21 Lições para o Século 21

Yuval Noah Harari · Capítulo 24 de 26

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21 Lições para o Século 21

Parte V: Resiliência

PARTE V

Resiliência

 

Como viver numa era de perplexidade,

quando as narrativas antigas

desmoronaram e não surgiu nenhuma

nova para substituí-las?

19. Educação

A mudança é a única constante

 

O gênero humano está enfrentando revoluções sem precedentes, todas as

nossas antigas narrativas estão ruindo e nenhuma narrativa nova surgiu até agora

para substituí-las. Como podemos nos preparar e a nossos filhos para um mundo

repleto de transformações sem precedentes e de incertezas tão radicais? Um bebê

nascido hoje terá trinta anos por volta de 2050. Se tudo correr bem, esse bebê

ainda estará por aí em 2100, e até poderá ser um cidadão ativo no século XXII. O

que deveríamos ensinar a esse bebê que o ajude, ou a ajude, a sobreviver e

progredir no mundo de 2050 ou no século XXII? De que tipo de habilidades ele ou

ela vai precisar para conseguir um emprego, compreender o que está

acontecendo a sua volta e percorrer o labirinto da vida?

Infelizmente, como ninguém sabe qual será o aspecto do mundo em 2050 —

muito menos 2100 —, não temos resposta para essas perguntas. É claro que os

humanos nunca serão capazes de predizer o futuro com exatidão. Mas hoje isso

está mais difícil do que nunca, porque uma vez tendo a tecnologia nos capacitado

a projetar e construir corpos, cérebros e mentes, não podemos mais ter certeza de

nada — inclusive coisas que antes pareciam ser fixas e eternas.

Mil anos atrás, em 1018, havia muitas coisas que as pessoas não sabiam quanto

ao futuro, mas assim mesmo estavam convencidas de que as características

básicas da sociedade humana não iriam mudar. Se você vivesse na China em

1018, saberia que em 1050 o Império Song poderia ruir, que os Kitais poderiam

invadir a partir do norte e que epidemias poderiam matar milhões. Contudo,

para você estava claro que mesmo em 1050 a maioria das pessoas ainda estaria

trabalhando como agricultores e tecelões, governantes ainda contariam com humanos para equipar seus exércitos e suas burocracias, os homens ainda

dominariam as mulheres, a expectativa de vida ainda seria de mais ou menos

quarenta anos e o corpo humano seria exatamente o mesmo. Por isso, em 1018

pais chineses pobres ensinavam seus filhos a plantar arroz ou tecer seda, e pais

ricos ensinavam seus meninos a ler os clássicos confucianos, escrever em

caligrafia chinesa ou lutar a cavalo — e ensinavam suas meninas a serem donas

de casa recatadas e obedientes. Era óbvio que essas aptidões ainda seriam

necessárias em 1050.

Em contraste, hoje não temos ideia de que aspecto terão a China e o resto do

mundo em 2050. Não sabemos o que as pessoas farão para ganhar a vida e não

sabemos como vão funcionar exércitos ou burocracias, e não sabemos como

serão as relações entre os gêneros. Algumas pessoas provavelmente viverão

muito mais do que se vive hoje, e o próprio corpo humano poderá ter passado

por uma revolução sem precedentes graças à bioengenharia e a interfaces

cérebro-computador diretas. Daí ser provável que muito do que as crianças

aprendem hoje seja irrelevante em 2050.

Atualmente, é enorme a quantidade de escolas que se concentram em

abarrotar os estudantes de informação. No passado isso faria sentido, porque a

informação era escassa, e mesmo o lento gotejar da informação existente era

repetidamente bloqueado pela censura. Se você vivesse, digamos, numa pequena

cidade provinciana do México em 1800, teria dificuldade para saber muito sobre

o resto do mundo. Não havia rádio, televisão, jornais diários ou bibliotecas

públicas.1 Mesmo se você fosse letrado e tivesse acesso a uma biblioteca privada,

não havia muito o que ler além de romances e tratados religiosos. O Império

Espanhol censurava todos os textos impressos localmente, e só permitia que fosse

importada do exterior uma pequena quantidade de publicações previamente

examinadas.2 Muito disso valia também para algumas cidades provincianas na

Rússia, na Índia, na Turquia ou na China. Quando vieram as escolas modernas,

ensinando toda criança a ler e escrever e repassando os fatos básicos da geografia,

da história e da biologia, elas representaram uma melhora imensa.

