21 Lições para o Século 21

Yuval Noah Harari · Capítulo 20 de 26

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21 Lições para o Século 21

15. Ignorância: Você sabe menos

15. Ignorância

Você sabe menos do que pensa que sabe

 

Os capítulos precedentes examinaram alguns dos problemas e

desenvolvimentos mais importantes da era atual, desde o exagero midiático em

torno da ameaça de terrorismo até a subapreciada ameaça de disrupção

tecnológica. Se você ficou com a sensação perturbadora de que é demais, e que

você não é capaz de processar tudo isso, você está absolutamente certo. Ninguém

é.

Nos séculos recentes, o pensamento liberal depositou uma confiança imensa

no indivíduo racional. Ele descrevia indivíduos humanos como agentes racionais

independentes, e fez dessas criaturas míticas a base da sociedade moderna. A

democracia fundamenta-se na ideia de que o eleitor sabe o que é melhor, o livre

mercado capitalista acredita que o cliente tem sempre razão, e a educação liberal

ensina os estudantes a pensarem por si mesmos.

No entanto, é um erro depositar tanta confiança no indivíduo racional.

Pensadores pós-coloniais e feministas destacaram que esse “indivíduo racional”

pode muito bem ser uma fantasia chauvinista ocidental, glorificando a

autonomia e o poder de homens brancos de classe alta. Como observado

anteriormente, economistas comportamentais e psicólogos evolucionistas

demonstraram que a maioria das decisões humanas é baseada em reações

emocionais e atalhos heurísticos e não em análise racional, e que, enquanto

nossas emoções e nossa heurística talvez fossem adequadas para lidar com a vida

na Idade da Pedra, são lamentavelmente inadequadas na Idade do Silício.

Não só a racionalidade, a individualidade também é um mito. Humanos

raramente pensam por si mesmos. E sim, pensamos em grupos. Assim como é preciso uma tribo para criar uma criança, é preciso uma tribo para inventar uma

ferramenta, resolver um conflito ou curar uma doença. Nenhum indivíduo sabe

tudo o que é preciso para construir uma catedral, uma bomba atômica ou uma

aeronave. O que deu ao Homo sapiens uma vantagem em relação a todos os

outros animais e nos tornou os senhores do planeta não foi nossa racionalidade

individual, mas nossa incomparável capacidade de pensar juntos em grandes

grupos.1

Indivíduos humanos, constrangedoramente, pouco sabem sobre o mundo, e, à

medida que a história avançava, sabiam cada vez menos. Um caçador-coletor na

Idade da Pedra sabia como fazer as próprias roupas, como acender uma fogueira,

como caçar coelhos e como escapar de leões. Nós pensamos que hoje sabemos

muito mais, mas como indivíduos na verdade sabemos muito menos. Baseamo-

nos na expertise de outros para quase todas as nossas necessidades. Num

experimento humilhante, pediu-se a pessoas que avaliassem o quanto

compreendiam como funcionava um zíper comum. A maioria respondeu

confiantemente que compreendia muito bem — afinal, usavam zíper o tempo

todo. Pediu-se então que descrevessem com o máximo de detalhes possível todas

as etapas envolvidas na operação do zíper. A maior parte das pessoas não tinha a

menor ideia.2 Isto é o que Steven Sloman e Philip Fernbach denominaram “a

ilusão do conhecimento”. Pensamos que sabemos muito, mesmo quando

individualmente sabemos muito pouco, porque tratamos o conhecimento dos

outros como se fosse nosso.

Isso não é necessariamente ruim. Nossa confiança no pensamento de grupo

nos fez senhores do mundo, e a ilusão do conhecimento nos permite atravessar a

vida sem cairmos em um esforço impossível para compreender tudo por nós

mesmos. De uma perspectiva evolutiva, confiar no conhecimento de outros

funcionou extremamente bem para o Homo sapiens.

Mas, assim como outros traços humanos que faziam sentido em eras passadas

mas causam problemas na era moderna, a ilusão do conhecimento tem suas

desvantagens. O mundo está ficando cada vez mais complexo, e as pessoas não se

dão conta de quão ignorantes são. Consequentemente, algumas que não sabem

quase nada de meteorologia ou biologia propõem assim mesmo políticas

concernentes à mudança climática e a plantas geneticamente modificadas, enquanto outras mantêm opiniões muito firmes quanto ao que deveria ser feito

no Iraque ou na Ucrânia, sem serem capazes de localizar esses países no mapa.

