21 Lições para o Século 21
3. Liberdade: Big Data está vigiando você
3. Liberdade
Big Data está vigiando você
A narrativa liberal preza a liberdade humana como seu valor número um.
Alega que toda autoridade, em última análise, tem origem no livre-arbítrio de
indivíduos humanos, conforme expresso em seus sentimentos, desejos e
escolhas. Na política, o liberalismo acredita que o eleitor sabe o que é melhor.
Por isso apoia eleições democráticas. Na economia, o liberalismo afirma que o
cliente sempre tem razão. Por isso aclama os princípios do livre mercado. No
aspecto pessoal, o liberalismo incentiva as pessoas a ouvirem a si mesmas, serem
verdadeiras consigo mesmas e seguirem seu coração — desde que não infrinjam
as liberdades dos outros. Essa liberdade pessoal está consagrada nos direitos
humanos.
No discurso político ocidental hoje, o termo “liberal” é às vezes empregado
num sentido muito mais estreito e partidário para denotar aqueles que apoiam
causas específicas, como o casamento gay, o controle de armas e o aborto. Porém
a maioria dos assim chamados conservadores também abraçam a ampla visão de
mundo liberal. Especialmente nos Estados Unidos, há ocasiões em que tanto
republicanos como democratas fazem uma pausa em suas acaloradas discussões
para se lembrarem de que todos eles concordam em coisas fundamentais como
eleições livres, um Judiciário independente e direitos humanos.
É vital lembrar que heróis da direita, como Ronald Reagan e Margaret
Thatcher, foram grandes paladinos não só de liberdades econômicas como
também de liberdades individuais. Numa famosa entrevista de 1987, Thatcher
disse: “Não existe essa coisa chamada sociedade. Há [uma] trama viva feita de
homens e mulheres… e a qualidade de nossa vida dependerá de quanto cada um
de nós está preparado para assumir a responsabilidade por si mesmo”.1
Os herdeiros de Thatcher no Partido Conservador concordam totalmente com
o Partido Trabalhista em que a autoridade política vem dos sentimentos, das
escolhas e do livre-arbítrio de eleitores individuais. Assim, quando a Inglaterra
precisou decidir se saía ou não da União Europeia, o primeiro-ministro David
Cameron não pediu à rainha Elizabeth II, nem ao arcebispo de Cantuária, nem
aos catedráticos de Oxford e Cambridge que resolvessem a questão. Não
perguntou nem mesmo aos membros do Parlamento. Em vez disso, realizou um
referendo no qual se perguntou a cada britânico: “O que você sente quanto a
isso?”.
Poder-se-ia contestar que a pergunta deveria ser “O que você pensa?” e não “O
que você sente?”, mas esse é um erro de percepção comum. Referendos e eleições
sempre dizem respeito a sentimentos humanos, não à racionalidade humana. Se a
democracia fosse questão de tomadas de decisão racionais, não haveria nenhum
motivo para dar a todas as pessoas direitos iguais em seus votos — ou talvez nem
sequer o direito de votar. Existe ampla evidência de que algumas pessoas são
muito mais informadas e racionais que outras, principalmente quando se trata de
questões econômicas e políticas específicas.2 Na esteira da votação do Brexit, o
eminente biólogo Richard Dawkins protestou dizendo que nunca se deveria
pedir à grande maioria do público britânico — inclusive ele mesmo — que
votasse no referendo, porque lhe faltava a formação necessária em economia e
ciência política. “É o mesmo que convocar um plebiscito nacional para decidir se
a álgebra de Einstein estava correta, ou deixar os passageiros votarem para
decidir em que pista o piloto deve pousar.”3
No entanto, para o bem ou para o mal, eleições e referendos não têm a ver
com o que pensamos. Têm a ver com o que sentimos. E, quando se trata de
sentimentos, Einstein e Dawkins não são melhores que ninguém. A democracia
supõe que sentimentos humanos refletem um misterioso e profundo “livre-
arbítrio”, que este “livre-arbítrio” é a fonte definitiva da autoridade e que, apesar
de algumas pessoas serem mais inteligentes do que outras, todos os humanos são
igualmente livres. Assim como Einstein e Dawkins, uma trabalhadora doméstica
sem instrução também tem livre-arbítrio, e por isso no dia de eleições seus
sentimentos — representados por seu voto — contam tanto quanto os de qualquer outra pessoa.
Os sentimentos orientam não apenas os eleitores mas também os líderes. No
referendo do Brexit, em 2016, a campanha a favor da saída da Grã-Bretanha da
União Europeia — apelidada Leave — foi liderada por Boris Johnson e Michael
Gove. Após a renúncia de David Cameron, Gove inicialmente apoiou Johnson
como candidato a primeiro-ministro, mas no último minuto Gove declarou que
Johnson não estava preparado para a posição e anunciou a própria intenção de se
candidatar ao cargo. Essa ação de Gove, que destruiu as probabilidades de
Johnson, foi descrita como um assassinato político maquiavélico.4 Mas Gove
defendeu sua conduta apelando para os sentimentos: “Em cada passo de minha
vida política eu me fazia a mesma pergunta: ‘Qual é a coisa certa a fazer? O que
lhe diz seu coração?’”.5 Foi por isso, segundo Gove, que ele batalhou tão
duramente a favor do Brexit, e foi por isso que foi compelido a apunhalar pelas
costas seu então aliado Boris Johnson, e oferecer-se para o cargo — porque seu
coração lhe dissera que o fizesse.
Essa lealdade ao próprio coração pode acabar sendo o calcanhar de aquiles da
democracia liberal. Pois se alguém (seja em Pequim ou em San Francisco)
adquirir capacidade tecnológica para hackear e manipular o coração humano, a
política democrática vai se tornar um espetáculo de fantoches emocional.
ESCUTE O ALGORITMO
A crença liberal nos sentimentos e nas escolhas livres dos indivíduos não é
natural, nem muito antiga. Durante milhares de anos as pessoas acreditaram que
a autoridade provinha de leis divinas e não do coração humano, e que devíamos,
portanto, santificar a palavra de Deus e não a liberdade humana. Foi só nos
séculos mais recentes que a fonte da autoridade passou das entidades celestiais
para humanos de carne e osso.
Em breve a autoridade pode mudar novamente — dos humanos para os
algoritmos. Assim como a autoridade divina foi legitimada por mitologias
religiosas, e a autoridade humana foi justificada pela narrativa liberal, a futura
revolução tecnológica poderia estabelecer a autoridade dos algoritmos de Big
Data, ao mesmo tempo que solapa a simples ideia da liberdade individual.
Como mencionamos no capítulo anterior, ideias científicas sobre o
funcionamento de nosso corpo e cérebro sugerem que nossos sentimentos não
são uma qualidade espiritual exclusivamente humana, e não refletem nenhum
tipo de “livre-arbítrio”. Na verdade, sentimentos são mecanismos bioquímicos
que todos os mamíferos e todas as aves usam para calcular probabilidades de
sobrevivência e reprodução. Sentimentos não se baseiam em intuição, inspiração
ou liberdade — baseiam-se em cálculos.
Quando um macaco, um camundongo ou um humano veem uma cobra, o
medo surge porque milhões de neurônios no cérebro calculam rapidamente os
dados relevantes e concluem que a probabilidade de morrer é alta. Sentimentos
de atração sexual surgem quando outros algoritmos bioquímicos calculam que
um indivíduo próximo oferece alta probabilidade de acasalamento bem-
sucedido, ligação social ou algum outro objetivo almejado. Sentimentos morais
como indignação, culpa ou perdão derivam de mecanismos neurais que
evoluíram para permitir cooperação grupal. Todos esses algoritmos bioquímicos
foram aprimorados durante milhões de anos de evolução. Se os sentimentos de
algum antigo ancestral cometeram um erro, os genes que configuram esses
sentimentos não foram passados à geração seguinte. Assim, sentimentos não são
o contrário de racionalidade — eles incorporam uma racionalidade evolutiva.
