21 Lições para o Século 21
14. Secularismo: Tenha consciência de sua sombra
14. Secularismo
Tenha consciência de sua sombra
O que significa ser secular? O secularismo às vezes é definido como negação
da religião, e as pessoas seculares são, portanto, caracterizadas por aquilo em que
não acreditam e não fazem. De acordo com essa definição, as pessoas seculares
não acreditam em deuses ou anjos, não frequentam igrejas e templos e não
realizam ritos ou rituais. Como tal, o mundo secular parece oco, niilista e amoral
— uma caixa vazia esperando ser preenchida por algo.
Poucas pessoas adotariam uma identidade negativa. Secularistas
autoprofessados veem o secularismo de maneira muito diferente. Para eles, o
secularismo é uma visão de mundo muito positiva e ativa, definida por um
código de valores coerentes, e não pela oposição a esta ou aquela religião.
Realmente, muitos dos valores seculares são compartilhados por várias tradições
religiosas. Salvo algumas seitas que insistem em que têm o monopólio de toda a
sabedoria e toda a bondade, uma das principais características das pessoas
seculares é que elas não reivindicam esse monopólio. Não pensam que
moralidade e sabedoria tenham descido do céu num lugar e tempo específicos. E
sim que moralidade e sabedoria são o legado natural de todos os humanos. Daí,
só se poderia esperar que ao menos alguns valores surgissem nas sociedades
humanas por todo o mundo, e fossem comuns a muçulmanos, cristãos, hindus e
ateus.
Líderes religiosos frequentemente defrontam seus seguidores com uma
rigorosa escolha na forma “ou isso ou aquilo” — ou vocês são muçulmanos ou
não são. E, se são muçulmanos, devem rejeitar todas as outras doutrinas. Em
contraste, as pessoas seculares sentem-se confortáveis com múltiplas identidades híbridas. No que concerne ao secularismo, você pode continuar se dizendo
muçulmano e continuar a rezar para Alá, comer alimentos halal e fazer o haj, a
peregrinação a Meca — e ainda ser um bom membro da sociedade secular,
contanto que adote o código ético secular. Esse código — que na verdade é aceito
por milhões de muçulmanos, cristãos e hindus assim como por ateus — cultua
valores como liberdade, compaixão, igualdade, coragem e responsabilidade.
Constitui o fundamento das modernas instituições científicas e democráticas.
Como todos os códigos éticos, o código secular é mais um ideal a se aspirar do
que uma realidade social. Assim como sociedades e instituições cristãs desviam-
se frequentemente do ideal cristão, também sociedades e instituições seculares
ficam muito aquém do ideal secular. A França medieval foi um autoproclamado
reino cristão, mas incorreu em todo tipo de atividades não muito cristãs
(pergunte só a seu oprimido campesinato). A França moderna é um
autoproclamado Estado secular, mas da época de Robespierre em diante ela
tomou certas liberdades preocupantes com a própria definição de liberdade
(pergunte só às mulheres). Isso não quer dizer que às pessoas seculares — na
França ou em outro lugar — falta uma bússola moral ou um comprometimento
ético. Quer dizer apenas que não é fácil corresponder a um ideal.
O IDEAL SECULAR
O que é então o ideal secular? O compromisso secular mais importante é com
a verdade, que se baseia em observação e evidência e não apenas na fé. Os
seculares esforçam-se para não confundir verdade com crença. Se você tem uma
crença muito forte numa narrativa, isso pode revelar muitas coisas interessantes
sobre a sua psicologia, sua infância e sua estrutura cerebral — mas não prova que
essa narrativa é verdadeira. (Muitas vezes, crenças fortes são necessárias
justamente porque a narrativa não é verdadeira.)
Além disso, seculares não santificam nenhum grupo, nenhuma pessoa ou
nenhum livro como se ele ou ela, e só ele ou ela, tivesse a custódia única da
verdade. Em vez disso, santificam a verdade onde quer que ela possa se revelar —
em antigos ossos fossilizados, em imagens de galáxias distantes, em quadros de
dados estatísticos, ou nos escritos de várias tradições humanas. O compromisso com a verdade fundamenta a ciência moderna, que capacitou o homem a
fissionar o átomo, decifrar o genoma, rastrear a evolução da vida e compreender
a história da própria humanidade.
