21 Lições para o Século 21
15. Ignorância: Você sabe menos
15. Ignorância
Você sabe menos do que pensa que sabe
Os capítulos precedentes examinaram alguns dos problemas e
desenvolvimentos mais importantes da era atual, desde o exagero midiático em
torno da ameaça de terrorismo até a subapreciada ameaça de disrupção
tecnológica. Se você ficou com a sensação perturbadora de que é demais, e que
você não é capaz de processar tudo isso, você está absolutamente certo. Ninguém
é.
Nos séculos recentes, o pensamento liberal depositou uma confiança imensa
no indivíduo racional. Ele descrevia indivíduos humanos como agentes racionais
independentes, e fez dessas criaturas míticas a base da sociedade moderna. A
democracia fundamenta-se na ideia de que o eleitor sabe o que é melhor, o livre
mercado capitalista acredita que o cliente tem sempre razão, e a educação liberal
ensina os estudantes a pensarem por si mesmos.
No entanto, é um erro depositar tanta confiança no indivíduo racional.
Pensadores pós-coloniais e feministas destacaram que esse “indivíduo racional”
pode muito bem ser uma fantasia chauvinista ocidental, glorificando a
autonomia e o poder de homens brancos de classe alta. Como observado
anteriormente, economistas comportamentais e psicólogos evolucionistas
demonstraram que a maioria das decisões humanas é baseada em reações
emocionais e atalhos heurísticos e não em análise racional, e que, enquanto
nossas emoções e nossa heurística talvez fossem adequadas para lidar com a vida
na Idade da Pedra, são lamentavelmente inadequadas na Idade do Silício.
Não só a racionalidade, a individualidade também é um mito. Humanos
raramente pensam por si mesmos. E sim, pensamos em grupos. Assim como é preciso uma tribo para criar uma criança, é preciso uma tribo para inventar uma
ferramenta, resolver um conflito ou curar uma doença. Nenhum indivíduo sabe
tudo o que é preciso para construir uma catedral, uma bomba atômica ou uma
aeronave. O que deu ao Homo sapiens uma vantagem em relação a todos os
outros animais e nos tornou os senhores do planeta não foi nossa racionalidade
individual, mas nossa incomparável capacidade de pensar juntos em grandes
grupos.1
Indivíduos humanos, constrangedoramente, pouco sabem sobre o mundo, e, à
medida que a história avançava, sabiam cada vez menos. Um caçador-coletor na
Idade da Pedra sabia como fazer as próprias roupas, como acender uma fogueira,
como caçar coelhos e como escapar de leões. Nós pensamos que hoje sabemos
muito mais, mas como indivíduos na verdade sabemos muito menos. Baseamo-
nos na expertise de outros para quase todas as nossas necessidades. Num
experimento humilhante, pediu-se a pessoas que avaliassem o quanto
compreendiam como funcionava um zíper comum. A maioria respondeu
confiantemente que compreendia muito bem — afinal, usavam zíper o tempo
todo. Pediu-se então que descrevessem com o máximo de detalhes possível todas
as etapas envolvidas na operação do zíper. A maior parte das pessoas não tinha a
menor ideia.2 Isto é o que Steven Sloman e Philip Fernbach denominaram “a
ilusão do conhecimento”. Pensamos que sabemos muito, mesmo quando
individualmente sabemos muito pouco, porque tratamos o conhecimento dos
outros como se fosse nosso.
Isso não é necessariamente ruim. Nossa confiança no pensamento de grupo
nos fez senhores do mundo, e a ilusão do conhecimento nos permite atravessar a
vida sem cairmos em um esforço impossível para compreender tudo por nós
mesmos. De uma perspectiva evolutiva, confiar no conhecimento de outros
funcionou extremamente bem para o Homo sapiens.
Mas, assim como outros traços humanos que faziam sentido em eras passadas
mas causam problemas na era moderna, a ilusão do conhecimento tem suas
desvantagens. O mundo está ficando cada vez mais complexo, e as pessoas não se
dão conta de quão ignorantes são. Consequentemente, algumas que não sabem
quase nada de meteorologia ou biologia propõem assim mesmo políticas
concernentes à mudança climática e a plantas geneticamente modificadas, enquanto outras mantêm opiniões muito firmes quanto ao que deveria ser feito
no Iraque ou na Ucrânia, sem serem capazes de localizar esses países no mapa.
