21 Lições para o Século 21
20. Sentido: A vida não é uma história
20. Sentido
A vida não é uma história
Quem sou eu? O que deveria fazer na vida? Qual o significado da existência?
Humanos têm feito estas perguntas desde tempos imemoriais. Cada geração
precisa de uma nova resposta, porque o que sabemos ou não sabemos está em
constante mudança. Considerando tudo o que sabemos e não sabemos sobre a
ciência, sobre Deus, sobre política e sobre religião — qual é a melhor resposta
que podemos dar hoje?
Que tipo de resposta as pessoas esperam? Em quase todos os casos, quando
pessoas perguntam sobre o significado da vida, elas esperam que lhes contem
uma história. O Homo sapiens é um animal contador de histórias, que pensa em
narrativas e não em números ou gráficos, e acredita que o próprio universo
funciona como uma narrativa, repleta de heróis e vilões, conflitos e soluções,
clímaces e finais felizes. Quando buscamos o sentido da vida, queremos uma
narrativa que explique o que quer dizer realidade e qual é meu papel particular
no drama cósmico. Esse papel faz com que eu me torne parte de algo maior, e dá
significado a todas as minhas experiências e escolhas.
Uma história popular que se contou durante milhares de anos a bilhões de
humanos ansiosos explica que somos todos parte de um ciclo eterno que abrange
e conecta todos os seres. Cada ser tem uma função distinta a preencher no ciclo.
Compreender o significado da vida quer dizer compreender qual é a sua função,
que é única, e viver uma boa vida quer dizer cumprir essa função.
A epopeia hindu Bhagavad Gita conta como, em meio a uma sangrenta guerra
civil, o grande príncipe guerreiro Arjuna é consumido pela dúvida. Vendo seus
amigos e parentes no exército adversário, ele hesita em lutar e matar e começa a refletir sobre a natureza do bem e do mal e sobre a finalidade da vida humana. O
deus Krishna explica então a Arjuna que dentro do grande ciclo cósmico cada ser
possui um “darma” único, o caminho que se tem de percorrer e os deveres que se
têm de cumprir. Se você seguir seu darma, não importa quão difícil possa ser o
caminho, você usufruirá de paz de espírito e se livrará de todas as dúvidas. Caso
se recuse a seguir seu darma e tente adotar algum outro caminho — ou vaguear
sem nenhum —, você irá perturbar o equilíbrio cósmico e nunca será capaz de
encontrar paz ou alegria. Não faz diferença qual seja seu caminho particular,
desde que você o siga. Uma lavadeira que segue com devoção o rumo de uma
lavadeira é muito superior a um príncipe que se desvia do caminho de um
príncipe. Tendo compreendido o significado da vida, Arjuna continua a seguir
seu darma como um guerreiro. Ele mata seus amigos e parentes, lidera seu
exército para a vitória e torna-se um dos mais estimados e amados heróis do
mundo hindu.
A epopeia de Disney de 1994 O rei leão reformula essa narrativa antiga para
audiências modernas, com o jovem leão Simba no lugar de Arjuna. Quando
Simba quer saber o significado da existência, seu pai — o rei leão Mufasa —
conta-lhe sobre o grande Ciclo da Vida. Mufasa explica que os antílopes comem
capim, leões comem antílopes, e quando os leões morrem seu corpo se
decompõe e alimenta o capim. É assim que a vida continua de geração em
geração, contanto que cada animal desempenhe seu papel no drama. Tudo está
conectado, e cada um depende do outro, assim, quando até mesmo uma folha de
capim deixa de seguir sua vocação, todo o Ciclo da Vida pode se desmanchar. A
vocação de Simba, diz Mufasa, é governar o reino dos leões após a morte de
Mufasa e manter a ordem entre os outros animais.
No entanto, quando Mufasa é prematuramente assassinado por seu malvado
irmão Scar, o jovem Simba culpa a si mesmo pela catástrofe e, torturado pela
culpa, abandona o reino dos leões e seu destino real e vagueia pelo deserto. Lá
conhece dois outros proscritos, um suricato e um javali, e juntos passam alguns
anos à toa num lugar distante e desconhecido. Sua filosofia antissocial significa
que eles respondem a todo problema cantando Hakuna matata — esqueça os
seus problemas.
Mas Simba não consegue escapar de seu darma. À medida que amadurece, fica cada vez mais perturbado, sem saber quem é e o que deve fazer. No momento de
clímax do filme, o espírito de Mufasa revela-se a Simba numa visão, e lembra a
ele o Ciclo da Vida e sua identidade real. Simba descobre também que em sua
ausência o vil Scar assumira o trono e governava mal o reino, que agora sofria
muito com desarmonia e fome. Simba finalmente compreende quem ele é e o
que deveria fazer. Retorna ao reino dos leões, mata o tio, torna-se rei e
restabelece a harmonia e a prosperidade. O filme termina com um orgulhoso
Simba apresentando seu herdeiro recém-nascido aos animais reunidos,
garantindo a continuidade do grande Ciclo da Vida.
O Ciclo da Vida apresenta o drama cósmico como uma narrativa circular. Pois
tudo o que Simba e Arjuna sabem é que leões comem antílopes e guerreiros
lutam em batalhas durante incontáveis éons, e continuarão a fazer isso para
sempre. Essa eterna repetição empresta poder à narrativa, sugerindo que esse é o
curso natural das coisas, e que se Arjuna abandonar o combate ou se Simba
recusar-se a ser rei, estarão se rebelando contra as próprias leis da natureza.
Se eu acredito em alguma versão da narrativa do Ciclo da Vida, isso quer dizer
que tenho uma identidade fixa e verdadeira, que determina meus deveres. Por
muitos anos posso duvidar dessa identidade ou ignorá-la, mas um dia, em algum
grande momento, ela será revelada e compreenderei meu papel no drama
cósmico, e, mesmo que eu possa subsequentemente deparar com muitas
provações a atribulações, estarei livre de dúvidas e de desespero.
Outras religiões e ideologias acreditam num drama cósmico linear, que tem
um início que o define, um meio não muito longo e um final definitivo. Por
exemplo, a narrativa muçulmana diz que no começo Alá criou o universo inteiro
e estabeleceu suas leis. Depois revelou essas leis aos humanos no Corão.
Infelizmente, pessoas ignorantes e malvadas rebelaram-se contra Alá e tentaram
destruir e ocultar essas leis, e cabe aos muçulmanos virtuosos e leais mantê-las e
disseminar seu conhecimento. No Dia do Julgamento, Alá avaliará a conduta de
cada indivíduo, recompensando os justos com a felicidade eterna no paraíso e
lançando os maus nos poços ardentes do inferno.
Essa grande narrativa implica que meu papel pequeno, porém importante, na
vida é seguir os mandamentos de Alá, disseminar o conhecimento de Suas leis e
assegurar que se obedeça a Suas vontades. Se acreditar na narrativa muçulmana, encontrarei significado em rezar cinco vezes por dia, doar dinheiro para a
construção de uma nova mesquita e lutar contra apóstatas e infiéis. Até mesmo
as atividades mais mundanas — lavar as mãos, beber vinho, fazer sexo — ficam
imbuídas de significado cósmico.
O nacionalismo também sustenta uma narrativa linear. A história sionista
começa com as aventuras e realizações do povo judeu, relata 2 mil anos de exílio
e perseguição, atinge um clímax com o Holocausto e o estabelecimento do
Estado de Israel e anseia pelo dia em que Israel usufruirá de paz e prosperidade e
se tornará um farol moral e espiritual para o mundo inteiro. Se eu acredito na
narrativa sionista, concluo que minha missão na vida é promover os interesses da
nação judaica protegendo a pureza da língua hebraica, lutando para recuperar
território judeu ou talvez tendo e criando uma nova geração de filhos israelenses
leais.
Nesse caso, até mesmo empreendimentos prosaicos são infundidos de
significado. No Dia da Independência, as crianças entoam juntas na escola uma
canção popular hebraica que louva toda ação feita em benefício da pátria. Uma
criança canta: “Construí uma casa na terra de Israel”, outra: “Plantei uma árvore
na terra de Israel”, uma terceira entra com: “Escrevi um poema na terra de
Israel”, até que finalmente se juntam todas em coro cantando: “E assim temos
uma casa, e uma árvore, e um poema [e o que mais você queira acrescentar] na
terra de Israel”.
O comunismo conta uma narrativa análoga, mas ressaltando classe e não
etnicidade. O Manifesto do Partido Comunista começa proclamando que:
Até hoje, a história de toda sociedade é a história das lutas de classe.
Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e aprendiz — em
suma, opressores e oprimidos sempre estiveram em oposição, travando luta ininterrupta, ora velada, ora
aberta, uma luta que sempre terminou ou com a reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou
com o ocaso conjunto das classes em luta.1
O manifesto em seguida explica que nos tempos modernos, “toda a sociedade
se divide mais e mais em dois grandes campos inimigos, em duas classes
frontalmente opostas: a burguesia e o proletariado”.2 Sua luta vai terminar com a
vitória do proletariado, que sinalizará o fim da história e o estabelecimento do paraíso comunista na Terra, no qual ninguém será dono de nada, e todos serão
totalmente livres e felizes.
Se acreditar na narrativa comunista, concluirei que a missão de minha vida é
acelerar a revolução global escrevendo panfletos inflamados, organizando greves
e manifestações, ou talvez assassinando capitalistas gananciosos e lutando contra
seus lacaios. A narrativa empresta significado até aos menores gestos, como o
boicote a uma marca que explora operários têxteis em Bangladesh, ou discutir
com o porco capitalista do meu sogro na ceia de Natal.
Ao contemplar a quantidade de narrativas que buscam definir minha
verdadeira identidade e dar sentido a minhas ações, é impressionante constatar
que sua escala tem pouca importância. Algumas narrativas, como a do Ciclo da
Vida de Simba, parecem estender-se até a eternidade. É somente contra o pano
de fundo do universo inteiro que posso saber quem sou. Outras narrativas, como
a maioria dos mitos nacionalistas e tribais, são minúsculas, em comparação. O
sionismo consagra as aventuras de cerca de 0,2% do gênero humano em 0,005%
da superfície da Terra, durante uma pequeníssima fração da duração do tempo.
A narrativa sionista não chega a atribuir qualquer significado aos impérios
chineses, às tribos da Nova Guiné e à galáxia Andrômeda, bem como aos
incontáveis éons que se passaram antes da existência de Moisés, Abraão e da
evolução dos macacos.
Essa miopia pode ter sérias repercussões. Por exemplo, um dos maiores
obstáculos para qualquer tratado de paz entre israelenses e palestinos é que os
israelenses não querem dividir a cidade de Jerusalém. Alegam que a cidade é “a
capital eterna do povo judeu” — e certamente não se pode contemporizar com
uma coisa que é eterna.3 O que são uns poucos mortos comparados com a
eternidade? Isso é com certeza um contrassenso. Eternidade quer dizer no
mínimo 13,8 bilhões de anos — a idade atual do universo. O planeta Terra foi
formado há cerca de 4,5 bilhões de anos, e os humanos existem há pelo menos 2
milhões de anos. Em contraste, a cidade de Jerusalém só foi estabelecida 5 mil
anos atrás, e o povo judeu tem no máximo 3 mil anos de existência. Isso
dificilmente se qualifica como eternidade.
