21 Lições para o Século 21

Yuval Noah Harari · Capítulo 18 de 26

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21 Lições para o Século 21

14. Secularismo: Tenha consciência de sua sombra

14. Secularismo

Tenha consciência de sua sombra

 

O que significa ser secular? O secularismo às vezes é definido como negação

da religião, e as pessoas seculares são, portanto, caracterizadas por aquilo em que

não acreditam e não fazem. De acordo com essa definição, as pessoas seculares

não acreditam em deuses ou anjos, não frequentam igrejas e templos e não

realizam ritos ou rituais. Como tal, o mundo secular parece oco, niilista e amoral

— uma caixa vazia esperando ser preenchida por algo.

Poucas pessoas adotariam uma identidade negativa. Secularistas

autoprofessados veem o secularismo de maneira muito diferente. Para eles, o

secularismo é uma visão de mundo muito positiva e ativa, definida por um

código de valores coerentes, e não pela oposição a esta ou aquela religião.

Realmente, muitos dos valores seculares são compartilhados por várias tradições

religiosas. Salvo algumas seitas que insistem em que têm o monopólio de toda a

sabedoria e toda a bondade, uma das principais características das pessoas

seculares é que elas não reivindicam esse monopólio. Não pensam que

moralidade e sabedoria tenham descido do céu num lugar e tempo específicos. E

sim que moralidade e sabedoria são o legado natural de todos os humanos. Daí,

só se poderia esperar que ao menos alguns valores surgissem nas sociedades

humanas por todo o mundo, e fossem comuns a muçulmanos, cristãos, hindus e

ateus.

Líderes religiosos frequentemente defrontam seus seguidores com uma

rigorosa escolha na forma “ou isso ou aquilo” — ou vocês são muçulmanos ou

não são. E, se são muçulmanos, devem rejeitar todas as outras doutrinas. Em

contraste, as pessoas seculares sentem-se confortáveis com múltiplas identidades híbridas. No que concerne ao secularismo, você pode continuar se dizendo

muçulmano e continuar a rezar para Alá, comer alimentos halal e fazer o haj, a

peregrinação a Meca — e ainda ser um bom membro da sociedade secular,

contanto que adote o código ético secular. Esse código — que na verdade é aceito

por milhões de muçulmanos, cristãos e hindus assim como por ateus — cultua

valores como liberdade, compaixão, igualdade, coragem e responsabilidade.

Constitui o fundamento das modernas instituições científicas e democráticas.

Como todos os códigos éticos, o código secular é mais um ideal a se aspirar do

que uma realidade social. Assim como sociedades e instituições cristãs desviam-

se frequentemente do ideal cristão, também sociedades e instituições seculares

ficam muito aquém do ideal secular. A França medieval foi um autoproclamado

reino cristão, mas incorreu em todo tipo de atividades não muito cristãs

(pergunte só a seu oprimido campesinato). A França moderna é um

autoproclamado Estado secular, mas da época de Robespierre em diante ela

tomou certas liberdades preocupantes com a própria definição de liberdade

(pergunte só às mulheres). Isso não quer dizer que às pessoas seculares — na

França ou em outro lugar — falta uma bússola moral ou um comprometimento

ético. Quer dizer apenas que não é fácil corresponder a um ideal.

 

O IDEAL SECULAR

 

O que é então o ideal secular? O compromisso secular mais importante é com

a verdade, que se baseia em observação e evidência e não apenas na fé. Os

seculares esforçam-se para não confundir verdade com crença. Se você tem uma

crença muito forte numa narrativa, isso pode revelar muitas coisas interessantes

sobre a sua psicologia, sua infância e sua estrutura cerebral — mas não prova que

essa narrativa é verdadeira. (Muitas vezes, crenças fortes são necessárias

justamente porque a narrativa não é verdadeira.)

