21 Lições para o Século 21

Yuval Noah Harari · Capítulo 9 de 26

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21 Lições para o Século 21

6. Civilização: Só existe uma civilização no mundo

6. Civilização

Só existe uma civilização no mundo

 

Enquanto Mark Zuckerberg sonha em unificar o gênero humano on-line,

eventos recentes no mundo off-line parecem dar vida nova à tese do “choque de

civilizações”. Muitos especialistas, políticos e cidadãos comuns acreditam que a

guerra civil na Síria, o surgimento do Estado Islâmico, a confusão do Brexit e a

instabilidade da União Europeia resultaram de um choque entre a “Civilização

Ocidental” e a “Civilização Islâmica”. Tentativas do Ocidente para impor

democracia e direitos humanos em nações muçulmanas resultaram numa

violenta reação islâmica, e uma onda de imigração muçulmana juntamente com

ataques terroristas islâmicos fizeram com que eleitores europeus abandonassem

sonhos multiculturais em favor de identidades xenofóbicas locais.

Segundo essa tese, o gênero humano sempre esteve dividido em diversas

civilizações cujos membros viam o mundo de maneiras irreconciliáveis. Essas

visões de mundo incompatíveis tornam inevitáveis os conflitos entre civilizações.

Assim como na natureza espécies diferentes lutam pela sobrevivência de acordo

com as impiedosas leis da seleção natural, ao longo da história civilizações têm

entrado em choque repetidamente, e apenas a mais bem preparada sobrevivia.

Os que ignoram esse triste fato — sejam políticos liberais ou engenheiros com a

cabeça nas nuvens — o fazem por sua conta e risco.1

A tese do “choque de civilizações” tem implicações políticas profundas. Os

que a apoiam argumentam que toda tentativa de reconciliar “o Ocidente” com o

“mundo muçulmano” está condenada ao fracasso. Os países muçulmanos nunca

adotarão valores ocidentais, e os países ocidentais nunca seriam capazes de

absorver com sucesso minorias muçulmanas. De acordo com isso, os Estados Unidos não deveriam admitir imigrantes da Síria ou do Iraque e a União

Europeia deveria renunciar a sua falácia multicultural em benefício de uma

identidade ocidental desavergonhada. No longo prazo, somente uma civilização é

capaz de sobreviver aos implacáveis testes da seleção natural, e, se os burocratas

em Bruxelas se recusarem a salvar o Ocidente do perigo islâmico, melhor que a

Inglaterra, a Dinamarca ou a França façam isso sozinhas.

Embora muito defendida, essa tese é enganosa. O fundamentalismo islâmico

pode de fato representar um desafio radical, porém a “civilização” que ele desafia

é uma civilização global e não um fenômeno unicamente ocidental. Não à toa o

Estado Islâmico conseguiu se unir contra o Irã e os Estados Unidos. E até mesmo

fundamentalistas islâmicos, apesar de suas fantasias medievais, estão calcados na

cultura contemporânea global muito mais do que na Arábia do século VII. Eles

contribuem para os medos e as esperanças da juventude moderna alienada e não

dos camponeses e mercadores medievais. Como alegaram convincentemente

Pankaj Mishra e Christopher de Bellaigue, islâmicos radicais têm sido

influenciados tanto por Marx e Foucault quanto por Maomé, e herdaram o

legado de anarquistas europeus do século XIX tanto quanto o dos califas omíadas

e abássidas.2 É portanto mais correto considerar até mesmo o Estado Islâmico

um desdobramento erradio da cultura global que todos compartilhamos, e não

um ramo de uma misteriosa árvore alienígena.

Mais importante, a analogia entre história e biologia que sustenta a tese do

“choque de civilizações” é falsa. Grupos humanos — desde pequenas tribos até

imensas civilizações — são fundamentalmente diferentes de espécies animais, e

conflitos históricos diferem em muito de processos de seleção natural. Espécies

animais têm identidades objetivas que duram milhares e milhares de gerações. O

fato de você ser um chimpanzé ou um gorila depende de seus genes e não de suas

crenças, e genes diferentes determinam comportamentos sociais distintos.

Chimpanzés vivem em grupos mistos de machos e fêmeas. Eles competem pelo

poder formando coalizões de apoiadores de ambos os sexos. Entre os gorilas, em

contraste, um único macho dominante estabelece um harém de fêmeas, e

comumente expulsa todo macho adulto que possa desafiar sua posição.

Chimpanzés não são capazes de adotar a estrutura social dos gorilas; gorilas não

são capazes de se organizar como chimpanzés; e até onde sabemos chimpanzés e gorilas têm vivido nos mesmos sistemas sociais não somente em décadas

recentes, mas por centenas de milhares de anos.

