21 Lições para o Século 21
12. Humildade: Você não é o centro do mundo
12. Humildade
Você não é o centro do mundo
A maioria das pessoas está propensa a acreditar que é o centro do mundo, e
que sua cultura é o sustentáculo da história humana. Muitos gregos acreditam
que a história começou com Homero, Sófocles e Platão, e que todas as ideias e
invenções importantes nasceram em Atenas, Esparta, Alexandria e
Constantinopla. Nacionalistas chineses replicam que a história começou
realmente com o Imperador Amarelo e as dinastias Xia e Shang, e as realizações
de ocidentais, muçulmanos ou indianos não são mais que uma pálida cópia das
inovações originais chinesas.
Nativistas hindus ignoram essas bazófias chinesas e alegam que até mesmo os
aviões e as bombas nucleares foram inventados por antigos sábios no continente
indiano muito antes de Confúcio e Platão, quanto mais de Einstein e dos irmãos
Wright. Você sabia, por exemplo, que foi o Maharishi Bhardwaj quem inventou
foguetes e aviões, que Vishwamitra não só inventou como usou mísseis, que
Acharya Kanad foi o pai da teoria atômica e que o Mahabharata descreve com
exatidão as armas nucleares?1
Muçulmanos devotos consideram toda a história antes de Maomé como
irrelevante, e que toda a história depois da revelação do Corão gira em torno da
umma muçulmana. As principais exceções são os nacionalistas turcos, iranianos
e egípcios, os quais alegam, cada um, que ainda antes de Maomé sua respectiva
nação era a fonte de tudo que era bom na humanidade, e que, mesmo após a
revelação do Corão, era principalmente o seu povo que preservava a pureza do
Islã e disseminava sua glória.
É desnecessário dizer que britânicos, franceses, alemães, americanos, russos, japoneses e incontáveis outros grupos estão, da mesma forma, convencidos de
que o gênero humano teria vivido numa bárbara e imoral ignorância não fosse
pelas espetaculares conquistas de sua nação. Ao longo da história, alguns povos
chegaram a ponto de imaginar que suas instituições políticas e práticas religiosas
eram essenciais para as próprias leis da física. Os astecas acreditavam firmemente
que sem os sacrifícios que realizavam todo ano, o sol não se levantaria e o
universo inteiro se desintegraria.
Todas essas alegações são falsas. Elas combinam uma ignorância intencional
da história com uma dose de racismo. Nenhuma das religiões ou nações atuais
existia quando os humanos colonizaram o mundo, domesticaram plantas e
animais, construíram as primeiras cidades, ou inventaram a escrita e o dinheiro.
Moralidade, arte, espiritualidade e criatividade são aptidões humanas universais
incorporadas em nosso DNA. Sua origem está na África da Idade da Pedra. É,
portanto, egotismo crasso atribuí-los a um lugar e um tempo mais recentes, seja
a China na época do Imperador Amarelo, a Grécia na época de Platão ou a
Arábia na época de Maomé.
Pessoalmente, também estou familiarizado com esse egotismo crasso, porque
os judeus, meu próprio povo, também pensam que são a coisa mais importante
no mundo. Mencione qualquer conquista ou invenção humana, e eles logo vão
reivindicar crédito por ela. E conhecendo-os bem, sei também que estão
genuinamente convencidos de suas reivindicações. Fui uma vez a um professor
de ioga em Israel que na aula de introdução explicou com toda a seriedade que a
ioga foi inventada por Abraão, e que todas as posturas básicas da ioga derivam
das formas das letras do alfabeto hebraico! (Assim, a postura trikonasana imita a
forma da letra hebraica alef, a taladandasana imita a letra daled etc.…) Abraão
ensinou essas posturas ao filho de uma de suas concubinas, que foi para a Índia e
ensinou ioga aos indianos. Quando perguntei se havia alguma evidência, o
mestre citou uma passagem bíblica: “Quanto aos filhos de suas concubinas,
Abraão lhes deu presentes e os enviou, ainda em vida, para longe de seu filho
Isaac, para o leste, para a terra do Oriente”. (Gênesis 25,6). O que você acha que
eram esses presentes? Então, veja só, até a ioga foi na verdade inventada pelos
judeus.