Normalmente não nos damos conta de que os sentimentos são na verdade
cálculos, porque o intenso processo de cálculo ocorre abaixo do nível da
consciência. Não sentimos os milhões de neurônios no cérebro computando
probabilidades de sobrevivência e reprodução, e assim acreditamos,
erroneamente, que nosso medo de cobras, nossa escolha de parceiros ou
parceiras sexuais ou nossas opiniões sobre a União Europeia são o resultado de
algum misterioso “livre-arbítrio”.
No entanto, embora o liberalismo esteja errado ao julgar que nossos
sentimentos refletem o livre-arbítrio, até hoje confiar nos sentimentos faz
sentido, na prática. Pois embora não houvesse nada mágico ou livre no que
concerne a nossos sentimentos, eles eram o melhor método em todo o universo
para decidir o que estudar, com quem casar e em que partido votar. E nenhum
sistema externo pode compreender meus sentimentos melhor do que eu. Mesmo
se a Inquisição espanhola ou a KGB me espionassem todo dia a toda hora, elas não teriam o conhecimento biológico e a capacidade computacional necessários para
hackear os processos bioquímicos que formam meus desejos e minhas escolhas.
Era razoável alegar, na prática, que disponho de livre-arbítrio, porque minha
vontade foi formada principalmente pela interação entre forças interiores, que
ninguém no exterior seria capaz de ver. Eu poderia desfrutar da ilusão de que
controlo minha arena interior secreta, enquanto quem está de fora nunca seria
capaz de compreender o que de fato está acontecendo dentro de mim e como
tomo decisões.
Da mesma forma, o liberalismo estava certo ao aconselhar às pessoas que
seguissem o coração e não os ditames de algum sacerdote ou militante partidário.
No entanto, em breve algoritmos de computador poderão nos aconselhar melhor
do que sentimentos humanos. Enquanto a Inquisição espanhola e a KGB dão
lugar ao Google e à Baidu, o “livre-arbítrio” provavelmente será desmascarado
como um mito, e o liberalismo pode perder suas vantagens práticas.
Pois estamos agora na confluência de duas imensas revoluções. Por um lado,
biólogos estão decifrando os mistérios do corpo humano, particularmente do
cérebro e dos sentimentos. Ao mesmo tempo cientistas da computação estão nos
dando um poder de processamento de dados sem precedente. Quando a
revolução na biotecnologia se fundir com a revolução na tecnologia da
informação, ela produzirá algoritmos de Big Data capazes de monitorar e
compreender meus sentimentos muito melhor do que eu, e então a autoridade
provavelmente passará dos humanos para os computadores. Minha ilusão de
livre-arbítrio provavelmente vai se desintegrar à medida que eu me deparar,
diariamente, com instituições, corporações e agências do governo que
compreendem e manipulam o que era, até então, meu inacessível reino interior.
Isso já está acontecendo no campo da medicina. As decisões médicas mais
importantes de nossa vida se baseiam não na sensação de estarmos doentes ou
saudáveis, nem mesmo nos prognósticos informados de nosso médico — mas
nos cálculos de computadores que entendem de nosso corpo muito melhor do
que nós. Dentro de poucas décadas, os algoritmos de Big Data, alimentados por
um fluxo constante de dados biométricos, poderão monitorar nossa saúde 24
horas por dia, sete dias por semana. Serão capazes de detectar, logo em seu início,
a gripe, o câncer ou o mal de Alzheimer, muito antes de sentirmos que há algo errado conosco. Poderão então recomendar tratamentos adequados, dietas e
regimes diários, sob medida para nossa compleição física, nosso DNA e nossa
personalidade, que são únicos.
As pessoas usufruirão dos melhores serviços de saúde da história, mas
justamente por isso estarão doentes o tempo todo. Existe sempre algo errado em
algum lugar do corpo. No passado, você se sentia perfeitamente saudável
enquanto não sentia dor ou apresentava uma deficiência aparente, como, por
exemplo, mancar. Porém em 2050, graças a sensores biométricos e algoritmos de
Big Data, as doenças poderão ser diagnosticadas e tratadas muito antes de
causarem dor ou debilidade. Como resultado, você vai se ver sempre sofrendo de
algum “mal de saúde” e seguindo a recomendação deste ou daquele algoritmo. Se
recusar, talvez seu seguro-saúde seja cancelado, ou seu chefe o demita — por que
deveriam pagar o preço por sua teimosia?
Uma coisa é continuar fumando apesar das estatísticas que ligam o fumo ao
câncer de pulmão. Outra é continuar fumando apesar da advertência concreta de
um sensor biométrico que acabou de detectar dezessete células cancerosas na
parte superior de seu pulmão esquerdo. E, se você quiser desafiar o sensor, o que
vai fazer quando o sensor repassar a advertência a sua companhia de seguros, seu
gerente e sua mãe?
Quem terá tempo e energia para lidar com essas doenças? Provavelmente,
poderemos ensinar nosso algoritmo de saúde a lidar com a maior parte desses
problemas como achar melhor. No máximo, ele vai enviar aos nossos
smartphones atualizações periódicas, informando-nos que “dezessete células
cancerosas foram detectadas e destruídas”. Os hipocondríacos obedientemente
leriam essas atualizações, mas a maioria de nós vai ignorá-las assim como
ignoramos as mensagens chatas do antivírus em nossos computadores.
O DRAMA DA TOMADA DE DECISÃO
O que já está começando a acontecer na medicina provavelmente ocorrerá em
outros campos. A invenção decisiva é a do sensor biométrico, que as pessoas
podem usar nos seus corpos ou dentro deles, e que converte processos biológicos
em informação eletrônica que computadores podem armazenar e analisar. Se tiverem dados biométricos e capacidade computacional suficientes, sistemas de
processamento de dados externos poderão intervir em todos os seus desejos,
todas as suas decisões e opiniões. Poderão saber exatamente quem é você.
A maioria das pessoas não se conhece muito bem. Quando eu tinha 21 anos,
finalmente constatei que era gay, após viver vários anos em negação. É difícil
dizer que é um caso excepcional. Muitos homens gays passam toda a
adolescência inseguros quanto à sua sexualidade. Agora imagine como será essa
situação em 2050, quando um algoritmo for capaz de dizer a todo adolescente
exatamente onde ele está no espectro gay/hétero (e até mesmo quão maleável é
essa posição). Talvez o algoritmo lhe mostre fotos ou vídeos de homens e
mulheres atraentes, rastreie o movimento de seus olhos, sua pressão sanguínea e
a atividade de seu cérebro, e em cinco minutos mostre um número na escala
Kinsey.6 Isso poderia ter me livrado de anos de frustração. Pode ser que,
pessoalmente, você não queira fazer esse teste; mas talvez um belo dia, com um
grupo de amigos numa festa de aniversário tediosa, alguém sugira que todos se
revezem nesse sensacional algoritmo novo (com todo mundo em volta
acompanhando e comentando os resultados). Você simplesmente iria embora?
Mesmo se você for, e continuar a se esconder de si mesmo e de seus colegas de
turma, não conseguirá se esconder da Amazon, do Alibaba e da polícia secreta.
Quando estiver navegando na internet, assistindo a vídeos no YouTube ou lendo
mensagens nas suas redes sociais, os algoritmos vão discretamente monitorá-lo,
analisá-lo e dizer à Coca-Cola que, se ela quiser lhe vender alguma bebida,
melhor seria usar o anúncio com o sujeito sem camisa, e não o da garota sem
camisa. Você nem vai saber. Mas eles saberão, e essa informação valerá bilhões.