Não há nada parecido com isso entre humanos. Sim, grupos humanos têm

sistemas sociais distintos, mas eles não são determinados geneticamente, e quase

nunca duram mais que alguns séculos. Pense nos alemães do século XX, por

exemplo. Em menos de cem anos eles se organizaram em seis sistemas diferentes:

o Império Hohenzollern, a República de Weimar, o Terceiro Reich, a República

Democrática Alemã (também conhecida como Alemanha Oriental, comunista),

A República Federal da Alemanha (também conhecida como Alemanha

Ocidental), e finalmente a Alemanha reunificada, democrática. É claro que os

alemães mantiveram sua língua e seu amor por cerveja e salsicha. Mas existirá

alguma essência alemã única que os distingue de todas as outras nações e que se

manteve inalterada de Guilherme II até Angela Merkel? E se existir, será que

também estava lá mil ou 5 mil anos atrás?

O Preâmbulo da Constituição Europeia (não ratificado) começa declarando

que se inspira “na herança cultural, religiosa e humanista da Europa, da qual

desenvolveram-se os valores universais dos invioláveis e inalienáveis direitos da

pessoa humana, da democracia, da igualdade, da liberdade do estado de direito”.3

Isso poderia dar a impressão de que a civilização europeia é definida pelos

valores dos direitos humanos, da democracia, da igualdade e da liberdade.

Incontáveis discursos e documentos traçam uma linha direta da antiga

democracia ateniense até a atual União Europeia, celebrando 2,5 mil anos de

liberdade e democracia europeias. Isso faz lembrar a parábola do homem cego

que apalpa a cauda de um elefante e chega à conclusão de que o elefante é uma

espécie de pincel. Sim, ideias democráticas têm sido parte da cultura Europeia

durante séculos, mas nunca constituíram o todo. Apesar de toda sua glória e

influência, a democracia ateniense foi um experimento ambíguo que mal

sobreviveu duzentos anos num pequeno canto dos Bálcãs. Se o que definiu a

civilização europeia nos últimos 25 anos foi a democracia e os direitos humanos,

onde entram Esparta e Júlio César, os cruzados e os conquistadores, a Inquisição

e o comércio de escravos, Luís XIV e Napoleão, Hitler e Stálin? Foram todos

intrusos de alguma civilização estrangeira?

Na verdade, a civilização europeia é tudo aquilo que os europeus fizeram dela, assim como o cristianismo é tudo o que os cristãos fizeram dele, o Islã é tudo o

que os muçulmanos fizeram dele, e o judaísmo é tudo o que os judeus fizeram

dele. E eles fizeram disso coisas notavelmente diferentes ao longo de séculos.

Grupos humanos se definem mais pelas mudanças por que passam do que pela

continuidade, mas ainda assim eles conseguem criar para si mesmos identidades

antigas graças a seu talento para contar histórias. Não importa quais revoluções

experimentem, normalmente são capazes de tecer o antigo e o novo numa trama

única.

Até mesmo um indivíduo pode entretecer mudanças pessoais radicais numa

narrativa de vida coerente e poderosa: “Eu sou aquela pessoa que já foi socialista,

mas depois se tornou capitalista; nasci na França e agora vivo nos Estados

Unidos; eu era casado e depois me divorciei; eu tive câncer, e depois me curei”.

Da mesma forma, um grupo humano, como os alemães, pode vir a se definir

pelas grandes mudanças pelas quais passou: “Fomos nazistas, mas aprendemos

nossa lição e agora somos democratas pacifistas”. Não precisamos procurar

alguma essência alemã única que se tenha manifestado primeiro em Guilherme

II, depois em Hitler, e finalmente em Merkel. Essas transformações radicais são

exatamente o que define a identidade alemã. Ser alemão em 2018 quer dizer estar

vinculado ao difícil legado do nazismo e defender valores liberais e democráticos.

Ninguém sabe o que significará em 2050.