No século XXI, estamos inundados por enormes quantidades de informação, e

nem mesmo os censores tentam bloqueá-la. Em vez disso, estão ocupados

disseminando informações falsas ou nos distraindo com irrelevâncias. Se você vive em alguma cidade do interior do México e tem um smartphone, pode passar

a vida consultando a Wikipedia, assistindo a TED Talks e fazendo cursos gratuitos

on-line. Nenhum governo pode ter esperança de esconder toda informação da

qual ele não gosta. Por outro lado, é alarmantemente fácil inundar o público com

relatos conflitantes e pistas falsas. Pessoas em todo mundo estão a um clique de

distância dos últimos relatos sobre o bombardeio de Alepo, ou das calotas de

gelo derretendo no Ártico, mas há tantos relatos contraditórios que é difícil saber

em qual acreditar. Além disso, inúmeras outras coisas estão a um clique de

distância, o que faz com que seja difícil concentrar-se, e quando a política ou a

ciência parecem complicadas demais, é tentador mudar para alguns vídeos

engraçados sobre gatos, fofocas de celebridades ou pornografia.

Num mundo assim, a última coisa que um professor precisa dar a seus alunos

é informação. Eles já têm informação demais. Em vez disso, as pessoas precisam

de capacidade para extrair um sentido da informação, perceber a diferença entre

o que é importante e o que não é, e acima de tudo combinar os muitos

fragmentos de informação num amplo quadro do mundo.

Na verdade, esse tem sido o ideal da educação liberal ocidental durante

séculos, porém até agora a maioria das escolas ocidentais tem sido bem

negligente em seu cumprimento. Professores se permitem despejar dados

enquanto incentivam os alunos a “pensar por si mesmos”. Devido a seu medo do

autoritarismo, escolas liberais têm um horror particular às grandes narrativas.

Elas supõem que, enquanto dermos aos estudantes grandes quantidades de dados

e um mínimo de liberdade, eles formarão sua própria imagem do mundo, e

mesmo que esta geração não seja capaz de sintetizar todos os dados em uma

narrativa do mundo coerente e com sentido, haverá muito tempo para construir

uma boa síntese no futuro. E agora o nosso tempo se esgotou. As decisões que

tomarmos nas próximas poucas décadas vão moldar o próprio futuro da vida, e

só podemos tomar essas decisões com base na visão atual do mundo. Se esta

geração não tiver uma visão abrangente do cosmos, o futuro da vida será

decidido aleatoriamente.

 

A CHAPA ESTÁ ESQUENTANDO

Além de informação, a maioria das escolas também se concentra

demasiadamente em prover os alunos de um conjunto de habilidades

predeterminadas, como a de resolver equações diferenciais, escrever programas

de computador em C++, identificar substâncias químicas num tubo de ensaio ou

conversar em chinês. Mas, como não temos ideia de como o mundo e o mercado

de trabalho serão em 2050, na realidade não sabemos de quais habilidades

específicas vamos precisar. Podemos estar investindo muito esforço para ensinar

as crianças como programar em C++ ou como falar chinês para descobrir em

2050 que a IA pode programar softwares muito melhor que humanos, e que um

novo aplicativo de tradução do Google o habilita a conduzir uma conversa num

mandarim, cantonês ou hakka quase impecáveis, mesmo que você só saiba dizer

“Ni hao”.

Então, o que deveríamos estar ensinando? Muitos especialistas em pedagogia

alegam que as escolas deveriam passar a ensinar “os quatro Cs” — pensamento

crítico, comunicação, colaboração e criatividade.3 Num sentido mais amplo, as

escolas deveriam minimizar habilidade técnicas e enfatizar habilidades para

propósitos genéricos na vida. O mais importante de tudo será a habilidade para

lidar com mudanças, aprender coisas novas e preservar seu equilíbrio mental em

situações que não lhe são familiares. Para poder acompanhar o mundo de 2050

você vai precisar não só inventar novas ideias e produtos — acima de tudo, vai

precisar reinventar a você mesmo várias e várias vezes.

Pois à medida que o ritmo das mudanças aumenta, é provável que não apenas

a economia, mas o próprio sentido de “ser humano” mude. Já em 1848 o

Manifesto comunista declarou que “tudo o que é sólido desmancha no ar”. No

entanto, Marx e Engels estavam pensando principalmente em estruturas sociais e

econômicas. Em 2048, estruturas físicas e cognitivas também desmancharão no

ar, ou numa nuvem de bits de dados.