Considerar Abraão o inventor da ioga é uma crença marginal. Mas o judaísmo tradicional afirma solenemente que o cosmos inteiro existe apenas para que os
sábios judeus possam estudar as escrituras sagradas, e que, se os judeus
cessassem essa prática, o universo chegaria ao fim. A China, a Índia, a Austrália e
mesmo as galáxias distantes serão todas aniquiladas se os rabis em Jerusalém e
no Brooklyn pararem de debater o Talmude. Esse é um artigo de fé dos judeus
ortodoxos, e quem ousar duvidar será considerado um tolo ignorante. Judeus
seculares podem ser um pouco mais céticos quanto a essa grandiosa pretensão,
mas eles também acreditam que o povo judeu é o herói central da história e o
manancial definitivo da moralidade, espiritualidade e aprendizado humanos.
O que falta a meu povo em números e influência real ele mais do que
compensa com chutzpá, atrevimento. Como é mais educado criticar o próprio
povo do que criticar estrangeiros, usarei o exemplo do judaísmo para ilustrar
como são ridículas essas narrativas de sua própria importância, e deixarei que os
leitores de outras partes critiquem os problemas de suas próprias tribos.
A MÃE DE FREUD
Meu livro Sapiens: uma breve história da humanidade foi escrito
originalmente em hebraico, para um público israelense. Após a publicação da
edição em hebraico, em 2011, a pergunta mais comum que me fizeram os leitores
israelenses foi por que eu quase não mencionava o judaísmo em minha história
da raça humana. Por que escrevi extensamente sobre o cristianismo, o islamismo
e o budismo, mas só dediquei umas poucas palavras à religião judaica e ao povo
judeu? Estava ignorando sua imensa contribuição à história humana de
propósito? Estava motivado por alguma sinistra agenda política?
Essas perguntas ocorrem naturalmente aos judeus israelenses, que desde o
jardim de infância foram instruídos a pensar que o judaísmo é a estrela da
história humana. As crianças israelenses geralmente concluem doze anos de
escola sem receber uma imagem clara dos processos históricos globais. Não se
lhes ensina nada sobre a China, a Índia ou a África, e, embora aprendam sobre o
Império Romano, a Revolução Francesa e a Segunda Guerra Mundial, essas peças
avulsas de quebra-cabeça não acrescentam muito a qualquer narrativa mais
abrangente. Em vez disso, a única história coerente oferecida pelo sistema educacional israelense começa com o Antigo Testamento hebraico, continua na
época do Segundo Templo, passa por várias comunidades judaicas da diáspora e
culmina com a ascensão do sionismo, o Holocausto e o estabelecimento do
Estado de Israel. A maioria dos estudantes deixa a escola convencida de que esse
deve ser o principal enredo de toda a história humana. Pois mesmo quando os
alunos ouvem relatos sobre o Império Romano ou a Revolução Francesa, a
discussão na classe se volta para como o Império Romano tratava os judeus ou
para o status legal e político dos judeus na República Francesa. Pessoas
alimentadas numa tal dieta histórica vão sofrer para digerir a ideia de que o
judaísmo teve relativamente pouco impacto no mundo como um todo.
Mas a verdade é que o judaísmo só desempenhou um papel modesto nos anais
de nossa espécie. Ao contrário de religiões universais como o cristianismo, o
islamismo e o budismo, o judaísmo sempre foi um credo tribal. Ele se concentra
no destino de uma pequena nação e de uma terra minúscula, e tem pouco
interesse pelo destino de todos os outros povos e todos os outros países. Por
exemplo, ele se importa pouco com acontecimentos no Japão ou com o povo do
subcontinente indiano. Não é de admirar, portanto, que seu papel histórico
tenha sido limitado.
É verdade que o judaísmo gerou o cristianismo e influenciou o nascimento do
islamismo — duas das mais importantes religiões na história. Contudo, o crédito
pelas conquistas globais do cristianismo e do islamismo — assim como a culpa
por seus muitos crimes — pertence aos próprios cristãos e muçulmanos e não
aos judeus. Assim como não seria justo culpar os judeus pelos assassinatos em
massa nas Cruzadas (o cristianismo é cem por cento culpado), tampouco há
motivo para creditar ao judaísmo a importante ideia cristã de que todos os seres
humanos são iguais perante Deus (ideia que está em contradição direta com a
ortodoxia judaica, que até mesmo hoje em dia sustenta que os judeus são
intrinsecamente superiores a todos os outros humanos).