As pessoas com frequência se recusam a ver essas mudanças, principalmente

quando isso atinge valores políticos e religiosos centrais. Insistimos em que

nossos valores são um precioso legado de antigos ancestrais. A única coisa que

nos permite dizer isso é o fato de nossos ancestrais estarem mortos há muito

tempo e não poderem falar por si mesmos. Considere-se, por exemplo, as

atitudes judaicas em relação às mulheres. Atualmente judeus ultraortodoxos

banem imagens de mulheres da esfera pública. Outdoors e anúncios dirigidos a

judeus ultraortodoxos exibem apenas homens e meninos — nunca mulheres e

meninas.4

Em 2011 um escândalo irrompeu quando um jornal ultraortodoxo do

Brooklyn, Di Tzeitung, publicou uma foto de membros do governo norte-

americano assistindo à operação de captura de Osama bin Laden — mas apagou

digitalmente todas as mulheres da foto, incluindo a secretária de Estado Hillary Clinton. O jornal explicou que fora obrigado a fazer isso devido às “leis de

recato” judaicas. Escândalo semelhante aconteceu quando o jornal HaMevasser

removeu Angela Merkel da fotografia de uma manifestação contra o massacre do

jornal francês Charlie Hebdo, para que sua imagem não despertasse quaisquer

pensamentos libidinosos nas mentes de leitores religiosos. O editor de um

terceiro jornal ultraortodoxo, Hamodia, defendeu essa política explicando:

“Estamos fundamentados em milhares de anos de tradição judaica”.5

Em nenhum lugar a proibição de olhar para mulheres é mais rigorosa do que

numa sinagoga. Nas sinagogas ortodoxas as mulheres são cuidadosamente

segregadas dos homens, e têm de se ocultar atrás de uma cortina, de modo que

nenhum homem veja acidentalmente o vulto de uma mulher enquanto ele

pronuncia suas preces ou lê as escrituras. Embora isso se baseie em milhares de

anos de tradição judaica e em leis divinas imutáveis, como explicar o fato de que

quando arqueólogos escavaram em Israel sinagogas antigas do tempo da Mishná

e do Talmude não encontraram sinal de segregação de gênero, e em vez disso

descobriram belos chãos de mosaico e pinturas em paredes que retratam

mulheres, algumas delas bem pouco vestidas? Os sábios que escreveram a

Mishná e o Talmude oravam e estudavam regularmente nessas sinagogas, porém

os atuais judeus ortodoxos as considerariam blasfemas profanações de antigas

tradições.6

Distorções semelhantes caracterizam todas as religiões. O Estado Islâmico

vangloria-se de ter se revertido à versão pura e original do Islã, porém escolhem

muito discretamente quais textos citar e quais ignorar, e como interpretá-los. Na

verdade, sua atitude faça-você-mesmo na interpretação de textos sagrados é em

si mesma muito moderna. Segundo a tradição, a interpretação era monopólio

dos ulama — eruditos que estudavam a lei e a teologia muçulmanas em

instituições respeitáveis, como Al-Azhar, no Cairo. Poucos líderes do Estado

Islâmico apresentam tais credenciais, e os mais respeitados ulama consideram

Abu Bakr al-Baghdadi e os de sua laia criminosos e ignorantes.7

Isso não quer dizer que o Estado Islâmico seja “não islâmico” ou “anti-

islâmico”, como alegam algumas pessoas. É particularmente irônico que líderes

cristãos como Barack Obama tenham a temeridade de dizer a muçulmanos

autoproclamados, como Abu Bakr al-Baghdadi, o que significa ser muçulmano.8 A acalorada discussão sobre a verdadeira essência do Islã é simplesmente

irrelevante. O Islã não tem um DNA fixo. O Islã é aquilo que os muçulmanos

fizerem dele.9

 

ALEMÃES E GORILAS

 

Há uma diferença ainda mais profunda que distingue grupos humanos de

espécies animais. Espécies frequentemente se dividem, mas nunca se fundem.

Chimpanzés e gorilas têm ancestrais comuns, que remontam a 7 milhões de anos

atrás. Essa única espécie ancestral dividiu-se em duas populações que depois

seguiram seus caminhos evolutivos separados. Uma vez que isso aconteceu, não

havia caminho de volta. Como indivíduos que pertencem a espécies diferentes

não são capazes de produzir juntos uma descendência fértil, espécies nunca se

fundem. Gorilas não podem se fundir com chimpanzés, girafas não podem se

fundir com elefantes, e cães não podem se fundir com gatos.

Tribos humanas, em contraste, tendem a se aglutinar com o tempo em grupos

cada vez maiores. Os alemães modernos surgiram da fusão de saxões, prussianos,

suábios e bávaros, que não faz muito tempo não tinham muito amor uns pelos

outros. Diz-se que Otto von Bismarck observou (depois de ler A origem das

espécies, de Darwin) que os bávaros são o elo perdido entre o austríaco e o

humano.10 Os franceses surgiram da fusão de francos, normandos, bretões,

gascões e provençais. Enquanto isso, no outro lado do canal, ingleses, escoceses,

galeses e irlandeses aos poucos foram se agregando (voluntariamente ou não)

para formar os britânicos. Num futuro não muito distante, alemães, franceses e

britânicos ainda poderiam se fundir em europeus.