Em 1848 milhões de pessoas estavam perdendo seus empregos no campo e

indo trabalhar em fábricas nas cidades grandes. Mas, ao chegarem à cidade

grande, era improvável que mudassem de gênero ou desenvolvessem um sexto

sentido. E, se achassem trabalho em alguma indústria têxtil, podiam esperar

permanecer naquela profissão pelo resto da vida.

Em 2048, as pessoas poderão ter de lidar com migrações para o ciberespaço, com identidades de gênero fluidas e com novas experiências sensoriais geradas

por implantes de computador. Se acharem trabalho e sentido projetando versões

atualizadíssimas de um jogo de realidade virtual em 3-D, uma década depois não

só essa profissão em particular como todos os empregos que exijam esse nível de

criação artística poderão ser tomados pela IA. Assim, com 25 anos, você se

apresentaria num site de encontros como “mulher heterossexual de 25 anos de

idade que vive em Londres e trabalha numa loja de roupas”. Aos 35 você diz que

é “uma pessoa de gênero não específico que está passando por um ajuste de

idade, cuja atividade neocortical ocorre principalmente no mundo virtual do

NovoCosmos e cuja missão na vida é chegar aonde nenhum designer de moda

chegou antes”. Aos 45 tanto “encontros” como “descrições de si mesmo” são

coisas do passado. Você apenas espera que um algoritmo encontre (ou crie) a

pessoa perfeita para ser seu par. Quanto a extrair um sentido da arte de desenhar

moda, você está tão irrevogavelmente superado pelos algoritmos que olhar para

suas máximas conquistas da década anterior causa-lhe mais constrangimento

que orgulho. E aos 45 você ainda tem a sua frente muitas décadas de mudanças

radicais.

Por favor, não tome esse cenário literalmente. Ninguém pode prever as

mudanças específicas que vamos testemunhar. É provável que qualquer cenário

particular esteja longe da verdade. Se alguém lhe fizer uma descrição do mundo

em meados do século XXI e ela soar como ficção científica, provavelmente é falsa.

Mas se alguém lhe fizer uma descrição do mundo em meados do século XXI e ela

não soar como ficção científica — certamente é falsa. Não podemos estar certos

quanto às especificidades, mas a mudança em si mesma é a única certeza.

Uma mudança tão profunda pode transformar a estrutura básica da vida,

fazendo da descontinuidade sua característica mais proeminente. Desde tempos

imemoriais a vida foi dividida em duas partes complementares: um período de

estudo seguido de um período de trabalho. Na primeira parte da vida você

acumulou informação, desenvolveu aptidões, formou uma visão de mundo e

construiu uma identidade estável. Mesmo que aos quinze anos você tenha

passado a maior parte do dia trabalhando no campo de arroz da família (e não

numa escola formal), a coisa mais importante que estava fazendo foi aprender a

cultivar arroz, como conduzir negociações com os gananciosos comerciantes da cidade grande e como resolver com outros aldeões conflitos sobre terra e água.

Na segunda parte da vida confiou em suas habilidades acumuladas para

percorrer o mundo, ganhar a vida e contribuir para a sociedade. É claro que

mesmo aos cinquenta você continuou a aprender coisas novas sobre arroz, sobre

comerciantes e sobre conflitos, mas foram apenas pequenos ajustes em

habilidades bem buriladas.

Em meados do século XXI, mudanças aceleradas e vida mais longa tornarão o

modelo tradicional obsoleto. A vida se esgarçará, e haverá cada vez menos

continuidade entre os diferentes períodos de vida. “Quem sou eu?” será uma

pergunta mais urgente e complicada do que jamais foi.4

É provável que isso envolva imensos níveis de estresse. Pois mudanças são

quase sempre estressantes, e após uma certa idade a maioria das pessoas

simplesmente não gosta de mudar. Quando você tem quinze anos, toda a sua

vida é mudança. Seu corpo está crescendo, sua mente se desenvolvendo, seus

relacionamentos se aprofundando. Tudo está fluindo, e tudo é novo. Você está

ocupado inventando a si mesmo. A maioria dos adolescentes acha isso

assustador, mas ao mesmo tempo excitante. Novos panoramas abrem-se diante

de você, e você tem o mundo inteiro para conquistar.

Aos cinquenta anos, você não quer mudar, e a maioria das pessoas desistiu de

conquistar o mundo. Já esteve lá, já fez o que fez. E prefere a estabilidade.