Quanto ao futuro, a física nos diz que o planeta Terra será absorvido por um
Sol em expansão dentro de cerca de 7,5 bilhões de anos,4 e que nosso universo continuará a existir por pelo menos mais 13 bilhões de anos. Será que alguém
acredita seriamente que o povo judeu, o Estado de Israel ou a cidade de
Jerusalém ainda existirão dentro de 13 mil anos, que dirá 13 bilhões de anos?
Olhando para o futuro, o sionismo tem um horizonte que não passa de alguns
séculos, mas é suficiente para exaurir a imaginação da maioria dos israelenses e
de algum modo ser qualificado como “eternidade”. E há pessoas dispostas a fazer
em benefício da “cidade eterna” sacrifícios que provavelmente se recusariam a
fazer por um efêmero conjunto de casas.
Quando adolescente em Israel, eu também fui cativado no início pela
promessa nacionalista de me tornar parte de algo maior que eu mesmo. Queria
acreditar que se dedicasse minha vida à nação, viveria para sempre ali. Mas não
conseguia atinar com o que significava “viver para sempre na nação”. Essa
expressão soava muito profunda, mas o que significava de fato? Lembro-me de
uma cerimônia no Dia da Memória israelense, quando eu tinha cerca de treze ou
catorze anos. Enquanto nos Estados Unidos o Dia da Memória é marcado
principalmente por grandes promoções nas lojas, em Israel é um evento solene e
importante. Nesse dia as escolas realizam cerimônias em memória dos soldados
que caíram nas muitas guerras de Israel. As crianças vestem-se de branco,
recitam poemas, entoam canções, depositam grinaldas e agitam bandeiras. Lá
estava eu, vestido de branco na cerimônia de nossa escola, e, entre acenos de
bandeiras e recitação de poemas, eu naturalmente pensava comigo mesmo que
quando crescesse ia querer ser também um soldado caído. Afinal, se eu fosse um
heroico soldado que sacrificou sua vida por Israel, eu teria todas essas crianças
recitando poemas e agitando bandeiras em minha homenagem.
Mas depois pensei: “Espere um instante. Se eu estiver morto, como vou saber
que essas crianças estavam realmente recitando poemas em minha
homenagem?”. Tentei então imaginar-me morto. E imaginei-me estendido sob
alguma lápide branca num bem cuidado cemitério militar, ouvindo poemas que
vinham de cima, acima do solo. Mas então pensei: “Se estou morto não poderei
ouvir os poemas, porque não terei orelhas, e não terei cérebro, e não poderei
ouvir ou sentir nada. Então para que isso?”.
Pior ainda, na época em que tinha treze anos eu sabia que o universo tinha
alguns bilhões de anos de idade, e provavelmente continuaria a existir por mais bilhões de anos. Seria realista eu esperar que Israel existisse por tanto tempo?
Será que crianças Homo sapiens vestidas de branco ainda vão recitar poemas em
minha homenagem daqui a 200 milhões de anos? Havia algo duvidoso em toda
essa história.
Se você por acaso é palestino, não seja presunçoso. É igualmente improvável
que haja palestinos dentro de 200 milhões de anos. Na verdade, provavelmente
tampouco haverá qualquer mamífero. Outros movimentos nacionais têm a
mesma estreiteza de mente e visão. O nacionalismo sérvio pouco se importa com
os eventos na era jurássica, enquanto os nacionalistas coreanos acreditam que
uma pequena península na costa oriental da Ásia é a única parte do cosmos que
realmente interessa no grande esquema das coisas.
É claro que nem mesmo Simba — com toda a sua devoção ao perene Ciclo da
Vida — contempla o fato de que leões, antílopes e capim não são realmente
eternos. Simba não leva em conta o que era o universo antes da evolução dos
mamíferos, nem qual será o destino de sua amada savana africana depois que os
humanos matarem todos os leões e cobrirem todas as campinas com asfalto e
concreto. Isso tornará a vida de Simba totalmente sem significado?
Toda narrativa é incompleta. Assim, para poder construir uma identidade
viável para mim mesmo e emprestar sentido a minha vida, na realidade eu não
preciso de uma narrativa completa desprovida de pontos cegos e contradições
internas. Para dar sentido a minha vida, uma narrativa precisa satisfazer apenas
duas condições: primeiro, tem de dar a mim algum papel a desempenhar. Não é
provável que um membro de uma tribo na Nova Guiné acredite no sionismo ou
no nacionalismo sérvio, porque essas narrativas não têm nada a ver com a Nova
Guiné e seu povo. Assim como estrelas do cinema, os humanos só gostam dos
roteiros que reservam papéis importantes para eles.
Segundo, uma boa narrativa, embora não precise se estender até o infinito,
tem de se estender além de meus horizontes. A narrativa me provê de uma
identidade e dá sentido a minha vida ao me incorporar a algo maior do que eu
mesmo. Mas sempre existe um perigo de que eu comece a me perguntar o que dá
sentido a esse “algo maior”. Se o sentido de minha vida for ajudar o proletariado
ou a nação polonesa, o que exatamente dá significado ao proletariado ou à nação
polonesa? Tem a história de um homem que afirmava que o mundo se mantém no lugar porque repousa nas costas de um enorme elefante. Quando lhe
perguntaram sobre em que se apoiava o elefante, ele respondeu que nas costas de
uma grande tartaruga. E a tartaruga? Nas costas de uma tartaruga maior ainda. E
essa tartaruga maior? O homem perdeu a paciência e disse: “Não se preocupem
com isso. Daí em diante é tudo tartaruga”.
A maioria das histórias bem-sucedidas não se fecha. Nunca precisam explicar
de onde afinal vem o sentido, por serem tão boas em captar a atenção das pessoas
e mantê-las numa zona de segurança. Assim, ao explicar que o mundo repousa
nas costas de um grande elefante, você deve antecipar-se a quaisquer perguntas
mais difíceis descrevendo com grande detalhe que quando as gigantescas orelhas
do elefante se agitam elas provocam furacões, e quando o elefante treme de raiva
terremotos sacodem a superfície da Terra. Se você tecer uma narrativa boa o
bastante, não ocorrerá a ninguém perguntar sobre o que o elefante se apoia. Da
mesma forma, o nacionalismo encanta-nos com histórias de heroísmo, nos leva
às lágrimas relatando catástrofes do passado e desencadeia nossa fúria detendo-
se nas injustiças que nossa nação sofreu. Ficamos tão absorvidos nessa epopeia
nacional que começamos a avaliar tudo o que acontece no mundo pelo impacto
que causa em nossa nação, e dificilmente nos ocorre perguntar o que faz nossa
nação ser tão importante, para começar.
Quando você acredita numa determinada história, você se interessa por seus
mínimos detalhes, ficando cego a tudo o que esteja fora desse escopo.
Comunistas devotados podem passar incontáveis horas debatendo se é permitido
fazer uma aliança com social-democratas nos estágios iniciais de uma revolução,
mas raramente param para pensar sobre o lugar do proletariado na evolução da
vida mamífera no planeta Terra, ou na disseminação de vida orgânica pelo
cosmos. Uma conversa fiada dessas é considerada desperdício de fôlego
revolucionário.
Embora algumas narrativas se deem ao trabalho de abranger a todo o espaço e
o tempo, a capacidade de controlar a atenção permite que muitas outras
narrativas de sucesso se mantenham num escopo muito mais modesto. Uma lei
crucial da arte de contar histórias é que, contanto que a ela consiga estender-se
além do horizonte de sua audiência, seu escopo total importa pouco. As pessoas
podem manifestar o mesmo fanatismo mortífero por uma nação de mil anos que manifestam por um deus de 1 bilhão de anos. As pessoas não são boas com
números grandes. Na maioria dos casos, é preciso muito pouco para exaurir
nossa imaginação.
Considerando tudo o que sabemos sobre o universo, parece impossível a
qualquer pessoa mentalmente sã acreditar que a verdade definitiva sobre o
universo e a existência humana é a narrativa do nacionalismo israelense, alemão
ou russo — na verdade, do nacionalismo em geral. Uma narrativa que ignora
quase a totalidade do tempo e do espaço, o Big Bang, a física quântica e a
evolução da vida é no máximo uma minúscula parte da verdade. Mas as pessoas
de algum modo conseguem não enxergar além disso.
Na verdade, bilhões de pessoas ao longo da história acreditaram que para que
suas vidas tenham sentido elas nem mesmo precisam estar absorvidas numa
nação ou num grande movimento ideológico. Basta que “deixem alguma coisa
após sua passagem”, assegurando-se com isso que suas histórias pessoais
continuem após a morte. Essa “alguma coisa” que eu deixo após minha passagem
é minha alma, ou minha essência pessoal. Se eu vou renascer num novo corpo
após a morte de meu corpo atual, então a morte não é o fim. É meramente o
espaço entre dois capítulos, e o enredo que começa num capítulo vai continuar
no próximo. Muitas pessoas têm ao menos uma vaga fé nessa teoria, mesmo que
não a baseiem em alguma teologia específica. Elas não precisam de um dogma
elaborado — só precisam de um sentimento reconfortante de que sua narrativa
continua além do horizonte da morte.
Essa teoria da vida como uma epopeia que nunca termina é extremamente
atraente e comum, mas padece de dois problemas principais. Primeiro, ao
estender minha história pessoal eu não estou tornando-a de fato mais
significativa, apenas mais longa. Na verdade, as duas grandes religiões que
abraçam a ideia do ciclo interminável de nascimento e morte — o hinduísmo e o
budismo — compartilham o horror pela futilidade de tudo. Milhões e milhões de
vezes eu aprendo a andar, cresço, brigo com minha sogra, fico doente, morro —
e depois faço tudo de novo. Qual é o sentido disso? Se eu acumulasse todas as
lágrimas derramadas em minhas vidas anteriores elas preencheriam o oceano
Pacífico; se eu juntasse todos os dentes e cabelos que perdi, formariam uma
montanha mais alta que os Himalaias. E o que ganho com isso? Não é de admirar que os sábios hindus e budistas tenham concentrado grande parte de seus
esforços em encontrar um meio de se livrar desse carrossel e não de perpetuá-lo.
O segundo problema com essa narrativa é a pobreza de evidência
comprobatória. Que prova tenho de que na vida pregressa fui um camponês
medieval, um caçador neandertal, um tiranossauro rex ou uma ameba (se
realmente vivi milhões de vidas, devo ter sido um dinossauro e uma ameba a
certa altura, pois os humanos só existem nos últimos 2,5 milhões de anos)?
Quem garante que no futuro vou renascer como um ciborgue, um explorador
galáctico ou até mesmo um sapo? Basear minha vida nessa promessa é um pouco
como vender minha casa em troca de um cheque pré-datado a sacar num banco
acima das nuvens.
As pessoas que duvidam de que algum tipo de alma ou espírito realmente
sobrevive a sua morte, esforçam-se, por isso, para deixar alguma coisa um pouco
mais tangível. Essa “coisa tangível” poderia tomar uma de duas formas: cultural
ou biológica. Posso deixar um poema, digamos, ou alguns de meus preciosos
genes. Minha vida tem sentido porque as pessoas ainda vão ler meu poema daqui
a cem anos, ou porque meus filhos e netos estarão por aí. E qual é o sentido da
vida deles? Bem, isso é problema deles, não meu. O sentido da vida é assim um
pouco como brincar com uma granada. Uma vez a tendo passado para outra
pessoa, você está seguro.