Fusões nem sempre duram, como atualmente sabem muito bem as pessoas em

Londres, Edimburgo e Bruxelas. O Brexit pode muito bem dar início ao

desmantelamento simultâneo do Reino Unido e da União Europeia. Mas, no

longo prazo, a direção da história está definida. Dez mil anos atrás o gênero

humano estava dividido em incontáveis tribos isoladas. A cada milênio que

passava, elas se fundiam em grupos cada vez maiores, criando cada vez menos

civilizações distintas. Nas gerações recentes as poucas civilizações remanescentes

têm se mesclado numa única civilização global. As divisões políticas, étnicas, culturais e econômicas persistem, mas elas não minam a unidade fundamental.

Na verdade, algumas divisões só se tornam possíveis devido a uma estrutura

comum que prevalece sobre tudo. Na economia, por exemplo, a divisão do

trabalho não pode ter êxito a menos que todos compartilhem um mercado único.

Um país não pode se especializar na produção de carros ou petróleo a menos que

possa comprar alimentos de outros países produtores de trigo e arroz.

O processo de unificação humana tem assumido duas formas: o

estabelecimento de ligações entre grupos distintos e a homogeneização de

práticas em todos os grupos. Podem-se formar ligações até mesmo entre grupos

que continuam a se comportar de modos muitos diferentes. Na verdade, podem-

se formar ligações até entre inimigos jurados. A própria guerra pode gerar

algumas das mais fortes de todas as ligações humanas. Historiadores alegam

frequentemente que a globalização atingiu um primeiro pico em 1913, depois

entrou em longo declínio durante a época das guerras mundiais e da Guerra Fria,

e só se recuperou após 1989.11 Isso pode valer para a globalização econômica,

porém ignora a dinâmica de globalização militar, igualmente importante. A

guerra difunde ideias, tecnologias e pessoas muito mais rápido que o comércio.

Em 1918 os Estados Unidos estavam mais estreitamente ligados à Europa do que

em 1913, se afastaram nos anos entre guerras, e tiveram seus destinos

entrelaçados inextricavelmente pela Segunda Guerra Mundial e pela Guerra Fria.

A guerra também faz as pessoas ficarem muito mais interessadas umas nas

outras. Os Estados Unidos nunca tinham estado em contato tão próximo com a

Rússia como durante a Guerra Fria, quando cada tosse num corredor de Moscou

causava pânico em Washington. As pessoas se importam muito mais com seus

inimigos do que com parceiros comerciais. Para cada filme americano sobre

Taiwan, provavelmente há cinquenta sobre o Vietnã.

 

OS JOGOS OLÍMPICOS MEDIEVAIS

 

O mundo do início do século XXI foi muito longe na formação de ligações

entre diferentes grupos. Pessoas em todo o mundo não só estão em contato umas

com as outras como compartilham cada vez mais crenças e práticas idênticas.

Mil anos atrás, a Terra era terreno fértil para dezenas de modelos políticos diferentes. Na Europa era possível encontrar principados feudais competindo

com cidades-Estados independentes e minúsculas teocracias. O mundo

muçulmano tinha seu califado, que reivindicava soberania universal, mas

também fez experiências com reinos, sultanatos e emirados. Os impérios

chineses acreditavam ser a única entidade política legítima, enquanto as

confederações tribais a norte e oeste lutavam entre si jubilosamente. A Índia e o

sudeste da Ásia continham um caleidoscópio de regimes, enquanto os regimes

políticos na América, África e Australásia iam desde pequenos bandos de

caçadores-coletores até extensos impérios. Não é de admirar que mesmo grupos

humanos vizinhos tinham dificuldade em concordar quanto a procedimentos

diplomáticos comuns, muito menos quanto a leis internacionais. Cada sociedade

tinha seu próprio paradigma político, e achava difícil compreender e respeitar

conceitos políticos estrangeiros.

Hoje, em contraste, um único paradigma político é aceito em toda parte. O

planeta está dividido em cerca de duzentos Estados soberanos, que geralmente

concordam com os mesmos protocolos diplomáticos e leis internacionais

comuns. A Suécia, a Nigéria, a Tailândia e o Brasil aparecem em nosso atlas com

a mesma cor; são todos membros da ONU; e malgrado miríades de diferenças

todos são reconhecidos como Estados soberanos que desfrutam de direitos e

privilégios semelhantes. De fato, eles compartilham muitas ideias e práticas

políticas, inclusive pelo menos a crença simbólica em corpos representativos,

partidos políticos, sufrágio universal e direitos humanos. Há parlamentos em

Teerã, Moscou, Cidade do Cabo e Nova Delhi, bem como em Londres e Paris.