O papel do judaísmo na história do gênero humano é um pouco como o papel
da mãe de Freud na moderna história ocidental. Para o bem ou para o mal,
Sigmund Freud teve imensa influência na ciência, na cultura, na arte e na
sabedoria popular do Ocidente moderno. Também é verdade que sem a mãe de
Freud não teríamos Freud, e que a personalidade de Freud, suas ambições e opiniões provavelmente foram modeladas em grande medida por suas relações
com a mãe — como ele seria o primeiro a admitir. Mas, quando se escreve a
história do Ocidente moderno, ninguém espera que haja um capítulo inteiro
sobre a mãe de Freud. Da mesma forma, sem o judaísmo não se teria
cristianismo, mas isso não justifica dar muita importância ao judaísmo quando
se escreve a história do mundo. A questão crucial é o que o cristianismo fez com
o legado de sua mãe judia.
Nem é preciso dizer que o povo judeu é um povo singular, com uma história
espantosa (embora isso valha para a maioria dos povos). Da mesma forma, não é
preciso dizer que a tradição judaica está cheia de insights profundos e valores
nobres (embora também esteja cheia de algumas ideias questionáveis e de
atitudes racistas, misóginas e homofóbicas). Além disso, é verdade que,
relativamente a seus números, o povo judeu teve um impacto desproporcional na
história dos últimos 2 mil anos. Mas, quando se olha para o grande quadro de
nossa história como espécie, desde o surgimento do Homo sapiens há mais de
100 mil anos, é óbvio que a contribuição judaica para a história foi muito
limitada. Os humanos estabeleceram-se em todo o planeta, adotaram a
agricultura, construíram as primeiras cidades e inventaram a escrita e o dinheiro
milhares de anos antes do surgimento do judaísmo.
Mesmo nos últimos dois milênios, se você olhar para a história da perspectiva
dos chineses ou dos índios americanos nativos, é difícil ver qualquer grande
contribuição judaica, a não ser através da mediação de cristãos e muçulmanos.
Assim, o Antigo Testamento hebraico acabou se tornando a pedra angular da
cultura humana global porque foi calorosamente adotado pelo cristianismo e
incorporado na Bíblia. Em contraste, o Talmude — cuja importância para a
cultura judaica ultrapassa de longe a do Antigo Testamento — foi rejeitado pelo
cristianismo, e consequentemente permaneceu como um texto esotérico quase
desconhecido de árabes, poloneses ou holandeses, sem falar de japoneses e maias.
(O que é uma grande pena, porque o Talmude é um livro muito mais ponderado
e compassivo do que o Antigo Testamento.)
Você é capaz de citar uma grande obra de arte inspirada no Antigo
Testamento? Ah, é fácil: David, de Michelangelo, Nabuco, de Verdi, Os dez
mandamentos, de Cecil B. DeMille. Você conhece alguma obra famosa inspirada no Novo Testamento? É canja: A última ceia, de Leonardo da Vinci, Paixão
segundo são Mateus, de Bach, A vida de Brian, do Monty Python. E agora o
verdadeiro teste: você pode citar uma lista de obras-primas inspiradas no
Talmude?
Embora as comunidades judaicas que estudam o Talmude se espalhem por
muitas partes do mundo, elas não desempenharam um papel importante na
construção dos impérios chineses, nas viagens europeias de descoberta, no
estabelecimento do sistema democrático ou na Revolução Industrial. A moeda, a
universidade, o parlamento, o banco, a bússola, a imprensa e o motor a vapor
foram todos inventados por gentios.
A ÉTICA ANTES DA BÍBLIA
Os israelenses usam frequentemente o termo “as três grandes religiões”
pensando que essas religiões são o cristianismo (2,3 bilhões de adeptos), o
islamismo (1,8 bilhão) e o judaísmo (15 milhões). O hinduísmo, com seu bilhão
de crentes, e o budismo, com seus 500 milhões de seguidores — sem falar no
Xintoismo (50 milhões) e na religião Sikh (25 milhões) —, não entram na
classificação.2 Esse conceito distorcido das “três grandes religiões” implica, na
mente dos israelenses, que todas as grandes religiões e tradições éticas saíram do
útero do judaísmo, que teria sido a primeira religião a pregar regras universais.