Investiu tanto em sua carreira, sua identidade e sua visão de mundo que não

quer começar tudo de novo. Quanto mais duro trabalhou para construir alguma

coisa, mais difícil é deixá-la ir embora e abrir espaço para algo novo. Você

poderia até mesmo apreciar novas experiências e pequenos ajustes, mas a

maioria das pessoas aos cinquenta anos não está disposta a rever as estruturas

profundas de sua identidade e personalidade.

Há razões neurológicas para isso. Embora o cérebro adulto seja mais flexível e

volátil do que se imaginava, ele ainda é menos maleável do que o cérebro de um

adolescente. Reconectar neurônios e religar sinapses é um trabalho duríssimo.5

Mas no século XXI dificilmente você pode se permitir ter estabilidade. Se tentar se

agarrar a alguma identidade, algum emprego ou alguma visão de mundo estáveis,

estará se arriscando a ser deixado para trás quando o mundo passar voando por

você. Como a expectativa de vida aumentará, você poderia ter de passar muitas décadas como um fóssil. Para continuar a ser relevante — não só

economicamente, mas acima de tudo socialmente — você vai precisar aprender e

se reinventar o tempo inteiro, numa idade tão jovem como a dos cinquenta anos.

À medida que a estranheza se torna o novo normal, suas experiências

passadas, assim como de toda a humanidade, passarão a ser guias menos

confiáveis. Humanos como indivíduos e o gênero humano como um todo terão

de lidar cada vez mais com coisas nunca antes encontradas, como máquinas

superinteligentes, corpos projetados e formados pela engenharia, algoritmos que

podem manipular suas emoções com incrível precisão, fulminantes cataclismos

climáticos criados pelo homem e a necessidade de mudar de profissão a cada

década. Qual é a coisa certa a fazer ao enfrentar uma situação totalmente sem

precedentes? Como você deve agir quando estiver inundado por enormes

quantidades de informação e não houver meios de absorvê-la e analisá-la? Como

viver num mundo em que uma profunda incerteza não é um bug, e sim uma

característica?

Para sobreviver e progredir num mundo assim, você vai precisar de muita

flexibilidade mental e de grandes reservas de equilíbrio emocional. Terá que abrir

mão daquilo que sabe melhor e sentir-se à vontade com o que não sabe.

Infelizmente, ensinar crianças a abraçar o desconhecido e manter seu equilíbrio

mental é muito mais difícil do que ensinar uma equação ou as causas da Primeira

Guerra Mundial. Você não será capaz de desenvolver resiliência lendo um livro

ou ouvindo uma aula. Aos próprios professores falta a flexibilidade mental que o

século XXI exige, pois eles mesmos são produto do antigo sistema educacional.

A Revolução Industrial deixou-nos como legado a teoria da linha de produção

da educação. No meio da cidade existe um grande prédio de concreto dividido

em muitas salas idênticas, cada sala equipada com fileiras de mesas e cadeiras. Ao

soar uma campainha você vai para uma dessas salas junto com outras trinta

crianças que nasceram, todas, no mesmo ano que você. A cada hora, entra um

adulto e começa a falar. São pagos pelo governo para fazer isso. Um deles lhe fala

sobre o formato da Terra, outro sobre o passado humano e um terceiro sobre o

corpo humano. É fácil rir desse modelo, e quase todo mundo concorda que, a

despeito de suas conquistas do passado, ele está falido. Mas até agora não

criamos uma alternativa viável, muito menos uma alternativa adaptável, que possa ser implementada no México rural, e não apenas nos sofisticados

subúrbios da Califórnia.

 

HACKEANDO HUMANOS

 

Assim, o melhor conselho que eu poderia dar a um jovem de quinze anos

enfiado numa escola desatualizada em algum lugar do México, da Índia ou do

Alabama é: não confie demais nos adultos. A maioria deles tem boas intenções,

mas eles não compreendem o mundo. No passado, era relativamente seguro

apostar em seguir os adultos, porque eles conheciam as coisas bastante bem, e o

mundo se transformava lentamente. Mas o século XXI será diferente. Devido ao

ritmo cada vez mais acelerado das mudanças, você nunca terá certeza se aquilo

que os adultos estão lhe dizendo é fruto de uma sabedoria atemporal ou de um

preconceito ultrapassado.