Enquanto israelenses e palestinos, russos e ucranianos, curdos e turcos

competem pelos favores da opinião pública global, todos usam o mesmo discurso

de direitos humanos, soberania de Estado e lei internacional.

O mundo pode estar salpicado de vários tipos de “Estados falidos”, mas só

conhece um paradigma para um Estado bem-sucedido. A política global segue

assim o princípio de Anna Kariênina: Estados bem-sucedidos são todos

parecidos, mas cada Estado falido entra em falência a seu próprio modo, ao lhe

faltar este ou aquele ingrediente do pacote político dominante. O Estado

Islâmico destacou-se recentemente pela rejeição total desse pacote, e em sua

tentativa de estabelecer um tipo diferente de entidade política — um califado universal. Mas justamente por esse motivo fracassou. Numerosas forças de

guerrilha e organizações terroristas conseguiram estabelecer novos países ou

conquistar países existentes. Mas sempre fizeram isso aceitando os princípios

fundamentais da ordem política global. Até mesmo o Talibã buscou

reconhecimento internacional como o governo legítimo do país soberano do

Afeganistão. Até agora, nenhum grupo que rejeita os princípios da política global

obteve controle duradouro de qualquer território significativo.

A força do paradigma político global pode talvez ser melhor apreciada

considerando-se não as questões políticas centrais da guerra e da diplomacia, e

sim algo como os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio. Reflita por um momento no

modo como os Jogos foram organizados. Os 11 mil atletas estavam agrupados

em delegações por nacionalidade e não por religião, classe ou língua. Não havia

uma delegação budista, uma delegação proletária ou uma delegação da língua

inglesa. Exceto em alguns poucos casos — mais notavelmente Taiwan e Palestina

—, a determinação da nacionalidade dos atletas era uma questão simples.

Na cerimônia de abertura, em 5 de agosto de 2016, os atletas marcharam em

grupos, cada grupo portando sua bandeira nacional. Sempre que Michael Phelps

ganhava mais uma medalha de ouro, a bandeira americana era erguida ao som

do hino nacional americano. Quando Emilie Andéol ganhou a medalha de ouro

no judô, a bandeira tricolor francesa foi hasteada e tocou-se A Marselhesa.

Muito convenientemente, cada país no mundo tem um hino que segue o

mesmo modelo universal. Quase todos os hinos são peças orquestrais com alguns

minutos de duração, e não uma cantoria de vinte minutos que só pode ser

interpretada por uma casta hereditária especial de sacerdotes. Até mesmo países

como Arábia Saudita, Paquistão e Congo adotaram convenções musicais

ocidentais em seus hinos. A maioria deles soa como algo composto por um

Beethoven pouco inspirado. (Você poderia passar uma noite com amigos

ouvindo os vários hinos no YouTube e tentando adivinhar de que país é cada

um.) Mesmo as letras são quase as mesmas no mundo todo, indicando conceitos

comuns quanto a política e lealdade de grupo. Por exemplo, a que nação você

acha que pertence o hino seguinte (só troquei o nome do país pelo genérico

“Meu país”):

Meu país, minha pátria

A terra em que derramei meu sangue,

É lá que me posto

Para ser o guardião de minha pátria.

Meu país, minha nação,

Meu povo e minha pátria,

Proclamemos

“Una-se meu país!”

Vida longa a minha terra, vida longa a meu Estado,

Minha nação, minha pátria, em sua inteireza.

Construa sua alma, desperte seu corpo,

De meu grande país!

Meu grande país, independente e livre

Meu lar e meu país que eu amo.

Meu grande país, independente e livre,

Longa vida a meu grande país!

 

A resposta é Indonésia. Mas você ficaria surpreso se eu lhe dissesse que a

resposta era na verdade Polônia, Nigéria ou Peru?

Bandeiras nacionais exibem a mesma enfadonha conformidade. Com uma

única exceção, todas as bandeiras são peças retangulares de pano e apresentam

um repertório extremamente limitado de cores, listras e formas geométricas. O

Nepal é a estranha exceção, com uma bandeira que consiste em dois triângulos.

(Mas nunca obteve uma medalha olímpica.) A bandeira indonésia consiste numa

faixa vermelha acima de uma faixa branca. A bandeira polonesa exibe uma faixa

branca acima de uma faixa vermelha. A bandeira de Mônaco é idêntica à da

Indonésia. Uma pessoa daltônica dificilmente seria capaz de dizer qual é a

diferença entre as bandeiras da Bélgica, do Chade, da Costa do Marfim, França,

Guiné, Irlanda, Itália, do Mali e da Romênia — todas têm três faixas verticais de

várias cores.