Como se os humanos, antes da época de Abraão e de Moisés, vivessem num
estado da natureza hobbesiano sem nenhum comprometimento moral, e como
se toda a moralidade contemporânea derivasse dos Dez Mandamentos. É uma
ideia sem fundamento e insolente, que ignora muitas das mais importantes
tradições éticas do mundo.
As tribos de caçadores-coletores da Idade da Pedra tinham códigos morais
dezenas de milhares de anos antes de Abraão. Quando os primeiros
colonizadores europeus chegaram à Austrália, no final do século XVIII,
encontraram tribos aborígenes que tinham uma visão de mundo ética bem
desenvolvida apesar de totalmente ignorante de Moisés, Jesus e Maomé. Seria
difícil alegar que os colonizadores cristãos que os desapossaram com violência
exibiam padrões morais superiores.
Os cientistas hoje em dia afirmam que a moralidade, na verdade, tem
profundas raízes evolutivas que precedem o surgimento do gênero humano em
milhões de anos. Todos os mamíferos sociais, como lobos, golfinhos e macacos,
têm códigos éticos, adaptados pela evolução para promover a cooperação no
grupo.3 Por exemplo, quando filhotes de lobo brincam uns com os outros, eles
têm regras de “jogo limpo”. Se um filhote morde com muita força, ou continua a
morder um adversário que rolou de costas, rendendo-se, os outros filhotes vão
deixar de brincar com ele.4
Em bandos de chimpanzés, espera-se que membros dominantes respeitem os
direitos de propriedade de membros mais fracos. Se um chimpanzé fêmea jovem
acha uma banana, comumente até mesmo o macho alfa evitará roubá-la para si
mesmo. Se transgredir essa regra, pode perder seu status.5 Macacos não só
evitam tirar vantagem de membros mais fracos do grupo como às vezes os
ajudam ativamente. Um chimpanzé-pigmeu macho chamado Kidogo, que vivia
no zoológico de Milwaukee County, padecia de uma grave condição cardíaca que
o deixava fraco e confuso. Quando foi levado para o zoológico, não conseguia se
orientar nem entender as instruções dos cuidadores. Quando os outros
chimpanzés compreenderam sua condição, eles intervieram. Frequentemente
tomavam Kidogo pela mão e o levavam aonde precisava ir. Se Kidogo se perdia,
ele emitia altos sinais de socorro, e algum macaco corria para ajudar.
Um dos principais ajudantes de Kidogo era o macho de mais alta hierarquia
do bando, Lody, que não só guiava Kidogo como também o protegia. Enquanto
quase todos os membros do grupo tratavam Kidogo com delicadeza, um jovem
macho chamado Murph muitas vezes o provocava impiedosamente. Quando
Lody percebia esse comportamento, ele expulsava o valentão, ou punha um
braço protetor em torno de Kidogo.6
Um caso ainda mais tocante aconteceu nas selvas da Costa do Marfim. Depois
de perder a mãe, um jovem chimpanzé apelidado de Oscar lutava para sobreviver
sozinho. Nenhuma das outras fêmeas quis adotá-lo, porque estavam
sobrecarregadas com suas próprias crias. Oscar aos poucos foi perdendo peso,
saúde e vitalidade. Mas, quando tudo parecia perdido, ele foi “adotado” pelo
macho alfa do grupo, Freddy. O alfa assegurava-se de que Oscar se alimentasse
bem e até o carregava em suas costas. Testes genéticos provaram que Freddy não
tinha parentesco com Oscar.7 Podemos apenas especular sobre quais teriam sido
os motivos que levaram o sisudo e velho líder a cuidar do pequeno órfão, mas
aparentemente os chimpanzés líderes desenvolveram a inclinação a ajudar os
pobres, órfãos e necessitados milhões de anos antes que a Bíblia instruísse os
antigos israelitas a “não afligirei a nenhuma viúva ou órfão” (Êxodo 22,21), e
antes de o profeta Amós reclamar das elites sociais que “oprimem os fracos e
esmagam os indigentes” (Amós 4,1).
