21 Lições para o Século 21

Yuval Noah Harari · Capítulo 21 de 26

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21 Lições para o Século 21

16. Justiça: Nosso senso de justiça pode estar desatualizado

16. Justiça

Nosso senso de justiça pode estar desatualizado

 

Como todos os nossos outros sensos, nosso senso de justiça tem antigas raízes

evolutivas. A moralidade humana foi moldada no decurso de milhões de anos de

evolução, adaptada para lidar com os dilemas sociais e éticos que surgiram na

vida de pequenos bandos de caçadores-coletores. Se eu saísse para caçar com

você e matasse um veado, e você não pegasse nada, eu deveria compartilhar meu

butim com você? Se você fosse colher cogumelos e voltasse com um cesto cheio,

o fato de eu ser mais forte que você permite que pegue todos esses cogumelos

para mim? E se eu souber que você está tramando me matar, tudo bem se eu agir

preventivamente e cortar sua garganta na escuridão da noite?1

À primeira vista, as coisas não mudaram muito desde que deixamos as savanas

africanas e fomos para a selva urbana. Poderíamos pensar que as questões que

enfrentamos hoje — a guerra civil na Síria, a desigualdade global, o aquecimento

global — são só as mesmas antigas questões em grande escala. Mas isso é uma

ilusão. O tamanho importa, e do ponto de vista da justiça, como de muitos

outros pontos de vista, é difícil dizer que estamos adaptados ao mundo no qual

vivemos.

O problema não é de valores. Sejam seculares ou religiosos, os cidadãos do

século XXI têm muitos valores. O problema é implementar esses valores num

mundo global complexo. É tudo culpa dos números. O senso de justiça dos

nossos ancestrais era estruturado para lidar com dilemas relativos à vida de

algumas dezenas de pessoas em poucas dezenas de quilômetros quadrados.

Quando tentamos compreender relações entre milhões de pessoas em

continentes inteiros, nosso senso moral fica assoberbado.

A justiça exige não apenas um conjunto de valores abstratos, mas também

uma compreensão das relações concretas de causa e efeito. Se você coletou

cogumelos para alimentar seus filhos e eu tiro de você à força o cesto de

cogumelos, o que quer dizer que todo seu esforço foi em vão e seus filhos irão

dormir com fome, isso é injusto. É fácil perceber isso, porque é fácil ver as

relações de causa e efeito. Infelizmente, uma característica inerente a nosso

mundo global moderno é que suas relações causais são muito ramificadas e

complexas. Eu posso estar vivendo pacificamente em minha casa, nunca ter

levantado um dedo contra ninguém, e ainda assim, de acordo com ativistas da

esquerda, ser um conivente de soldados israelenses e colonos na Cisjordânia. De

acordo com os socialistas, minha vida confortável baseia-se no labor de crianças

em locais de trabalho sombrios e degradados. Os defensores do bem-estar dos

animais lembram-me que minha vida está entrelaçada com um dos mais

pavorosos crimes na história — a subjugação de bilhões de animais de criação a

um regime brutal de exploração.

Posso realmente ser culpado por tudo isso? Não é fácil dizer. Como dependo,

para existir, de uma espantosa rede de laços econômicos e políticos, e como as

conexões causais globais são tão intricadas, é difícil responder até às mais simples

perguntas, como de onde vem meu almoço, quem fez os sapatos que estou

calçando e o que o meu fundo de pensão está fazendo com meu dinheiro.2

 

ROUBANDO RIOS

 

Um caçador-coletor sabia muito bem de onde vinha seu almoço (ele mesmo o

obtinha), quem fazia seus mocassins (dormia a vinte metros dele) e o que estava

fazendo seu fundo de pensão. (Estava brincando na lama. Naquela época as

pessoas só tinham um fundo de pensão, chamado “filhos”.) Sou muito mais

ignorante do que um caçador-coletor. Anos de pesquisa podem revelar que o

governo no qual votei está secretamente vendendo armas a um sombrio ditador

no outro lado do mundo. Mas, durante o tempo que me leva para descobrir isso,

eu poderia estar perdendo descobertas muito mais importantes, como o destino

das galinhas cujos ovos eu comi no jantar.