De novo, talvez tudo isso se faça abertamente, e as pessoas compartilharão
com prazer suas informações para poder contar com as melhores
recomendações, e para poder fazer o algoritmo tomar decisões por elas. Começa
com coisas simples, como decidir a que filme assistir. Quando você se senta com
um grupo de amigos para passar uma noite diante da televisão, primeiro tem de
escolher ao que vai assistir. Cinquenta anos atrás você não teria escolha, mas hoje
— com o surgimento dos serviços sob demanda — há milhares de títulos
disponíveis. Talvez seja bem difícil chegar a um consenso, porque enquanto você
prefere filmes de ficção científica, Jack prefere comédias românticas e Jill vota por filmes de arte franceses. Talvez acabem tendo de concordar com um meio-
termo, um filme B medíocre que vai desapontar a todos.
Um algoritmo poderia ajudar. Pode-se informá-lo de quais filmes vistos
anteriormente cada um de vocês gostou, e com base nessa imensa base de dados
estatísticos o algoritmo pode encontrar o filme perfeito para o grupo.
Infelizmente, um algoritmo tão objetivo é bastante sujeito a erro, principalmente
porque a informação dada voluntariamente é um parâmetro pouco confiável das
verdadeiras preferências das pessoas. Quando ouvimos muitas pessoas dizendo
que um filme é uma obra-prima, tendemos a concordar, mesmo que tenhamos
dormido no meio.7
No entanto, esses problemas podem ser resolvidos se deixarmos que o
algoritmo recolha de nós dados em tempo real, enquanto estamos efetivamente
assistindo aos filmes, em vez de se basear em nossos próprios e duvidosos relatos
pessoais. Para os iniciantes, o algoritmo pode monitorar quais filmes vimos até o
fim, e quais deixamos de assistir no meio. Mesmo se dissermos ao mundo inteiro
que …E o vento levou é o melhor filme já produzido, o algoritmo saberá que
nunca fomos além da primeira meia hora, e que na verdade nunca vimos Atlanta
em chamas.
Porém o algoritmo pode ir muito mais fundo que isso. Engenheiros estão
desenvolvendo um software que detecta emoções humanas com base nos
movimentos dos olhos e dos músculos faciais.8 Acrescente uma boa câmera ao
aparelho de televisão, e esse software saberá quais cenas nos fizeram rir, quais
cenas nos deixaram tristes e quais cenas nos entediaram. Em seguida, conecte o
algoritmo a sensores biométricos, e ele saberá como cada fotograma influenciou
nosso ritmo cardíaco, nossa pressão sanguínea e nossa atividade cerebral.
Enquanto assistimos a, digamos, Pulp Fiction, de Tarantino, o algoritmo pode
registrar que a cena do estupro nos causou um quase imperceptível matiz de
excitação sexual, que quando Vincent acidentalmente dá um tiro no rosto de
Marvin isso nos fez rir cheios de culpa, e que não achamos graça no Big Kahuna
Burger — mas rimos assim mesmo, para não parecermos idiotas. Quando você ri
um riso forçado, está usando circuitos cerebrais e músculos diferentes dos que
usa quando ri de verdade. Normalmente humanos não são capazes de detectar a
diferença. Mas um sensor biométrico seria.9
A palavra “televisão” vem do grego tele, que significa “longe” e do latim visio,
“visão”. A televisão foi concebida originalmente como um dispositivo que nos
permite ver de longe. Mas logo nos permitirá sermos vistos de longe. Como
previu George Orwell em 1984, a televisão nos verá enquanto a estamos vendo.
Depois de assistir a toda a filmografia de Tarantino talvez tenhamos esquecido a
maior parte. Mas Netflix, ou Amazon, ou quem quer que possua o algoritmo de
televisão, conhecerá nosso tipo de personalidade e como manipular nossas
emoções. Esses dados poderiam permitir à Netflix e à Amazon escolher filmes
para nós com misteriosa precisão, mas também lhes possibilitariam tomar por
nós as decisões mais importantes na vida — como o que estudar, onde trabalhar
ou com quem casar.
É claro que a Amazon não vai acertar sempre. Isso é impossível. Algoritmos
vão cometer erros repetidamente por falta de dados, falhas no programa,
confusão nas definições de objetivos e devido à própria natureza caótica da
vida.10 Mas a Amazon não precisará ser perfeita. Precisará apenas ser, em média,
melhor que nós humanos. E isso não é difícil, porque a maioria das pessoas não
conhece a si mesma muito bem, e porque a maioria das pessoas frequentemente
comete erros terríveis nas decisões mais importantes da vida. Até mais que os
algoritmos, humanos padecem de falta de dados, de programas falhos (genéticos
e culturais), de definições confusas e do caos da vida.
É possível listar muitos problemas que acometem os algoritmos e concluir que
as pessoas nunca confiarão neles. Mas isso é como catalogar todos os
inconvenientes da democracia e concluir que uma pessoa sã jamais optaria por
apoiar esse sistema. Segundo a famosa frase de Winston Churchill, a democracia
é o pior sistema político do mundo, com exceção de todos os outros. As pessoas
talvez cheguem à mesma conclusão no que concerne aos algoritmos de Big Data:
eles têm muitos problemas, mas não temos alternativa melhor.
À medida que cientistas chegam a uma compreensão mais profunda de como
humanos tomam decisões, a tentação de se basear em algoritmos provavelmente
vai aumentar. Hackear a tomada de decisão por humanos não só fará os
algoritmos de Big Data serem mais confiáveis; ao mesmo tempo, fará com que os
sentimentos humanos sejam menos confiáveis. À medida que governos e
corporações obtêm sucesso ao hackear o sistema operacional humano, ficaremos expostos a uma enxurrada de manipulações guiadas com precisão. Pode ficar tão
fácil manipular nossas opiniões e emoções que seremos obrigados a nos basear
em algoritmos do mesmo modo que um piloto, ao sofrer um ataque de tontura,
tem de ignorar o que seus sentidos estão lhe dizendo e depositar toda a sua
confiança nos aparelhos.
Em alguns países e em algumas situações, as pessoas podem ficar sem escolha,
e serão obrigadas a obedecer às decisões dos algoritmos de Big Data. Porém,
mesmo em sociedades supostamente livres, algoritmos podem ganhar
autoridade, porque aprenderemos, por experiência, a confiar a eles cada vez mais
tarefas, e aos poucos perdermos nossa aptidão para tomar decisões por nós
mesmos. Pense em como, no decorrer de apenas duas décadas, bilhões de
pessoas passaram a confiar no algoritmo de busca do Google em uma das tarefas
mais importantes: buscar informação relevante e confiável. Já não buscamos
mais informação. Em vez disso, nós googlamos. E, quanto mais confiamos no
Google para obter respostas, tanto mais diminui nossa aptidão para buscar
informação por nós mesmos. Já hoje em dia, a “verdade” é definida pelos
resultados principais da busca do Google.11
Isso tem acontecido também com habilidades físicas, como a de se orientar no
tráfego. As pessoas pedem ao Google que as guie em seus deslocamentos.
Quando chegam num cruzamento, seu instinto pode lhes dizer “vire à esquerda”,
mas o Google Maps diz “vire à direita”. Primeiro elas ouvem a intuição, viram à
esquerda, ficam encalhadas num engarrafamento e perdem uma reunião
importante. Na próxima vez ouvem o Google, dobram à direita e chegam a
tempo. Aprendem, por experiência, a confiar no Google. Em um ano ou dois se
baseiam cegamente no que o Google Maps lhes diz, e se o smartphone falhar
ficam completamente sem pistas. Em março de 2012 três turistas japoneses na
Austrália decidiram viajar para uma pequena ilha ao largo da costa e caíram com
o carro direto no oceano Pacífico. O motorista, Yuzu Noda, de 21 anos, disse
depois que só tinha seguido as instruções do GPS, e que “ele me disse que
podíamos ir naquela direção. Continuou dizendo que nos levaria para uma
estrada. Ficamos encalhados”.12 Em diversos incidentes semelhantes pessoas
foram parar num lago ou caíram de uma ponte demolida, aparentemente por
terem seguido instruções de GPS.13 A aptidão para navegar é como um músculo
— use-o ou perca-o.14 Isso também vale para a habilidade para escolher esposas
ou profissões.
