21 Lições para o Século 21
8. Religião: Deus agora serve à nação
8. Religião
Deus agora serve à nação
Até agora, ideologias modernas, cientistas e governos nacionais não
conseguiram criar uma visão viável para o futuro da humanidade. Será que essa
visão pode ser obtida nos profundos poços das tradições religiosas? Talvez a
resposta esteja esperando por nós desde sempre nas páginas da Bíblia, do Corão
ou dos Vedas.
As pessoas seculares provavelmente reagirão a essa ideia com ironia ou
apreensão. As escrituras sagradas podem ter sido relevantes na Idade Média, mas
como poderão nos guiar na era da inteligência artificial, da bioengenharia, do
aquecimento global e da guerra cibernética? Mas as pessoas seculares são
minoria. Bilhões de humanos ainda professam maior fé no Corão e na Bíblia do
que na teoria da evolução; movimentos religiosos moldam as políticas de países
tão diversos como a Índia, a Turquia e os Estados Unidos; e animosidades
religiosas alimentam conflitos da Nigéria às Filipinas.
Então, quão relevantes são religiões como o cristianismo, o islamismo e o
hinduísmo? Serão capazes de nos ajudar a resolver os problemas que
enfrentamos? Para entender o papel de religiões tradicionais no mundo do
século XXI, precisamos distinguir três tipos de problemas:
1. Problemas técnicos. Por exemplo, como agricultores em países áridos
lidarão com secas severas causadas pelo aquecimento global?
2. Problemas políticos. Por exemplo, quais as primeiras medidas que os
governos deveriam adotar para impedir o aquecimento global?
3. Problemas identitários. Por exemplo, deveria eu me preocupar com os problemas de agricultores no outro lado do mundo, ou só devo me preocupar
com os problemas de pessoas de minha própria tribo e meu próprio país?
Como veremos nas páginas seguintes, as religiões tradicionais são em grande
parte irrelevantes para problemas técnicos e políticos. Em contraste, são
extremamente relevantes para problemas identitários — mas na maioria dos
casos são parte principal do problema, e não uma possível solução.
PROBLEMAS TÉCNICOS: AGRICULTURA CRISTÃ
Na época pré-moderna, as religiões eram responsáveis por resolver uma ampla
gama de problemas técnicos em campos mundanos, tal como a agricultura.
Calendários divinos determinavam quando plantar e quando colher, e rituais no
templo garantiam a chuva e protegiam contra pragas. Quando surgia uma crise
agrícola devido à seca, ou a uma praga de gafanhotos, os agricultores voltavam-se
para os sacerdotes a fim de que intercedessem junto aos deuses. A medicina
também estava sob domínio religioso. Quase todo profeta, guru e xamã servia
também de curandeiro. Assim, Jesus passou boa parte do tempo fazendo doentes
sararem, cegos enxergarem, mudos falarem e loucos ficarem sãos. Se você vivesse
no antigo Egito ou na Europa medieval e estivesse doente, provavelmente iria a
um feiticeiro e não a um médico, e faria uma peregrinação a um templo
renomado, e não a um hospital.
Em tempos recentes, os biólogos e os cirurgiões assumiram o lugar de
sacerdotes e curandeiros milagrosos. Se o Egito for atacado agora por uma praga
de gafanhotos, os egípcios bem que poderão pedir ajuda a Alá — por que não?
—, mas não se esquecerão de apelar a químicos, entomologistas e geneticistas
para que desenvolvam pesticidas mais fortes e cepas de trigo resistentes a insetos.
Se o filho de um hindu devoto estiver com um caso grave de sarampo, o pai fará
uma prece a Dhanvantari e lhe oferecerá flores e doces no templo local — mas só
depois de ter levado o menino ao hospital mais próximo e o confiado aos
cuidados dos médicos. Até mesmo a doença mental — último bastião de
curandeiros religiosos — está passando gradualmente para as mãos de cientistas,
quando a neurologia substitui a demonologia e o Prozac supera o exorcismo.
A vitória da ciência tem sido tão completa que a própria noção de religião
mudou. Não associamos mais religião com agricultura e medicina. Até mesmo
muitos fanáticos sofrem hoje de amnésia coletiva e preferem esquecer que as
religiões tradicionais sempre reivindicaram esses domínios. “E daí que
recorremos a engenheiros e médicos?”, dizem os fanáticos. “Isso não prova nada.