Alguns desses países estiveram envolvidos em guerras cruéis uns com os

outros, mas durante o tumultuado século XX apenas três Jogos Olímpicos foram

cancelados devido a guerras (em 1916, 1940 e 1944). Em 1980 os Estados Unidos e alguns de seus aliados boicotaram os Jogos Olímpicos de Moscou, em 1984 o

bloco soviético boicotou os Jogos de Los Angeles, e em diversas outras ocasiões

os Jogos estiveram no centro de uma tempestade política (mais notavelmente em

1936, quando a Berlim nazista sediou os Jogos, e em 1972, quando terroristas

palestinos massacraram a delegação israelense nas Olimpíadas de Munique).

Porém, no todo, controvérsias políticas não fizeram o projeto olímpico

descarrilar.

Recuemos agora mil anos. Suponha que você quisesse realizar os Jogos

Olímpicos Medievais no Rio, em 1016. Esqueça o fato de que então o Rio era

uma pequena aldeia de índios tupis,12 e que asiáticos, africanos e europeus nem

sequer tinham conhecimento da existência da América. Esqueça os problemas

logísticos de trazer todos os melhores atletas do mundo para o Rio quando não

havia aviões. Esqueça também que eram poucos os esportes praticados em todo o

mundo, e, mesmo que todos os humanos fossem capazes de correr, nem todos

seriam capazes de concordar com as mesmas regras para uma corrida. Apenas se

pergunte como agrupar as delegações de competidores. Atualmente o Comitê

Olímpico Internacional passa incontáveis horas discutindo as questões de

Taiwan e da Palestina. Multiplique isso por 10 mil para fazer uma estimativa do

número de horas que teria de dedicar à política nas Olimpíadas Medievais.

Para começar, em 1016 o Império Song chinês não reconhecia nenhuma

entidade política na Terra como sua igual. Seria portanto uma humilhação

impensável dar à sua delegação olímpica o mesmo status atribuído às delegações

do reino coreano de Korio ou do reino vietnamita do Dai Co Viet — sem falar

das delegações de bárbaros primitivos de além-mar.

O califa em Bagdá também reivindicava soberania universal, e a maioria dos

muçulmanos sunitas o reconhecia como líder supremo. Em termos práticos, no

entanto, o califa mal governava a cidade de Bagdá. Assim, será que todos os

atletas sunitas fariam parte de uma única delegação do califado, ou se dividiriam

em dezenas de delegações dos numerosos emirados e sultanatos do mundo

sunita? Mas por que ficar nos emirados e sultanatos? O deserto da Arábia estava

cheio de tribos beduínas livres, que não reconheciam um soberano além de Alá.

Estaria cada uma autorizada a enviar uma delegação independente para competir

em tiro com arco ou corrida de camelos? A Europa lhe daria um bom número de dores de cabeça. Será que um atleta da cidade de normanda de Ivry competiria

sob a bandeira do condado local de Ivry, de seu senhor o duque da Normandia,

ou talvez do débil rei de França?

Muitas dessas entidades políticas apareceram e desapareceram numa questão

de anos. Enquanto você estivesse preparando os Jogos Olímpicos de 1016, não

poderia saber antecipadamente quais delegações iriam se apresentar, porque

ninguém podia ter certeza de quais entidades políticas ainda existiriam no ano

seguinte. Se o reino da Inglaterra tivesse enviado uma delegação aos Jogos de

1016, quando os atletas voltassem para casa com suas medalhas descobririam que

os dinamarqueses tinham acabado de capturar Londres, e que a Inglaterra estava

sendo absorvida pelo Império do rei Canuto, o Grande, no mar do Norte, junto

com a Dinamarca, a Noruega e partes da Suécia. Dentro de mais vinte anos, esse

império se desintegrou, mas trinta anos depois a Inglaterra foi novamente

conquistada, pelo duque da Normandia.

Não é necessário lembrar que a vasta maioria dessas efêmeras entidades

políticas não tinha um hino para tocar nem uma bandeira para hastear. Símbolos

políticos eram de grande importância, é claro, mas a linguagem simbólica da

política europeia era diferente das linguagens simbólicas da política indonésia,

chinesa ou tupi. Chegar a um acordo quanto a um protocolo comum para

assinalar uma vitória teria sido praticamente impossível.

Assim, quando você assistir aos Jogos de Tóquio, em 2020, lembre-se de que o

que parece ser uma competição entre nações é na verdade um acordo global

impressionante. Com todo o orgulho nacional que as pessoas sentem quando sua

delegação ganha uma medalha de ouro e sua bandeira é alçada, existe motivo

ainda maior para sentir orgulho de a humanidade ser capaz de organizar um

evento assim.

