21 Lições para o Século 21

Yuval Noah Harari · Capítulo 6 de 26

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21 Lições para o Século 21

4. Igualdade: Os donos dos dados são os donos do futuro

4. Igualdade

Os donos dos dados são os donos do futuro

 

Nas últimas décadas foi dito às pessoas em todo o mundo que o gênero

humano está no caminho da igualdade, e que a globalização e as novas

tecnologias nos ajudarão a chegar lá mais cedo. Na verdade, o século XXI poderia

criar a sociedade mais desigual na história. Embora a globalização e a internet

representem pontes sobre as lacunas que existem entre os países, elas ameaçam

aumentar a brecha entre as classes, e, bem quando o gênero humano parece

prestes a alcançar unificação global, a espécie em si mesma pode se dividir em

diferentes castas biológicas.

A desigualdade remonta à Idade da Pedra. Trinta mil anos atrás, grupos de

caçadores-coletores enterravam alguns de seus membros em sepulturas

suntuosas repletas de contas, braceletes, joias e objetos de arte, enquanto outros

membros tinham de se contentar com uma cova simples. Não obstante, os

antigos grupos de caçadores-coletores ainda eram mais igualitários do que

qualquer sociedade humana subsequente, porque tinham poucas propriedades.

A propriedade é um pré-requisito para uma desigualdade de longo prazo.

Depois da revolução agrícola, a propriedade multiplicou-se, e com ela a

desigualdade. Quando humanos obtiveram propriedade de terra, animais,

plantas e ferramentas, surgiram rígidas sociedades hierárquicas, nas quais

pequenas elites monopolizavam a maior parte da riqueza e do poder, geração

após geração. Os humanos aceitaram esse arranjo como sendo natural e até

mesmo proveniente de ordem divina. A hierarquia não era apenas a norma, mas

também o ideal. Como poderia haver ordem sem uma hierarquia clara entre

aristocratas e pessoas comuns, entre homens e mulheres, entre pais e filhos? Sacerdotes, filósofos e poetas em todo o mundo explicavam pacientemente que,

assim como no corpo humano seus membros não são iguais — os pés têm de

obedecer à cabeça —, também na sociedade humana a igualdade só traz o caos.

Na modernidade tardia, no entanto, a igualdade tornou-se um ideal em quase

todas as sociedades humanas. Isso se deve em parte ao surgimento das novas

ideologias do comunismo e do liberalismo. Mas também à Revolução Industrial,

que deu às massas uma importância nunca antes vista. A economia industrial

dependia de massas de trabalhadores comuns, enquanto exércitos industriais

dependiam de massas de soldados comuns. Tanto em ditaduras quanto em

democracias, governos investem pesadamente na saúde, educação e bem-estar

social das massas, porque precisam de milhões de trabalhadores saudáveis para

operar as linhas de produção e de milhões de soldados leais para lutar nas

trincheiras.

Consequentemente, a história do século XX girou em grande medida em torno

da redução da desigualdade entre classes, raças e gêneros. Embora o mundo no

ano 2000 ainda tenha seu quinhão de hierarquias, ele é assim mesmo um lugar

muito mais igualitário do que o mundo em 1900. Nos primeiros anos do século

XXI esperava-se que o processo igualitário continuasse e até mesmo se acelerasse.

Esperava-se que a globalização disseminasse a prosperidade econômica pelo

mundo, e que como resultado pessoas na Índia e no Egito usufruiriam das

mesmas oportunidades e privilégios de pessoas na Finlândia e no Canadá. Uma

geração inteira cresceu sob essa promessa.

Agora parece que a promessa talvez não seja cumprida. Certamente a

globalização beneficiou grandes segmentos da humanidade, mas há sinais de

uma crescente desigualdade, entre e dentro das sociedades. Alguns grupos

monopolizam cada vez mais os frutos da globalização, enquanto bilhões são

deixados para trás. Hoje, o 1% mais rico é dono de metade da riqueza do mundo.

Ainda mais alarmante, as cem pessoas mais ricas possuem juntas mais do que as

4 bilhões mais pobres.1

E é provável que fique muito pior. Como explicado nos capítulos anteriores, o

surgimento da IA pode extinguir o valor econômico e a força política da maioria

dos humanos. Ao mesmo tempo, aprimoramentos em biotecnologia poderiam

possibilitar que a desigualdade econômica se traduza em desigualdade biológica. Os super-ricos teriam finalmente algo que vale a pena fazer com sua estupenda

riqueza. Enquanto até agora só podiam comprar pouco mais que símbolos de

status, logo poderão ser capazes de comprar a própria vida. Se os novos

tratamentos para prolongar a vida e aprimorar habilidades físicas e cognitivas

forem dispendiosos, o gênero humano poderia se dividir em castas biológicas.