O outro compromisso básico das pessoas seculares é com a compaixão. A ética
secular baseia-se não em obedecer aos preceitos deste ou daquele deus, e sim
numa profunda apreciação do sofrimento. Por exemplo, pessoas seculares
abstêm-se de assassinar não porque algum livro antigo proíbe, mas porque o ato
de matar inflige imenso sofrimento a seres sencientes. Existe algo profundamente
perturbador e perigoso no que tange a pessoas que evitam matar só porque
“Deus diz assim”. São pessoas motivadas mais por obediência do que por
compaixão, e o que farão elas se vierem a acreditar que seu deus lhes ordena que
matem hereges, bruxas, adúlteros ou estrangeiros?
É claro que na ausência de mandamentos divinos absolutos a ética secular
frequentemente se depara com difíceis dilemas. O que acontece quando a mesma
ação fere uma pessoa mas ajuda outra? Será ético cobrar altos impostos dos ricos
para ajudar os pobres? Travar uma guerra sangrenta para derrubar um ditador
brutal? Permitir que entre um número ilimitado de refugiados em nosso país?
Quando pessoas seculares se deparam com esses dilemas elas não perguntam: “O
que Deus ordena?”. Em vez disso, avaliam cuidadosamente os sentimentos de
todas as partes envolvidas, examinam um amplo espectro de observações e
possibilidades e buscam um caminho do meio que cause o menor dano possível.
Considere, por exemplo, atitudes em relação à sexualidade. Como é que
pessoas seculares decidem se endossam ou se se opõem a estupro,
homossexualidade, bestialismo e incesto? Examinando sentimentos. O estupro é
obviamente aético, não porque transgride algum mandamento divino, mas
porque magoa pessoas. Em contraste, a relação amorosa entre dois homens não
magoa ninguém, assim não há motivo para proibi-la.
E quanto ao bestialismo? Participei em numerosos debates privados e públicos
sobre o casamento gay, e muito frequentemente algum sabichão pergunta: “Se o
casamento entre dois homens é o.k., por que não permitir o casamento entre um
homem e um bode?”. Do ponto de vista secular, a resposta é óbvia. Relações
saudáveis requerem profundidade emocional, intelectual e mesmo espiritual. Um
casamento ao qual falte essa profundidade deixará você frustrado, solitário e psicologicamente atrofiado. Enquanto dois homens podem satisfazer as
necessidades emocionais, intelectuais e espirituais um do outro, um
relacionamento com um bode não pode. Daí que se você considera o casamento
uma instituição cujo objetivo é promover o bem-estar humano — como fazem os
seculares —, você nem sequer cogitaria fazer uma pergunta tão bizarra. Apenas
pessoas que veem o casamento como uma espécie de ritual miraculoso a fariam.
E quanto às relações entre pai e filha? Ambos são humanos, então o que há de
errado nisso? Bem, numerosos estudos psicológicos demonstraram que essas
relações infligem dano imenso e irreparável na filha. Além disso, refletem e
intensificam tendências destrutivas no pai. A evolução modelou a psique do
Sapiens de tal maneira que ligações românticas não se mesclam bem com
ligações parentais. Portanto, você não precisa da Bíblia para se opor ao incesto —
basta ler os estudos psicológicos relevantes.1
Essa é a razão profunda de as pessoas seculares prezarem a verdade científica.
Não para satisfazer sua curiosidade, mas para saber como reduzir o sofrimento
no mundo. Sem a orientação dos estudos científicos, nossa compaixão muitas
vezes é cega.
Esses compromissos gêmeos com a verdade e com a compaixão também
resultam num compromisso com a igualdade. Embora opiniões difiram quanto a
questões de igualdade econômica e política, pessoas seculares são
fundamentalmente suspeitosas de todas as hierarquias anteriores. Sofrimento é
sofrimento, não importa quem o experimente; e conhecimento é conhecimento,
não importa quem o descobre. Privilegiar as experiências ou as descobertas de
uma determinada nação, classe ou gênero é como nos tornar insensíveis e
ignorantes. Pessoas seculares certamente se orgulham da singularidade de sua
nação, de seu país e de sua cultura — mas elas não confundem “singularidade”
com “superioridade”. Daí que apesar de as pessoas seculares terem consciência
de seus deveres especiais para com sua nação e seu país, não acham que esses
deveres são exclusivos, e, ao mesmo tempo, têm consciência de seus deveres para
com a humanidade como um todo.