O sistema está estruturado de tal maneira que aqueles que não se esforçam por saber podem permanecer numa feliz ignorância, e os que fazem um esforço vão

descobrir que é muito difícil saber a verdade. Como é possível impedir o roubo

quando o sistema econômico global está incessantemente roubando, em meu

nome e sem meu conhecimento? Não importa se você julga ações por suas

consequências (é errado roubar porque isso prejudica as vítimas) ou se acredita

em deveres categóricos que devem ser cumpridos independentemente das

consequências (roubar é errado porque assim disse Deus). O problema é que se

tornou complicado demais ter noção do que estamos de fato fazendo.

O mandamento de não roubar foi formulado numa época na qual roubo

significava tomar, com suas próprias mãos, algo que não lhe pertence. Mas hoje

roubo remete a cenários completamente diferentes. Suponha que eu invista 10

mil dólares em ações de uma grande empresa petroquímica, que me provê um

retorno anual de 5% de meu investimento. A corporação é muito lucrativa,

porque não paga por danos colaterais. Ela despeja lixo tóxico num rio próximo

sem se importar com os danos para os reservatórios de água da região, para a

saúde pública ou para a fauna local. Usa sua riqueza para recrutar uma legião de

advogados que a defendem de qualquer exigência de indenização. Conta também

com lobistas que bloqueiam toda tentativa de criação de leis mais rigorosas de

regulação ambiental.

Podemos acusar a empresa de “roubar um rio”? E quanto a mim,

pessoalmente? Eu nunca arrombo a casa ou roubo dinheiro da bolsa de ninguém.

Não tenho conhecimento de como essa corporação específica está gerando seus

lucros. Mal me recordo que parte de minha carteira está investida nela. Sendo

assim, sou culpado por roubo? Como podemos agir moralmente quando não

temos como conhecer todos os fatos relevantes?

Pode-se tentar esquivar do problema adotando uma “moralidade de

intenções”. O importante é o que eu pretendo, não o que efetivamente faço, ou o

resultado do que faço. No entanto, num mundo no qual tudo é interconectado, o

supremo imperativo moral torna-se o imperativo de saber. Os maiores crimes na

história moderna resultaram não só de ódio ou ganância, mas principalmente de

ignorância e indiferença. Encantadoras damas inglesas financiaram o tráfico de

escravos no Atlântico comprando ações e títulos na Bolsa de Londres, sem nunca

terem posto o pé na África ou no Caribe. Elas depois adoçavam o chá das quatro com cubos de açúcar brancos como a neve, produzidos em plantations infernais

— sobre as quais elas nada sabiam.

Na Alemanha, no fim da década de 1930, o gerente de um posto de correio

local poderia ser um cidadão íntegro cuidando do bem-estar de seus funcionários

e ajudando pessoalmente pessoas angustiadas a encontrar seus pacotes

desaparecidos. Era sempre o primeiro a chegar ao trabalho e o último a sair, e,

mesmo quando havia tempestades de neve, assegurava-se de que a

correspondência chegasse no horário. Mas, infelizmente, sua eficiente e

hospitaleira agência de correios era uma célula vital no sistema nervoso do

Estado nazista. Estava distribuindo propaganda racista, ordens de recrutamento

para a Wehrmacht e drásticas instruções para a sede local das SS. Algo está errado

quanto às intenções de quem não faz um esforço sincero para saber.

Mas o que pode ser considerado “um esforço sincero para saber”? Deveriam

os chefes dos correios em cada país abrir a correspondência que estão

entregando e se demitirem ou se revoltarem se descobrirem propaganda do

governo? É fácil olhar retrospectivamente para a Alemanha nazista de década de

1930 com absoluta certeza moral — porque sabemos aonde chegou essa corrente

de causas e efeitos. Mas, sem a vantagem da visão retrospectiva, a certeza moral

pode estar fora de nosso alcance. A verdade amarga é que o mundo ficou

complicado demais para nosso cérebro de caçadores-coletores.