Infelizmente, essa modesta esperança de apenas “deixar alguma coisa”
raramente se realiza. A maior parte dos organismos que já existiram se extingue
sem deixar nenhuma herança genética. Quase todos os dinossauros, por
exemplo. Ou uma família neandertal que foi extinta quando o Homo sapiens
assumiu o controle. Ou o clã de minha avó polonesa. Em 1934 minha avó
imigrou para Jerusalém com seus pais e duas irmãs, mas a maioria de seus
parentes ficou para trás, nas cidades polonesas de Chmielnik e Czestochowa.
Poucos anos depois os nazistas chegaram e os aniquilaram até a última criança.
Tentativas de deixar algum legado cultural raramente são mais exitosas. Nada
restou de minha avó polonesa, exceto alguns rostos desbotados no álbum de
família, e aos 96 anos nem mesmo ela é capaz de associar os nomes a seus rostos.
Até onde sei, eles não deixaram nenhuma criação cultural — nem um poema,
nem um diário, nem mesmo uma lista de compras no armazém. Você poderia alegar que eles participam na herança coletiva do povo judeu ou do movimento
sionista, mas isso dificilmente confere sentido a suas vidas pessoais. Além disso,
como você sabe que todos eles prezavam sua identidade judaica ou concordavam
com o movimento sionista? Talvez um deles tivesse sido um comunista de
carteirinha, que sacrificou sua vida espionando para os soviéticos? Quem sabe
outro não quis outra coisa senão assimilar-se à sociedade polonesa, serviu como
oficial no Exército polonês, e foi morto pelos soviéticos no massacre de Katyn? E
pode ser que uma terceira fosse uma feminista radical, que repudiou todas as
identidades tradicionais, religiosas e nacionais? Como não deixaram nada, é
muito fácil recrutá-los postumamente para esta ou aquela causa, e eles nem
podem protestar.
Se não pudermos deixar algo tangível — como um gene ou um poema —,
quem sabe seria suficiente apenas tornar o mundo um pouco melhor? Você pode
ajudar alguém, e essa pessoa poderá ajudar outra, e você terá contribuído,
portanto, para a melhora geral do mundo, e acrescentar uma pequena conexão
na grande corrente da bondade. Quem sabe você sirva como tutor de uma
criança difícil mas brilhante, que ainda será um médico que salva centenas de
pessoas? E se ajudar uma senhora idosa a atravessar a rua e alegrar uma hora de
sua vida? Embora tenha seus méritos, a grande corrente da bondade é um pouco
como a grande corrente de tartarugas — está longe de ser claro de onde vem seu
sentido. Perguntaram a um homem idoso e sábio o que tinha aprendido sobre o
sentido da vida. “Bem”, ele respondeu, “aprendi que estou aqui na Terra para
ajudar outras pessoas. O que ainda não descobri é por que as outras pessoas estão
aqui.”
Para os que não confiam em grandes correntes, legados futuros ou epopeias
coletivas, talvez a narrativa mais segura e parcimoniosa para qual podem se
voltar é o romance. Ele não busca ir além do aqui e agora. Inúmeros poemas de
amor atestam que quando você está amando, o universo inteiro se reduz ao
lóbulo, o cílio ou o mamilo da pessoa amada. Ao contemplar Julieta com o
queixo apoiado na mão, Romeu exclama: “Quisera eu ser, naquela mão macia,
uma luva, roçando a doce face que sobre a mão repousa”. Ao se conectar com um
único corpo aqui e agora, você se sente conectado com todo o cosmos.
Na verdade, a pessoa que você ama é apenas outro humano, não diferente em essência das multidões que você ignora todo dia no trem e no supermercado.
Mas, para você, ele ou ela parece infinito, e você está feliz em se perder nesse
infinito. Poetas místicos de todas as tradições frequentemente confundem amor
romântico com união cósmica, escrevendo sobre Deus como um amante. Poetas
românticos retribuem o cumprimento escrevendo sobre suas pessoas amadas
como se fossem deuses. Se você está realmente apaixonado por uma pessoa, não
se preocupa com o sentido da vida.
E se não estiver apaixonado? Bem, se você acredita na narrativa romântica,
mas não está apaixonado, pelo menos sabe qual é o objetivo de sua vida:
encontrar o verdadeiro amor. Você viu isso em inúmeros filmes e leu sobre isso
em inúmeros livros. Sabe que um dia vai conhecer esse alguém especial, verá o
infinito em dois olhos brilhantes, sua vida inteira subitamente fará sentido, e
todas as perguntas que sempre fez serão respondidas ao repetir um nome mais e
mais uma vez, como Tony em Amor, sublime amor ou Romeu ao ver Julieta
olhando para ele da sacada.
O PESO DO TELHADO
Ainda que uma boa narrativa tenha de atribuir a mim um papel, e se estender
além de meu horizonte, ela não precisa ser verdadeira. Uma história pode ser
pura ficção e ainda assim prover-me de uma identidade e fazer-me sentir que
minha vida tem sentido. De fato, até onde vai nosso melhor entendimento
científico, nenhuma dos milhares de narrativas que diferentes culturas, religiões
e tribos inventaram ao longo da história é verdadeira. São todas apenas
invenções humanas. Se você perguntar qual é o verdadeiro sentido da vida e
obter como resposta uma narrativa, saiba que esta é a resposta errada. Os
detalhes precisos não têm importância. Toda história está errada, simplesmente
por ser uma história. O universo não funciona como uma história.
Assim, por que pessoas acreditam nessas ficções? Um motivo é que sua
identidade está construída com base em uma narrativa. As pessoas são ensinadas
a acreditar nessa narrativa desde a mais tenra infância. Elas a ouvem de seus pais,
seus professores, seus vizinhos e da cultura geral antes de terem desenvolvido a
independência intelectual e emocional necessária para questionar e verificar essas narrativas. Quando seu intelecto amadurece, estão tão pesadamente
imbuídas da narrativa que é muito mais provável que usem seu intelecto para
racionalizá-la do que para duvidar dela. A maioria das pessoas que vão em busca
de uma identidade são como crianças numa caça ao tesouro. Só descobrem o que
seus pais esconderam.
E, segundo, não somente nossas identidades pessoais como também nossas
instituições coletivas estão embutidas na narrativa. Consequentemente, é muito
assustador duvidar dela. Em muitas sociedades, quem tenta fazer isso é banido
ou perseguido. Mesmo se não, é preciso ter nervos fortes para questionar a
própria tessitura da sociedade. Porque se realmente a história for falsa, então
todo o mundo, como o conhecemos, não faz sentido. Leis do Estado, normas
sociais, instituições econômicas — tudo pode desmoronar.
A maior parte das narrativas é mantida junta pelo peso de seu telhado e não
pela solidez de suas fundações. Considere a narrativa cristã. Tem a mais frágil das
fundações. Que evidência temos de que o filho do Criador de todo o universo
nasceu na forma de uma vida à base de carbono, em algum lugar da Via Láctea
cerca de 2 mil anos atrás? Que evidência temos de que isso aconteceu na Galileia,
e que Sua mãe era virgem? No entanto, instituições enormes foram construídas
sobre essa narrativa, e seu peso pressiona com tamanha força que elas mantêm
essa história no lugar. Guerras inteiras foram travadas pela mudança de uma
única palavra na narrativa. O cisma de mil anos entre os cristãos ocidentais e os
cristãos ortodoxos do leste, que se manifestou recentemente na carnificina
mútua de croatas por sérvios e de sérvios por croatas, começou devido a uma
única palavra, filioque (“e do filho” em latim). Os cristãos do Ocidente queriam
introduzir essa palavra na profissão de fé cristã, enquanto os cristãos do Oriente
se opunham veementemente. (As implicações teológicas do acréscimo dessa
palavra são tão enigmáticas que seria impossível explicá-las aqui de algum modo
significativo. Se está curioso, pergunte ao Google.)
Quando identidades pessoais e sistemas sociais são construídos sobre uma
narrativa, torna-se impensável duvidar dela, não devido a uma evidência que a
sustenta, mas porque seu colapso desencadearia um cataclismo pessoal e social.
Na história, o telhado é às vezes mais importante que as fundações.
HOCUS POCUS E A INDÚSTRIA DA CRENÇA
As narrativas que nos proveem de sentido e identidade são todas ficcionais,
mas os humanos precisam acreditar nelas. Então como fazer que a narrativa
pareça real? É óbvio por que humanos querem acreditar na narrativa, mas como
vão efetivamente fazer isso? Já milhares de anos atrás sacerdotes e xamãs
acharam a resposta: rituais. Um ritual é um ato mágico que faz o abstrato virar
concreto e o ficcional, real. A essência do ritual é o feitiço mágico “Hocus pocus,
X é Y!”.5
Como fazer com que Cristo seja real para seus devotos? Na cerimônia da
missa, o padre toma um pedaço de pão e uma taça de vinho e proclama que o
pão é o corpo de Cristo, o vinho é o sangue de Cristo, e que ao comê-lo e bebê-lo
o fiel alcança a comunhão. O que poderia ser mais real do que provar Cristo em
sua boca? Tradicionalmente, o padre fazia essas ousadas proclamações em latim,
a antiga língua da religião, da lei e dos segredos da vida. Diante dos olhos
assombrados dos aldeões reunidos o padre erguia bem alto o pedaço de pão de
exclamava “Hoc est corpus” — Este é o corpo! — e o pão torna-se supostamente o
corpo de Cristo. Nas mentes de camponeses iletrados, que não falam latim, “Hoc
est corpus” se confundia com “hocus pocus”, e assim nasceu um poderoso feitiço
que pode transformar um sapo num príncipe e uma abóbora numa carruagem.6
Mil anos antes do nascimento do cristianismo, os antigos hindus valiam-se do
mesmo truque. O Brihadaranyaka Upanishad interpreta o sacrifício ritual de um
cavalo como uma realização de toda a história do cosmos. O texto segue a
estrutura do “Hocus pocus, X é Y!”, dizendo que: “A cabeça do cavalo sacrificial é
o alvorecer, seu olho é o sol, sua força vital o ar, sua boca aberta o fogo chamado
Vaisvanara e o corpo do cavalo sacrificial é o ano… seus membros são as
estações, suas articulações os meses e as quinzenas, seus pés os dias e as noites,
seus ossos as estrelas, e sua carne as nuvens… seu bocejo é relâmpago, o sacudir
de seu corpo é o trovão, sua urina é chuva e seu relincho é voz”.7 Assim um
cavalo se torna todo o cosmos.
Quase tudo pode ser transformado num ritual, ao se dar a gestos mundanos,
como acender velas, tocar um sino ou contar contas um profundo significado
religioso. O mesmo vale para gesticulações físicas, como curvar a cabeça, prostrar-se de corpo inteiro, ou juntar as mãos. Várias formas de cobrir a cabeça,
do turbante Sikh ao hijab muçulmano, têm sido tão carregadas de significado
que provocaram apaixonados embates durante séculos.