Não seremos capazes de buscar a verdade e uma saída para o sofrimento sem a
liberdade de pensar, investigar e experimentar. Por isso as pessoas seculares
acalentam a liberdade e evitam atribuir autoridade suprema a qualquer texto, instituição ou líder como juiz definitivo do que é verdade e do que é correto.
Humanos deveriam ter sempre a liberdade de duvidar, de verificar novamente,
de ouvir uma segunda opinião, de tentar um caminho diferente. Pessoas
seculares admiram Galileu Galilei, que ousou questionar se a Terra de fato está
imóvel e no centro do universo; elas admiram as massas de pessoas comuns que
atacaram a Bastilha em 1789 e derrubaram o regime despótico de Luís XVI; e
admiram Rosa Parks, que teve a coragem de se sentar num lugar do ônibus
reservado a passageiros brancos.
É preciso muita coragem para combater preconceitos e regimes opressivos,
mas é preciso ainda mais coragem para admitir ignorância e se aventurar no
desconhecido. A educação secular nos ensina que se não sabemos algo, não
deveríamos ter medo de reconhecer nossa ignorância e de buscar nova evidência.
Mesmo se acharmos que sabemos alguma coisa, não deveríamos ter medo de
duvidar de nossas opiniões e nos questionar. Muita gente tem medo do
desconhecido, e quer uma resposta clara para cada pergunta. Medo do
desconhecido pode nos paralisar mais que qualquer tirano. Ao longo da história
havia a preocupação de que, a menos que puséssemos nossa fé em algum
conjunto de respostas absolutas, a sociedade humana ia desmoronar. Na
verdade, a história moderna demonstrou que uma sociedade de pessoas corajosas
dispostas a admitir sua ignorância e fazer perguntas difíceis geralmente não é
apenas mais próspera como também mais pacífica do que sociedades nas quais
todos têm de aceitar uma única resposta sem questionar. Pessoas temerosas de
perder sua verdade são propensas a ser mais violentas do que pessoas
acostumadas a olhar para o mundo de diferentes pontos de vista. Perguntas às
quais você não é capaz de responder são geralmente muito melhores para você
do que respostas que você não é capaz de questionar.
Por fim, pessoas seculares prezam a responsabilidade. Não acreditam em
nenhum poder superior que toma conta do mundo, pune os malvados,
recompensa os justos e nos protege da fome, da peste ou da guerra. Por isso nós,
mortais de carne e osso, temos de assumir total responsabilidade por tudo o que
fazemos — ou deixamos de fazer. Se o mundo está cheio de miséria, é nosso
dever encontrar soluções. Pessoas seculares orgulham-se das imensas conquistas
das sociedades modernas, como curar epidemias, alimentar os famintos e trazer paz a grandes partes do mundo. Não precisamos creditar essas conquistas a
nenhum protetor divino — elas resultaram de os humanos desenvolverem seu
próprio conhecimento e sua compaixão. Mas, exatamente pela mesma razão,
precisamos assumir responsabilidade total pelos crimes e falhas da modernidade,
do genocídio à degradação ecológica. Em vez de rezar por milagres, precisamos
perguntar o que podemos fazer para ajudar.
Esses são os valores básicos do mundo secular. Como já observado, nenhum
desses valores é exclusivamente secular. Judeus também dão valor à verdade,
cristãos valorizam a compaixão, muçulmanos valorizam a igualdade, hindus dão
valor à responsabilidade, e assim por diante. Sociedades e instituições seculares
ficam felizes de reconhecer essas conexões e de acolher religiosos judeus, cristãos,
muçulmanos e hindus, contanto que quando o código secular colidir com a
doutrina religiosa, esta deve abrir passagem. Por exemplo, para judeus ortodoxos
serem aceitos na sociedade secular espera-se que tratem não judeus como iguais,
cristãos deveriam evitar queimar hereges na estaca, muçulmanos teriam de
respeitar a liberdade de expressão e hindus precisariam abolir a discriminação
das castas.