No decorrer da história, os ricos e a aristocracia sempre imaginaram que

tinham qualificações superiores às de todos os outros, e que por isso estavam no

controle. Até onde podemos afirmar, isso não era verdade. Um duque mediano

não era mais talentoso do que um camponês mediano — sua superioridade era

devida apenas a uma discriminação legal e econômica injusta. No entanto, em

2100 os ricos poderiam realmente ser mais talentosos, mais criativos e mais

inteligentes do que os moradores de favelas. Uma vez aberto um fosso entre

habilidades de ricos e pobres, será quase impossível fechá-lo. Se os ricos

utilizarem suas competências superiores para enriquecer ainda mais, e se

dinheiro a mais pode comprar para eles corpos e cérebros incrementados, com o

tempo a brecha vai só aumentar. Em 2100, o 1% mais rico poderia possuir não

apenas a maior parte da riqueza do mundo mas também a maior parte da beleza,

da criatividade e da saúde.

Os dois processos juntos — a bioengenharia associada à ascensão da IA —

poderiam, portanto, resultar na divisão da humanidade em uma pequena classe

de super-humanos e uma massiva subclasse de Homo sapiens inúteis. Para piorar

ainda mais uma situação que já é nefasta, à medida que as massas perdem

importância econômica e poder político, o Estado poderia perder pelo menos

parte do incentivo para investir em sua saúde, sua educação e seu bem-estar

social. É perigoso ser obsoleto. O futuro das massas dependerá então da boa

vontade de uma pequena elite. Talvez haja boa vontade durante umas poucas

décadas. Mas em tempos de crise — como uma catástrofe climática — seria

muito tentador e fácil descartar as pessoas supérfluas.

Em países como a França e a Nova Zelândia, com longa tradição de convicções

liberais e práticas de Estado de bem-estar social, talvez a elite continue a cuidar

das massas mesmo quando não precisar delas. No entanto, nos Estados Unidos,

mais capitalistas, a elite poderia aproveitar a primeira oportunidade para

desmantelar o que restava do Estado de bem-estar social. Um problema ainda maior ocorre em grandes países em desenvolvimento, como a Índia, a China, a

África do Sul e o Brasil. Lá, se as pessoas comuns perderem seu valor econômico,

a desigualdade poderia disparar.

Consequentemente, em vez de a globalização resultar em prosperidade global,

ela poderia na verdade resultar em “especiação”: a divisão do gênero humano em

diferentes castas biológicas, ou até mesmo espécies diferentes. A globalização

unirá o mundo horizontalmente, apagando fronteiras nacionais, mas ao mesmo

tempo vai dividir a humanidade verticalmente. As oligarquias no poder em

países tão diversos como Estados Unidos e Rússia podem unir-se contra a massa

de Sapiens comuns. Dessa perspectiva, o atual ressentimento popular em relação

“às elites” é bem fundamentado. Se não tivermos cuidado, os netos dos magnatas

do Vale do Silício e dos bilionários de Moscou podem se tornar uma espécie

superior à dos netos de lenhadores dos Apalaches e dos vilarejos da Sibéria.

No longo prazo, esse cenário poderia até mesmo desglobalizar o mundo, pois

a classe superior se congrega numa autoproclamada “civilização” e constrói

muros e fossos para isolá-la das hordas de “bárbaros” no lado de fora. No século

XX, a civilização industrial depende dos “bárbaros” para ter mão de obra barata,

matéria-prima e mercados. Por isso ela os conquistou e absorveu. Mas no século

XXI, uma civilização pós-industrial baseada em IA, bioengenharia e

nanotecnologia poderia ser muito mais autocontida e autossustentada. Não

apenas classes, mas países e continentes inteiros poderiam tornar-se irrelevantes.

Fortificações guardadas por drones e robôs poderiam separar a zona

autoproclamada civilizada, onde ciborgues lutam entre si em código, das terras

bárbaras onde humanos selvagens lutam entre si com machetes e Kaláshnikovs.

Ao longo deste livro usei frequentemente a primeira pessoa do plural para

falar sobre o futuro do gênero humano. Falo sobre o que “nós” precisamos fazer

quanto aos “nossos” problemas. Porém talvez não haja “nós”. Talvez um dos

“nossos” maiores problemas seja o de que diferentes grupos humanos têm

futuros completamente diferentes. Talvez em algumas partes do mundo você

deva ensinar seus filhos a escrever programas de computador, enquanto em

outras seria melhor ensiná-los a atirar com precisão.