O alimento também pode ser carregado de sentido espiritual bem além de seu
valor nutricional, sejam ovos da Páscoa, que simbolizam uma nova vida e a
ressurreição de Cristo, ou as ervas amargas e o pão ázimo que os judeus têm de
comer no Pessach para relembrar seu tempo de escravidão no Egito e sua
miraculosa fuga. Quase não há um prato no mundo que não tenha sido
interpretado como símbolo de alguma coisa. Assim, no dia do Ano-Novo judaico
judeus religiosos comem mel para que o ano que começa seja doce, comem
cabeça de peixe para que sejam férteis como peixes e se movam para frente e não
para trás, e comem romãs para que suas boas ações se multipliquem como as
muitas sementes da romã.
Rituais semelhantes também têm sido usados para finalidades políticas.
Durante milhares de anos, coroas, tronos e cetros representaram reinos e
impérios inteiros, e milhões de pessoas morreram em guerras brutais travadas
pela posse do “trono” ou da “coroa”. As cortes reais cultivavam protocolos
extremamente elaborados, que correspondem às cerimônias religiosas mais
complicadas. Entre os militares, disciplina e ritual são inseparáveis, e os soldados,
da Roma antiga até o presente, passam horas sem conta marchando em
formação, saudando seus superiores e lustrando botas. Napoleão observou que
poderia fazer com que homens sacrificassem a vida por uma faixa de pano
colorida.
Talvez ninguém tenha entendido a importância política dos rituais melhor do
que Confúcio, que considerava a observância estrita de ritos (li) a chave da
harmonia social e da estabilidade política. Clássicos confucianos como O livro
dos ritos, Os ritos de Zhou e O livro de etiqueta e ritos registraram nos mínimos
detalhes qual rito deveria ser realizado em qual ocasião oficial, até o número de
vasos rituais usados na cerimônia, o tipo de instrumentos musicais que deveria
ser tocado e as cores das túnicas a serem vestidas. Sempre que a China era
atingida por alguma crise, os sábios confucianos eram rápidos em culpá-la por
negligenciar os ritos, como um primeiro-sargento que atribui a culpa de uma
derrota militar a soldados negligentes que não lustraram suas botas.8
No Ocidente moderno, a obsessão confuciana com rituais foi vista quase
sempre como sinal de superficialidade e arcaísmo. Na verdade, isso
provavelmente atesta a profunda e intemporal apreciação que Confúcio tinha
pela natureza humana. Talvez não seja coincidência que as culturas confucianas
— primeiro e principalmente na China, mas também nos vizinhos Coreia,
Vietnã e Japão — produziram estruturas sociais e políticas de longa duração. Se
você quer saber qual é a verdade definitiva da vida, os ritos e os rituais são um
grande obstáculo. Mas, se está interessado — como Confúcio — em estabilidade
e harmonia social, a verdade é frequentemente um risco, enquanto os ritos e
rituais estão entre seus melhores aliados.
Isso é tão relevante no século XXI quanto era na antiga China. O poder do
Hocus pocus está vivo e bem de saúde em nosso moderno mundo industrial. Para
muitas pessoas, em 2018, dois pedaços de madeira pregados um no outro são
Deus, um pôster colorido na parede é a Revolução, e um pedaço de pano
drapejando ao vento é a Nação. Você não consegue ver ou ouvir a França,
porque ela só existe em sua imaginação, mas certamente pode ver a bandeira
tricolor e ouvir A Marselhesa. Assim, ao agitar uma bandeira colorida e ao cantar
um hino você transforma uma narrativa abstrata numa realidade tangível.
Milhares de anos atrás hindus devotos sacrificavam cavalos preciosos — hoje
eles investem em produzir dispendiosas bandeiras. A bandeira nacional da Índia
é conhecida como Tiranga (literalmente, tricolor), porque consiste em três faixas
com as cores açafrão, branco e verde. O Código da Bandeira da Índia de 2002
proclama que ela “representa as esperanças e aspirações do povo da Índia. É o
símbolo de nosso orgulho nacional. Durante as últimas cinco décadas, várias
pessoas, inclusive membros das Forças Armadas, deram a vida para manter a
tricolor voando em toda a sua glória”.9 O Código da Bandeira cita Sarvepalli
Radhakrishnan, o segundo presidente da Índia, que explicou:
A cor açafrão denota renúncia, ou desinteresse. Nossos líderes têm de ser indiferentes a ganhos
materiais e dedicar-se a seu trabalho. O branco no centro é luz, o caminho da verdade para guiar nossa
conduta. O verde mostra nossa relação com o solo, nossa relação com a vida das plantas aqui, da qual
depende qualquer outra vida. A roda de Asoka no centro do branco é a roda da lei do darma. Verdade
ou Satya, darma ou virtude têm de ser os princípios que controlam todos que trabalham sob esta
bandeira.10
Em 2017 o governo nacionalista da Índia hasteou uma das maiores bandeiras do mundo em Attari, na fronteira indo-paquistanesa, num gesto calculado para
inspirar não renúncia, nem desinteresse, e sim a inveja paquistanesa. Aquela
Tiranga específica tinha 36 metros de comprimento e 24 de largura, e foi
hasteada num mastro de 110 metros de altura (o que diria Freud sobre isso?). A
bandeira podia ser vista de Lahore, uma metrópole paquistanesa. Infelizmente,
fortes ventos rasgavam a bandeira, e o orgulho nacional exigiu que se a
costurasse vezes e vezes seguidas, com grande custo para os contribuintes
indianos.11 Por que o governo indiano investiu recursos escassos para tecer
bandeiras enormes em vez de construir sistemas de esgoto nas favelas de Delhi?
Porque a bandeira faz a Índia real de uma maneira que os sistemas de esgoto não
fazem.
De fato, o próprio custo da bandeira torna o ritual mais eficaz. De todos os
rituais, o sacrifício é o mais potente, porque de todas as coisas do mundo, o
sofrimento é o mais real. Você nunca consegue ignorá-lo ou duvidar dele. Se
você quer fazer com que as pessoas realmente acreditem em alguma ficção,
seduza-as a fazer um sacrifício por ela. Se você sofrer por uma história,
normalmente isso é suficiente para convencê-lo de que a história é real. Se você
jejua porque Deus lhe ordenou que faça isso, a tangível sensação de fome, mais
do que qualquer estátua ou ícone, faz com que Deus esteja presente. Se você
perder as pernas numa guerra patriótica, seus cotos e a cadeira de rodas tornam a
nação mais real do que qualquer poema ou hino. Ou, num nível menos
grandioso, ao preferir comprar uma massa local inferior a uma massa de alta
qualidade importada da Itália, você pode estar fazendo um pequeno sacrifício
diário que faz a nação parecer real até no supermercado.
É claro que isso é uma falácia lógica. Se você sofrer por causa de sua crença em
Deus ou na nação, isso não prova que suas crenças são verdadeiras. Quem sabe
você só esteja pagando o preço de sua credulidade? Contudo, a maioria das
pessoas não gosta de admitir que são tolas. Consequentemente, quanto mais
sacrifícios fazem por uma determinada crença, mais forte é sua fé. Essa é a
misteriosa alquimia do sacrifício. Para nos trazer ao âmbito de seu poder, o
sacerdote que faz o sacrifício não precisa nos dar nada — nem chuva, nem
dinheiro, nem vitória na guerra. O que ele precisa fazer é tirar alguma coisa. Uma
vez tendo nos convencido a fazer algum sacrifício doloroso, estamos presos na armadilha.
Isso funciona no mundo comercial também. Se você compra um Fiat usado
por 2 mil dólares, é provável que você vá reclamar dele a quem quiser ouvir. Mas,
se comprar uma Ferrari novinha por 200 mil, vai entoar loas em alto e bom som,
não porque seja um carro tão bom, mas porque pagou uma fortuna por ele e tem
de acreditar que é a coisa mais maravilhosa do universo. Até mesmo no romance,
todo aquele que aspira a ser um Romeu ou um Werther sabe que sem sacrifício
não existe amor verdadeiro. O sacrifício não é apenas um modo de convencer a
pessoa amada de que seu amor é sério — mas um meio de convencer a si mesmo
de que está realmente apaixonado. Por que você acha que mulheres pedem a seus
ou suas amantes que lhes deem anéis de diamante? Uma vez o/a amante tendo
feito tal sacrifício financeiro, terá de convencer a si mesmo de que foi por uma
causa digna.
O autossacrifício é extremamente convincente não apenas para os próprios
mártires, mas também para os espectadores. Poucos deuses, nações ou
revoluções são capazes de se sustentar sem mártires. Se você ousar questionar o
drama divino, o mito nacionalista ou a saga revolucionária, será imediatamente
repreendido: “Mas e os abençoados mártires morreram por isso! Você ousa dizer
que eles morreram por nada? Você acha que esses heróis foram tolos?”.
Para muçulmanos xiitas o drama do cosmos atingiu seu momento de clímax
no dia da Ashura, que foi o décimo dia do mês de muarrã, 61 anos após a hégira
(10 de outubro de 680, segundo o calendário cristão). Nesse dia, em Karbala, no
Iraque, soldados do vil usurpador Yazid massacraram Hussein ibn Ali, neto do
profeta Maomé, juntamente com um pequeno grupo de seguidores. Para os
xiitas, o martírio de Hussein veio simbolizar a eterna luta do bem contra o mal e
a dos oprimidos contra a injustiça. Assim como os cristãos reencenam
repetidamente a crucificação e representam a paixão de Cristo, os xiitas
reencenam o drama da Ashura e representam a paixão de Hussein. Milhões de
xiitas juntam-se todos os anos numa peregrinação ao santuário de Karbala,
estabelecido no local em que Hussein foi martirizado, e no dia da Ashura os
xiitas em todo o mundo realizam rituais matinais, em alguns casos flagelando-se
e se cortando com facas e correntes.
Mas a importância da Ashura não se limita a um lugar e um dia. O aiatolá Ruhollah Khomeini e numerosos outros líderes xiitas dizem repetidamente a
seus seguidores que “todo dia é Ashura e todo lugar é Karbala”.12 O martírio de
Hussein em Karbala empresta, assim, significado a todo evento, em qualquer
lugar, a qualquer hora, e até mesmo as decisões mais mundanas devem ser
consideradas como tendo impacto na grande luta cósmica entre o bem e o mal.
Se você ousar duvidar dessa narrativa imediatamente vão lembrá-lo de Karbala
— e duvidar ou zombar do martírio de Hussein é um dos piores delitos que você
pode cometer.
Por outro lado, se mártires são escassos e as pessoas não estão dispostas a se
sacrificar, os sacerdotes sacrificadores podem cooptá-los para que sacrifiquem
outros em vez deles. Você pode sacrificar um humano para um vingativo deus
Baal, queimar um herege na estaca para maior glória de Jesus Cristo, executar
mulheres adúlteras porque assim disse Alá, ou enviar inimigos da classe para o
gulag. Feito isso, uma alquimia do sacrifício ligeiramente diferente começa a
exercer sua mágica em você. Quando você inflige sofrimento a si mesmo em
nome da alguma narrativa, isso lhe dá uma escolha: “Ou a narrativa é verdadeira
ou eu sou crédulo e tolo”. Quando você inflige sofrimento a outros, você também
tem uma escolha: “Ou a narrativa é verdadeira ou sou um vilão cruel”. E, assim
como não queremos admitir que somos tolos, tampouco queremos admitir que
somos vilões, preferimos acreditar que a narrativa é verdadeira.