Em contraste, não se espera que pessoas religiosas neguem a existência de
Deus ou abandonem ritos e rituais tradicionais. O mundo secular julga as
pessoas com base em seu comportamento, e não em suas roupas e cerimônias
favoritas. Uma pessoa pode seguir o mais bizarro código sectário de vestimenta e
praticar as mais estranhas cerimônias religiosas e ainda assim agir de acordo com
os valores centrais do secularismo. Há muitos cientistas judeus, ambientalistas
cristãos, feministas muçulmanos e ativistas de direitos humanos hindus. Se
forem leais à verdade científica, à compaixão, à igualdade e à liberdade, são
membros integrais do mundo secular, e não há nenhum motivo para solicitar
que tirem seus solidéus, suas cruzes, seus hijabs ou tilakas.
Da mesma maneira, educação secular não quer dizer uma doutrinação
negativa, que ensina crianças a não acreditar em Deus e a não participar de
quaisquer cerimônias religiosas. E sim, a educação secular ensina as crianças a
distinguir verdade de crença; a desenvolver sua compaixão por todos os seres que
sofrem; a apreciar a sabedoria e as experiências de todos os habitantes da Terra; a
pensar livremente sem temer o desconhecido; a assumir responsabilidade por suas ações e pelo mundo como um todo.
STÁLIN ERA SECULAR?
Não há, portanto, fundamento para criticar o secularismo por lhe faltar
compromissos éticos ou responsabilidades sociais. Na verdade, o principal
problema com o secularismo é o oposto. Ele provavelmente coloca o parâmetro
ético numa posição alta demais. A maioria das pessoas não é capaz de cumprir
um código tão exigente, e grandes sociedades não podem funcionar com base
numa busca em aberto por justiça e compaixão. Especialmente em tempos de
emergência — como uma guerra ou uma crise econômica — sociedades têm de
agir pronta e energicamente, mesmo que não tenham certeza de qual é a verdade
e de qual é a coisa mais compassiva a fazer. Elas precisam de diretrizes claras, de
lemas convincentes e de gritos de guerra inspiradores. Como é difícil enviar
soldados para a batalha ou impor reformas econômicas radicais em nome de
conjecturas duvidosas, os movimentos seculares repetidamente se transmudam
em credos dogmáticos.
Por exemplo, Karl Marx começou alegando que todas as religiões eram
fraudes opressivas, e estimulou seus seguidores a investigar por si mesmos a
verdadeira natureza da ordem global. Nas décadas seguintes as pressões da
revolução e da guerra tornaram o marxismo mais rígido, e na época de Stálin a
linha oficial do Partido Comunista Soviético dizia que a ordem global era
complicada demais para as pessoas comuns a compreenderem, e era melhor
sempre confiar na sabedoria do partido e fazer o que ele mandasse, mesmo
quando orquestrou a prisão e o extermínio de milhões de pessoas inocentes. Isso
pode parecer duro, porém, como os ideólogos do partido nunca se cansavam de
explicar, revolução não é piquenique, e, se você quer uma omelete, vai precisar
quebrar alguns ovos.
Considerar, ou não, Stálin um líder secular depende, portanto, de como
definimos secularismo. Se utilizarmos a definição negativa minimalista —
“pessoas seculares não acreditam em Deus” —, então Stálin definitivamente foi
secular. Se utilizarmos a definição afirmativa — “pessoas seculares rejeitam todos
os dogmas não científicos e são comprometidas com a verdade, com a compaixão e com a liberdade” —, então Marx foi um insigne secular, mas Stálin
foi qualquer coisa menos isso. Ele foi o profeta da religião sem deus mas
extremamente dogmática do stalinismo.
O stalinismo não é um exemplo isolado. No outro lado do espectro político, o
capitalismo começou também como uma teoria científica muito flexível, mas aos
poucos se solidificou num dogma. Muitos capitalistas continuam a repetir o
mantra de livres mercados e crescimento econômico, sem considerar a realidade.