Então, em quem você pode confiar? Na tecnologia, talvez? É uma aposta ainda

mais arriscada. A tecnologia pode ajudá-lo muito, mas, se ela exercer demasiado

poder em sua vida, você pode acabar como um refém. Milhares de anos atrás, os

humanos inventaram a agricultura, mas essa tecnologia só enriqueceu uma

pequena elite, enquanto escravizava a maioria dos humanos. A maior parte das

pessoas acabou trabalhando do nascer ao pôr do sol arrancando ervas daninhas,

carregando baldes com água e colhendo milho sob o sol ardente. Isso pode

acontecer com você também.

A tecnologia não é uma coisa ruim. Se você souber o que deseja na vida, ela

pode ajudá-lo a conseguir. Mas se você não sabe, será muito fácil para a

tecnologia moldar por você seus objetivos e assumir o controle de sua vida. E, à

medida que a tecnologia adquire uma melhor compreensão dos humanos, você

poderia se ver servindo a ela cada vez mais, em vez de ela servir a você. Você já

viu esses zumbis que vagueiam pelas ruas com o rosto grudado em seus

smartphones? Você acha que eles estão controlando a tecnologia ou é a

tecnologia que os está controlando?

Então, você deve confiar em si mesmo? Isso soa muito bem na Vila Sésamo ou

num filme antigo da Disney, mas na vida real nem tanto. Até mesmo a Disney

está começando a se dar conta disso. Assim como Riley Andersen, a maioria das pessoas quase não conhece a si mesma, e quando tenta “ouvir-se a si mesma”

torna-se presa fácil de manipulações externas. A voz que ouvimos dentro de

nossa cabeça nunca foi confiável, porque sempre refletiu propaganda oficial,

lavagem cerebral ideológica e publicidade comercial, sem falar nos bugs

bioquímicos.

À medida que a biotecnologia e o aprendizado de máquina se aprimoram,

ficará mais fácil manipular as mais profundas emoções e desejos, e será mais

perigoso que nunca seguir seu coração. Quando a Coca-Cola, a Amazon, a Baidu

ou o governo sabem como manipular seu coração e controlar seu cérebro, você

ainda pode dizer qual é a diferença entre seu próprio eu e os especialistas em

marketing que trabalham para eles?

Para ser bem-sucedido numa tarefa tão intimidadora, você terá de trabalhar

muito duro para conhecer melhor seu sistema operacional. Para saber quem você

é, e o que deseja da vida. Este é o mais antigo conselho registrado: conheça a si

mesmo. Por milhares de anos filósofos e profetas instaram as pessoas a

conhecerem a si mesmas. Mas esse conselho nunca foi mais urgente do que é no

século XXI, pois diferentemente da época de Lao Zi ou Sócrates, agora você tem

uma séria concorrência. Coca-Cola, Amazon, Baidu e o governo estão todos

correndo para hackear você. Não seu smartphone, nem seu computador, nem

sua conta bancária — eles estão numa corrida para hackear você e seu sistema

operacional orgânico. Você pode ter ouvido dizer que estamos vivendo numa era

de hackeamento de computadores, mas isso não é nem metade da verdade. A

verdade é que estamos vivendo na era do hackeamento de humanos.

Neste exato momento os algoritmos estão observando você. Estão observando

aonde você vai, o que compra, com quem se encontra. Logo vão monitorar todos

os seus passos, todas as suas respirações, todas as batidas de seu coração. Estão se

baseando em Big Data e no aprendizado de máquina para conhecer você cada

vez melhor. E, assim que esses algoritmos o conhecerem melhor do que você se

conhece, serão capazes de controlar e manipular você, e não haverá muito que

fazer. Você estará vivendo na matrix, ou no Show de Truman. Afinal, é uma

simples questão empírica: se os algoritmos realmente compreenderem melhor

que você o que está acontecendo dentro de você, a autoridade passará para eles.

É claro que você poderia ser feliz cedendo toda a autoridade para os algoritmos e confiando neles para que decidam por você e pelo resto do mundo.

Se é assim, apenas relaxe e aproveite a viagem. Você não precisa fazer nada a

respeito. Os algoritmos cuidarão de tudo. Se, no entanto, você quiser manter

algum controle sobre sua existência pessoal e o futuro de sua vida, terá de correr

mais rápido que os algoritmos, mais rápido que a Amazon e o governo, e

conseguir conhecer a si mesmo melhor do que eles conhecem. Para correr tão

rápido, não leve muita bagagem consigo. Deixe para trás suas ilusões. Elas são

pesadas demais.