21 Lições para o Século 21

Yuval Noah Harari · Capítulo 1 de 26

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21 Lições para o Século 21

Introdução

 

 

Num mundo inundado de informações irrelevantes, clareza é poder. Em

teoria, qualquer um pode se juntar ao debate sobre o futuro da humanidade, mas

é muito difícil manter uma visão lúcida. Muitas vezes nem sequer percebemos

que um debate está acontecendo, ou quais são suas questões cruciais. Bilhões de

nós dificilmente podem se permitir o luxo de investigá-las, pois temos coisas

mais urgentes a fazer, como trabalhar, tomar conta das crianças, ou cuidar dos

pais idosos. Infelizmente, a história não poupa ninguém. Se o futuro da

humanidade for decidido em sua ausência, porque você está ocupado demais

alimentando e vestindo seus filhos — você e eles não estarão eximidos das

consequências. Isso é muito injusto, mas quem disse que a história é justa?

Como historiador, não posso dar às pessoas alimento ou roupas — mas posso

tentar oferecer alguma clareza, ajudando assim a equilibrar o jogo global. Se isso

capacitar ao menos mais um punhado de pessoas a participar do debate sobre o

futuro de nossa espécie, terei realizado minha tarefa.

Meu primeiro livro, Sapiens, investigou o passado humano, examinando como

um macaco insignificante dominou a Terra.

Homo Deus, meu segundo livro, explorou o futuro da vida a longo prazo,

contemplando como os humanos finalmente se tornarão deuses, e qual pode ser

o destino final da inteligência e da consciência.

Neste livro quero analisar mais de perto o aqui e o agora. Meu foco está nas

questões atuais e no futuro imediato das sociedades humanas. O que está

acontecendo neste momento? Quais são os maiores desafios e escolhas de hoje?

Qual deve ser o foco de nossa atenção? O que devemos ensinar a nossos filhos?

Claro, 7 bilhões de pessoas têm 7 bilhões de agendas, e, como já observado, pensar no contexto geral é um luxo relativamente raro. Uma mãe solteira

lutando para criar dois filhos numa favela em Mumbai está preocupada com a

próxima refeição; refugiados num barco no meio do Mediterrâneo perscrutam o

horizonte em busca de qualquer sinal de terra; e um homem que está morrendo

num hospital superlotado em Londres reúne todas as forças para respirar mais

uma vez. Todos têm problemas muito mais urgentes do que o aquecimento

global ou a crise da democracia liberal. Nenhum livro pode dar conta de todas as

angústias individuais, e não tenho lições a ensinar às pessoas que estão nas

situações que descrevi. Posso apenas esperar aprender com elas.

Minha agenda aqui é global. Observo as grandes forças que dão forma às

sociedades em todo o mundo, e que provavelmente vão influenciar o futuro do

planeta como um todo. A mudança climática pode estar muito além das

preocupações de quem está em meio a uma emergência de vida ou morte, mas

pode futuramente tornar as favelas de Mumbai inabitáveis, enviar novas e

enormes levas de refugiados através do Mediterrâneo, e levar a uma crise

mundial dos serviços de saúde.

A realidade é formada por muitas tramas, e este livro tenta cobrir diferentes

aspectos de nosso impasse global, sem pretender ser exaustivo. Diferentemente

de Sapiens e de Homo Deus, ele não tem a intenção de ser uma narrativa

histórica, e sim uma coletânea de lições, as quais não têm por conclusão

respostas simples. Elas visam a estimular a reflexão, e a ajudar os leitores a tomar

parte em algumas das principais conversas de nosso tempo.

O livro, na verdade, foi escrito em diálogo com o público. Muitos dos

capítulos surgiram como resposta a perguntas de leitores, jornalistas e colegas.

Versões anteriores de alguns segmentos foram publicadas em diferentes

formatos, o que me deu oportunidade de receber feedbacks e refinar meus

argumentos. Algumas seções têm por foco tecnologia, algumas política, outras

religião ou arte. Certos capítulos celebram a sabedoria humana, outros destacam

o papel crucial da sua estupidez. Mas a questão mais abrangente em todos é a

mesma: o que está acontecendo no mundo hoje, e qual é o significado profundo

dos eventos?

Qual é o sentido da ascensão de Donald Trump? O que podemos fazer ante a

epidemia de fake news? Por que a democracia liberal está em crise? Deus está de volta? Haverá uma nova guerra mundial? Qual civilização domina o mundo — o

Ocidente, a China, o Islã? A Europa deveria manter portas abertas aos

imigrantes? O nacionalismo pode resolver os problemas de desigualdade e

mudança climática? O que fazer quanto ao terrorismo?