Não importam quais terríveis consequências resultem ocasionalmente da
modernização ou da privatização, os verdadeiros crentes do capitalismo as
descartam como meras “dores do crescimento” e prometem que tudo ficará
muito bem mediante um pouco mais de crescimento.
Os democratas liberais, que estão a meio caminho, têm sido mais leais à busca
secular da verdade e da compaixão, mas até eles às vezes a abandonam em favor
de dogmas reconfortantes. Assim, quando se defrontam com a desordem de
ditaduras brutais e Estados falidos, os liberais depositam sua fé inquestionável
em eleições gerais. Eles fazem guerras e gastam bilhões de dólares em lugares
como Iraque, Afeganistão e Congo na firme crença de que a realização de
eleições gerais vai magicamente transformar esses locais em versões mais
ensolaradas da Dinamarca. Isso apesar de repetidos fracassos, e apesar do fato de
que mesmo em lugares com uma tradição estabelecida de eleições gerais, há
ocasiões em que esses rituais trazem ao poder populistas autoritários e resultam
em nada mais que ditaduras da maioria. Se tentar questionar a suposta sabedoria
das eleições gerais, você não será mandado para o gulag, mas provavelmente vai
ouvir um sermão sobre abuso dogmático.
Claro, nem todos os dogmas são igualmente danosos. Assim como algumas
crenças religiosas beneficiaram a humanidade, também o fizeram alguns dogmas
seculares. O único lugar no qual existem direitos é nas narrativas que os
humanos inventam e contam uns aos outros. Elas foram consagradas com
dogmas por si mesmos evidentes durante a luta contra a intolerância religiosa e
governos autocráticos. Embora não seja verdade que os humanos tenham direito
natural à vida ou à liberdade, a crença nessa narrativa refreou o poder dos
regimes autoritários, protegeu minorias de serem prejudicadas e salvaguardou
bilhões das piores consequências da pobreza e da violência. Com isso, é provável que tenha contribuído para a felicidade e o bem-estar da humanidade mais do
que qualquer outra doutrina na história.
Ainda assim é um dogma. O artigo 19 da Declaração de Direitos Humanos das
Nações Unidas diz que “Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e
expressão”. Se entendemos isso como uma exigência política (“todo ser humano
deveria ter direito à liberdade de opinião”), é bastante sensato. Mas, se
acreditamos que todo Sapiens está naturalmente investido de um “direito à
liberdade de opinião”, e que portanto a censura transgride alguma lei da
natureza, está nos escapando a verdade sobre a humanidade. Enquanto se definir
como “um indivíduo que possui direitos naturais inalienáveis”, você não saberá
quem você realmente é, e não compreenderá as forças históricas que moldaram
sua sociedade e sua mente (incluindo sua crença em “direitos naturais”).
Essa ignorância talvez pouco importasse no século XX, quando as pessoas
estavam ocupadas combatendo Hitler e Stálin. Mas poderia tornar-se fatal no
século XXI, porque a biotecnologia e a inteligência artificial estão procurando
mudar o próprio significado de “humanidade”. Se estamos comprometidos com
o direito à vida, isso implicaria que devemos usar a biotecnologia para superar a
morte? Se estamos comprometidos com o direito à liberdade, deveríamos
conferir poder a algoritmos que decifram e realizam desejos ocultos? Se humanos
desfrutam de direitos humanos iguais, super-humanos deveriam desfrutar de
superdireitos? As pessoas seculares encontrarão dificuldades para se envolver
nessas questões enquanto estiverem comprometidas com a crença dogmática em
“direitos humanos”.
O dogma dos direitos humanos foi moldado em séculos passados como uma
arma contra a Inquisição, o ancien régime, os nazistas e a Ku Klux Klan.
Dificilmente estará equipado para lidar com super-humanos, ciborgues e
computadores superinteligentes. Ainda que os movimentos de direitos humanos
tenham desenvolvido um arsenal muito impressionante de argumentos e defesas
contra vieses religiosos e tiranos humanos, esse arsenal dificilmente nos protege
contra excessos do consumismo e utopias tecnológicas.