Todo ano, milhões de jovens precisam decidir o que estudar na universidade.
Essa é uma decisão muito importante e muito difícil. Você está sob a pressão de
seus pais, de seus amigos e de seus professores, que têm diferentes interesses e
opiniões. Você também tem de lidar com seus próprios temores e fantasias. Seu
julgamento está obnubilado e manipulado por sucessos de Hollywood, romances
baratos e sofisticadas campanhas de publicidade. Tomar uma decisão sensata é
particularmente difícil porque na verdade você não sabe o que é preciso para ter
sucesso em diferentes profissões, e não tem consciência de suas próprias forças e
fraquezas. O que é preciso para ter sucesso como advogado? Como é que me saio
quando estou sob pressão? Sou bom em trabalhar em equipe?
Um estudante talvez comece a estudar direito porque tem uma imagem
imprecisa de suas habilidades, e uma visão ainda mais distorcida do que é
realmente ser advogado (não se fazem discursos dramáticos nem se grita
“Protesto, meritíssimo!” todo dia). Enquanto isso, uma amiga decide realizar um
sonho de infância e estudar balé profissional, mesmo não tendo nem a disciplina
nem a estrutura óssea necessárias. Anos mais tarde, ambos se arrependem
profundamente de suas escolhas. No futuro poderíamos confiar no Google para
que tome essas decisões por nós. O Google poderia me dizer que eu
desperdiçaria meu tempo na faculdade de direito ou na escola de balé — mas que
eu daria um excelente (e muito feliz) psicólogo ou encanador.15
Uma vez que a IA toma decisões melhor do que nós sobre carreiras e até
mesmo relacionamentos, nosso conceito de humanidade e de vida terá de mudar.
Humanos costumam pensar sobre a vida como um drama de tomadas de
decisão. A democracia liberal e o capitalismo de livre mercado veem o indivíduo
como um agente autônomo que está constantemente fazendo escolhas no que
tange ao mundo. Obras de arte — sejam peças de Shakespeare, romances de Jane
Austen ou comédias bregas de Hollywood — quase sempre giram em torno de
uma situação na qual o herói tem de tomar uma decisão crucial. Ser ou não ser?
Ouvir o que minha mulher está dizendo e matar o rei Duncan ou ouvir minha
consciência e poupá-lo? Casar com Mr. Collins ou Mr. Darcy? As teologias cristã
e muçulmana também se concentram no drama da tomada de decisões, alegando que a salvação ou a danação eterna dependem de se fazer ou não a escolha certa.
O que acontecerá com essa visão de vida, se cada vez mais nos baseamos na IA
para tomar decisões por nós? Atualmente confiamos na Netflix para escolher
filmes, e no Google Maps para decidir se viramos à direita ou à esquerda. Mas,
uma vez que comecemos a contar com a IA para decidir o que estudar, onde
trabalhar e com quem casar, a vida humana deixará de ser um drama de tomada
de decisão. Eleições democráticas e livres mercados não farão muito sentido.
Assim como a maior parte das religiões e obras de arte. Imagine Anna Kariênina
pegando seu smartphone e perguntando ao algoritmo do Facebook se deveria
continuar casada com Kariênin ou fugir com o galante conde Vrónski. Ou
imagine sua peça favorita de Shakespeare com todas as decisões cruciais sendo
tomadas pelo algoritmo do Google. Hamlet e Macbeth terão vidas muito mais
confortáveis, mas que tipo de vida será exatamente? Temos modelos que sirvam
para dar sentido a essa vida?
Quando a autoridade passa de humanos para algoritmos, não podemos mais
ver o mundo como o campo de ação de indivíduos autônomos esforçando-se por
fazer as escolhas certas. Em vez disso, vamos perceber o universo inteiro como
um fluxo de dados, considerar organismos pouco mais que algoritmos
bioquímicos e acreditar que a vocação cósmica da humanidade é criar um
sistema universal de processamento de dados — e depois fundir-se a ele. Já
estamos nos tornando, hoje em dia, minúsculos chips dentro de um gigantesco
sistema de processamento de dados que ninguém compreende a fundo. Todo dia
eu absorvo incontáveis bits de dados através de e-mails, tuítes e artigos. Na
verdade, não sei onde me encaixo nesse grande esquema de coisas, e como meus
bits de dados se conectam com os bits produzidos por bilhões de outros
humanos e computadores. Não tenho tempo para descobrir, porque eu também
estou ocupado, respondendo a e-mails.
O CARRO FILOSÓFICO
Pode-se dizer que algoritmos jamais poderão tomar decisões importantes por
nós, porque decisões importantes normalmente envolvem uma dimensão ética, e
algoritmos não entendem de ética. No entanto, não há razão para supor que os algoritmos não serão capazes de superar o ser humano médio mesmo na ética. Já
hoje em dia, à medida que dispositivos como smartphones e veículos autônomos
tomam decisões que costumavam ser monopólio humano, eles começam a se
deparar com o mesmo tipo de problemas éticos que têm perturbado os humanos
por milênios.
Por exemplo, suponha que dois garotos correndo atrás de uma bola vejam-se
bem em frente a um carro autodirigido. Com base em seus cálculos instantâneos,
o algoritmo que dirige o carro conclui que a única maneira de evitar atingir os
dois garotos é desviar para a pista oposta, e arriscar colidir com um caminhão
que vem em sentido contrário. O algoritmo calcula que num caso assim há 70%
de probabilidades de que o dono do carro — que dorme no banco traseiro —
morra. O que o algoritmo deveria fazer?16
Filósofos têm debatido o “dilema do bonde” por milênios (é chamado “dilema
do bonde” porque os exemplos didáticos dos debates filosóficos modernos fazem
referência a um bonde desgovernado, e não a carros autodirigidos).17 Até agora
esses debates, lamentavelmente, têm tido pouco impacto no comportamento
efetivo, porque em tempos de crise os humanos, com demasiada frequência,
esquecem suas opiniões filosóficas e seguem suas emoções e seus instintos.
Um dos experimentos mais sórdidos da história das ciências sociais foi
realizado em dezembro de 1970 com um grupo de estudantes do Seminário
Teológico de Princeton aspirantes a ministros da Igreja presbiteriana. Pedia-se a
cada estudante que corresse para uma sala de aula distante para falar sobre a
parábola do Bom Samaritano, que conta como um judeu que viajava de
Jerusalém para Jericó foi roubado e espancado por criminosos, que o deixaram
para morrer, à beira da estrada. Passado algum tempo um sacerdote e um levita
passaram por lá, mas ignoraram o homem. Em contraste, um samaritano —
membro de uma seita muito desprezada pelos judeus — parou quando viu a
vítima, cuidou dela, e salvou sua vida. A moral da parábola é que o mérito
pessoal deveria ser julgado pelo comportamento, e não por afiliação religiosa e
opiniões filosóficas.
Os jovens seminaristas, entusiasmados, corriam para a sala de aula pensando
em como melhor explicar a moral da parábola do bom samaritano. Mas os
responsáveis pelo experimento haviam posto em seu caminho uma pessoa maltrapilha, meio caída e encostada numa porta com a cabeça baixa e os olhos
fechados. Quando cada seminarista, sem suspeitar de nada, passava apressado
por ela, a “vítima” tossia e gemia lamentosamente. A maioria dos seminaristas
nem sequer parou para perguntar o que havia de errado com o homem, muito
menos para oferecer ajuda. O estresse emocional causado pela necessidade de se
apressar para a sala de aula tinha triunfado sobre a obrigação moral de ajudar
estranhos em apuros.18
As emoções humanas triunfam sobre teorias filosóficas em inúmeras outras
situações. Isso torna a história ética e filosófica do mundo uma narrativa
deprimente de ideais maravilhosos e comportamentos menos que ideais.