 

UM DÓLAR PARA GOVERNAR A TODOS

 

Em tempos pré-modernos os humanos experimentaram não somente diversos

sistemas políticos, mas também uma espantosa variedade de modelos

econômicos. Boiardos russos, marajás indianos, mandarins chineses e caciques

de tribos ameríndias tinham ideias muito diferentes sobre dinheiro, comércio, impostos e emprego. Hoje em dia, em contraste, quase todo mundo acredita em

pequenas variações sobre o mesmo tema capitalista, e somos engrenagens de

uma única linha de produção global. Quer você viva no Congo ou na Mongólia,

na Nova Zelândia ou na Bolívia, suas rotinas diárias e fortunas econômicas

dependem das mesmas teorias econômicas, das mesmas corporações e dos

mesmos bancos, e das mesmas correntes de capital. Se os ministros da Fazenda

de Israel e do Irã se encontrassem num almoço, eles teriam uma linguagem

econômica comum e poderiam facilmente compartilhar suas agruras.

Quando o Estado Islâmico conquistou grande parte da Síria e do Iraque,

assassinou dezenas de milhares de pessoas, demoliu sítios arqueológicos,

derrubou estátuas e destruiu sistematicamente os símbolos dos regimes

anteriores e da influência cultural do Ocidente.13 Mas quando seus combatentes

entraram nos bancos locais e encontraram esconderijos com dólares americanos

com rostos de presidentes americanos e frases em inglês louvando ideais

políticos e religiosos americanos, não queimaram esses símbolos do

imperialismo americano. Pois a cédula de dólar é universalmente venerada por

todos os segmentos políticos e religiosos. Embora não tenha um valor intrínseco

— não se pode comer ou beber uma nota de dólar —, a confiança no dólar e na

sensatez do Federal Reserve é tão firme que é compartilhada até mesmo por

fundamentalistas islâmicos, traficantes mexicanos e tiranos norte-coreanos.

Porém a homogeneidade contemporânea é mais evidente quando se trata de

nossa maneira de ver o mundo natural e do corpo humano. Se você ficasse

doente mil anos atrás, importava muito o lugar onde vivia. Na Europa, o

sacerdote local provavelmente lhe diria que você tinha irritado Deus, e que para

recobrar a saúde deveria fazer um donativo à Igreja, uma peregrinação a um

lugar sagrado e rezar fervorosamente por perdão. Ou então a bruxa da aldeia

poderia explicar que você estava sob a possessão de um demônio e que ela

poderia expulsar o demônio por meio de uma canção, uma dança e o sangue de

um galo preto.

No Oriente Médio, médicos formados nas tradições clássicas poderiam

explicar que seus quatro humores corporais estavam desequilibrados, e você

deveria harmonizá-los com uma dieta adequada e poções fedidas. Na Índia,

especialistas aiurvédicos apresentariam suas próprias teorias sobre os três elementos corporais conhecidos como doshas e recomendariam um tratamento

de ervas, massagens e posições de ioga. Médicos chineses, xamãs siberianos,

médicos feiticeiros africanos, curandeiros ameríndios — todo império, reino e

tribo tinha suas próprias tradições e seus especialistas, cada um adotando uma

visão diferente do corpo humano e da natureza da doença, cada um oferecendo

seu próprio manancial de rituais, preparados e curas. Alguns deles trabalhavam

surpreendentemente bem, enquanto outros eram quase uma sentença de morte.

A única coisa que unia práticas médicas europeias, chinesas, africanas ou

americanas era que em toda parte no mínimo um terço das crianças morriam

antes de se tornarem adultas, e a expectativa de vida média era bem abaixo dos

cinquenta anos.14

Hoje, se você adoecer, faz muito menos diferença o lugar onde vive. Em

Toronto, Tóquio, Teerã ou Tel Aviv, será levado a hospitais parecidos, onde vai

encontrar médicos com aventais brancos que aprenderam as mesmas teorias

científicas nas mesmas faculdades de medicina. Seguirão protocolos idênticos e

farão exames idênticos para chegar a diagnósticos muito semelhantes. Esses

médicos vão prescrever os mesmos remédios produzidos pelas mesmas

companhias farmacêuticas internacionais. Ainda há pequenas diferenças

culturais, mas os médicos canadenses, japoneses, iranianos e israelenses têm

quase os mesmos conceitos sobre o corpo humano e as doenças. Quando o

Estado Islâmico capturou Raqqa e Mossul, não destruiu os hospitais locais. Ao

contrário, lançou um apelo a médicos e enfermeiras muçulmanos em todo o

mundo para irem prestar serviço como voluntários.15 Ao que tudo indica, até

mesmo médicos e enfermeiras islâmicos acreditam que o corpo é formado por

células, que doenças são causadas por patógenos e que antibióticos matam

bactérias.