Em março de 1839, na cidade iraniana de Mashhad, disseram a uma mulher
judia que padecia de uma doença de pele que se ela matasse um cão e lavasse a
mão com seu sangue, ficaria curada. Mashhad é uma cidade santa xiita, e
aconteceu que a mulher realizou essa sinistra terapia no dia da Ashura. Foi
observada por alguns xiitas, que acreditam — ou alegaram ter acreditado — que
a mulher matou o cão como zombaria ao martírio de Karbala. A notícia desse
impensável sacrilégio espalhou-se rapidamente pelas ruas de Mashhad. Instigada
por um imã local, uma irada multidão entrou no bairro judeu, incendiou a
sinagoga e assassinou 36 judeus ali mesmo. A todos os judeus sobreviventes de
Mashhad foi oferecida uma dura escolha: converter-se imediatamente ao Islã ou
ser morto. O sórdido episódio não chegou a prejudicar a reputação de Mashhad
como a “capital espiritual do Irã”.13
Quando pensamos em sacrifício humano geralmente temos em mente rituais horríveis em templos canaanitas ou astecas, e é comum alegar que o monoteísmo
deu fim a essa terrível prática. Na verdade, os monoteístas praticavam o sacrifício
humano em escala muito maior que a maioria dos cultos politeístas. O
cristianismo e o Islã mataram muito mais gente em nome de Deus que os
seguidores de Baal ou Huitzilopochtli. Ao mesmo tempo que os conquistadores
espanhóis davam fim a todos os sacrifícios humanos aos deuses astecas e incas,
em casa, na Espanha, a Inquisição queimava hereges aos montes.
Sacrifícios podem vir em todos os formatos e tamanhos. Nem sempre
envolvem sacerdotes empunhando facas ou pogroms sangrentos. O judaísmo,
por exemplo, proíbe que se trabalhe ou viaje no dia sagrado do Shabat (o
significado literal da palavra shabat é “ficar imóvel” ou “descansar”). O Shabat
começa ao pôr do sol na sexta-feira, e vai até o pôr do sol no sábado, e entre os
dois os judeus ortodoxos não fazem nenhum tipo de trabalho, inclusive o de
rasgar papel higiênico do rolo, no banheiro. (Tem havido alguma discussão sobre
isso entre os rabinos mais instruídos, e eles concluíram que rasgar papel
higiênico romperia o tabu do Shabat, e consequentemente os judeus mais
devotos que quiserem se limpar no Shabat têm de preparar antecipadamente um
esconderijo com papel higiênico já rasgado.)14
Em Israel, judeus religiosos tentam frequentemente obrigar judeus seculares, e
até mesmo ateus, a seguir esses tabus. Como os partidos ortodoxos geralmente
são o fiel da balança na política israelense, no decorrer dos anos eles conseguiram
aprovar leis que banem todo tipo de atividade no Shabat. Embora não tenham
conseguido banir o uso de veículos privados no Shabat, conseguiram banir o
transporte público. O sacrifício religioso em âmbito nacional atinge
principalmente os setores mais fracos da sociedade, especialmente porque
sábado é o único dia na semana em que pessoas da classe trabalhadora estão
livres para viajar e visitar parentes distantes, amigos e atrações turísticas. Uma
avó rica não terá problema, vai dirigir seu carro novinho para visitar seus netos
em outra cidade, mas uma avó pobre não terá como fazer isso, porque não há
ônibus ou trens.
Ao impor essas dificuldades a centenas de milhares de cidadãos, os partidos
religiosos comprovam e consolidam sua inabalável fé no judaísmo. Embora
nenhum sangue seja derramado, o bem-estar de muita gente está ainda assim sendo sacrificado. Se o judaísmo é apenas uma narrativa ficcional, então é algo
cruel e impiedoso impedir uma avó de visitar seus netos ou impedir um
estudante pobre de procurar alguma diversão na praia. Ao, apesar disso, agir
assim, os partidos religiosos estão dizendo ao mundo — e a si mesmos — que
realmente acreditam nessa narrativa judaica. Afinal, você acha que eles têm
prazer em prejudicar pessoas sem motivo algum?
O sacrifício não apenas fortalece sua fé na narrativa, mas muitas vezes é um
substituto de todas as suas outras obrigações para com ela. A maior parte das
grandes histórias do gênero humano estabeleceu ideais que a maioria das pessoas
não é capaz de realizar. Quantos são os cristãos que realmente cumprem os Dez
Mandamentos ao pé da letra, e nunca mentem ou cobiçam? Quantos budistas
atingiram até agora o estágio de ausência de ego? Quantos socialistas trabalham
com sua máxima capacidade sem receber mais do que realmente necessitam?
Incapazes de corresponder ao ideal, as pessoas voltam-se para o sacrifício
como uma solução. Um hindu pode fraudar seus impostos, sair com uma
prostituta de vez em quando e tratar mal seus pais idosos, mas depois convence a
si mesmo de que é uma pessoa muito piedosa, porque apoia a destruição da
mesquita Babri em Ayodhya e até doa dinheiro para a construção de um templo
hindu em seu lugar. Assim como na antiguidade, também no século XXI a busca
humana por sentido acaba frequentemente numa sucessão de sacrifícios.
O PORTFÓLIO DA IDENTIDADE
Os antigos egípcios, canaanitas e gregos diversificavam seus sacrifícios. Eles
tinham muitos deuses, e, se um deles falhasse, esperavam que outro ainda lhes
valesse. Assim, sacrificavam ao sol pela manhã, à deusa da terra ao meio-dia e a
um grupo misto de fadas e demônios à noite. Isso tampouco mudou muito.
Todas as histórias de deuses em que as pessoas hoje acreditam — seja Iahweh,
Mamon, a Nação ou a Revolução — estão incompletas, cheias de buracos e
eivadas de contradições. Por isso as pessoas raramente depositam toda sua fé
numa única narrativa. Em vez disso, mantêm um portfólio com várias narrativas
e diversas identidades, passando de uma para outra quando surge necessidade.
Essas dissonâncias cognitivas são inerentes a quase todas as sociedades e movimentos.
Considere um típico adepto do Tea Party que de algum modo concilia isso
com uma fé ardente em Jesus Cristo, com uma firme objeção a políticas de bem-
estar social do governo e um firme apoio à National Rifle Association. Jesus não
foi mais incisivo quanto a ajudar os pobres do que quanto a armar você até os
dentes? Isso pode parecer incompatível, mas o cérebro humano tem muitos
nichos e compartimentos, e alguns neurônios simplesmente não falam com
outros. Da mesma forma, você é capaz de encontrar muitos apoiadores de Bernie
Sanders que têm uma vaga crença numa futura revolução, ao mesmo tempo que
acreditam também na importância de investir sensatamente seu dinheiro. Eles
são capazes de passar com facilidade de uma discussão sobre a distribuição
injusta de riqueza no mundo para uma discussão sobre o desempenho de seus
investimentos em Wall Street.
Quase ninguém tem apenas uma identidade. Ninguém é só um muçulmano,
ou só um italiano, ou só um capitalista. Mas de vez em quando surge um credo
fanático e insiste que as pessoas deveriam acreditar em apenas uma única
narrativa e ter somente uma identidade. Nas gerações recentes o mais fanático
desses credos foi o fascismo. O fascismo insistia que as pessoas não deveriam
acreditar em nenhuma narrativa a não ser a nacionalista, e não deveriam ter
nenhuma identidade, exceto sua identidade nacional. Nem todos os nacionalistas
são fascistas. A maioria dos nacionalistas têm uma grande fé na história de sua
nação e enfatizam o mérito exclusivo de sua nação e as obrigações que têm
exclusivamente para com ela — no entanto reconhecem que no mundo há mais
do que sua nação. Posso ser um italiano leal com obrigações especiais para com a
nação italiana, e ainda assim ter outras identidades. Posso ser também socialista,
católico, marido, pai, cientista e vegetariano, e cada uma dessas identidades
envolve obrigações adicionais. Às vezes várias de minhas identidades puxam-me
para diferentes direções, e algumas de minhas obrigações entram em conflito
uma com a outra. Mas quem disse que a vida é fácil?
Fascismo é aquilo que acontece quando o nacionalismo quer tornar a vida
fácil demais para ele, negando todas as outras identidades e obrigações.
Recentemente tem havido muita confusão quanto ao significado exato de
fascismo. Pessoas chamam quase todas as pessoas das quais não gostam de “fascistas”. O termo corre o risco de degenerar num insulto genérico. Então, o
que ele realmente significa? Em resumo, enquanto o nacionalismo me ensina que
minha nação é uma só e que tenho obrigações especiais em relação a ela, o
fascismo diz que minha nação é suprema, e que devo a ela obrigações exclusivas.
Nunca devo preferir os interesses de qualquer grupo ou indivíduo aos interesses
de minha nação, não importam quais sejam as circunstâncias. Mesmo que minha
nação se disponha a obter uma vantagem insignificante ao infligir muita miséria
sobre milhões de estrangeiros numa terra distante não devo ter escrúpulos em
apoiar minha nação. De outro modo, sou um traidor desprezível. Se minha
nação exigir que eu mate milhões de pessoas — devo matar milhões de pessoas.
Se minha nação exigir que eu traia a verdade e a beleza — devo trair a verdade e a
beleza.
Como um fascista avalia a arte? Como um fascista sabe se um filme é bom? É
muito simples. Só existe um parâmetro. Se o filme atende aos interesses
nacionais — é um bom filme. Se não atende aos interesses nacionais — é um
filme ruim. E como um fascista decide o que se deve ensinar às crianças na
escola? Ele emprega o mesmo parâmetro. Ensinar às crianças tudo o que atenda
aos interesses da nação; a verdade não tem importância.15
O culto à nação é extremamente atraente, não só porque simplifica muitos
dilemas difíceis, mas também porque faz as pessoas pensarem que pertencem à
coisa mais importante e mais bela no mundo — sua nação. Os horrores da
Segunda Guerra Mundial e o Holocausto mostram as terríveis consequências
dessa linha de pensamento. Infelizmente, quando pessoas falam sobre os males
do fascismo, elas muitas vezes fazem um trabalho ruim, porque tendem a
descrever o fascismo como um monstro oculto, sem explicar o que é tão sedutor
nele. Por isso, hoje em dia, as pessoas às vezes adotam ideias fascistas sem se dar
conta disso. Elas pensam: “Ensinaram-me que o fascismo é feio, e quando olho
no espelho vejo algo muito bonito, então não posso ser um fascista”.
É um pouco como o erro cometido por filmes de Hollywood ao apresentar os
vilões — Voldemort, lorde Sauron, Darth Vader — como homens feios.
Geralmente são cruéis e detestáveis, mesmo para seus mais leais apoiadores. O
que nunca entendi quando assistia a esses filmes é como alguém poderia ser
tentado a seguir um canalha nojento como Voldemort?
O problema com o mal é que, na vida real, ele não é necessariamente feio.
Pode ser muito bonito na aparência. O cristianismo sabia disso melhor do que
Hollywood, por isso a arte cristã tradicional tendia a representar o diabo como
um galã. Por isso é tão difícil resistir às suas tentações. É por isso que também é
difícil lidar com o fascismo. Quando você olha o espelho fascista, o que vê lá não
é feio. Quando os alemães olhavam o espelho fascista na década de 1930 eles
viam a Alemanha como a coisa mais bonita no mundo. Se os russos olharem hoje
o espelho fascista, verão a Rússia como a coisa mais bonita do mundo. E se
israelenses olharem o espelho fascista, verão Israel como a coisa mais bonita no
mundo. Eles vão querer se perder dentro desse lindo coletivo.