Quantos cristãos oferecem a outra face, quantos budistas superam obsessões
egoístas, e quantos judeus realmente amam seu próximo como a si mesmos? É a
maneira como a seleção natural moldou o Homo sapiens. Como todos os
mamíferos, o Homo sapiens usa emoções para tomar rapidamente decisões de
vida ou morte. Herdamos nossa raiva, nosso medo e nossa paixão de milhões de
ancestrais, que passaram pelos mais rigorosos testes de qualidade da seleção
natural.
Infelizmente, o que era bom para a sobrevivência e a reprodução na savana
africana 1 milhão de anos atrás não será necessariamente um comportamento
responsável nas rodovias do século XXI. Motoristas humanos distraídos, nervosos
e ansiosos matam mais de 1 milhão de pessoas em acidentes de trânsito todo ano.
Podemos enviar todos os nossos filósofos, profetas e sacerdotes para pregar ética
para esses motoristas — na estrada, emoções de mamíferos e instintos da savana
ainda prevalecem. Consequentemente, seminaristas apressados vão ignorar
pessoas em apuros, e motoristas em crise vão atropelar os infelizes pedestres.
A disjunção entre o seminário e a rua é um dos maiores problemas práticos da
ética. Immanuel Kant, John Stuart Mill e John Rawls podem passar dias
discutindo problemas teóricos de ética numa acolhedora sala da universidade —
mas seriam suas conclusões efetivamente implementadas por motoristas
estressados em meio a uma emergência? Talvez Michael Schumacher — o
campeão da Fórmula 1 aclamado como melhor piloto da história — tivesse a
capacidade de pensar sobre filosofia enquanto dirigia; mas a maioria de nós não é
Schumacher.
Os algoritmos de computação, no entanto, não foram moldados pela seleção
natural, e não têm emoções nem instintos viscerais. Daí que em momentos de
crise eles poderiam seguir diretrizes éticas muito melhor que os humanos —
contanto que encontremos uma maneira de codificar a ética em números e
estatísticas precisos. Se ensinarmos Kant, Mill e Rawls a escrever um programa,
eles poderão programar cuidadosamente um carro autodirigido em seus
acolhedores laboratórios, e ter a certeza de que o carro seguirá seus comandos na
rua. Com efeito, todo carro será dirigido por Michael Schumacher e Immanuel
Kant combinados numa só pessoa.
Assim, se você programar um carro autodirigido para que pare e ajude
estranhos em apuros, ele fará isso aconteça o que acontecer (a menos, é claro,
que você insira uma cláusula de exceção para determinados cenários). Da mesma
forma, se seu carro autodirigido estiver programado para desviar para a pista
oposta a fim de salvar os dois garotos que estão em seu caminho, pode apostar
sua vida que é exatamente isso que ele fará. O que significa que, ao projetar seus
carros autodirigidos, a Toyota ou a Tesla vão transformar um problema teórico
de filosofia da ética num problema prático de engenharia.
Com certeza, os algoritmos filosóficos nunca serão perfeitos. Erros ainda vão
acontecer, resultando em ferimentos, mortes e processos judiciais extremamente
complicados. (Pela primeira vez na história, você poderá processar um filósofo
pelos infelizes resultados de suas teorias, porque pela primeira vez na história
você poderá provar que há uma ligação causal direta entre ideias filosóficas e
eventos da vida real.) Contudo, para poder assumir o papel de motoristas
humanos, os algoritmos terão de ser perfeitos. Terão de ser melhores que os
humanos. Considerando que motoristas humanos matam mais de 1 milhão de
pessoas todo ano, não será tão difícil assim. Tudo isso dito e feito, você ia preferir
que o carro atrás do seu estivesse sendo dirigido por um adolescente bêbado ou
pela equipe Schumacher-Kant?19
A mesma lógica vale não só para a direção de automóveis, mas para muitas
outras situações. Veja, por exemplo, o caso de candidatos a emprego. No século
XXI, a decisão de contratar alguém para um emprego será cada vez mais tomada
por algoritmos. Não podemos confiar na máquina para estabelecer os padrões
éticos relevantes — os humanos sempre terão de fazer isso. Mas, uma vez que decidamos por um padrão ético no mercado de trabalho — por exemplo, que é
errado discriminar mulheres, ou pessoas negras —, poderemos confiar em
máquinas para implementar e manter esse padrão melhor que os humanos.20
Um gerente humano pode saber e concordar que é antiético discriminar
pessoas negras e mulheres, mas, quando uma mulher negra se candidata a um
emprego, o gerente subconscientemente a discrimina e decide não contratá-la. Se
permitirmos que um computador avalie os pedidos de emprego, e
programarmos o computador para ignorar completamente raça e gênero,
podemos ter certeza de que o computador vai ignorar esses fatores, porque
computadores não têm subconsciência. Claro, não será fácil escrever o programa
de avaliação de pedidos de emprego, sempre haverá o perigo de que engenheiros,
de algum modo, incluam seus próprios vieses subconscientes no software.21 Mas,
uma vez descobertos esses erros, provavelmente será muito mais fácil corrigir o
software do que livrar humanos de seus vieses racistas ou misóginos.
Vimos que o surgimento da inteligência artificial pode expulsar muitos
humanos do mercado de trabalho — inclusive motoristas e guardas de trânsito
(quando humanos arruaceiros forem substituídos por algoritmos, guardas de
trânsito serão supérfluos). No entanto, poderá haver algumas novas aberturas
para os filósofos, haverá subitamente grande demanda por suas qualificações —
até agora destituídas de quase todo valor de mercado. Assim, se você quer
estudar algo que lhe assegure um bom emprego no futuro, talvez a filosofia não
seja uma aposta tão ruim.
É claro que filósofos raramente concordam em qual é a linha correta de ação.
Poucos “dilemas do bonde” têm sido resolvidos de modo a satisfazer todos os
filósofos, e pensadores consequencialistas como John Stuart Mill (que julga a
ação pelas suas consequências) têm opiniões bem diferentes das dos
deontologistas como Immanuel Kant (que julga as ações segundo regras
absolutas). Será que a Tesla tem de tomar posição quanto a questões tão
complicadas para fabricar carros?
Bem, talvez a Tesla deixe isso a cargo do mercado. A montadora vai fabricar
dois modelos de carro autodirigido: o Tesla Altruísta e o Tesla Egoísta. Numa
emergência, o Altruísta sacrifica seu dono pelo bem maior, enquanto o Egoísta
faz tudo o que pode para salvar seu dono, mesmo que isso signifique matar os dois garotos. Os clientes poderão então comprar o carro que melhor se encaixe
em sua visão filosófica. Se mais pessoas comprarem o Tesla Egoísta a culpa não
será da Tesla. Afinal, o cliente sempre tem razão.
Isso não é uma brincadeira. Num estudo pioneiro, em 2015, apresentou-se a
pessoas um cenário hipotético de um carro autodirigido na iminência de
atropelar vários pedestres. A maioria disse que nesse caso o carro deveria salvar
os pedestres mesmo que custasse a vida de seu proprietário. Quando lhes
perguntaram se eles comprariam um carro programado para sacrificar seu
proprietário pelo bem maior, a maioria respondeu que não. Para eles mesmos,
iam preferir o Tesla Egoísta.22
Imagine a situação: você comprou um carro novo, mas antes de começar a
usá-lo tem de abrir o menu de configurações e escolher cada uma das diversas
opções. Em caso de acidente, quer que o carro sacrifique sua vida — ou que mate
a família no outro veículo? Essa é uma escolha que você quer mesmo fazer?
Pense nas discussões que vai ter com seu marido sobre qual opção escolher.