A maior parte das injustiças no mundo contemporâneo resulta de vieses

estruturais em grande escala, e não de preconceitos individuais, e nosso cérebro

de caçadores-coletores não evoluiu a ponto de detectar vieses estruturais. Somos

cúmplices de pelo menos alguns desses vieses, e simplesmente não temos tempo

nem energia para descobrir todos eles. O processo de escrever este livro me

ensinou essa lição, num nível pessoal. Quando discuto questões globais, estou

sempre correndo perigo de privilegiar o ponto de vista da elite global em relação

ao de vários grupos desfavorecidos. A elite global comanda a conversa, assim é

impossível ignorar suas opiniões. Grupos desfavorecidos, em contraste, são

rotineiramente silenciados, e assim fica fácil se esquecer deles — não por malícia

deliberada, mas por pura ignorância.

Por exemplo, não sei absolutamente nada sobre as opiniões e os problemas

específicos e singulares dos aborígenes da Tasmânia. Na verdade, sei tão pouco sobre eles que num livro anterior presumi que os aborígenes da Tasmânia não

existem mais, porque foram todos aniquilados por colonizadores europeus. Na

verdade, existem hoje milhares de pessoas vivas cujos ancestrais remontam à

população aborígene da Tasmânia, e que enfrentam muitos problemas que lhes

são únicos — um dos quais é que sua própria existência é frequentemente

negada, até mesmo por estudiosos instruídos.

Mesmo que você pertença a um grupo desfavorecido, e tenha em primeira

mão uma compreensão de seus pontos de vista, isso não significa que você

compreende o ponto de vista de todos os outros grupos semelhantes. Pois cada

grupo e subgrupo estão diante de diferentes emaranhados de fragilidades,

tratamentos desiguais, insultos codificados e discriminação institucional. Um

homem afro-americano com trinta anos de idade tem uma experiência de trinta

anos do que significa ser um homem afro-americano. Mas não tem experiência

do que é ser uma mulher afro-americana, uma cigana búlgara, uma russa cega ou

uma lésbica chinesa.

Enquanto crescia, esse homem afro-americano era repetidamente detido e

revistado pela polícia sem motivo aparente — algo pelo qual a lésbica chinesa

nunca teve de passar. Em contraste, ter nascido numa família afro-americana

numa vizinhança afro-americana significa que ele estava cercado de pessoas

como ele, que lhe ensinaram o que precisava saber para poder sobreviver e

evoluir como um homem afro-americano. A lésbica chinesa não nasceu numa

família lésbica, numa vizinhança lésbica, e talvez não tenha tido ninguém no

mundo que lhe desse lições básicas. Daí que crescer como negro em Baltimore

dificilmente faz com que seja fácil compreender a luta de crescer como lésbica

em Hangzhou.

Em épocas mais antigas isso tinha menos importância, porque você não se

sentia responsável pelas dificuldades de gente que vivia do outro lado do mundo.

Em geral, fazer um esforço para simpatizar com seus vizinhos menos

afortunados já era suficiente. Mas hoje os grandes debates globais sobre coisas

como mudança climática e inteligência artificial têm impacto sobre todos — seja

na Tasmânia, em Hangzhou ou em Baltimore —, por isso temos de levar em

conta todos os pontos de vista. Porém, como fazer isso? Como compreender a

rede de relações entre milhares de grupos que se intersectam por todo o mundo?3 MINIMIZAR OU NEGAR?

 

Mesmo que realmente queiramos, a maioria de nós não é mais capaz de

compreender os grandes problemas reais do mundo. Podem-se compreender as

relações entre dois caçadores-coletores, entre vinte deles, ou entre dois clãs

vizinhos. Mas as pessoas são mal equipadas para compreender as relações entre

vários milhões de sírios, entre 500 milhões de europeus, ou entre todos os grupos

e subgrupos do planeta que se intersectam.