TOMANDO CONSCIÊNCIA DA SOMBRA
O secularismo não deveria ser equiparado ao dogmatismo stalinista ou aos
frutos amargos do imperialismo ocidental e à industrialização desenfreada. Mas
tampouco pode se esquivar de toda responsabilidade por eles. Movimentos
seculares e instituições científicas têm hipnotizado bilhões com promessas de
aperfeiçoar a humanidade e utilizar as benesses do planeta Terra para o benefício
de nossa espécie. Essas promessas resultaram não só na debelação de pestes e da
fome, mas também em gulags e no derretimento das calotas polares. Você pode
alegar que tudo isso é por culpa de pessoas que não entendem e distorcem os
ideais seculares centrais e os fatos verdadeiros da ciência. E você estará
certíssimo. Mas esse é um problema comum de todos os movimentos influentes.
Por exemplo, o cristianismo tem sido responsável por grandes crimes como a
Inquisição, as Cruzadas, a opressão de culturas nativas por todo o mundo e o
desempoderamento das mulheres. Um cristão poderia ofender-se com essa
afirmação e replicar que todos esses crimes resultaram de um entendimento
totalmente errado do cristianismo. Jesus pregou apenas o amor, e a Inquisição
baseou-se numa horrível distorção de seus ensinamentos. Podemos simpatizar
com essa afirmação, mas seria um erro inocentar o cristianismo com tanta
facilidade. Os cristãos que ficaram horrorizados com a Inquisição e as Cruzadas
não podem simplesmente lavar as mãos dessas atrocidades — deveriam em vez
disso se fazer algumas perguntas muito difíceis. Como exatamente a “religião do
amor” permitiu ser distorcida dessa maneira, e não uma só, mas muitas vezes? A
protestantes que tentem pôr toda a culpa no fanatismo católico recomenda-se a
leitura de um livro sobre o comportamento dos colonizadores protestantes na
Irlanda ou na América do Norte. Da mesma forma, marxistas deveriam se
perguntar como os ensinamentos de Marx pavimentaram o caminho para o
gulag, cientistas deveriam se perguntar como o projeto científico prestou-se tão
facilmente à desestabilização do ecossistema global, e, em especial, os geneticistas
deveriam extrair uma advertência do modo como os nazistas sequestraram as
teorias darwinianas.
Toda religião, ideologia e credo tem sua sombra e, não importa qual o credo
que você segue, deveria tomar consciência de sua sombra e evitar a ingênua
certeza de que “isso não pode acontecer conosco”. A ciência secular representa
pelo menos uma grande vantagem em relação às religiões mais tradicionais, a saber, ela não está aterrorizada com sua sombra e, em princípio, quer admitir
seus erros e pontos cegos. Se você acredita numa verdade absoluta revelada por
um poder transcendente, não pode se permitir admitir qualquer erro — pois isso
anularia toda a sua história. Mas, se você acredita na busca da verdade por
humanos falíveis, admitir erros é parte inerente do jogo.
É também por isso que movimentos seculares não dogmáticos tendem a fazer
promessas relativamente modestas. Cientes de suas imperfeições, eles esperam
efetuar pequenas mudanças incrementais, elevando o salário mínimo em alguns
dólares ou reduzindo a mortalidade infantil em uns poucos pontos percentuais.
É uma marca das ideologias dogmáticas que, devido a sua excessiva
autoconfiança, elas rotineiramente prometem o impossível. Seus líderes falam
muito livremente sobre “eternidade”, “pureza” e “redenção”, como se, ao se
implementar alguma lei, ao se construir um templo, ou ao se conquistar um
pedaço de território elas fossem capazes de salvar o mundo inteiro num só
grande gesto.
Quando estamos próximos de tomar as decisões mais importantes da vida, eu
confiaria mais naqueles que admitem ignorância do que naqueles que alegam
infalibilidade. Se você quer que sua religião, ideologia ou visão de mundo lidere o
mundo, minha primeira pergunta a você é: “Qual é o maior erro que sua religião,
ideologia ou visão de mundo cometeu? O que ela entendeu errado?”. Se você não
for capaz de responder seriamente, eu, por mim, não confiaria em você.