Mesmo entre os Homo sapiens que viviam no antigo Oriente Médio, os
profetas bíblicos não eram sem precedentes. “Não matarás” e “não roubarás”
eram mandamentos bem conhecidos nos códigos legais e éticos das cidades-
Estados da Suméria, do Egito faraônico e do Império Babilônico. Os dias de
descanso periódicos precedem o Shabat judaico. Mil anos antes de o profeta
Amós repreender as elites israelitas por seu comportamento opressor, o rei
babilônio Hamurabi explicou que os grandes deuses o instruíram “a demonstrar
justiça no país, destruir o mal e a perversidade e impedir que os poderosos
explorem os fracos”.8
Enquanto isso no Egito — séculos antes do nascimento de Moisés —, escribas
registraram “a história do camponês eloquente”, um sujeito pobre cuja
propriedade fora roubada por um proprietário de terras ganancioso. O
camponês apresentou-se aos corruptos funcionários do faraó, e, quando eles não
o protegeram, começou a explicar-lhes por que tinham de fazer justiça e
particularmente defender os pobres dos ricos. Numa vívida alegoria, esse
camponês egípcio explicou que as magras posses dos pobres eram como sua
própria respiração, e a corrupção de funcionários do Estado os sufoca, tapando
suas narinas.9
Muitas leis bíblicas copiam regras que eram aceitas na Mesopotâmia, no Egito
e em Canaã séculos e até mesmo milênios antes do estabelecimento dos reinos de
Judá e de Israel. Se o judaísmo bíblico fez nessas leis qualquer modificação
singular, foi as transformando de regras universais aplicáveis a todos os humanos
em códigos tribais dirigidos primordialmente ao povo judeu. A moralidade
judaica foi inicialmente configurada como uma questão exclusiva, tribal, e assim
permaneceu em certa medida até hoje. O Antigo Testamento, o Talmude e
muitos (embora não todos) rabinos sustentam que a vida de um judeu vale mais do que a vida de um gentio, o que explica, por exemplo, por que é permitido a
um judeu profanar o Shabat para salvar um judeu da morte, mas é proibido fazer
isso para salvar um gentio (Talmude da Babilônia, Yoma 84,2).10
Alguns sábios judeus alegaram que até mesmo o famoso mandamento “Ama o
próximo como a ti mesmo” refere-se apenas a judeus, e que não existe nenhum
mandamento para amar gentios. Na verdade, o texto original do Levítico diz:
“Não te vingarás ou guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o
próximo como a ti mesmo” (Levítico 19,18), o que desperta a suspeita de que
“teu próximo” refere-se somente a “alguém do teu povo”. Essa suspeita é muito
reforçada pelo fato de que a Bíblia ordena aos judeus que exterminem certos
povos, como os amalequitas e os canaanitas. “Não deixarás sobreviver nenhum
ser vivo”, decreta o livro sagrado. “Sim, sacrificarás como anátemas os heteus, os
amorreus, os cananeus, os heveus, os jebuseus, conforme Iahweh teu Deus te
ordenou” (Deuteronômio 20,16-7). Essas são as primeiras ocasiões registradas na
história humana em que o genocídio é apresentado como um dever religioso.
Foram os cristãos que escolheram alguns pedaços selecionados do código
moral judaico, os transformaram em mandamentos universais e os
disseminaram pelo mundo. Na verdade, foi exatamente por isso que o
cristianismo cindiu-se do judaísmo. Enquanto muitos judeus até hoje acreditam
que o assim chamado “povo eleito” está mais perto de Deus do que estão outras
nações, o fundador do cristianismo — o apóstolo são Paulo — estipulou em sua
famosa Epístola aos Gálatas que “não há judeu nem grego, não há escravo nem
livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus”
(Gálatas 3,28).
E devemos enfatizar que, apesar do enorme impacto do cristianismo, essa não
foi a primeira vez que um humano pregou uma ética universal. A Bíblia está
longe de ser a fonte exclusiva da moralidade humana (e felizmente é assim, em
vista das muitas atitudes racistas, misóginas e homofóbicas que ela contém).