Ao tentar entender e julgar dilemas morais nessa escala, as pessoas

frequentemente recorrem a um de quatro métodos. O primeiro é minimizar a

questão: compreender a guerra civil síria como se estivesse ocorrendo entre dois

caçadores-coletores; imaginar o regime de Assad como uma pessoa só e os

rebeldes como outra pessoa, uma má e outra boa. A complexidade histórica do

conflito é substituída por uma trama simples e clara.4

O segundo é focar numa narrativa humana tocante, que supostamente se

aplica a todo o conflito. Quando você tenta explicar às pessoas a verdadeira

complexidade do conflito por meio de estatística e dados precisos, você as perde;

porém uma narrativa pessoal sobre a sina de uma criança ativa os canais

lacrimais, faz o sangue ferver e cria uma falsa certeza moral.5 Isso é algo que

muitas instituições de caridade compreenderam durante muito tempo. Num

experimento digno de nota, pediu-se a pessoas que doassem dinheiro para ajudar

uma pobre menina do Mali, de sete anos de idade, chamada Rokia. Muitos se

comoveram com sua história e abriram corações e bolsos. Contudo, quando além

da história pessoal de Rokia os pesquisadores também apresentaram estatísticas

sobre o problema mais amplo da pobreza na África, os respondentes ficaram

menos dispostos a ajudar. Em outro estudo, pediram-se doações para ajudar ou

uma criança doente ou oito crianças doentes. As pessoas deram mais dinheiro à

criança única do que ao grupo de oito.6

O terceiro método para lidar com dilemas morais em grande escala é tecer

teorias de conspiração. Entender como funciona a economia global, e se esse

funcionamento é bom ou ruim, é complicado demais. É muito mais fácil

imaginar que vinte multibilionários estão puxando as cordinhas nos bastidores,

controlando a mídia e fomentando guerras para enriquecer. Quase sempre essa é uma fantasia sem fundamento. O mundo contemporâneo é muito complexo, não

só para nosso senso de justiça, mas também para nossas capacidades gerenciais.

Ninguém — inclusive os multibilionários, a CIA, os maçons e os Sábios de Sion —

compreende realmente o que está acontecendo no mundo. Assim, ninguém é

capaz de puxar as cordinhas.7

Esses três métodos tentam negar a verdadeira complexidade do mundo. O

quarto e último método é criar um dogma, depositar nossa fé em alguma teoria,

instituição ou liderança supostamente onisciente, e segui-la para onde nos levar.

Dogmas religiosos e ideológicos ainda são atraentes em nossa era científica

justamente porque nos oferecem um porto seguro para a frustrante

complexidade da realidade. Como já observado, movimentos seculares não estão

livres desse perigo. Mesmo se você começar com uma rejeição de todos os

dogmas religiosos e com um firme comprometimento com a verdade científica,

cedo ou tarde a complexidade da realidade torna-se tão acabrunhante que se é

levado a conceber uma doutrina que não seria questionada. Ainda que tal

doutrina possa prover as pessoas de conforto intelectual e certeza moral, é

discutível que ela possa prover justiça.

O que deveríamos fazer então? Deveríamos adotar o dogma liberal e confiar

no agregado de eleitores e clientes individuais? Ou talvez devêssemos rejeitar a

abordagem individualista e, como muitas culturas anteriores na história,

empoderar comunidades que adquiram um senso do mundo juntas? Uma

solução assim, no entanto, só nos tira da frigideira da ignorância individual para

nos jogar na fogueira do enviesado pensamento de grupo. Bandos de caçadores-

coletores, comunidades rurais e até mesmo bairros urbanos podiam pensar

juntos sobre os problemas em comum que enfrentam. Mas hoje temos

problemas globais sem ter uma comunidade global. Nem o Facebook, nem o

nacionalismo ou a religião estão próximos de criar essa comunidade. Todas as

tribos humanas existentes estão empenhadas em fazer avançar seus interesses

particulares e não em compreender a verdade global. Nem americanos, nem

chineses, muçulmanos ou hindus constituem a “comunidade global” — e assim

sua interpretação da realidade dificilmente será confiável.

Deveríamos então desistir e declarar que a busca humana por entender a

verdade e encontrar justiça fracassou? Entramos oficialmente na era da pós-verdade?