Pessoas raramente contemplam sua ignorância, porque se fecham numa câmara
de eco com amigos que pensam como eles e com feeds de notícias que se
autoconfirmam, fazendo com que suas crenças sejam constantemente reiteradas
e raramente desafiadas.3
É improvável que oferecer às pessoas mais informações melhore a situação.
Cientistas esperam poder dissipar concepções equivocadas com educação
científica, e especialistas esperam influir na opinião pública em questões como o
Obamacare ou o aquecimento global apresentando ao público fatos precisos e
relatórios de especialistas. Essas esperanças baseiam-se numa compreensão
equivocada de como os humanos efetivamente pensam. A maior parte de nossas
opiniões é formada por pensamento comunitário e não em racionalidade
individual, e adotamos essas opiniões por lealdade ao grupo. Bombardear
pessoas com fatos e expor sua ignorância individual provavelmente será um tiro
pela culatra. A maioria das pessoas não gosta de dados demais, e certamente não
gosta de se sentir idiota. Não esteja certo de que pode convencer os que apoiam o
Tea Party de que o aquecimento global é um fato apresentando-lhes planilhas e
estatísticas.4
O poder do pensamento de grupo é tão penetrante que é difícil se livrar dele
mesmo quando parece ser bastante arbitrário. Assim, nos Estados Unidos,
conservadores de direita tendem a se incomodar muito menos do que
progressistas de esquerda com coisas como poluição e espécies ameaçadas de
extinção, motivo pelo qual a Louisiana tem regulamentos ambientais muito
menos rigorosos do que Massachusetts. Estamos acostumados com essa situação,
por isso a achamos natural, mas na realidade ela é bem surpreendente.
Poderíamos pensar que os conservadores se importariam muito mais com a
conservação da velha ordem ecológica e com a proteção de suas terras, florestas e
rios ancestrais. Em contraste, poderíamos esperar que os progressistas estivessem
muito mais abertos a mudanças radicais no campo, especialmente se elas visam a
acelerar o progresso e melhorar o padrão da vida humana. Contudo, como as
posições políticas quanto a essas questões foram estabelecidas por vários acasos
históricos, tornou-se uma segunda natureza dos conservadores ignorar preocupações ambientais, enquanto progressistas de esquerda tendem a temer
qualquer ruptura da antiga ordem ecológica.5
Nem mesmo os cientistas são imunes ao poder do pensamento de grupo.
Assim, cientistas que acreditam que fatos podem mudar a opinião pública
podem ser vítimas de pensamento de grupo científico. A comunidade científica
se baseia na eficácia dos fatos, daí que os que são leais a essa comunidade creem
que podem vencer debates públicos despejando dados, apesar de haver muita
evidência empírica do contrário.
Da mesma forma, a crença liberal na racionalidade individual pode ser
produto de um pensamento de grupo. Em um dos momentos climáticos do filme
A vida de Brian, do Monty Python, uma enorme multidão de seguidores
esperançosos e ingênuos confunde Brian com o Messias. Brian diz a seus
discípulos que “vocês não precisam me seguir, vocês não precisam seguir
ninguém! Vocês têm de pensar por si mesmos! Vocês são indivíduos! Todos
vocês são diferentes!”. A multidão entusiasmada entoa em uníssono: “Sim!
Somos todos diferentes!”. O Monty Python estava parodiando a contracultura
ortodoxa da década de 1960, mas a questão ali pode ser a crença no
individualismo racional. As democracias modernas estão cheias de multidões
gritando em uníssono: “Sim, o eleitor sabe o que é melhor! Sim, o cliente tem
sempre razão!”.