Embora a perspectiva deste livro seja global, não negligencio o nível pessoal.

Ao contrário, quero enfatizar as conexões entre as grandes revoluções de nossa

era e a vida interior dos indivíduos. Por exemplo, o terrorismo é tanto um

problema de política global quanto um mecanismo psicológico interno. O

terrorismo manipula o medo em nossa mente, sequestrando a imaginação

privada de milhões de indivíduos. Da mesma forma, a crise da democracia liberal

se desenrola não somente em parlamentos e seções eleitorais, mas também nos

neurônios e nas sinapses. Dizer que o pessoal é político é um clichê. Mas, numa

era em que cientistas, corporações e governos estão aprendendo a hackear o

cérebro humano, esse truísmo é mais sinistro do que nunca. Portanto, o livro

apresenta observações sobre a conduta de indivíduos bem como de sociedades

inteiras.

Um mundo global exerce uma pressão sem precedentes sobre a conduta e a

moralidade pessoais. Cada um de nós está enredado em numerosas e vastas teias

de aranha, que restringem nossos movimentos, mas ao mesmo tempo

transmitem nossos mais minúsculos movimentos a destinações longínquas.

Nossa rotina diária influencia a vida de pessoas e animais do outro lado do

mundo, e alguns gestos pessoais podem inesperadamente incendiar o mundo

inteiro, como aconteceu com a autoimolação de Mohamed Bouazizi na Tunísia,

que desencadeou a Primavera Árabe, e com as mulheres que compartilharam

suas histórias de assédio sexual e deram origem ao movimento #MeToo.

Essa dimensão global de nossa vida pessoal significa que é mais importante

que nunca revelar nossos vieses religiosos e políticos, nossos privilégios raciais e

de gênero, e nossa cumplicidade involuntária na opressão institucional. Mas será

este um empreendimento realista? Como poderei achar um terreno ético firme

num mundo que se estende muito além de meus horizontes, que gira

completamente fora do controle humano, e que suspeita de todos os deuses e

ideologias?

O livro começa examinando o atual impasse político e tecnológico. No final

do século XX tudo levava a crer que as grandes batalhas ideológicas entre

fascismo, comunismo e liberalismo tinham resultado na vitória arrasadora do

liberalismo. Democracia política, direitos humanos e capitalismo de livre

mercado pareciam destinados a conquistar o mundo inteiro. Mas, como de

costume, a história dá voltas inesperadas, e após o colapso do fascismo e do

comunismo agora o liberalismo está emperrado. Então para onde caminhamos?

Essa pergunta é especialmente incômoda, porque o liberalismo está perdendo

credibilidade justo quando as revoluções gêmeas na tecnologia da informação e

na biotecnologia enfrentam os maiores desafios com que nossa espécie já

deparou. A fusão das duas áreas pode em breve expulsar bilhões de seres

humanos do mercado de trabalho e solapar a liberdade e a igualdade. Algoritmos

de Big Data poderiam criar ditaduras digitais nas quais todo o poder se

concentra nas mãos de uma minúscula elite enquanto a maior parte das pessoas

sofre não em virtude de exploração, mas de algo muito pior: irrelevância.

Comentei extensivamente a fusão da tecnologia da informação com a

biotecnologia em meu livro anterior, Homo Deus. Mas, enquanto aquele livro

focava nas perspectivas a longo prazo — perspectivas de séculos e até de milênios

—, este livro concentra-se na crise social, econômica e política mais imediata.

Meu interesse aqui é menos pela criação, no futuro, da vida inorgânica, e mais

pela ameaça ao Estado de bem-estar social e a determinadas instituições, como a

União Europeia.

O livro não tenta cobrir todos os impactos das novas tecnologias. Embora a

tecnologia encerre muitas e maravilhosas promessas, minha intenção é destacar

principalmente as ameaças e os perigos que ela traz consigo. Já que as

corporações e os empreendedores que lideram a revolução tecnológica tendem,

naturalmente, a entoar loas a suas criações, cabe a sociólogos, filósofos e

historiadores como eu fazer soar o alarme e explicar o que pode dar errado.

Depois de delinear os desafios que enfrentamos, na segunda parte do livro

examinaremos uma ampla gama de respostas possíveis. Poderiam os engenheiros

do Facebook usar inteligência artificial para criar uma comunidade global que

vai salvaguardar a liberdade e a igualdade humanas? Talvez a resposta seja

reverter o processo de globalização e tornar a fortalecer o Estado-nação? Será que devemos retroceder ainda mais, e ir buscar esperança e sabedoria nas fontes de

antigas tradições religiosas?