Confúcio, Laozi, Buda e Mahavira estabeleceram códigos de ética universais
muito antes de Paulo e de Jesus, sem saber nada sobre a terra de Canaã ou os
profetas de Israel. Confúcio ensinou que toda pessoa deve amar os outros como
ama a si mesma quinhentos anos antes de o rabino Hilel, o Velho, ter dito que
essa era a essência da Torá. E, numa época em que o judaísmo ainda ordenava o sacrifício de animais e o extermínio sistemático de populações humanas inteiras,
Buda e Mahavira já instruíam seus seguidores que evitassem fazer mal não
apenas a seres humanos, mas a quaisquer seres sencientes, inclusive insetos. Por
isso não faz nenhum sentido creditar ao judaísmo e a sua descendência cristã e
muçulmana a criação da moralidade humana.
O NASCIMENTO DO FANATISMO
E quanto ao monoteísmo? Os judeus não merecem ao menos um elogio
especial por serem os primeiros a acreditar num Deus único, o que era sem
paralelo em qualquer outro lugar no mundo (mesmo que essa crença tenha sido
disseminada nos quatro cantos do mundo mais por cristãos e muçulmanos do
que por judeus)? Pode-se regatear até mesmo quanto a isso, já que a primeira
evidência clara de monoteísmo vem da revolução religiosa do faraó Aquenáton,
por volta de 1350 a.C., e documentos como o da Estela de Mesa (erigida pelo rei
moabita Mesa) indicam que a religião bíblica de Israel não era em nada diferente
das religiões de reinos vizinhos, como Moab. Mesa descreve seu grande deus
Chemosh quase da mesma maneira como o Antigo Testamento descreve Iahweh.
Mas o verdadeiro problema com a ideia de que o monoteísmo é uma
contribuição dos judeus para o mundo é que isso dificilmente é motivo de
orgulho. De um ponto de vista ético, o monoteísmo foi sem dúvida uma das
piores ideias na história humana.
O monoteísmo pouco fez para melhorar os padrões morais dos humanos —
você acha mesmo que os muçulmanos são inerentemente mais éticos que os
hindus, só porque muçulmanos acreditam num deus único enquanto os hindus
acreditam em muitos deuses? Os conquistadores cristãos foram mais éticos do
que as tribos americanas pagãs? O que o monoteísmo sem dúvida fez foi deixar
as pessoas muito mais intolerantes do que eram, contribuindo assim para a
disseminação das perseguições religiosas e guerras santas. Politeístas acham
aceitável que povos diferentes cultuem deuses diferentes e realizem ritos e rituais
diversos. Raramente, se é que alguma vez, combatem, perseguem ou matam
pessoas só por causa de suas crenças religiosas. Os monoteístas, em contraste,
acreditam que seu Deus é o único deus, e que Ele exigiu obediência universal. Consequentemente, quando o cristianismo e o islamismo se espalharam pelo
mundo, espalhou-se também a incidência de cruzadas, jihads, inquisições e
discriminação religiosa.11
Compare-se, por exemplo, a atitude do imperador Asoka, da Índia, no século
III a.C., à dos imperadores cristãos no final do Império Romano. Asoka governou
um império repleto de miríades de religiões, seitas e gurus. Ele deu a si mesmo os
títulos oficiais de “Amado dos Deuses” e “O que considera todos com afeição”.
Por volta de 250 a.C., emitiu um edital imperial de tolerância o qual proclamava
que:
Amado dos Deuses, o rei que considera todos com afeição, homenageia os ascetas e os chefes de todas as
religiões… e honra valores que deveriam ser cultivados na essência de todas as religiões. Cultivo daquilo
que é essencial pode ser feito de diferentes maneiras, mas todas elas têm sua raiz restrita ao discurso, isto
é, não louvando a própria religião de alguém, ou condenado a religião de outros sem bom motivo…
Todo aquele que louva sua própria religião, devido a uma devoção excessiva, e condena outras com o
pensamento “Que eu glorifique minha própria religião” só prejudica sua própria religião. Portanto o
contato entre religiões é bom. Devem-se ouvir e respeitar as doutrinas professadas por outros. Amado
dos Deuses, o rei que considera todos com afeição, deseja que todos sejam bem instruídos nas boas
doutrinas de outras religiões.12
Quinhentos anos depois, o Império Romano tardio era tão diverso quanto a
Índia de Asoka, porém, quando o cristianismo se tornou a religião oficial, os
imperadores adotaram uma abordagem bem diferente. A começar com
Constantino, o Grande, e seu filho Constâncio I, os imperadores fecharam todos
os templos não cristãos e proibiram os assim chamados rituais “pagãos”, sob
pena de morte. As perseguições culminaram sob o reinado do imperador
Teodósio — cujo nome significa “dado por Deus” —, que lançou em 391 os
Decretos Teodosianos, que efetivamente tornaram ilegais todas as religiões
exceto o cristianismo e o judaísmo (o judaísmo também foi perseguido de várias
maneiras, mas sua prática continuou a ser legal).13 De acordo com as novas
regras, uma pessoa poderia ser executada até mesmo por cultuar Júpiter ou
Mitras na privacidade de sua própria casa.14 Como parte de sua campanha para
limpar o império de toda herança infiel, os imperadores cristãos também
aboliram os Jogos Olímpicos. Depois de celebrada durante mais de mil anos, a
última Olimpíada da Antiguidade foi realizada no fim do século IV ou início do
século V.15
Claro, nem todos os governantes monoteístas foram tão intolerantes quanto
Teodósio, enquanto muitos rejeitaram o monoteísmo sem adotar as políticas de
tolerância de Asoka. Entretanto, ao insistir que “não existe deus a não ser o nosso
Deus” a ideia monoteísta tendeu a estimular o fanatismo. Os judeus fizeram bem
ao minimizar sua parte na disseminação desse perigoso meme, e deixar cristãos e
muçulmanos carregarem a culpa por isso.