Pessoas raramente contemplam sua ignorância, porque se fecham numa câmara

de eco com amigos que pensam como eles e com feeds de notícias que se

autoconfirmam, fazendo com que suas crenças sejam constantemente reiteradas

e raramente desafiadas.3

É improvável que oferecer às pessoas mais informações melhore a situação.

Cientistas esperam poder dissipar concepções equivocadas com educação

científica, e especialistas esperam influir na opinião pública em questões como o

Obamacare ou o aquecimento global apresentando ao público fatos precisos e

relatórios de especialistas. Essas esperanças baseiam-se numa compreensão

equivocada de como os humanos efetivamente pensam. A maior parte de nossas

opiniões é formada por pensamento comunitário e não em racionalidade

individual, e adotamos essas opiniões por lealdade ao grupo. Bombardear

pessoas com fatos e expor sua ignorância individual provavelmente será um tiro

pela culatra. A maioria das pessoas não gosta de dados demais, e certamente não

gosta de se sentir idiota. Não esteja certo de que pode convencer os que apoiam o

Tea Party de que o aquecimento global é um fato apresentando-lhes planilhas e

estatísticas.4

O poder do pensamento de grupo é tão penetrante que é difícil se livrar dele

mesmo quando parece ser bastante arbitrário. Assim, nos Estados Unidos,

conservadores de direita tendem a se incomodar muito menos do que

progressistas de esquerda com coisas como poluição e espécies ameaçadas de

extinção, motivo pelo qual a Louisiana tem regulamentos ambientais muito

menos rigorosos do que Massachusetts. Estamos acostumados com essa situação,

por isso a achamos natural, mas na realidade ela é bem surpreendente.

Poderíamos pensar que os conservadores se importariam muito mais com a

conservação da velha ordem ecológica e com a proteção de suas terras, florestas e

rios ancestrais. Em contraste, poderíamos esperar que os progressistas estivessem

muito mais abertos a mudanças radicais no campo, especialmente se elas visam a

acelerar o progresso e melhorar o padrão da vida humana. Contudo, como as

posições políticas quanto a essas questões foram estabelecidas por vários acasos

históricos, tornou-se uma segunda natureza dos conservadores ignorar preocupações ambientais, enquanto progressistas de esquerda tendem a temer

qualquer ruptura da antiga ordem ecológica.5

Nem mesmo os cientistas são imunes ao poder do pensamento de grupo.

Assim, cientistas que acreditam que fatos podem mudar a opinião pública

podem ser vítimas de pensamento de grupo científico. A comunidade científica

se baseia na eficácia dos fatos, daí que os que são leais a essa comunidade creem

que podem vencer debates públicos despejando dados, apesar de haver muita

evidência empírica do contrário.

Da mesma forma, a crença liberal na racionalidade individual pode ser

produto de um pensamento de grupo. Em um dos momentos climáticos do filme

A vida de Brian, do Monty Python, uma enorme multidão de seguidores

esperançosos e ingênuos confunde Brian com o Messias. Brian diz a seus

discípulos que “vocês não precisam me seguir, vocês não precisam seguir

ninguém! Vocês têm de pensar por si mesmos! Vocês são indivíduos! Todos

vocês são diferentes!”. A multidão entusiasmada entoa em uníssono: “Sim!

Somos todos diferentes!”. O Monty Python estava parodiando a contracultura

ortodoxa da década de 1960, mas a questão ali pode ser a crença no

individualismo racional. As democracias modernas estão cheias de multidões

gritando em uníssono: “Sim, o eleitor sabe o que é melhor! Sim, o cliente tem

sempre razão!”.