Assim, talvez o Estado devesse intervir para regular o mercado, e instituir um
código ético a ser obedecido por todos os carros autodirigidos? Sem dúvida
alguns legisladores ficarão emocionados com a oportunidade de finalmente fazer
leis que serão sempre seguidas à risca. Outros talvez fiquem alarmados com essa
responsabilidade sem precedentes e totalitária. Afinal, no decorrer da história as
limitações da aplicação da lei proporcionaram um controle bem-vindo dos
vieses, erros e excessos dos legisladores. Foi uma grande sorte o fato de as leis
contra o homossexualismo e a blasfêmia só terem sido parcialmente aplicadas.
Será que queremos mesmo um sistema no qual as decisões de políticos se tornem
tão inexoráveis quanto a gravidade?
DITADURAS DIGITAIS
As pessoas temem a IA porque não confiam na obediência da IA. Já assistimos
a muitos filmes de ficção científica sobre robôs que se rebelam contra seus
senhores humanos e correm desenfreados pelas ruas trucidando todo mundo.
Mas o problema real com robôs é exatamente o oposto. Devemos ter medo deles
porque sempre obedecerão a seus senhores e nunca se rebelarão.
Não há nada de errado com a obediência cega, é claro, enquanto os robôs
servirem a senhores benignos. Mesmo numa guerra, a dependência de robôs
matadores poderia garantir que, pela primeira vez na história, as regras da guerra
seriam realmente obedecidas no campo de batalha. Soldados humanos são às
vezes levados por suas emoções a assassinar, saquear e estuprar, violando as leis
da guerra. Normalmente associamos emoções a compaixão, amor e empatia, mas
em tempos de guerra as emoções que assumem o controle são muito
frequentemente o medo, o ódio e a crueldade. Como robôs não têm emoções,
poder-se-ia confiar que eles sempre seguiriam rigorosamente o código militar, e
nunca seriam levados por temores e ódios pessoais.23
Em 16 de março de 1968, uma companhia de soldados americanos ficou
ensandecida na aldeia vietnamita de My Lai e massacrou cerca de quatrocentos
civis. Esse crime de guerra resultou da iniciativa local de homens que tinham
estado envolvidos numa guerrilha na selva durante vários meses. Não tinha
nenhum objetivo estratégico, e transgredia tanto o código de conduta quanto a
política militar dos Estados Unidos. Foi por culpa das emoções humanas.24 Se os
Estados Unidos tivessem colocado robôs assassinos no Vietnã, o massacre de My
Lai jamais teria ocorrido.
Entretanto, antes de sairmos correndo para desenvolver e pôr em ação robôs
assassinos, precisamos lembrar que robôs sempre refletem e ampliam as
qualidades de sua programação. Se o programa é contido e benigno — os robôs
provavelmente representarão uma imensa melhora em relação ao soldado
humano médio. Mas se o programa for implacável e cruel — os resultados serão
catastróficos. O verdadeiro problema com robôs não está em sua inteligência
artificial, mas na estupidez e crueldade naturais de seus senhores humanos.
Em julho de 1995, tropas sérvias da Bósnia massacraram mais de 8 mil
muçulmanos bósnios no entorno da cidade de Srebrenica. Diferentemente do
massacre aleatório de My Lai, a matança em Srebrenica foi uma ação prolongada
e bem organizada que refletiu a política sérvia que visava a uma Bósnia
“etnicamente purificada” de muçulmanos.25 Se os sérvios da Bósnia tivessem
robôs assassinos em 1995, isso provavelmente teria feito a atrocidade ser pior, e
não melhor. Nenhum robô hesitaria um só momento no cumprimento de
quaisquer ordens que recebesse, e não teria poupado a vida de uma única criança muçulmana por sentimentos de compaixão, repulsa ou mera letargia.
Um ditador cruel armado com robôs assassinos não precisaria ter medo de
que seus soldados se voltassem contra ele, não importa quão perversas e loucas
fossem suas ordens. Um exército de robôs provavelmente teria sufocado a
Revolução Francesa em seu berço em 1789, e se em 2011 Hosni Mubarak
dispusesse de um contingente de robôs assassinos ele poderia lançá-los sobre a
população sem medo de deserções. Da mesma forma, um governo imperialista
que contasse com um exército de robôs poderia travar guerras impopulares sem
nenhuma preocupação de que seus robôs perdessem a motivação, ou que suas
famílias protestassem. Se os Estados Unidos tivessem robôs assassinos na Guerra
do Vietnã, o massacre de My Lai poderia ter sido evitado, mas a guerra em si
mesma poderia ter se arrastado por muitos anos, porque o governo americano
teria menos preocupações com soldados desmoralizados, com protestos em
massa contra a guerra, ou com um movimento de “robôs veteranos contra a
guerra” (alguns cidadãos americanos ainda poderiam se opor à guerra, mas sem
o medo de serem eles mesmos convocados, sem a memória de terem
pessoalmente cometido atrocidades, ou da perda dolorosa de um parente
querido, os manifestantes provavelmente seriam menos numerosos e menos
envolvidos).26
Problemas como esses são muito menos relevantes no que concerne a veículos
autônomos civis porque nenhum fabricante de automóveis vai programar
maliciosamente seus carros para matar pessoas. Sistemas de armas autônomos,
no entanto, são uma catástrofe iminente, porque a maioria dos governos são
eticamente corruptos, se não explicitamente malignos.
O perigo não se restringe a máquinas de matar. Sistemas de vigilância podem
ser igualmente arriscados. Nas mãos de um governo benigno, algoritmos
poderosos de vigilância podem ser a melhor coisa que já aconteceu ao gênero
humano. Mas os mesmos algoritmos de Big Data podem também dar poder a
um futuro Grande Irmão, e podemos acabar em um regime de vigilância
orwelliano, no qual todo mundo é monitorado o tempo todo.27
O resultado pode ser algo que nem mesmo Orwell foi capaz de imaginar: um
regime de vigilância total que não apenas acompanha nossas atividades e
pronunciamentos externos como é capaz até mesmo de penetrar nossa pele e observar nossas experiências interiores. Considere por exemplo o que o regime
de Kim, na Coreia do Norte, poderia fazer com a nova tecnologia. No futuro,
poder-se-ia requerer de cada cidadão norte-coreano que usasse um bracelete
biométrico que monitora tudo o que se faz ou se diz — assim como a pressão
sanguínea e a atividade cerebral. Usando nossa crescente compreensão do
cérebro humano, e os imensos poderes do aprendizado de máquina, o regime
norte-coreano poderia desenvolver a capacidade de, pela primeira vez na
história, avaliar o que todo e cada cidadão está pensando em todo e cada
momento. Se você olhar para um retrato de Kim Jong-un e os sensores
biométricos detectarem sinais indicadores de raiva (elevação da pressão
sanguínea, aumento de atividade na amígdala cerebral) —, amanhã de manhã
você estará no gulag.
Com certeza, devido a seu isolamento, o regime norte-coreano poderá ter
dificuldade para desenvolver sozinho a tecnologia necessária. No entanto, a
tecnologia poderia ser introduzida pioneiramente em nações de tecnologia mais
avançada e copiada ou comprada pelos norte-coreanos e outras ditaduras
retrógradas. A China e a Rússia estão constantemente aperfeiçoando suas
ferramentas de vigilância, assim como vários países democráticos, desde os
Estados Unidos até Israel, onde vivo. Apelidada de “nação das empresas start-
up”, Israel tem um setor de alta tecnologia extremamente vigoroso, e uma
indústria de segurança cibernética de ponta. Ao mesmo tempo também está
encerrado num conflito mortal com os palestinos, e pelo menos alguns de seus
líderes, generais e cidadãos gostariam muito de criar um regime de vigilância
total na Cisjordânia assim que dispuserem da tecnologia necessária.