O BURACO NEGRO DO PODER
O problema do pensamento de grupo e da ignorância individual envolve não
apenas eleitores e clientes comuns, mas também presidentes e CEOs. Eles podem
ter a sua disposição agências de inteligência e muitos conselheiros, mas isso não
faz necessariamente com que as coisas fiquem melhores. É muito difícil descobrir
a verdade quando você está governando o mundo. Você simplesmente está
ocupado demais. A maioria dos líderes políticos e grandes empresários estão
eternamente atarefados. Se você quiser se aprofundar em qualquer assunto, vai
precisar de muito tempo e, principalmente, do privilégio de poder desperdiçar
tempo. Terá de experimentar caminhos improdutivos, explorar becos sem saída,
abrir espaço para as dúvidas e o tédio e permitir que pequenas sementes de ideias cresçam lentamente e floresçam. Se você não pode se dar ao luxo de perder
tempo, nunca encontrará a verdade.
Pior ainda, as grandes potências quase sempre distorcem a verdade. Poder diz
respeito a mudar a realidade e não a enxergá-la como ela é. Quando você tem em
mãos um martelo, tudo parece prego, e quando tem um grande poder nas mãos,
tudo parece um convite para se intrometer. Mesmo que de algum modo você
supere esse impulso, as pessoas a sua volta nunca se esquecerão do martelo
gigante nas suas mãos. Quem quer que fale com você terá sua própria agenda, e
por isso você nunca poderá acreditar totalmente no que dizem. Nenhum sultão
poderá jamais confiar que seus cortesãos e subalternos estão lhe dizendo a
verdade.
Assim, um grande poder atua como um buraco negro que deforma o próprio
espaço a sua volta. Quanto mais próximo você estiver, mais distorcido torna-se
tudo. Cada palavra ganha um peso extra ao entrar em sua órbita, e cada pessoa
que você vê tenta bajular, agradar ou obter alguma coisa de você. Elas sabem que
você não pode conceder-lhes mais de um minuto ou dois, e temem dizer algo
impróprio ou confuso, por isso acabam por se limitar a lemas vazios ou aos
maiores clichês.
Alguns anos atrás fui convidado para um jantar com o primeiro-ministro de
Israel, Benjamin Netanyahu. Amigos aconselharam-me a não ir, mas não
consegui resistir à tentação. Pensei que finalmente ouviria alguns dos grandes
segredos que só se divulgam a orelhas importantes atrás de portas fechadas. Que
decepção! Havia lá cerca de trinta pessoas, e cada uma delas tentava obter a
atenção do Grande Homem, impressioná-lo com sua verve, pedir um favor ou
obter alguma coisa dele. Se alguém lá sabia de algum grande segredo, fez um
excelente trabalho guardando-o para si mesmo. Dificilmente foi culpa de
Netanyahu, na verdade não foi culpa de ninguém. A culpa é da atração
gravitacional do poder.
Se você de fato quer a verdade, precisa escapar do buraco negro do poder, e
permitir-se desperdiçar muito tempo vagando aqui e ali na periferia. O
conhecimento revolucionário raramente chega ao centro, porque o centro está
construído sobre um conhecimento já existente. Os guardiões da velha ordem
normalmente determinam quem vai chegar aos centros do poder, e tendem a reter no filtro os portadores de perturbadoras ideias não convencionais. É claro
que eles filtram também uma incrível quantidade de refugo. Não ser convidado
para o Fórum Econômico Mundial em Davos dificilmente é garantia de
sabedoria. É por isso que você precisa perder tanto tempo na periferia — ela
pode conter algumas brilhantes ideias revolucionárias, mas está cheia de palpites
desinformados, modelos desmascarados, dogmas supersticiosos e ridículas
teorias conspiratórias.
Os líderes ficam presos num dilema. Se permanecerem no centro do poder,
terão uma visão extremamente distorcida da vida. Se se aventurarem nas
margens, desperdiçarão seu precioso tempo. E o problema só vai ficar pior. Nas
próximas décadas o mundo será ainda mais complexo do que é hoje.
Consequentemente, indivíduos humanos — sejam peões ou reis — saberão ainda
menos sobre as engenhocas tecnológicas, as correntes econômicas e as dinâmicas
políticas que dão forma ao mundo. Como observou Sócrates há mais de 2 mil
anos, o melhor que podemos fazer nessas condições é reconhecer nossa própria
ignorância individual.
Mas e quanto à moralidade e à justiça? Se não somos capazes de compreender
o mundo, como podemos esperar saber qual é a diferença entre o certo e o
errado, entre a justiça e a injustiça?