O que a religião tem a ver com agricultura e medicina, para começar?”
As religiões tradicionais perderam tanto terreno porque não eram muito boas
na agricultura e na medicina. A verdadeira especialidade de sacerdotes e gurus
nunca foi realmente fazer chover, curar, a profecia ou a mágica. E, sim, desde
sempre, a interpretação. Um sacerdote não é alguém que sabe dançar a dança da
chuva e acabar com a seca. Um sacerdote é alguém que sabe justificar o fato de a
dança da chuva ter fracassado, e explicar por que devemos continuar acreditando
em nosso deus mesmo que ele pareça surdo a nossas preces.
Porém é exatamente seu gênio para a interpretação que deixa os líderes
religiosos em desvantagem quando competem com cientistas. Os cientistas
também sabem tomar atalhos e distorcer a evidência, mas, no fim, o que marca a
ciência é a disposição para admitir o fracasso e tentar outro caminho. Por isso os
cientistas aprendem gradualmente como cultivar melhores safras e fazer
remédios melhores, enquanto os sacerdotes e os gurus só aprendem a dar
melhores desculpas. Ao longo dos séculos, mesmo os verdadeiros crentes
perceberam a diferença, razão pela qual a autoridade religiosa tem diminuído em
campos técnicos. É por isso também que o mundo inteiro torna-se cada vez mais
uma única civilização. Quando coisas realmente funcionam, todos as adotam.
PROBLEMAS POLÍTICOS: ECONOMIA MUÇULMANA
Enquanto a ciência nos fornece respostas claras a questões técnicas, por
exemplo, como curar o sarampo, há entre os cientistas considerável desacordo
em questões políticas. Quase todos os cientistas concordam que o aquecimento
global é um fato, mas não há consenso no que concerne a qual é a melhor reação
econômica a essa ameaça. Isso não significa, no entanto, que as religiões
tradicionais podem nos ajudar a resolver a questão. As antigas escrituras
simplesmente não são um bom guia para a economia moderna, e as principais clivagens — por exemplo, entre capitalistas e socialistas — não correspondem às
divisões tradicionais entre religiões.
É verdade que em países como Israel e Irã rabinos e aiatolás se manifestam
diretamente sobre a política econômica, e até mesmo em países mais seculares,
como os Estados Unidos e o Brasil, líderes religiosos influenciam a opinião
pública em questões que vão desde impostos até regulamentação ambiental. Mas
um olhar mais acurado revela que, na maioria desses casos, religiões tradicionais
na realidade acompanham e ecoam teorias científicas modernas. Quando o
aiatolá Khamenei precisa tomar uma decisão crucial para a economia iraniana,
ele simplesmente não é capaz de encontrar a resposta necessária no Corão,
porque os árabes do século VII sabiam muito pouco sobre os problemas e as
oportunidades das economias industriais modernas e dos mercados financeiros
globais. Assim, ele ou seus assessores têm de se voltar para Karl Marx, Milton
Friedman, Friedrich Hayek e a moderna ciência da economia para obter
respostas. Uma vez tendo decidido elevar taxas de juro, ou reduzir impostos, ou
privatizar monopólios do governo, ou assinar um acordo tarifário internacional,
Khamenei pode então usar seu conhecimento religioso e sua autoridade para
embalar a resposta científica no formato deste ou daquele versículo do Corão, e
apresentá-lo às massas como a vontade de Alá. Mas o formato tem pouca
importância. Quando se comparam as políticas econômicas do Irã xiita, da
Arábia Saudita sunita, do Israel judaico, da Índia hinduísta e da América cristã,
não se vê muita diferença.
Durante os séculos XIX e XX, pensadores muçulmanos, judeus, hindus e
cristãos investiram contra o materialismo moderno, contra o capitalismo
impiedoso e contra a burocracia excessiva do Estado. Prometeram que se apenas
lhes dessem uma oportunidade, resolveriam todos os males da modernidade e
estabeleceriam um sistema socioeconômico completamente diferente, baseado
nos eternos valores espirituais de seu credo. Bem, foram-lhes dadas algumas
oportunidades e a única mudança visível que implementaram no edifício das
economias modernas foi refazer a pintura e colocar o crescente, a cruz, a estrela
de David ou o Om no telhado.
