mais firme do que o racismo,
e os estudiosos, particularmente nas ciências humanas e sociais, não podem
negar a existência e a importância de diferenças culturais.
É claro que, mesmo que aceitemos a validade de algumas alegações culturistas,
não temos de aceitar todas elas. Muitas padecem de três falhas comuns. Primeiro, os culturistas frequentemente confundem superioridade local com superioridade
objetiva. Assim, no contexto local dos calorlandeses o método calorlandês de
resolver conflitos pode ser bem superior ao método friociano, e nesse caso uma
empresa calorlandesa que opera em Calorlândia tem bons motivos para
discriminar funcionários introvertidos (o que vai penalizar,
desproporcionalmente, imigrantes friocianos). No entanto, isso não quer dizer
que o método calorlandês seja superior. Os calorlandeses talvez devessem
aprender uma ou outra coisa com os friocianos, e se as circunstâncias forem
outras — por exemplo, a empresa calorlandesa torna-se global e abre filiais em
muitos países diferentes — a diversidade de repente se tornaria um ativo.
Segundo, quando se define um critério, um tempo e um lugar, as alegações
culturistas podem ser empiricamente fundamentadas. Mas as pessoas quase
sempre adotam alegações culturistas muito genericamente, o que faz muito
pouco sentido. Assim, dizer que “a cultura friociana é menos tolerante com uma
explosão pública de raiva do que a cultura calorlandesa” é uma alegação razoável,
porém é muito menos razoável dizer que “a cultura muçulmana é muito
intolerante”. Esta última alegação é vaga demais. O que se está querendo dizer
com “intolerante”? Intolerante com quem ou com o quê? Uma cultura pode ser
intolerante com minorias religiosas ou ideias políticas incomuns ao mesmo
tempo que é muito tolerante com pessoas obesas ou com idosos. E o que
queremos dizer com “cultura muçulmana”? Estamos nos referindo à península
arábica no século VII? Ao Império Otomano no século XVI? Ao Paquistão no
início do século XXI? Finalmente, qual é o termo de comparação? Se o que nos
importa é a tolerância com minorias religiosas e compararmos o Império
Otomano no século XVI com a Europa ocidental no século XVI, concluiremos que
a cultura muçulmana é extremamente tolerante. Se compararmos o Afeganistão
sob o Talibã com a Dinamarca contemporânea, chegaríamos a uma conclusão
muito diferente.
Mas o problema principal com as alegações culturistas é que, apesar de sua
natureza estatística, todas são usadas frequentemente para prejulgar indivíduos.
Quando um nativo de Calorlândia e um imigrante friociano se candidatam ao
mesmo cargo numa empresa calorlandesa, o gerente pode preferir contratar o
calorlandês porque “os friocianos são frios e insociáveis”. Mesmo que estatisticamente isso seja verdade, talvez aquele friociano específico seja na
verdade muito mais caloroso e extrovertido do que aquele calorlandês específico.
Mesmo sendo a cultura importante, as pessoas são modeladas por seus genes e
por sua história pessoal única. Indivíduos desafiam estereótipos estatísticos. Faz
sentido uma empresa preferir funcionários sociáveis a empedernidos, mas não
faz sentido preferir calorlandeses a friocianos.
Contudo, tudo isso modifica determinadas alegações culturistas sem
desacreditar o culturismo como um todo. Diferentemente do racismo, que é um
preconceito não científico, os argumentos do culturismo podem às vezes ser bem
sólidos. Se olharmos as estatísticas e descobrirmos que as empresas calorlandesas
têm poucos friocianos em posições seniores, isso pode ser resultado não de uma
discriminação racista, mas de um julgamento correto. Deveriam os migrantes
friocianos ficarem ressentidos com essa situação e alegar que a Calorlândia está
renegando o acordo de imigração? Deveríamos obrigar as empresas
calorlandesas a contratar mais gerentes friocianos mediante leis de “ação
afirmativa”, na esperança de arrefecer a temperatura nos negócios da
Calorlândia? Ou quem sabe a falha é dos imigrantes friocianos que não se
assimilam à cultura local, e deveríamos, portanto, fazer mais e maiores esforços
para inculcar nas crianças friocianos as normas e valores calorlandeses?
Retornando do reino da ficção para o dos fatos, vemos que o debate europeu
sobre imigração está longe de ser uma batalha bem definida entre o bem e o mal.
Seria errado taxar todos os anti-imigracionistas de “fascistas”, assim como seria
errado descrever todo pró-imigracionista como alguém comprometido com
“suicídio cultural”. Portanto, o debate sobre imigração não deveria ser conduzido
como uma luta intransigente por algum imperativo moral não negociável. Ele é
uma discussão entre duas posições políticas legítimas, que deveria ser decidida
mediante procedimentos democráticos padrão.
Atualmente, não está claro se a Europa é capaz de achar um caminho
intermediário que lhe permita manter suas portas abertas a estrangeiros sem ser
desestabilizada por pessoas que não compartilham seus valores. Se a Europa
conseguir achar esse caminho, talvez sua fórmula possa ser copiada em nível
global. No entanto, se o projeto europeu falhar, isso seria indicação de que a
crença nos valores liberais de liberdade e tolerância não é suficiente para resolver os conflitos culturais do mundo e unir o gênero humano diante da possibilidade
de uma guerra nuclear, de um colapso ecológico e da disrupção tecnológica. Se
gregos e alemães não conseguirem se entender quanto a um destino comum, e se
500 milhões de europeus afluentes não forem capazes de absorver uns poucos
milhões de refugiados empobrecidos, que possibilidades terão os humanos de
superar os conflitos muito mais profundos que assolam nossa civilização?
Uma coisa que poderia ajudar a Europa e o mundo como um todo a se
integrar melhor e manter fronteiras e mentes abertas seria relativizar a histeria
quanto ao terrorismo. Seria uma pena se o experimento europeu de liberdade e
tolerância se desmantelasse devido ao medo exagerado do terrorismo. Isso não
só realizaria os objetivos dos próprios terroristas como também daria a esse
punhado de fanáticos uma voz forte demais na determinação do futuro do
gênero humano. O terrorismo é a arma de um segmento marginal e fraco da
humanidade. Como ele veio a dominar a política global?