 

QUEM É DONO DOS DADOS?

Se quisermos evitar a concentração de toda a riqueza e de todo o poder nas

mãos de uma pequena elite, a chave é regulamentar a propriedade dos dados.

Antigamente a terra era o ativo mais importante no mundo, a política era o

esforço por controlar a terra, e se muitas terras acabassem se concentrando em

poucas mãos — a sociedade se dividia em aristocratas e pessoas comuns. Na era

moderna, máquinas e fábricas tornaram-se mais importantes que a terra, e os

esforços políticos focam-se no controle desses meios de produção. Se um

número excessivo de fábricas se concentrasse em poucas mãos — a sociedade se

dividiria entre capitalistas e proletários. Contudo, no século XXI, os dados vão

suplantar tanto a terra quanto a maquinaria como o ativo mais importante, e a

política será o esforço por controlar o fluxo de dados. Se os dados se

concentrarem em muito poucas mãos — o gênero humano se dividirá em

espécies diferentes.

A corrida para obter dados já começou, liderada por gigantes como Google,

Facebook e Tencent. Até agora, muitos deles parecem ter adotado o modelo de

negócios dos “mercadores da atenção”.2 Eles capturam nossa atenção

fornecendo-nos gratuitamente informação, serviços e entretenimento, e depois

revendem nossa atenção aos anunciantes. Mas provavelmente visam a muito

mais do que qualquer mercador de atenção anterior. Seu verdadeiro negócio não

é vender anúncios. E sim, ao captar nossa atenção, eles conseguem acumular

imensa quantidade de dados sobre nós, o que vale mais do que qualquer receita

de publicidade. Nós não somos seus clientes — somos seu produto.

A médio prazo, esse acúmulo de dados abre caminho para um modelo de

negócio inédito, cuja primeira vítima será a própria indústria da publicidade. O

novo modelo baseia-se na transferência da autoridade de humanos para

algoritmos, inclusive a autoridade para escolher e comprar coisas. Quando

algoritmos escolherem e comprarem coisas para nós, a indústria da publicidade

tradicional irá à falência. Considere o Google. O Google quer chegar a um ponto

no qual poderemos perguntar-lhe qualquer coisa e obter a melhor resposta do

mundo. O que vai acontecer quando pudermos perguntar ao Google: “Oi,

Google, com base em tudo o que você sabe sobre carros e com base em tudo o

que você sabe sobre mim (inclusive minhas necessidades, meus hábitos, minhas

opiniões sobre o aquecimento global, e até mesmo minhas ideias sobre a política no Oriente Médio), qual é o melhor carro para mim?”. Se o Google for capaz de

dar uma boa resposta, e se aprendermos com a experiência a confiar no bom

senso do Google em vez de em nossos sentimentos facilmente manipuláveis, qual

será a utilidade das propagandas de carro?3

No longo prazo, ao reunir informação e força computacional em quantidade

suficiente, os gigantes dos dados poderão penetrar nos mais profundos segredos

da vida, e depois usar esse conhecimento não só para fazer escolhas por nós ou

nos manipular mas também na reengenharia da vida orgânica e na criação de

formas de vida inorgânicas. Vender anúncios pode ser necessário para sustentar

os gigantes no curto prazo, mas eles frequentemente avaliam aplicativos,

produtos e companhias em função dos dados que colhem deles, e não do

dinheiro que eles geram. Um aplicativo popular pode não ter um bom modelo de

negócios e até mesmo perder dinheiro no curto prazo, mas na medida em que

absorver dados pode valer bilhões.4 Mesmo que não se saiba como fazer dinheiro

com os dados hoje em dia, vale a pena tê-los porque eles podem ser a chave para

controlar e modelar a vida no futuro. Não tenho certeza de que os gigantes dos

dados pensam explicitamente nesses termos, mas suas ações indicam que dão

mais valor aos dados acumulados do que a meros dólares e centavos.

Humanos comuns vão descobrir que é muito difícil resistir a esse processo. No

presente, as pessoas ficam contentes de ceder seu ativo mais valioso — seus

dados pessoais — em troca de serviços de e-mail e vídeos de gatinhos fofos

gratuitos. É um pouco como as tribos africanas e nativas americanas que

inadvertidamente venderam países inteiros a imperialistas europeus em troca de

contas coloridas e bugigangas baratas. Se, mais tarde, pessoas comuns decidirem

tentar bloquear o fluxo de dados, podem descobrir que isso é cada vez mais

difícil, especialmente se tiverem chegado a ponto de depender da rede para todas

as suas decisões, até mesmo para sua saúde e sua sobrevivência física.