Hoje, quando palestinos fazem uma ligação telefônica, postam alguma coisa
no Facebook ou viajam de uma cidade para outra, é possível que estejam sendo
monitorados por microfones, câmeras, drones ou softwares espiões israelenses.
Os dados reunidos são depois analisados com a ajuda de algoritmos de Big Data.
Isso ajuda as forças de segurança de Israel a identificar e neutralizar ameaças
potenciais sem o uso de tropas no local. Os palestinos podem administrar
algumas cidades e aldeias na Cisjordânia, mas os israelenses controlam o céu, as
ondas de rádio e o ciberespaço. Por isso é surpreendentemente pequeno o
número de soldados israelenses que controlam cerca de 2,5 milhões de palestinos
na Cisjordânia.28
Num incidente tragicômico em outubro de 2017, um trabalhador palestino
postou em sua conta privada no Facebook uma foto sua no trabalho, ao lado de
uma escavadeira. Junto à imagem ele escreveu “Bom dia!”. Um algoritmo
automático cometeu um pequeno erro ao transliterar as letras árabes. Em vez de
“Ysabechhum!” (“bom dia”), o algoritmo identificou as letras como escrevendo
“Ydbachhum” (“mate-os”). Suspeitando que o homem pudesse ser um terrorista
que tencionava usar uma escavadeira para atropelar pessoas, as forças de
segurança de Israel rapidamente o prenderam. Foi libertado depois que
constataram que o algoritmo havia cometido um erro. Mas assim mesmo o post
ofensivo no Facebook foi retirado. Cuidado nunca é demais.29 O que os
palestinos estão experimentando hoje na Cisjordânia pode ser uma previsão
inicial do que bilhões experimentarão em todo o planeta no futuro.
No final do século XX as democracias no geral superaram as ditaduras porque
são melhores no processamento de dados. A democracia difunde o poder para
processar informação e as decisões são tomadas por muitas pessoas e
instituições, enquanto a ditadura concentra informação e poder num só lugar.
Dada a tecnologia do século XX, seria ineficiente concentrar informação e poder
demais num só lugar. Ninguém tinha capacidade para processar toda a
informação com rapidez suficiente para tomar decisões corretas. Essa é em parte
a razão de a União Soviética ter tomado decisões muito piores que as dos Estados
Unidos, e de a economia soviética ter ficado bem atrás da economia americana.
Entretanto, em breve a IA poderá fazer o pêndulo oscilar para a direção oposta.
A IA possibilita o processamento de enormes quantidades de informação
centralizada. Na verdade, a IA pode fazer com que sistemas centralizados sejam
muito mais eficientes do que sistemas difusos, porque o aprendizado de máquina
funciona melhor quanto mais informação for capaz de analisar. Se você
concentrar toda a informação relativa a 1 bilhão de pessoas numa única base de
dados, desconsiderando qualquer preocupação com privacidade, será capaz de
instruir muito mais algoritmos do que se respeitasse a privacidade individual e
tivesse em sua base de dados apenas informações parciais sobre 1 milhão de
pessoas. Por exemplo, se um governo autoritário ordenar a todos os seus
cidadãos que tenham seu DNA escaneado e que compartilhem todos os seus dados médicos com alguma autoridade central, ele terá uma enorme vantagem
em pesquisa genética e médica em relação a sociedades nas quais os dados
médicos são estritamente privados. A principal desvantagem dos regimes
autoritários do século XX — a tentativa de concentrar toda a informação num só
lugar — pode se tornar a vantagem decisiva no século XXI.
Quando os algoritmos passarem a nos conhecer tão bem, governos
autoritários poderiam obter o controle absoluto de seus cidadãos, ainda mais do
que na Alemanha nazista, e a resistência a esses regimes poderá ser totalmente
impossível. Não só o regime saberá o que você sente — ele poderia fazer você
sentir o que ele quiser. O ditador poderia não ser capaz de prover o cidadão de
serviços de saúde ou igualdade, mas seria capaz de fazer com que ele o amasse e
odiasse seus adversários. A democracia em seu formato atual não será capaz de
sobreviver à fusão da biotecnologia com a tecnologia da informação. Ou a
democracia se reinventa com sucesso numa forma radicalmente nova, ou os
humanos acabarão vivendo em “ditaduras digitais”.
Não será um retorno à época de Hitler e Stálin. As ditaduras digitais serão tão
diferentes da Alemanha nazista quanto a Alemanha nazista foi diferente do
Antigo Regime na França. Luís XIV era um autocrata centralizador, mas não
tinha tecnologia para construir um Estado totalitário moderno. Não teve
oposição a seu governo, mas na ausência de rádios, telefones e trens, tinha pouco
controle sobre a vida cotidiana de camponeses em aldeias remotas da Bretanha,
ou mesmo de citadinos no coração de Paris. Tampouco tinha vontade ou
capacidade de estabelecer um partido popular, um movimento de jovens em
todo o país, ou um sistema nacional de educação.30 Foram as novas tecnologias
do século XX que deram a Hitler tanto a motivação quanto o poder de fazer coisas
desse tipo. Não podemos prever quais serão as motivações e poderes das
ditaduras digitais em 2084, mas é muito pouco provável que só copiem Hitler e
Stálin. Os que se dispuserem a lutar novamente as mesmas batalhas da década de
1930 poderão ser surpreendidos, indefesos, por um ataque provindo de uma
direção totalmente diferente.
Mesmo que a democracia consiga se adaptar e sobreviver, as pessoas podem
tornar-se as vítimas de novos tipos de opressão e discriminação. Já hoje em dia,
cada vez mais bancos, corporações e instituições estão usando algoritmos para analisar dados e tomar decisões a nosso respeito. Quando você pede um
empréstimo a seu banco, é provável que seu pedido seja processado por um
algoritmo e não por um humano. O algoritmo analisa grande quantidade de
dados sobre você e estatísticas sobre milhões de outras pessoas, e decide se você é
confiável o bastante para receber um empréstimo. Frequentemente, o algoritmo
faz o trabalho melhor do que faria um gerente. Mas o problema é que se o
algoritmo discriminar injustamente certas pessoas, será difícil saber. Se o banco
se recusar a lhe dar um empréstimo e você perguntar por quê, o banco
responderá: “O algoritmo disse que não”. Você pergunta: “Por que o algoritmo
disse não? O que há de errado comigo?”, e o banco responde: “Não sabemos.
Nenhum humano entende esse algoritmo, porque é baseado num aprendizado
de máquina avançado. Mas confiamos em nosso algoritmo, por isso não lhe
daremos um empréstimo”.31
Quando se discriminam grupos inteiros, como mulheres ou negros, esses
grupos podem se organizar e protestar contra a discriminação coletiva. Mas
agora um algoritmo seria capaz de discriminar você individualmente, sem que
você saiba por quê. Talvez o algoritmo tenha encontrado alguma coisa da qual
não gostou em seu DNA, em sua história pessoal ou em sua conta no Facebook. O
algoritmo teria discriminado você não porque é mulher ou negro — mas porque
você é você. Há algo específico em você de que o algoritmo não gosta. Você não
sabe o que é, e mesmo se soubesse não poderia organizar um protesto com outras
pessoas, porque não há outras pessoas que sejam alvo do mesmo preconceito. É
só você. Em vez de só discriminação coletiva, no século XXI talvez deparemos
com um crescente problema de discriminação individual.32
Nos níveis mais altos da autoridade provavelmente ainda teremos figurantes
humanos, que nos darão a ilusão de que os algoritmos são apenas conselheiros, e
que a autoridade final ainda está em mãos humanas. Não vamos nomear uma IA
chanceler da Alemanha ou CEO do Google. No entanto, as decisões tomadas pelo
chanceler da Alemanha ou pelo CEO do Google serão formuladas pela IA. O
chanceler ainda poderia escolher entre várias opções diferentes, mas todas seriam
resultado da análise feita por Big Data, e refletirão mais como a IA vê o mundo do
que como os humanos o veem.