Como no caso dos rituais para fazer chover, quando se trata de economia, é a
longamente aprimorada expertise de interpretação de textos dos eruditos religiosos que faz a religião ser irrelevante. Não importa qual seja a política
econômica escolhida por Khamenei, ele sempre poderá encaixá-la no Corão.
Com isso, o Corão é rebaixado de fonte do verdadeiro conhecimento para fonte
de mera autoridade. Quando enfrenta um difícil dilema econômico, você lê Marx
e Hayek atentamente, e eles ajudam a compreender melhor o sistema econômico,
a ver as coisas de um novo ângulo e a pensar em soluções possíveis. Depois de
formular uma resposta, você se volta para o Corão e o lê atentamente em busca
de uma sura que, se interpretada criativamente, é capaz de justificar a decisão
que você foi buscar em Hayek ou em Marx. Não importa qual solução encontrou
lá, se você é um bom estudioso do Corão, sempre será capaz de justificá-la.
O mesmo vale para o cristianismo. Para um cristão é tão fácil ser capitalista
como socialista, e mesmo que algumas coisas que Jesus disse soem totalmente a
comunismo, durante a Guerra Fria bons capitalistas americanos liam o Sermão
da Montanha sem prestar muita atenção nisso. Não existe “economia cristã”,
“economia muçulmana” ou “economia hindu”.
Não que não haja nenhuma ideia econômica na Bíblia, no Corão ou nos Vedas
— elas apenas não estão atualizadas. A leitura que o Mahatma Gandhi fez dos
Vedas o permitiu imaginar uma Índia independente como uma coleção de
comunidades agrárias autossuficientes, cada uma tecendo suas próprias roupas
khadi, exportando pouco e importando ainda menos. A mais famosa fotografia
dele o mostra tecendo algodão com as próprias mãos, e ele fez da humilde roca o
símbolo do movimento nacionalista indiano.1 Mas essa visão arcadiana era
simplesmente incompatível com a realidade da economia moderna, e por isso
não restou muito dela, salvo a radiante efígie de Gandhi em bilhões de cédulas de
rúpia.
As teorias econômicas modernas são tão mais relevantes do que os dogmas
tradicionais que agora é comum interpretar conflitos ostensivamente religiosos
em termos econômicos, enquanto a ninguém ocorre fazer o contrário. Por
exemplo, há quem alegue que os problemas entre católicos e protestantes na
Irlanda do Norte foram alimentados em grande parte por conflitos de classe.
Devido a vários acidentes históricos, na Irlanda do Norte as classes superiores
eram na maioria protestantes, e as classes inferiores eram na maioria católicas.
Por isso o que parece à primeira vista ter sido um conflito teológico sobre a natureza de Cristo, seria de fato uma típica luta entre os que têm e os que não
têm. Em contraste, poucas pessoas diriam que os conflitos entre guerrilhas
comunistas e proprietários de terras capitalistas na América do Sul na década de
1970 eram na realidade apenas uma cobertura para uma discórdia muito mais
profunda sobre a teologia cristã.
Então que diferença faria a religião no enfrentamento das grandes questões do
século XXI? Tome, por exemplo, a questão de se confiar ou não à IA autoridade
para tomar decisões quanto à vida das pessoas — escolhendo por você o que
estudar, onde trabalhar e com quem casar. Qual é a posição muçulmana quanto a
essa questão? Qual é a posição judaica? Neste caso não existe posição
“muçulmana” ou “judaica”. O gênero humano provavelmente está dividido em
dois campos principais — os que são a favor de dar à IA uma autoridade
expressiva, e os que se opõem a isso. Provavelmente podem-se encontrar
muçulmanos e judeus em ambos os lados, e para justificar a posição de cada lado
eles adotam interpretações criativas do Corão e do Talmude.
É claro que grupos religiosos poderiam endurecer suas posições quanto a
questões específicas e transformá-las em dogmas supostamente sagrados e
eternos. Na década de 1970, teólogos na América Latina criaram a Teologia da
Libertação, fazendo com que Jesus lembrasse um pouco Che Guevara. Da mesma
forma, Jesus pode ser facilmente recrutado para debater o aquecimento global e
fazer com que posições políticas atuais pareçam princípios religiosos eternos.