A palavra “fascismo” vem do latim fascis, que significa “feixe de varas”. Isso
soa como um símbolo sem nenhum glamour para uma das mais ferozes e
mortais ideologias na história do mundo. Mas ele tem um significado profundo e
sinistro. Uma vara isolada é muito fraca, e você pode facilmente quebrá-la em
dois. No entanto, quando você junta muitas varas num fascis, é quase impossível
quebrá-las. Isso implica que um indivíduo é uma coisa irrelevante, mas enquanto
o coletivo estiver unido ele será muito poderoso.16 Portanto, os fascistas
acreditam no ato de privilegiar os interesses do coletivo aos de qualquer
indivíduo, e exigem que nenhuma vara isolada ouse quebrar a unidade do feixe.
É óbvio que nunca está claro onde um “feixe de varas” humano termina e
outro começa. Por que deveria eu ver a Itália como o feixe de varas ao qual
pertenço? Por que não minha família, ou a cidade de Florença, ou a província da
Toscana, ou o continente da Europa, ou a espécie humana inteira? As formas
mais amenas de nacionalismo vão me dizer que posso ter obrigações com minha
família, Florença, Europa e todo o gênero humano, assim como com a Itália. Em
contraste, fascistas italianos vão exigir lealdade absoluta à Itália somente.
Apesar dos melhores esforços de Mussolini e seu partido fascista, a maioria
dos italianos permaneceu bem morna ante a ideia de pôr a Itália à frente de sua
famiglia. Na Alemanha a máquina de propaganda nazista fez um trabalho muito
mais meticuloso, mas nem mesmo Hitler conseguiu que o povo esquecesse todas
as narrativas alternativas. Até nos dias mais sombrios da era nazista, as pessoas
mantinham algumas narrativas alternativas, em acréscimo à história oficial. Isso
ficou patente em 1945. Poder-se-ia pensar que, após doze anos de lavagem cerebral nazista, muitos alemães seriam totalmente incapazes de encontrar algum
sentido em suas vidas no pós-guerra. Tendo depositado toda a sua fé numa única
e grande narrativa, o que fazer quando essa narrativa se desfez? Mas a maioria
dos alemães recuperou-se com incrível velocidade. Em algum lugar de suas
mentes tinham mantido outras narrativas sobre o mundo, e Hitler mal havia
disparado uma bala na cabeça e pessoas em Berlim, Hamburgo e Munique já se
adaptavam a novas identidades e encontravam novos significados para suas
vidas.
É verdade que 20% dos gauleiters nazistas — os líderes regionais do partido —
cometeram suicídio, assim como 10% dos generais.17 Mas isso significa que 80%
dos gauleiters e 90% dos generais estavam felizes de estar vivos. A vasta maioria
dos nazistas de carteirinha e até mesmo os soldados da SS nem enlouqueceram
nem se mataram. Continuaram a ser agricultores, professores, médicos e
corretores de seguro produtivos.
Na verdade, mesmo o suicídio não prova ter havido um comprometimento
absoluto com uma única narrativa. Em 13 de novembro de 2015, o Estado
Islâmico orquestrou vários ataques suicidas em Paris, que mataram 130 pessoas.
O grupo extremista explicou que fez isso como vingança pelo bombardeio a
ativistas do Estado Islâmico na Síria e no Iraque pela Força Aérea francesa, na
esperança de demover a França de realizar esses ataques no futuro.18 No mesmo
alento, o Estado Islâmico declarou também que todos os muçulmanos mortos
pela Força Aérea francesa eram mártires, que agora usufruíam da felicidade
eterna no céu.
Alguma coisa aqui não faz sentido. Se de fato os mártires mortos pela Força
Aérea francesa estão agora no céu, por que deveria alguém buscar vingança em
Paris? Vingança pelo quê, exatamente? Por mandar pessoas para o céu? Se você
acabasse de ouvir que seu querido irmão ganhou 1 milhão de dólares na loteria,
você começaria a explodir casas lotéricas como vingança? Então por que ir
praticar violência em Paris só porque a Força Aérea francesa deu a alguns de seus
irmãos um bilhete só de ida para o paraíso? Seria ainda pior se você de fato
conseguisse demover a França de realizar mais bombardeios na Síria. Pois neste
caso poucos muçulmanos iriam para o céu.
Podemos ficar propensos a concluir que os ativistas do Estado Islâmico na verdade não acreditam que mártires vão para o céu. Por isso ficam furiosos
quando são bombardeados e mortos. Mas se assim é, por que alguns deles vestem
cinturões explosivos e voluntariamente se explodem? Muito provavelmente, a
resposta é que eles se agarram a duas narrativas contraditórias, sem pensar muito
nas inconsistências. Como já observado, alguns neurônios simplesmente não
estão falando uns com os outros.
Oito séculos antes de a Força Aérea francesa bombardear as fortificações do
Estado Islâmico na Síria e no Iraque, outro Exército francês invadia o Oriente
Médio, no que ficou conhecido para a posteridade como “a Sétima Cruzada”.
Liderados pelo rei santo Luís IX, os cruzados esperavam conquistar o vale do Nilo
e transformar o Egito num baluarte cristão. No entanto, foram derrotados na
batalha de El Mansoura, e a maior parte dos cruzados foi feita prisioneira. Um
cavaleiro cruzado, Jean de Joinville, escreveu depois em suas memórias que
quando a batalha estava perdida e eles resolveram se render, um de seus homens
disse: “Não posso concordar com essa decisão. Meu conselho é que deveríamos
todos nos deixar matar, pois assim iremos para o paraíso”. Joinville comenta
secamente que “nenhum de nós seguiu seu conselho”.19
Joinville não explica por que se recusaram. Afinal, eram homens que tinham
deixado seus confortáveis castelos na França por uma longa e perigosa aventura
no Oriente Médio em grande parte porque acreditavam na promessa de salvação
eterna. Por que, então, quando estavam a um momento da perene felicidade do
paraíso, preferiram o cativeiro muçulmano em vez disso? Aparentemente,
embora os cruzados acreditassem na salvação e no paraíso, no momento da
verdade optaram por reconsiderar suas apostas.
O SUPERMERCADO EM ELSINORE
Ao longo da história, quase todos os humanos acreditaram em diversas
narrativas ao mesmo tempo, e nunca estavam absolutamente convencidos da
verdade de qualquer uma delas. Essa incerteza incomodava a maioria das
religiões, que por isso consideravam a fé uma virtude cardinal e que a dúvida
estava entre os piores pecados possíveis. Como se houvesse algo intrinsecamente
bom em acreditar em coisas sem evidência. Com a ascensão da cultura moderna, no entanto, a mesa foi virada. A fé parecia cada vez mais uma escravidão mental,
enquanto a dúvida passou a ser vista como uma pré-condição para a liberdade.
Em algum momento entre 1599 e 1602, William Shakespeare escreveu sua
versão de O rei leão, mais conhecida como Hamlet. Porém, diferentemente de
Simba, Hamlet não completa o Ciclo da Vida. Ele permanece cético e
ambivalente até o fim, sem descobrir o sentido da existência nem resolver em sua
mente se é melhor ser ou não ser. Nisso, Hamlet é o paradigma do herói
moderno. A modernidade não rejeita a pletora de narrativas que ela herda do
passado. E sim, abre um supermercado para elas. O humano moderno está livre
para experimentá-las todas, escolhendo e combinando a seu gosto.
Algumas pessoas não aguentam tanta liberdade e incerteza. Os movimentos
totalitários modernos, como o fascismo, reagiram violentamente contra o
supermercado de ideias duvidosas, e superaram até mesmo religiões tradicionais
na exigência de fé absoluta numa única narrativa. A maioria das pessoas
modernas, no entanto, começou a gostar do supermercado. O que você faz
quando não sabe qual o sentido da vida nem em qual narrativa acreditar? Você
santifica a própria capacidade para escolher. Você está para sempre no corredor
do supermercado, com a liberdade de escolher o que quiser, examinando os
produtos que tem diante de si, e… congela este quadro, corte, fim. Créditos
finais.
Segundo a mitologia liberal, se você ficar por bastante tempo nesse grande
supermercado, cedo ou tarde vai vivenciar a epifania liberal e se dará conta do
verdadeiro significado da vida. Todas as histórias nas prateleiras do
supermercado são falsas. O significado da vida não é um produto que já vem
pronto para uso. Não há um roteiro divino, e nada que está fora de mim pode
emprestar significado a minha vida. Sou eu quem imbuo significado em tudo
mediante minhas livres escolhas e meus próprios sentimentos.
No filme de fantasia Willow — um típico conto de fadas dirigido por George
Lucas — o herói epônimo é um anão comum que sonha em se tornar um grande
feiticeiro e dominar os segredos da existência. Um dia, um desses feiticeiros
passa pelo vilarejo do anão à procura de um aprendiz. Willow e dois outros
esperançosos anões se apresentam, e o feiticeiro passa aos candidatos um teste
simples. Ele estende a mão direita, abre os dedos e numa voz tipo Yoda pergunta: “Em que dedo está o poder para controlar o mundo?”. Cada um dos três anões
pega um dedo — mas um dedo errado. Não obstante, o feiticeiro nota algo em
Willow, e mais tarde pergunta-lhe: “Quando eu mostrei os dedos, qual foi seu
primeiro impulso?”. “Bem, foi algo bem idiota”, diz Willow embaraçado, “pegar
meu próprio dedo.” “Aha!”, exclama o feiticeiro, triunfante, “esta era a resposta
correta! Vocês não tiveram confiança em vocês mesmos.” A mitologia liberal
nunca se cansa de repetir esta lição.
Foram nossos próprios dedos que escreveram a Bíblia, o Corão e os Vedas, e
são nossas mentes que conferem poder a essas narrativas. Sem dúvida são belas
histórias, mas sua beleza está nos olhos de quem as contempla. Jerusalém, Meca,
Varanasi e Bodh Gaya são lugares santos, mas somente devido aos sentimentos
que os humanos experimentam quando vão até eles. Em si mesmo, o universo é
apenas uma miscelânea de átomos. Nada é bonito, sagrado ou sexy — mas os
sentimentos humanos fazem com que seja. São apenas os sentimentos humanos
que fazem com que uma maçã vermelha seja sedutora, e um cocô, nojento. Retire
os sentimentos humanos, e você fica com um bando de moléculas.
Esperamos encontrar um significado nos encaixando em alguma narrativa
pré-fabricada sobre o universo, mas, segundo a interpretação liberal do mundo, a
verdade é exatamente o oposto. O universo não me fornece um sentido. Eu dou
um sentido ao universo. Esta é minha vocação cósmica. Não tenho um destino
ou darma pré-fixado. Se estiver no lugar de Simba ou de Arjuna, poderei optar
por lutar pela coroa de um reino, mas não sou obrigado a isso. Da mesma forma
posso me juntar a um circo ambulante, ir cantar num musical da Broadway ou
me mudar para o Vale do Silício e começar uma empresa. Estou livre para criar
meu próprio darma.