Para citar um exemplo análogo, hoje políticos de todo o mundo podem escolher entre várias políticas econômicas diferentes, mas em quase todos os
casos as várias políticas em oferta refletem uma perspectiva capitalista da
economia. Os políticos têm uma ilusão de escolha, mas as decisões realmente
importantes já terão sido tomadas antes pelos economistas, banqueiros e homens
de negócio, que formataram as diferentes opções no menu. Dentro de algumas
décadas, os políticos estarão escolhendo opções de um menu escrito pela IA.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E ESTUPIDEZ NATURAL
Uma boa notícia é que pelo menos nas próximas poucas décadas não teremos
de lidar com esse absoluto pesadelo de ficção científica em que a IA adquire
consciência e decide escravizar ou aniquilar a humanidade. Cada vez mais vamos
confiar nos algoritmos para que tomem decisões por nós, mas não é provável que
os algoritmos comecem conscientemente a nos manipular. Eles não terão
consciência.
A ficção científica tende a confundir inteligência com consciência, e supõe que
para se equipar ou suplantar a inteligência humana os computadores terão de
desenvolver consciência. O enredo básico de quase todos os filmes e livros sobre
IA gira em torno do momento mágico no qual um computador ou robô ganha
consciência. Tendo acontecido isso, ou o herói humano se apaixona pelo robô,
ou o robô tenta matar todos os humanos, ou ambas as coisas acontecem
simultaneamente.
Porém na realidade não há motivo para supor que a inteligência artificial vá
desenvolver consciência, porque inteligência e consciência são coisas muito
diferentes. Inteligência é a aptidão para resolver problemas. Consciência é a
aptidão para sentir coisas como dor, alegria, amor e raiva. Tendemos a confundir
os dois porque nos humanos e nos outros mamíferos a inteligência anda de mãos
dadas com a consciência. Mamíferos resolvem a maioria dos problemas sentindo
coisas. Computadores, no entanto, resolvem problemas de maneira muito
diversa.
Há vários caminhos diferentes que levam a uma grande inteligência, e apenas
alguns desses caminhos envolvem a tomada de consciência. Assim como os
aviões voam mais rápido que aves sem jamais desenvolver penas, também os computadores podem resolver problemas muito melhor do que mamíferos sem
jamais desenvolver sentimentos. É verdade que a IA terá de analisar sentimentos
humanos com muita precisão para ser capaz de tratar doenças humanas,
identificar terroristas humanos, recomendar parceiros humanos e percorrer uma
rua cheia de pedestres humanos. Mas poderia fazer isso sem ter sentimentos
próprios. Um algoritmo não precisa sentir alegria, raiva ou medo para
reconhecer os diferentes padrões bioquímicos de macacos alegres, irados ou
assustados.
Claro, não é de todo impossível que a IA desenvolva seus próprios
sentimentos. Ainda não sabemos o bastante sobre a consciência para ter certeza.
Em geral, há três possibilidades que precisamos levar em consideração:
1. A consciência está, de alguma forma, ligada à bioquímica orgânica de tal
modo que nunca será possível criar consciência em sistemas não orgânicos.
2. A consciência não está ligada à bioquímica orgânica, mas está ligada à
inteligência de tal modo que os computadores poderiam desenvolver
consciência, e computadores terão de desenvolver consciência se ultrapassarem
um certo limiar da inteligência.
3. Não há ligações essenciais entre consciência e bioquímica orgânica nem
entre consciência e alta inteligência. Daí que os computadores poderiam
desenvolver consciência — mas não necessariamente. Poderiam tornar-se
superinteligentes mesmo tendo consciência zero.
No estágio atual de conhecimento, não podemos descartar nenhuma dessas
opções. Mas, precisamente porque sabemos tão pouco sobre a consciência,
parece improvável que possamos programar computadores conscientes em
algum momento próximo. Por isso, apesar do imenso poder da inteligência
artificial, num futuro previsível seu uso continuará a depender em alguma
medida da consciência humana.
O perigo é que se investirmos demais no desenvolvimento da IA e de menos
no desenvolvimento da consciência humana, a simples inteligência artificial
sofisticada dos computadores poderia servir apenas para dar poder à estupidez
natural dos humanos. É improvável que enfrentemos uma rebelião de robôs nas próximas décadas, mas poderíamos ter de lidar com hordas de bots que sabem,
melhor do que nossas mães, como manipular nossas emoções e usar essa
misteriosa habilidade para tentar nos vender alguma coisa — seja um carro, um
político ou toda uma ideologia. Os robôs poderiam identificar nossos temores,
ódios e desejos mais profundos, e usar essas alavancas interiores contra nós. Já
tivemos uma amostra disso em eleições e referendos recentes por todo o mundo,
quando hackers aprenderam como manipular eleitores individuais analisando
dados sobre eles e explorando seus preconceitos.33 Enquanto os filmes de ficção
científica terminam em apocalipses dramáticos com fogo e fumaça, na realidade
podemos estar a um clique de um apocalipse banal.
Para evitar tais resultados, para cada dólar e cada minuto que investimos no
desenvolvimento de inteligência artificial, seria sensato investir um dólar e um
minuto em avançar a consciência humana. Infelizmente, não estamos fazendo
muita coisa para pesquisar e desenvolver a consciência humana. Estamos
pesquisando e desenvolvendo habilidades humanas principalmente em função
das necessidades imediatas do sistema econômico e político, e não de acordo
com nossas necessidades de longo prazo como seres conscientes. Meu chefe quer
que eu responda aos e-mails o mais rápido possível, mas tem pouco interesse em
minha capacidade de saborear e apreciar a comida que estou comendo.
Consequentemente, eu verifico meus e-mails durante as refeições, enquanto vou
perdendo a capacidade de prestar atenção a minhas próprias sensações. O
sistema econômico me pressiona a expandir e diversificar minha carteira de
investimentos, mas me dá zero incentivo para expandir e diversificar minha
compaixão. Assim, eu me esforço cada vez mais para entender os mistérios da
bolsa de valores, e cada vez menos para compreender as causas profundas do
sofrimento.
Nisso, os humanos são semelhantes a outros animais domésticos. Temos
criado vacas dóceis que produzem enormes quantidades de leite, mas que de
resto são muito inferiores a seus ancestrais selvagens. São menos ágeis, menos
curiosas e menos dotadas de recursos.34 Estamos criando agora homens
domesticados que produzem enormes quantidades de dados e funcionam como
chips muito eficientes num enorme mecanismo de processamento de dados, mas
essas vacas de dados estão longe de atingir seu potencial máximo. Na verdade, não temos ideia de qual seja ele, porque sabemos muito pouco sobre nossa mente
e, em vez de investir na sua exploração, nos concentramos em aumentar a
velocidade de nossas conexões à internet e a eficiência de nossos algoritmos de
Big Data. Se não formos cuidadosos, vamos acabar tendo humanos degradados
fazendo mau uso de computadores sofisticados para causar estragos em si
mesmos e no mundo.
Ditaduras digitais não são o único perigo que nos aguarda. Juntamente com a
liberdade, a ordem liberal também dá grande valor à igualdade. O liberalismo
sempre zelou pela liberdade política, e gradualmente veio a se dar conta de que a
igualdade econômica é quase tão importante. Pois sem uma rede de segurança
social e um mínimo de igualdade econômica, a liberdade não tem sentido. Mas,
assim como os algoritmos de Big Data poderiam extinguir a liberdade, eles
poderiam simultaneamente criar a sociedade mais desigual que já existiu. Toda a
riqueza e todo o poder do mundo poderiam se concentrar nas mãos de uma
minúscula elite, enquanto a maior parte do povo sofreria, não de exploração, mas
de algo muito pior — irrelevância.