FÍSICA JUDAICA, BIOLOGIA CRISTÃ
É somente nos séculos XIX e XX que vemos os judeus dando uma contribuição
extraordinária à humanidade como um todo, com sua descomunal participação
na ciência moderna. Além de nomes tão conhecidos como os de Einstein e
Freud, cerca de 20% de todos os laureados com o prêmio Nobel na ciência são
judeus, embora os judeus constituam menos de 0,2% da população mundial.16
Mas deve-se ressaltar que essa foi uma contribuição de judeus individuais, e não
do judaísmo como religião ou cultura. A maioria dos cientistas importantes
judeus nos últimos duzentos anos atuou fora da esfera religiosa judaica. Na
verdade, judeus começaram a dar sua notável contribuição à ciência somente
após terem abandonado as yeshivás em favor de laboratórios.
Antes de 1800, o impacto judaico na ciência era limitado. Muito naturalmente,
os judeus não desempenharam um papel significativo no progresso da ciência na
China, na Índia ou na civilização maia. Na Europa e no Oriente Médio alguns
pensadores judeus, como Maimônides, tiveram considerável influência sobre
seus colegas gentios, mas no geral o impacto judaico foi mais ou menos
proporcional a seu peso demográfico. Durante os séculos XVI, XVII e XVIII o
judaísmo quase não contribuiu para a irrupção da Revolução Científica. Com
exceção de Espinosa (cujas provocações fizeram com que fosse excomungado da
comunidade judaica), é difícil mencionar um único judeu que tenha sido crucial
para o nascimento da física, química, biologia ou ciências sociais modernas. Não
sabemos o que os antepassados de Einstein estavam fazendo na época de Galileu
e de Newton, mas provavelmente estavam muito mais interessados em estudar o
Talmude do que estudar a luz.
A grande mudança só veio ocorrer nos séculos XIX e XX, quando a
secularização e o Iluminismo Judaico levaram muitos judeus a adotar a visão de
mundo e o estilo de vida de seus vizinhos gentios. Os judeus começaram então a
se juntar a universidades e centros de pesquisa de países como a Alemanha, a
França e os Estados Unidos. Eruditos judeus trouxeram dos guetos e dos sthtetls,
aldeias com grande população judaica, importantes legados culturais. O valor
central da educação na cultura judaica foi um dos principais motivos para o
extraordinário sucesso dos cientistas judeus. Outros fatores incluem o desejo de
uma minoria perseguida de mostrar seu valor, e as barreiras que impediam
judeus talentosos de progredir em instituições mais antissemitas como o Exército
e a administração do Estado.
Mas, enquanto os cientistas judeus traziam com eles das yeshivás uma rigorosa
disciplina e uma fé profunda no valor do conhecimento, não traziam nenhuma
bagagem útil de ideias e insights concretos. Einstein era judeu, mas a teoria da
relatividade não era “física judaica”. O que a fé na sacralidade da Torá tem a ver
com a noção de que energia é igual a massa multiplicada pela velocidade da luz
ao quadrado? Para servir de comparação, Darwin era cristão, e até começou seus
estudos em Cambridge com a intenção de tornar-se um sacerdote anglicano. Isso
implicaria que a teoria da evolução é uma teoria cristã? Seria ridículo listar a
teoria da relatividade como uma contribuição judaica à humanidade, assim
como seria ridículo creditar ao cristianismo a teoria da evolução.