Isso já está começando a acontecer. Uma oposição a legislações ambientais
está incorporada nos sermões enfurecidos de alguns pastores evangélicos
americanos, enquanto o papa Francisco está conduzindo o ataque ao
aquecimento global em nome de Cristo (como testemunha sua segunda encíclica,
“Laudato si’”).2 Assim, talvez em 2070, na questão ambiental, fará toda a
diferença do mundo você ser evangélico ou católico. Nem é preciso dizer que os
evangélicos recusarão qualquer limite nas emissões de carbono, enquanto os
católicos acreditarão que Jesus pregou que temos de proteger o meio ambiente.
Vocês verão a diferença até mesmo em seus carros. Os evangélicos vão dirigir
enormes veículos utilitários sedentos por gasolina, enquanto católicos devotos
andarão por aí em esguios carros elétricos com um adesivo no para-choque onde
se lerá “Queimem o planeta — e queimarão no inferno!”. Contudo, embora possam citar várias passagens bíblicas em defesa de suas posições, a verdadeira
origem dessa diferença estará em teorias científicas modernas, não na Bíblia.
Dessa perspectiva, a religião não tem realmente muito a contribuir para os
grandes debates políticos de nosso tempo. Como alegou Karl Marx, ela é só um
verniz.
PROBLEMAS IDENTITÁRIOS: AS LINHAS NA AREIA
Marx, porém, exagerou quando rejeitou a religião como mera superestrutura
que oculta poderosas forças tecnológicas e econômicas. Mesmo que o islamismo,
o hinduísmo ou o cristianismo possam ser decorações coloridas numa estrutura
econômica moderna, as pessoas frequentemente se identificam com a decoração,
e as identidades das pessoas são uma força histórica crucial. O poder humano
depende da cooperação das massas, a cooperação das massas depende da criação
de identidades de massa — e todas as identidades de massa são baseadas em
narrativas ficcionais, não em fatos científicos ou mesmo necessidades
econômicas. No século XXI, a divisão dos humanos em judeus e muçulmanos ou
em russos e poloneses ainda depende de mitos religiosos. As tentativas de
nazistas e comunistas de determinar cientificamente identidades humanas de
raça e de classe demonstraram ser perigosa pseudociência, e desde então os
cientistas têm sido relutantes em ajudar a definir quaisquer identidades
“naturais” para seres humanos.
Assim, no século XXI as religiões não trazem chuva, não curam doenças, não
constroem bombas — mas sim determinam quem somos “nós” e quem são
“eles”, quem devemos curar e quem devemos bombardear. Como antes
observado, em termos práticos há surpreendentemente poucas diferenças entre o
Irã xiita, a Arábia Saudita sunita e o Israel judaico. Todos são Estados-nação
burocráticos, todos seguem políticas mais ou menos capitalistas, todos vacinam
as crianças contra a poliomielite e todos contam com químicos e físicos para
fazer bombas. Não existe burocracia xiita, capitalismo sunita ou física judaica.
Então, como fazer com que as pessoas se sintam únicas e sejam leais a uma tribo
humana e hostis a outra?
Para desenhar linhas firmes nas areias mutantes da humanidade, as religiões usam ritos, rituais e cerimônias. Xiitas, sunitas e judeus ortodoxos usam roupas
diferentes, entoam preces diferentes e observam tabus diferentes. Essas distintas
tradições religiosas muitas vezes enchem de beleza a vida diária e estimulam as
pessoas a se comportar mais gentil e caritativamente. Cinco vezes por dia, a voz
melodiosa do muezim eleva-se acima do ruído dos bazares, escritórios e fábricas,
convocando os muçulmanos a uma pausa na agitação das tarefas mundanas para
tentar se conectar a uma verdade eterna. Seus vizinhos hindus podem buscar o
mesmo objetivo com a ajuda das pujas diárias e a recitação de mantras. Toda
semana, na noite de sexta-feira, famílias judaicas sentam-se à mesa para uma
refeição especial de alegria, agradecimento e união, Dois dias depois, na manhã
de domingo, corais cristãos cantam o evangelho, trazendo esperança à vida de
milhões, ajudando a forjar laços comunitários de confiança e afeição.