 

O BURACO NEGRO DO PODER

 

O problema do pensamento de grupo e da ignorância individual envolve não

apenas eleitores e clientes comuns, mas também presidentes e CEOs. Eles podem

ter a sua disposição agências de inteligência e muitos conselheiros, mas isso não

faz necessariamente com que as coisas fiquem melhores. É muito difícil descobrir

a verdade quando você está governando o mundo. Você simplesmente está

ocupado demais. A maioria dos líderes políticos e grandes empresários estão

eternamente atarefados. Se você quiser se aprofundar em qualquer assunto, vai

precisar de muito tempo e, principalmente, do privilégio de poder desperdiçar

tempo. Terá de experimentar caminhos improdutivos, explorar becos sem saída,

abrir espaço para as dúvidas e o tédio e permitir que pequenas sementes de ideias cresçam lentamente e floresçam. Se você não pode se dar ao luxo de perder

tempo, nunca encontrará a verdade.

Pior ainda, as grandes potências quase sempre distorcem a verdade. Poder diz

respeito a mudar a realidade e não a enxergá-la como ela é. Quando você tem em

mãos um martelo, tudo parece prego, e quando tem um grande poder nas mãos,

tudo parece um convite para se intrometer. Mesmo que de algum modo você

supere esse impulso, as pessoas a sua volta nunca se esquecerão do martelo

gigante nas suas mãos. Quem quer que fale com você terá sua própria agenda, e

por isso você nunca poderá acreditar totalmente no que dizem. Nenhum sultão

poderá jamais confiar que seus cortesãos e subalternos estão lhe dizendo a

verdade.

Assim, um grande poder atua como um buraco negro que deforma o próprio

espaço a sua volta. Quanto mais próximo você estiver, mais distorcido torna-se

tudo. Cada palavra ganha um peso extra ao entrar em sua órbita, e cada pessoa

que você vê tenta bajular, agradar ou obter alguma coisa de você. Elas sabem que

você não pode conceder-lhes mais de um minuto ou dois, e temem dizer algo

impróprio ou confuso, por isso acabam por se limitar a lemas vazios ou aos

maiores clichês.

Alguns anos atrás fui convidado para um jantar com o primeiro-ministro de

Israel, Benjamin Netanyahu. Amigos aconselharam-me a não ir, mas não

consegui resistir à tentação. Pensei que finalmente ouviria alguns dos grandes

segredos que só se divulgam a orelhas importantes atrás de portas fechadas. Que

decepção! Havia lá cerca de trinta pessoas, e cada uma delas tentava obter a

atenção do Grande Homem, impressioná-lo com sua verve, pedir um favor ou

obter alguma coisa dele. Se alguém lá sabia de algum grande segredo, fez um

excelente trabalho guardando-o para si mesmo. Dificilmente foi culpa de

Netanyahu, na verdade não foi culpa de ninguém. A culpa é da atração

gravitacional do poder.

Se você de fato quer a verdade, precisa escapar do buraco negro do poder, e

permitir-se desperdiçar muito tempo vagando aqui e ali na periferia. O

conhecimento revolucionário raramente chega ao centro, porque o centro está

construído sobre um conhecimento já existente. Os guardiões da velha ordem

normalmente determinam quem vai chegar aos centros do poder, e tendem a reter no filtro os portadores de perturbadoras ideias não convencionais. É claro

que eles filtram também uma incrível quantidade de refugo. Não ser convidado

para o Fórum Econômico Mundial em Davos dificilmente é garantia de

sabedoria. É por isso que você precisa perder tanto tempo na periferia — ela

pode conter algumas brilhantes ideias revolucionárias, mas está cheia de palpites

desinformados, modelos desmascarados, dogmas supersticiosos e ridículas

teorias conspiratórias.

Os líderes ficam presos num dilema. Se permanecerem no centro do poder,

terão uma visão extremamente distorcida da vida. Se se aventurarem nas

margens, desperdiçarão seu precioso tempo. E o problema só vai ficar pior. Nas

próximas décadas o mundo será ainda mais complexo do que é hoje.

Consequentemente, indivíduos humanos — sejam peões ou reis — saberão ainda

menos sobre as engenhocas tecnológicas, as correntes econômicas e as dinâmicas

políticas que dão forma ao mundo. Como observou Sócrates há mais de 2 mil

anos, o melhor que podemos fazer nessas condições é reconhecer nossa própria

ignorância individual.

Mas e quanto à moralidade e à justiça? Se não somos capazes de compreender

o mundo, como podemos esperar saber qual é a diferença entre o certo e o

errado, entre a justiça e a injustiça?