Assim, como todas as outras narrativas cósmicas, a narrativa liberal também
começa com uma narrativa de criação. Ela diz que a criação ocorre a todo
momento, e que eu sou o criador. Qual é então o objetivo de minha vida? Criar
sentido sentindo, pensando, desejando e inventando. Qualquer coisa que limite a
liberdade humana de sentir, pensar, desejar e inventar está limitando o sentido
do universo. Por isso, a libertação dessas limitações é o ideal supremo.
Em termos práticos, os que acreditam na narrativa liberal vivem sob a luz de
dois mandamentos: criar e lutar pela liberdade. A criatividade pode se manifestar na escrita de um poema, na exploração da sexualidade, na invenção de um novo
aplicativo, ou na descoberta de uma substância química até então desconhecida.
A luta pela liberdade inclui tudo o que liberte as pessoas de repressões sociais,
biológicas e físicas, seja fazendo demonstrações contra ditadores brutais,
ensinando meninas a ler, descobrindo uma cura para o câncer ou construindo
uma nave espacial. O panteão liberal de heróis abriga Rosa Parks e Pablo Picasso,
ao lado de Pasteur e os irmãos Wright.
Em teoria, isto soa excitante e profundo. Infelizmente, a liberdade e a
criatividade humanas não são o que a narrativa liberal imagina. Até onde vai
nosso entendimento científico, não existe mágica por trás de nossas escolhas e
criações. Elas são produto de bilhões de neurônios que trocam entre si sinais
bioquímicos, e, mesmo que você libere humanos do jugo da Igreja católica e da
União Soviética, suas escolhas ainda serão ditadas por algoritmos bioquímicos
tão implacáveis quanto a Inquisição e a KGB.
A narrativa liberal me instrui a buscar a liberdade de me expressar e me
realizar. Mas tanto o “eu” quanto a liberdade são quimeras mitológicas tomadas
dos contos de fadas dos tempos antigos. O liberalismo tem uma noção
particularmente confusa do “livre-arbítrio”. Humanos, obviamente, têm um
arbítrio, têm vontades, e às vezes estão livres para realizar seus desejos. Se por
“livre-arbítrio” você entende a liberdade de fazer o que desejar — então, sim,
humanos têm livre-arbítrio. Mas se por “livre-arbítrio” você entende a liberdade
de escolher o que desejar — então não, humanos não têm livre-arbítrio.
Se eu sinto atração sexual por homens, posso estar livre para realizar minhas
fantasias, mas não estou livre para sentir atração por mulheres. Em alguns casos,
posso decidir reprimir meus desejos sexuais ou até mesmo tentar uma terapia de
“conversão sexual”, mas o desejo mesmo de mudar minha orientação sexual é
algo forçado em mim por meus neurônios, talvez instigados por meus vieses
culturais e religiosos. Por que uma pessoa se sentiria envergonhada de sua
sexualidade e se esforçaria por alterá-la, enquanto outra pessoa celebra os
mesmos desejos sexuais sem nenhum sinal de culpa? Você poderia dizer que o
primeiro talvez tenha sentimentos religiosos mais fortes do que o segundo. Mas
as pessoas escolhem livremente ter sentimentos religiosos fortes ou fracos? Da
mesma forma, uma pessoa pode decidir ir à igreja todo domingo, num esforço consciente para fortalecer seus fracos sentimentos religiosos — mas por que uma
aspira a ser mais religiosa, enquanto outra está perfeitamente satisfeita por
permanecer ateia? Isso pode resultar de quaisquer disposições culturais e
genéticas, mas nunca é resultado de um “livre-arbítrio”.
O que vale para o desejo sexual, vale para todos os desejos, na verdade para
todos os sentimentos e pensamentos. Considere o próximo pensamento que
surgir em sua mente. De onde ele vem? Você escolheu livremente pensar isso, e
só depois pensou? Certamente não. O processo de autoexploração começa com
coisas simples, e torna-se progressivamente mais difícil. Primeiro, constatamos
que não controlamos o mundo exterior. Eu não decido quando chove. Depois
constatamos que não controlamos o que está acontecendo dentro de nosso
próprio corpo. Eu não controlo minha pressão arterial. Depois, compreendemos
que não controlamos nem mesmo nosso cérebro. Eu não disparo meus
neurônios. Por fim, nos damos conta de que não controlamos nossos desejos, ou
mesmo nossas reações a esses desejos.
Constatar isso pode nos ajudar a ser menos obsessivos quanto a nossas
opiniões, sentimentos e desejos. Não temos livre-arbítrio, mas podemos ficar um
pouco mais livres da tirania de nossa vontade. Humanos normalmente dão tanta
importância a seus desejos que tentam controlar e moldar o mundo inteiro de
acordo com esses desejos. Em busca da realização desses desejos, humanos voam
até a Lua, travam guerras mundiais e desestabilizam o ecossistema. Se
entendermos que nossos desejos não são manifestações mágicas de livre escolha,
e sim o produto de processos bioquímicos (influenciados por fatores culturais
que também estão fora de nosso controle), poderemos nos preocupar menos
com eles. É melhor compreender a nós mesmos, nossa mente e nossos desejos
que realizar qualquer fantasia que pipoque em nossa cabeça.
E, para entender a nós mesmos, um passo crucial é reconhecer que o eu é uma
narrativa ficcional que os intricados mecanismos de nossa mente estão o tempo
inteiro fabricando, atualizando e reescrevendo. Em minha mente existe um
contador de histórias que explica quem eu sou, de onde venho, para onde vou e o
que está acontecendo agora. Assim como porta-vozes que dão sua versão
distorcida das últimas turbulências políticas, o narrador interior repetidamente
entende as coisas errado, mas raramente, se é que alguma vez, o admite. E assim como o governo constrói mitos nacionais com bandeiras, ícones e paradas,
minha máquina de propaganda interna constrói um mito pessoal com memórias
valorizadas e traumas de estimação que quase nunca se parecem com a verdade.
Na era do Facebook e do Instagram pode-se observar esse processo de
construção de mitos mais claramente que nunca, porque parte dele foi
terceirizado da mente para o computador. É fascinante e assustador contemplar
pessoas que passam incontáveis horas on-line construindo e embelezando um eu
perfeito, agarrados a sua própria criação e tomando-a erroneamente como a
verdade sobre elas mesmas.20 É assim que um feriado em família cheio de
engarrafamentos, discussões bobas e silêncios tensos torna-se uma coleção de
lindos panoramas, jantares perfeitos e rostos sorridentes; 99% do que
vivenciamos nunca se torna parte da narrativa do eu.
Vale a pena notar, particularmente, que nosso eu fantasioso tende a ser muito
visual, enquanto nossas experiências reais são corpóreas. Na fantasia, você
observa a cena com o olho da mente ou na tela do computador. Você vê a si
mesmo numa praia tropical, o mar azul ao fundo, um grande sorriso no rosto,
um coquetel em uma das mãos, o outro braço em torno da cintura da pessoa
amada. Paraíso. O que a imagem não mostra é o mosquito irritante que pica a
sua perna, o estômago revirando por causa daquela sopa de peixe estragada, a
tensão em sua mandíbula quando você finge um amplo sorriso e a briga feia do
casal cinco minutos atrás. Se apenas conseguíssemos sentir o que as pessoas nas
fotos estavam sentindo quando elas foram tiradas!
Por isso, se você realmente quer compreender a si mesmo, não deveria se
identificar com sua conta no Facebook ou com a narrativa interior do eu. Em vez
disso, você deve observar o fluxo real do corpo e da mente. Você verá
pensamentos, emoções e desejos aparecerem e desaparecerem, sem muita razão e
sem nenhum comando de sua parte, como o vento que sopra desta ou daquela
direção e desmancha seus cabelos. E, assim como você não é o vento, você
também não é a mistura de pensamentos, emoções e desejos que experimenta, e
certamente não é a narrativa purificada que você conta sobre eles em retrospecto.
Você os vivencia a todos, mas não os controla, não os possui, e não é eles. As
pessoas perguntam “quem sou eu?” e esperam que alguém lhes conte uma
história. A primeira coisa que precisa saber sobre si mesmo é que você não é uma história.
NENHUMA HISTÓRIA
O liberalismo deu um passo radical ao negar todos os dramas cósmicos, mas
depois recriou o drama dentro do ser humano — o universo não segue um
enredo, assim cabe aos humanos criar um enredo, e esta é nossa vocação e o
sentido de nossa vida. Milhares de anos antes de nossa era liberal, o budismo
antigo foi mais além ao negar não apenas os dramas cósmicos, mas até mesmo o
drama interior da criação humana. O universo não tem sentido, tampouco os
sentimentos humanos. Eles não são parte de alguma grande narrativa cósmica,
são apenas vibrações efêmeras, que aparecem e desaparecem sem propósito
específico. Essa é a verdade. Trate de superar isto.
O Brihadaranyaka Upanishad nos diz que “a cabeça do cavalo sacrificial é o
alvorecer, seu olho é o sol… seus membros são as estações, suas articulações os
meses e as quinzenas, seus pés os dias e as noites, seus ossos as estrelas, e sua
carne as nuvens”. Em contraste, o Mahasatipaatthana Sutta, um texto budista
fundamental, explica que quando um humano medita, ele ou ela observa seu
corpo cuidadosamente, reparando que “neste corpo há os cabelos da cabeça, os
pelos da pele, unhas, dentes, pele, carne, tendões, ossos, medula, rim, coração…
saliva, muco nasal, fluido sinovial e urina. Fica assim observando o corpo…
Agora sua compreensão está estabelecida: ‘Isto é um corpo!’”.21 Os cabelos, os
ossos ou a urina não representam outra coisa. São exatamente o que são.
Uma passagem depois da outra, o texto explica que, não importa o que a
pessoa que medita observa no corpo ou na mente, ela só entende cada coisa pelo
que realmente é. Assim, quando respira, “tomando um profundo alento,
compreende corretamente: ‘estou respirando uma respiração profunda’. Quando
respira superficialmente, compreende: ‘estou respirando numa respiração
superficial’”.22 A respiração mais longa não representa as estações, e a respiração
curta não representa os dias. São apenas vibrações no corpo.
Buda ensinou que há três realidades básicas do universo, e que tudo está em
constante mudança, nada tem uma essência duradoura, e nada é totalmente
satisfatório. Você pode explorar os mais longínquos alcances da galáxia, de seu corpo, de sua mente — porém nunca encontrará algo que não mude, que tenha
uma essência eterna e que o satisfaça completamente.
O sofrimento surge porque as pessoas não conseguem entender isso.
Acreditam que em algum lugar existe alguma essência eterna e que se apenas
pudessem encontrá-la e se conectar com ela, ficariam completamente satisfeitas.
Essa essência eterna às vezes é chamada de Deus, às vezes de nação, às vezes de
alma, às vezes de eu autêntico e às vezes de amor verdadeiro — e quanto mais as
pessoas aderem a ela, mais decepcionadas e infelizes ficam por não conseguirem
encontrá-la. Pior ainda, quanto maior a ligação, maior o ódio que essas pessoas
desenvolvem em relação a qualquer pessoa, grupo ou instituição que pareça estar
entre elas e seu objetivo desejado.