E de que são feitas essas células e bactérias? Na verdade, de que é feito o

mundo? Mil anos atrás toda cultura tinha sua própria narrativa sobre o universo,

e sobre os ingredientes fundamentais da sopa cósmica. Hoje, pessoas instruídas

em todo o mundo acreditam nas mesmas coisas quanto a matéria, energia,

tempo e espaço. Tome, por exemplo, os programas nucleares iraniano e norte-

coreano. O problema é que os iranianos e os norte-coreanos têm exatamente a

mesma visão da física que têm os israelenses e os americanos. Se iranianos e norte-coreanos acreditassem que E = mc4, Israel e Estados Unidos não

precisariam se incomodar nem um pouco com seus programas nucleares.

As pessoas ainda têm religiões e identidades nacionais diferentes. Mas quando

se trata de coisas práticas — como construir um Estado, uma economia, um

hospital ou uma bomba — quase todos nós pertencemos à mesma civilização. Há

discórdia, sem dúvida, mas todas as civilizações têm suas disputas internas. Na

verdade, elas são definidas por essas disputas. Ao tentar resumir sua identidade,

frequentemente as pessoas fazem uma espécie de lista de traços comuns. É um

erro. Estariam mais bem servidas se fizessem uma lista de conflitos e dilemas

comuns. Por exemplo, em 1618 a Europa não tinha uma única identidade

religiosa — era definida por conflito religioso. Ser um europeu em 1618

significava estar obcecado por pequenas diferenças doutrinárias entre católicos e

protestantes, ou entre calvinistas e luteranos, e estar disposto a matar e ser morto

por causa dessas diferenças. Se um ser humano em 1618 não se incomodasse

com conflitos religiosos, essa pessoa talvez fosse turca ou hindu, mas certamente

não era europeia.

Da mesma forma, em 1940 a Inglaterra e a Alemanha tinham valores políticos

muito diferentes, mas ambas eram parte da “civilização europeia”. Hitler não era

menos europeu que Churchill. Ao contrário, a luta entre eles definia o que

significava ser europeu naquela conjuntura particular na história. Em contraste,

um caçador-coletor !kung em 1940 não era europeu porque o embate interno na

Europa sobre raça e império faria pouco sentido para ele.

As pessoas com quem brigamos mais frequentemente são membros de nossa

própria família. A identidade é definida mais por conflitos e dilemas do que por

concordâncias. O que significa ser europeu em 2018? Não significa ter pele

branca, acreditar em Jesus Cristo ou preservar a liberdade, e sim discutir

veementemente sobre imigração, sobre a União Europeia e sobre os limites do

capitalismo. Significa também perguntar a si mesmo obsessivamente “o que

define minha identidade?” e preocupar-se com uma população cada vez mais

idosa, o consumismo galopante e o aquecimento global. Em seus conflitos e

dilemas, os europeus do século XXI são diferentes de seus ancestrais de 1618 e

1940, mas cada vez mais semelhantes a seus parceiros comerciais chineses e

indianos.

Sejam quais forem as mudanças que nos esperam no futuro, elas

provavelmente envolverão uma luta fraternal dentro de uma única civilização e

não um embate entre civilizações estranhas. Os grandes desafios do século XXI

serão de natureza global. O que acontecerá quando a mudança climática

provocar catástrofes ecológicas? O que acontecerá quando computadores

sobrepujarem os humanos em uma quantidade cada vez maior de tarefas, e os

substituírem em um número cada vez maior de empregos? O que vai acontecer

quando a biotecnologia nos permitir aprimorar os humanos e estender a duração

da vida? Sem dúvida teremos enormes discussões e conflitos amargos quanto a

essas questões. Mas não é provável que essas discussões e esses conflitos nos

isolem uns dos outros. Exatamente o contrário. Eles nos tornarão mais

interdependentes. Embora o gênero humano esteja longe de constituir uma

comunidade harmoniosa, somos todos membros de uma única e conflituosa

civilização global.

Como explicar, então, a onda nacionalista que varre a maior parte do mundo?

Talvez em nosso entusiasmo pela globalização tenhamos sido apressados demais

ao desconsiderar as boas e velhas nações? Poderia a volta ao nacionalismo

tradicional ser a solução para nossa desesperada crise global? Se a globalização

traz com ela tantos problemas — por que não simplesmente abandoná-la?