Outras tradições religiosas enchem o mundo de muita feiura e fazem pessoas
serem más e cruéis. Pouco há a dizer, por exemplo, em favor de uma
religiosidade inspirada em misoginia ou discriminação de casta. Mas sejam belas
ou feias, todas essas tradições religiosas unem certas pessoas enquanto as
distinguem de seus vizinhos. Vistas de fora, as tradições religiosas que dividem as
pessoas parecem ser insignificantes, e Freud ridicularizou a obsessão que pessoas
têm quanto a essas questões, que chamou de “o narcisismo das pequenas
diferenças”.3 Mas na história e na política pequenas diferenças podem ter
consequências profundas. Assim, se por acaso você for gay ou lésbica, isso é
literalmente uma questão de vida ou morte, quer você viva em Israel, no Irã ou
na Arábia Saudita. Em Israel, a população LGBT usufrui da proteção da lei, e
existem até mesmo rabinos que abençoariam o casamento entre duas mulheres.
No Irã, gays e lésbicas são sistematicamente perseguidos e, às vezes, até mesmo
executados. Na Arábia Saudita, até 2018 uma lésbica não podia nem mesmo
dirigir um carro — só pelo fato de ser mulher, independentemente de ser lésbica.
Talvez o melhor exemplo para o contínuo poder e importância das religiões
tradicionais no mundo moderno venha do Japão. Em 1853 uma esquadra
americana obrigou o Japão a se abrir para o mundo moderno. Em resposta, o
Estado japonês embarcou num processo de modernização rápido e
extremamente bem-sucedido. Em poucas décadas tornou-se um poderoso
Estado burocrático que se valeu da ciência, do capitalismo e da mais recente tecnologia militar para derrotar a China e a Rússia, ocupar Taiwan e a Coreia, e
finalmente afundar uma esquadra americana em Pearl Harbor e destruir os
impérios europeus no Extremo Oriente. Mas o Japão não copiou cegamente o
modelo europeu. Estava determinado a proteger sua identidade única e assegurar
que o japonês moderno fosse leal ao Japão, e não à ciência, ou a alguma nebulosa
comunidade global.
Para isso, o Japão preservou a religião nativa do Xintoismo como pedra
angular da identidade japonesa. Na verdade, o Estado japonês reinventou o
Xintoismo, que tradicionalmente era uma barafunda de crenças animistas em
várias divindades, espíritos e fantasmas, e cada aldeia e tempo tinha seus
próprios espíritos favoritos e costumes locais. Entre o final do século XIX e o
início do século XX, o Estado japonês criou a versão oficial do Xintoismo,
desestimulando tradições locais. Esse “Estado Xintoísta” fundiu ideias muito
modernas de nacionalidade e raça, que a elite japonesa foi buscar nos
imperialistas europeus. Todo elemento do budismo, do confucionismo e do
éthos feudal samurai que fosse útil para cimentar a lealdade ao Estado foi
adicionado à mistura. Para culminar tudo isso, o Estado Xintoísta consagrou
como princípio supremo o culto ao imperador japonês, considerado descendente
direto da deusa do Sol Amaterasu, e ele mesmo nada menos que um deus
vivente.4
À primeira vista, essa estranha mistura do antigo e do novo parecia ser uma
escolha extremamente inadequada para um Estado que embarcava num curso
intensivo de modernização. Um deus vivente? Espíritos animistas? Éthos feudal?
Parecia mais um caciquismo neolítico do que uma potência industrial moderna.
Mas funcionou como mágica. Os japoneses se modernizaram num ritmo de
tirar o fôlego, enquanto desenvolviam simultaneamente uma lealdade fanática ao
seu Estado. O símbolo mais conhecido do sucesso do Estado Xintoísta é o fato de
que o Japão foi a primeira potência a desenvolver e utilizar mísseis de precisão
guiados. Décadas antes de os Estados Unidos operacionalizarem a bomba
inteligente, e numa época em que a Alemanha nazista estava começando a
utilizar os foguetes V-2, o Japão afundou dezenas de navios aliados com mísseis
de precisão. Conhecemos esses mísseis como “kamikazes”. Enquanto atualmente,
nas armas de precisão guiadas, a orientação é provida por computadores, os kamikazes eram aviões comuns carregados de explosivos e guiados por pilotos
humanos dispostos a realizar uma missão sem volta. Essa disposição foi produto
do espírito de sacrifício e desafio à morte cultivado pelo Estado Xintoísta. Assim,
os kamikazes se apoiavam na combinação de uma tecnologia de ponta com uma
doutrinação religiosa de ponta.5
Conscientemente ou não, numerosos governos hoje seguem o exemplo
japonês. Adotam os instrumentos e estruturas universais da modernidade
enquanto se fundamentam em religiões tradicionais para preservar uma
identidade nacional única. O papel do Estado Xintoísta no Japão é
desempenhado em menor ou maior grau pelos cristãos ortodoxos na Rússia, pelo
catolicismo na Polônia, pelo islamismo xiita no Irã, pelo wahabismo na Arábia
Saudita e pelo judaísmo em Israel. Não importa quão arcaica uma religião possa
parecer, com um pouco de imaginação e reinterpretação ela quase sempre pode
se casar com as mais recentes engenhocas tecnológicas e as mais sofisticadas
instituições modernas.