Humanos e máquinas poderão se fundir tão completamente que os humanos

não serão capazes de sobreviver se estiverem desconectados da rede. Estarão

conectados desde o útero, e, se em algum momento da vida você optar por se

desconectar, as companhias de seguro talvez se recusem a lhe fazer um seguro de

vida, empregadores talvez se recusem a empregá-lo, e serviços de saúde talvez se

recusem a cuidar de você. Na grande batalha entre saúde e privacidade, a saúde provavelmente vencerá sem muito esforço.

À medida que, através de sensores biométricos, cada vez mais dados fluírem

de seu corpo e seu cérebro para máquinas inteligentes, será fácil para

corporações e agências do governo conhecer você, manipular você e tomar

decisões por você. Mais importante ainda, eles serão capazes de decifrar os

mecanismos profundos de todos os corpos e cérebros, e com isso adquirir o

poder de fazer a engenharia da vida. Se quisermos evitar que uma pequena elite

monopolize esses poderes, que parecem divinos, e se quisermos impedir que a

humanidade se fragmente em castas biológicas, a questão-chave é: quem é dono

dos dados? Os dados de meu DNA, meu cérebro e minha vida pertencem a mim,

ao governo, a uma corporação ou ao coletivo humano?

Obrigar os governos a nacionalizar os dados provavelmente ia restringir o

poder das grandes corporações, mas também pode resultar em assustadoras

ditaduras digitais. Os políticos são um pouco como músicos, e o instrumento que

eles tocam é o sistema emocional e bioquímico humano. Eles fazem um discurso

— e há uma onda de medo no país. Eles escrevem uma mensagem no Twitter, e

há uma explosão de ódio. Não acho que deveríamos dar a esses músicos um

instrumento mais sofisticado para eles tocarem. Quando políticos forem capazes

de manipular nossas emoções, provocando, segundo sua vontade, ansiedade,

ódio, alegria e tédio, a política se tornará um mero circo emocional. Por mais que

devamos temer o poder das grandes corporações, a história sugere que não

estaríamos necessariamente melhor nas mãos de governos superpoderosos.

Neste momento, em março de 2018, eu prefiro dar meus dados a Mark

Zuckerberg a dá-los a Vladimir Putin (apesar de o escândalo da Cambridge

Analytica ter revelado que dados confiados a Zuckerberg podem acabar nas mãos

de Putin).

A propriedade privada de seus próprios dados soa mais atraente do que

qualquer dessas opções, mas não está claro o que isso quer dizer. Tivemos

milhares de anos de experiência de regulação da propriedade de terra. Sabemos

construir uma cerca em torno de um campo, pôr um guarda no portão e

controlar quem pode entrar. Nos dois séculos passados nos tornamos

extremamente sofisticados em regular a propriedade da indústria — hoje posso

comprar ações e ser dono de um pedaço da General Motors e um pedacinho da Toyota. Mas não temos muita experiência em regular a propriedade de dados,

que é inerentemente uma tarefa muito mais difícil, porque, ao contrário da terra

e de máquinas, os dados estão em toda parte e em parte alguma ao mesmo

tempo, podem movimentar-se à velocidade da luz, e podem ser indefinidamente

copiados.

Assim, faríamos melhor em invocar juristas, políticos, filósofos e mesmo

poetas para que voltem sua atenção para essa charada: como regular a

propriedade de dados? Essa talvez seja a questão política mais importante de

nossa era. Se não formos capazes de responder a essa pergunta logo, nosso

sistema sociopolítico pode entrar em colapso. As pessoas já estão sentindo a

chegada do cataclismo. Talvez seja por isso que cidadãos do mundo inteiro estão

perdendo a fé na narrativa liberal, que apenas uma década atrás parecia

irresistível.

Como, então, avançar a partir daqui, e como lidar com os imensos desafios

das revoluções da biotecnologia e da tecnologia da informação? Talvez os

mesmos cientistas e empresários responsáveis pelas disrupções do mundo

contemporâneo consigam montar alguma solução tecnológica? Por exemplo,

será que algoritmos em rede poderão fornecer as estruturas de uma comunidade

humana global que poderia ser, coletivamente, dona de todos os dados e

supervisionar o futuro desenvolvimento da vida? Quando a desigualdade global

só faz crescer e aumentam as tensões em todo o mundo, quem sabe Mark

Zuckerberg poderia convocar seus 2 bilhões de amigos para reunir forças e fazer

alguma coisa juntos?