Segundo Buda, então, a vida não tem sentido, e as pessoas não precisam criar
nenhum sentido. Precisam apenas se dar conta de que não há sentido, e assim
estão liberadas do sofrimento causado por nossas ligações e nossa identificação
com fenômenos vazios. “O que devo fazer?”, perguntam as pessoas, e Buda
aconselha: “Não façam nada. Absolutamente nada”. O problema é que estamos o
tempo inteiro fazendo alguma coisa. Não necessariamente no nível físico —
podemos ficar sentados e imóveis com os olhos fechados por horas —, mas no
nível mental estamos ocupados criando narrativas e identidades, combatendo em
batalhas e conquistando vitórias. Não fazer realmente nada significa que a mente
também não está fazendo nada, nem criando nada.
Infelizmente, isso também, muito facilmente, se torna uma epopeia heroica.
Mesmo que esteja sentado com os olhos fechados e observando a respiração que
entra e sai por suas narinas, você bem poderia começar a construir narrativas
sobre isso. “Minha respiração está um pouco forçada, e se eu respirar com mais
calma, ficarei mais saudável”, ou “se eu apenas ficar observando minha
respiração sem fazer nada, ficarei iluminado, e serei a pessoa mais sábia e feliz no
mundo!”. Depois a epopeia começa a se expandir, e as pessoas embarcam numa
busca não só da libertação de seus próprios apegos mas também para convencer
os outros a fazer o mesmo. Tendo aceitado que a vida não tem significado, eu
encontro significado no ato de explicar isso a outros, discutindo com os incréus,
dando aulas aos céticos, doando dinheiro para construir mosteiros e assim por
diante. “Nenhuma história” pode tornar-se facilmente apenas uma outra narrativa.
A narrativa do budismo oferece mil exemplos de como pessoas que acreditam
na transiência e na vacuidade de todos os fenômenos, e na importância do
desapego, são capazes de discutir e lutar pelo governo de um país, a posse de um
prédio ou mesmo o significado de uma palavra. Lutar com outras pessoas porque
você acredita na glória de um Deus eterno é lamentável mas compreensível; lutar
com outras pessoas porque você acredita na vacuidade de todos os fenômenos é
realmente bizarro — mas muito humano.
No século XVIII, as dinastias reais da Birmânia e do vizinho Sião orgulhavam-
se de sua devoção a Buda, e ganharam legitimidade ao proteger a fé budista. Os
reis dotavam mosteiros, construíam pagodes e ouviam eloquentes sermões de
monges sábios sobre os cinco compromissos morais básicos de todo ser humano:
abster-se de matar, de roubar, de abusar sexualmente, de fraudar e de se
intoxicar. Não obstante, os dois reinos lutaram um contra o outro
implacavelmente. Em 7 de abril de 1767 o exército do rei birmanês Hsinbyushin
invadiu a capital do Sião, após longo cerco. As tropas vitoriosas mataram,
saquearam, estupraram e provavelmente se embebedaram aqui e ali. Depois
incendiaram grande parte da cidade, com seus palácios, mosteiros e pagodes, e
levaram para casa milhares de escravos e carroças cheias de ouro e joias.
Não que o rei Hsinbyushin fosse relapso em seu budismo. Sete anos após sua
grande vitória, ele fez um périplo real descendo o grande rio Irauádi, realizando
cultos nos importantes pagodes pelo caminho, e pedindo a Buda que abençoasse
seus exércitos com mais vitórias. Quando Hsinbyushin chegou a Rangum,
reconstruiu e expandiu a estrutura mais sagrada de toda a Birmânia — o pagode
Shwedagon. Depois recobriu o prédio com o equivalente a seu próprio peso em
ouro, e erigiu um pináculo no topo do pagode e o guarneceu com pedras
preciosas (talvez saqueadas do Sião). Também aproveitou a ocasião para executar
o rei cativo de Pegu, seu irmão e seu filho.23
No Japão da década de 1930, as pessoas descobriam maneiras criativas até de
combinar doutrinas budistas com nacionalismo, militarismo e fascismo.
Pensadores budistas radicais como Nissho Inoue, Ikki Kita e Tanaka Chigaku
afirmavam que para poder desfazer seus apegos egoístas, as pessoas deveriam
dedicar-se completamente ao imperador, livrar-se de todas as considerações pessoais e observar uma lealdade total à nação. Várias organizações
ultranacionalistas inspiravam-se nessas ideias, inclusive um grupo militar
fanático que buscava derrubar o sistema político conservador do Japão com uma
campanha de assassinatos. Eles assassinaram o ex-ministro das finanças, o
diretor-geral da corporação Mitsui e posteriormente o primeiro-ministro Inukai
Tsuyoshi. Com isso, apressaram a transformação do Japão numa ditadura
militar. Quando depois os militares embarcaram na guerra, sacerdotes budistas e
mestres da meditação Zen pregaram uma obediência abnegada à autoridade do
Estado e recomendaram autossacrifício no esforço de guerra. Em contraste, os
ensinamentos budistas de compaixão e não violência foram de algum modo
esquecidos, e não tiveram influência perceptível no comportamento das tropas
em Nanquim, Manila e Seul.24
Hoje em dia, a situação dos direitos humanos em Mianmar, país budista, está
entre as piores no mundo, e um monge budista, Ashin Wirathu, lidera o
movimento antimuçulmano no país. Ele alega que quer apenas proteger
Mianmar e o budismo de conspirações jihadistas muçulmanas, mas seus sermões
e artigos são tão inflamatórios que em fevereiro de 2018 o Facebook removeu sua
página, citando a proibição a expressões de ódio. Durante uma entrevista ao The
Guardian em 2017, o monge pregou compaixão por um mosquito, mas,
confrontado com alegações de que mulheres muçulmanas tinham sido
estupradas por militares de Mianmar, ele riu e disse: “Impossível. Os corpos
delas são repulsivos demais”.25
Há pouquíssima probabilidade de que a paz mundial e a harmonia global
sejam conquistadas quando 8 bilhões de pessoas começarem a meditar
regularmente. Respeitar a verdade sobre você mesmo é tão difícil! Mesmo que se
consiga fazer com que a maioria dos humanos tente isso, muitos de nós, ao
descobrir a verdade, vamos distorcê-la e transformá-la em alguma história com
heróis, vilões e inimigos, e achar pretextos realmente bons para ir à guerra.
O TESTE DA REALIDADE
Apesar de essas grandes histórias serem ficções geradas por nossa própria
mente, não há razão para desespero. A realidade ainda está lá. Você não pode desempenhar um papel em todo drama de faz de conta, mas o que gostaria de
fazer então, para começar? A grande questão que se põe para os humanos não é
“Qual o sentido da vida?”, mas “Como acabar com o sofrimento?”. Se abandonar
as narrativas ficcionais, você será capaz de observar a realidade com muito mais
clareza que antes, e se realmente conhecer a verdade sobre si mesmo e sobre o
mundo, nada poderá te deprimir. Mas é claro, é mais fácil falar do que fazer.
Nós humanos conquistamos o mundo graças a nossa capacidade de criar
narrativas ficcionais e acreditar nelas. Somos, portanto, particularmente ruins em
perceber a diferença entre ficção e realidade. Ignorar essa diferença tem sido para
nós uma questão de sobrevivência. Porque a coisa mais real no mundo é o
sofrimento.
Quando você tem diante de si uma grande história, e quer saber se é real ou
imaginária, uma das questões-chave é se o herói é capaz de sofrer. Por exemplo,
se alguém lhe contar a história da nação polonesa, reserve um momento para
pensar se a Polônia é capaz de sofrer. Adam Mickiewicz, o grande poeta
romântico e pai do nacionalismo polonês moderno, chamou a Polônia de “Cristo
das nações”. Escrevendo em 1832, décadas após a Polônia ter sido dividida entre
Rússia, Prússia e Áustria, e pouco depois de o levante polonês de 1830 ter sido
brutalmente esmagado pelos russos, Mickiewicz explicou que o terrível
sofrimento da Polônia era um sacrifício em prol de toda a humanidade,
comparável ao sacrifício de Cristo, e que, assim como Cristo, a Polônia
ressuscitaria dos mortos.
Numa passagem famosa Mickiewicz escreveu que:
A Polônia disse [ao povo da Europa]: “Todo aquele que vier a mim será livre e igual, pois eu sou a
LIBERDADE”. Porém os reis, quando ouviram isso, ficaram assustados, e crucificaram a nação polonesa
e a depositaram em seu túmulo, gritando: “Matamos e enterramos a Liberdade”. Mas gritaram
tolamente… Porque a Nação Polonesa não morreu… No Terceiro Dia, a Alma voltará ao Corpo, e a
Nação se erguerá e libertará todos os povos da Europa da Escravidão.26
Pode uma nação realmente sofrer? Uma nação tem olhos, mãos, sentidos,
afeições e paixões? Se você a espetar, ela sangrará? Obviamente não. Se for
derrotada numa guerra, perder uma província, ou mesmo perder a
independência, mesmo assim não sentirá dor, tristeza ou qualquer outro tipo de sofrimento, porque não tem corpo, nem mente, nem sentimentos, quaisquer que
sejam. Na verdade, ela é apenas uma metáfora. Somente na imaginação de certos
humanos a Polônia é uma entidade real capaz de sofrer. A Polônia perdura
porque esses humanos lhe emprestam seus corpos — não só servindo como
soldados no Exército polonês como também encarnando as alegrias e as tristezas
da nação. Quando em maio de 1831 chegaram a Varsóvia as notícias da derrota
polonesa na batalha de Ostrołęka, estômagos humanos se reviraram angustiados,
peitos humanos arfaram de dor, olhos humanos encheram-se de lágrimas.
Tudo isso não justifica a invasão russa, é claro, nem mina o direito dos
poloneses de estabelecer um país independente e decidir quais são suas próprias
leis e seus próprios costumes. Mas isso significa que, afinal, a realidade não pode
ser a história da nação polonesa, porque a própria existência da Polônia depende
de imagens em mentes humanas.
Em contraste, considere a sina de uma mulher de Varsóvia que foi roubada e
estuprada pelas tropas russas invasoras. Diferentemente do sofrimento
metafórico da nação polonesa, o sofrimento dessa mulher foi muito real. Pode
muito bem ter sido causado por crenças humanas em várias ficções, como no
nacionalismo russo, no cristianismo Ortodoxo e no heroísmo machista, todos os
quais inspiraram muitos dos estadistas e soldados russos. No entanto, o
sofrimento resultante foi ainda assim cem por cento real.
Sempre que políticos começarem a falar em termos místicos, tenha cuidado.
Podem estar tentando disfarçar e desculpar sofrimento real, escondendo-o sob
palavras grandes e incompreensíveis. Em especial, tenha cuidado com as
seguintes quatro palavras: sacrifício, eternidade, pureza, redenção. Se ouvir
qualquer uma delas, faça soar o alarme. E se acaso você vive num país cujo líder
diz rotineiramente coisas como “Seu sacrifício vai redimir a pureza de nossa
nação eterna” — saiba que você está em grandes apuros. Para salvar sua
sanidade, tente sempre traduzir essa tolice para termos reais: um soldado
gritando em agonia, uma mulher espancada e brutalizada, uma criança tremendo
de medo.
Assim, se você quer saber a verdade sobre o universo, sobre o significado da
vida e sobre sua própria identidade, o melhor modo de começar é observando o
sofrimento e explorando o que ele é.
A resposta não é uma história.