Em alguns casos os Estados podem criar uma religião totalmente nova para
fortalecer sua identidade única. O exemplo mais extremo pode ser visto hoje na
ex-colônia japonesa da Coreia do Norte. O regime norte-coreano doutrina seus
súditos com uma fanática religião de Estado chamada Juche. É uma mistura de
marxismo-leninismo, algumas antigas tradições coreanas, a crença racista na
pureza única da raça coreana e a deificação da família de Kim Il-sung. Embora
ninguém alegue que os Kims são descendentes da deusa do Sol, eles são
cultuados com mais fervor do que foram quase todos os deuses na história.
Talvez conscientes de como o Império Japonês foi posteriormente derrotado, a
Juche norte-coreana também insistiu por muito tempo em acrescentar armas
nucleares a essa mistura, justificando sua fabricação como um dever sagrado,
digno de sacrifícios supremos.6
A CRIADA DO NACIONALISMO
Daí que, não importa como a tecnologia vai se desenvolver, é de esperar que
discussões sobre identidades e rituais religiosos continuarão a influenciar o uso
de novas tecnologias, e terão o poder de incendiar o mundo. Os mísseis nucleares e as bombas cibernéticas mais atualizados poderiam muito bem ser usados para
resolver uma discussão doutrinária sobre textos medievais. Religiões, ritos e
rituais continuarão a ser importantes enquanto o poder do gênero humano se
apoiar em cooperação de massas, e enquanto a cooperação de massas se apoiar
na crença em ficções compartilhadas.
Infelizmente, toda essa realidade faz com que as religiões tradicionais sejam
parte do problema da humanidade, não parte da solução. Religiões ainda têm
muito poder político, na medida em que podem cimentar identidades nacionais
e até mesmo desencadear a Terceira Guerra Mundial. Mas, quando se trata de
resolver os problemas globais do século XXI, parece que elas não têm muito a
oferecer. Embora muitas religiões tradicionais adotem valores universais e
reivindiquem validade cósmica, hoje são usadas principalmente como criadas do
nacionalismo moderno — seja na Coreia do Norte, na Rússia, no Irã ou em
Israel. Assim, elas fazem com que seja ainda mais difícil transcender as diferenças
nacionais e encontrar uma solução global para as ameaças de guerra nuclear,
colapso ecológico e disrupção tecnológica.
Dessa forma, quando lidam com o aquecimento global ou a proliferação
nuclear, clérigos xiitas incentivam os iranianos a ver esses problemas de uma
estreita perspectiva iraniana, rabinos judeus inspiram israelenses a cuidar
principalmente do que é bom para Israel, e sacerdotes cristãos ortodoxos instam
os russos a pensar primeiro e acima de tudo nos interesses da Rússia. Afinal,
somos a nação escolhida por Deus, e assim o que é bom para nossa nação
agradará a Deus também. Certamente haverá sábios religiosos que rejeitam os
excessos nacionalistas e adotam visões muito mais universais. Infelizmente, hoje
em dia esses sábios não exercem muito poder político.
Estamos numa encruzilhada. O gênero humano constitui agora uma única
civilização, e problemas como guerra nuclear, colapso ecológico e disrupção
tecnológica só podem ser resolvidos em nível global. Por outro lado,
nacionalismo e religião ainda dividem nossa civilização em campos diferentes e
às vezes hostis. Essa colisão entre problemas globais e identidades locais se
manifesta na crise que agora assola o maior experimento multicultural no
mundo — a União Europeia. Erigida na promessa de valores liberais universais, a
União Europeia está cambaleando à beira da desintegração devido às dificuldades de integração e imigração.