Da mesma forma, é difícil ver qualquer coisa particularmente judaica na
invenção do processo de sintetizar amônia, de Fritz Haber (prêmio Nobel de
química em 1918); na descoberta do antibiótico estreptomicina, por Selman
Waksman (prêmio Nobel de fisiologia ou medicina, em 1952); ou na descoberta
dos quase-cristais por Dan Schechtman (prêmio Nobel de química, em 2011). No
caso de estudiosos das áreas de humanidades e ciências sociais — como Freud —,
sua herança judaica teve provavelmente um impacto mais profundo em seus
insights. Porém mesmo nesses casos as descontinuidades são mais flagrantes do
que as conexões que sobrevivem. As visões de Freud sobre a psique humana
foram muito diferentes das do rabi José Caro ou do rabi Iochanan ben Zakai, e
ele não descobriu o complexo de Édipo consultando cuidadosamente o Shulchan
Aruch (o código prático da lei judaica).
Para resumir, embora a ênfase judaica no estudo provavelmente tenha dado
uma importante contribuição ao sucesso excepcional dos cientistas judeus, foram
pensadores gentios que proveram os fundamentos para as realizações de
Einstein, Haber e Freud. A Revolução Científica não foi um projeto judaico, e os
judeus só encontraram seu lugar quando foram das yeshivás para as
universidades. Na verdade, o hábito judaico de buscar respostas a todas as
questões lendo textos antigos constituiu um obstáculo significativo para a
integração judaica no mundo da ciência moderna, onde as respostas vêm de
observações e experimentos. Se existe alguma coisa, no que tange à religião
judaica em si mesma, que necessariamente leve a inovações científicas, como é
que entre 1905 e 1933 dez judeus seculares alemães receberam o prêmio Nobel
de química, medicina e física, mas durante o mesmo período nem um só judeu
ultraortodoxo, ou um só judeu búlgaro ou iemenita recebeu qualquer prêmio
Nobel?
Para não criar suspeitas de que sou um “judeu que odeia judeus”, ou um
antissemita, quero enfatizar que não estou afirmando que o judaísmo foi uma
religião especialmente má ou obscurantista. Tudo o que estou dizendo é que não
foi importante para a história da humanidade. Durante muitos séculos o
judaísmo foi a humilde religião de uma pequena minoria perseguida que preferia
ler e contemplar a conquistar países distantes e queimar hereges na estaca.
Os antissemitas comumente pensam que os judeus são muito importantes.
Antissemitas imaginam que os judeus controlam o mundo, ou o sistema
bancário, ou pelo menos a mídia, e que deve-se culpá-los de tudo, desde o
aquecimento global até os ataques do Onze de Setembro. Essa paranoia
antissemita é tão ridícula quanto a megalomania judaica. Os judeus podem ser
um povo muito interessante, mas, quando se olha para o quadro como um todo,
tem-se de constatar que eles têm tido um impacto muito limitado no mundo.
Ao longo da história, os humanos criaram centenas de religiões e seitas
diferentes. Um punhado delas — cristianismo, islamismo, hinduísmo,
confucionismo e budismo — influenciou bilhões de pessoas (nem sempre para o
bem). A grande maioria dos credos — como a religião bon, a religião iorubá e a
religião judaica — teve impacto muito menor. Pessoalmente, gosto da ideia de
descender não de conquistadores brutais, mas de um povo insignificante que quase nunca se metia nos assuntos de outros povos. Muitas religiões louvam o
valor da humildade — mas imaginam ser a coisa mais importante do universo.
Misturam chamados para uma humildade pessoal com uma flagrante arrogância
coletiva. Humanos de todos os credos fariam bem em levar esse valor mais a
sério.
E, entre todas as formas de humildade, talvez a mais importante seja aquela
perante Deus. Sempre que falam de Deus, humanos professam uma abjeta
humildade, mas depois usam o nome de Deus para serem prepotentes com seus
irmãos.