Na terceira parte do livro vemos que, embora os desafios tecnológicos sejam

sem precedentes e as discordâncias políticas sejam intensas, o gênero humano

poderá enfrentar a situação à altura se mantivermos nossos temores sob controle

e formos um pouco mais humildes quanto a nossas opiniões. Essa parte investiga

o que pode ser feito quanto à ameaça do terrorismo, quanto ao perigo de uma

guerra global, e quanto aos vieses e ódios que desencadeiam esses conflitos.

A quarta parte enfrenta a questão da pós-verdade, e pergunta em que medida

ainda somos capazes de compreender desenvolvimentos globais e distinguir os

malfeitos da Justiça. Será o Homo sapiens capaz de dar sentido ao mundo que ele

criou? Haverá ainda uma fronteira nítida entre realidade e ficção?

Na quinta e última parte, eu junto todas essas diferentes tramas e lanço um

olhar mais geral à vida na era da perplexidade, quando as antigas narrativas

históricas desmoronaram, e nenhuma outra surgiu até agora para substituí-las.

Onde estamos? O que deveríamos fazer na vida? De que tipos de habilidades

necessitamos? Considerando tudo que sabemos e que não sabemos sobre ciência,

sobre Deus, sobre política e sobre religião — o que podemos dizer sobre o

sentido da vida hoje?

Isso pode soar ambicioso demais, mas o Homo sapiens não pode esperar. O

tempo está ficando escasso para a filosofia, a religião e a ciência. As pessoas têm

debatido o sentido da vida por milhares de anos. Não podemos continuar esse

debate indefinidamente. A crise ecológica iminente, a ameaça crescente das

armas de destruição em massa e o surgimento de novas tecnologias disruptivas

não o permitirão. Talvez o mais importante seja o fato de que a inteligência

artificial e a biotecnologia estão dando à humanidade o poder de reformulação e

reengenharia da vida. Muito em breve alguém terá de decidir como usar esse

poder — com base numa narrativa implícita ou explícita sobre o sentido da vida.

Filósofos são muito pacientes, mas engenheiros são muito menos, e investidores

são os menos pacientes de todos. Se você não sabe o que fazer com o poder de

reengenharia da vida, as forças do mercado não vão esperar mil anos por uma

resposta. A mão invisível do mercado imporá sua resposta cega. A menos que

você se compraza em deixar o futuro da vida à mercê de relatórios de contabilidade, é preciso ter uma ideia clara do que é a vida.

No capítulo final eu me permito algumas observações pessoais, falando de um

Sapiens para outro, antes que a cortina desça sobre nossa espécie e comece um

drama completamente diferente.

 

Antes de embarcar nesta jornada intelectual, eu gostaria de destacar um

aspecto decisivo. Grande parte do livro discute as imperfeições da visão de

mundo liberal e do sistema democrático. Faço isso não por acreditar que a

democracia liberal é excepcionalmente problemática, e sim porque penso que é o

modelo político mais bem-sucedido e versátil que os humanos desenvolveram

até agora para lidar com os desafios do mundo moderno. Mesmo que não seja

adequado a toda sociedade em todo estágio de desenvolvimento, ele provou seu

valor em mais sociedades e em mais situações do que qualquer uma de suas

alternativas. Portanto, ao examinar os novos desafios que temos diante de nós, é

necessário compreender as limitações da democracia liberal, e explorar como

podemos adaptar e melhorar suas instituições atuais.

Infelizmente, no atual clima político, todo pensamento crítico sobre

liberalismo e democracia pode ser sequestrado por autocratas e vários

movimentos não democráticos, cujo único interesse é desacreditar a democracia

liberal, em vez de se envolver numa discussão aberta sobre o futuro da

humanidade. Ao mesmo tempo que ficam mais do que satisfeitos em debater os

problemas da democracia liberal, não toleram críticas dirigidas a eles.

Portanto, como autor, tive de fazer uma escolha difícil. Deveria expor minhas

ideias abertamente, arriscando que minhas palavras fossem interpretadas fora de

contexto e usadas para justificar as novas autocracias? Ou deveria censurar a

mim mesmo? É uma marca dos regimes não liberais dificultar a livre expressão

até mesmo fora de suas fronteiras. Devido à disseminação desses regimes, está

ficando cada vez mais perigoso pensar criticamente sobre o futuro de nossa

espécie.

Após uma reflexão íntima, optei pela discussão livre e não pela autocensura.

Se não criticarmos o modelo liberal não seremos capazes de corrigir suas falhas

ou ir além dele. Mas é importante notar que este livro só poderia ter sido escrito

num mundo em que as pessoas ainda são relativamente livres para pensar o que quiserem e se expressar como quiserem. Se você dá valor a este livro, deveria

valorizar também a liberdade de expressão.