Além disso, seculares não santificam nenhum grupo, nenhuma pessoa ou

nenhum livro como se ele ou ela, e só ele ou ela, tivesse a custódia única da

verdade. Em vez disso, santificam a verdade onde quer que ela possa se revelar —

em antigos ossos fossilizados, em imagens de galáxias distantes, em quadros de

dados estatísticos, ou nos escritos de várias tradições humanas. O compromisso com a verdade fundamenta a ciência moderna, que capacitou o homem a

fissionar o átomo, decifrar o genoma, rastrear a evolução da vida e compreender

a história da própria humanidade.

O outro compromisso básico das pessoas seculares é com a compaixão. A ética

secular baseia-se não em obedecer aos preceitos deste ou daquele deus, e sim

numa profunda apreciação do sofrimento. Por exemplo, pessoas seculares

abstêm-se de assassinar não porque algum livro antigo proíbe, mas porque o ato

de matar inflige imenso sofrimento a seres sencientes. Existe algo profundamente

perturbador e perigoso no que tange a pessoas que evitam matar só porque

“Deus diz assim”. São pessoas motivadas mais por obediência do que por

compaixão, e o que farão elas se vierem a acreditar que seu deus lhes ordena que

matem hereges, bruxas, adúlteros ou estrangeiros?

É claro que na ausência de mandamentos divinos absolutos a ética secular

frequentemente se depara com difíceis dilemas. O que acontece quando a mesma

ação fere uma pessoa mas ajuda outra? Será ético cobrar altos impostos dos ricos

para ajudar os pobres? Travar uma guerra sangrenta para derrubar um ditador

brutal? Permitir que entre um número ilimitado de refugiados em nosso país?

Quando pessoas seculares se deparam com esses dilemas elas não perguntam: “O

que Deus ordena?”. Em vez disso, avaliam cuidadosamente os sentimentos de

todas as partes envolvidas, examinam um amplo espectro de observações e

possibilidades e buscam um caminho do meio que cause o menor dano possível.

Considere, por exemplo, atitudes em relação à sexualidade. Como é que

pessoas seculares decidem se endossam ou se se opõem a estupro,

homossexualidade, bestialismo e incesto? Examinando sentimentos. O estupro é

obviamente aético, não porque transgride algum mandamento divino, mas

porque magoa pessoas. Em contraste, a relação amorosa entre dois homens não

magoa ninguém, assim não há motivo para proibi-la.

E quanto ao bestialismo? Participei em numerosos debates privados e públicos

sobre o casamento gay, e muito frequentemente algum sabichão pergunta: “Se o

casamento entre dois homens é o.k., por que não permitir o casamento entre um

homem e um bode?”. Do ponto de vista secular, a resposta é óbvia. Relações

saudáveis requerem profundidade emocional, intelectual e mesmo espiritual. Um

casamento ao qual falte essa profundidade deixará você frustrado, solitário e psicologicamente atrofiado. Enquanto dois homens podem satisfazer as

necessidades emocionais, intelectuais e espirituais um do outro, um

relacionamento com um bode não pode. Daí que se você considera o casamento

uma instituição cujo objetivo é promover o bem-estar humano — como fazem os

seculares —, você nem sequer cogitaria fazer uma pergunta tão bizarra. Apenas

pessoas que veem o casamento como uma espécie de ritual miraculoso a fariam.

E quanto às relações entre pai e filha? Ambos são humanos, então o que há de

errado nisso? Bem, numerosos estudos psicológicos demonstraram que essas

relações infligem dano imenso e irreparável na filha. Além disso, refletem e

intensificam tendências destrutivas no pai. A evolução modelou a psique do

Sapiens de tal maneira que ligações românticas não se mesclam bem com

ligações parentais. Portanto, você não precisa da Bíblia para se opor ao incesto —

basta ler os estudos psicológicos relevantes.1

Essa é a razão profunda de as pessoas seculares prezarem a verdade científica.

Não para satisfazer sua curiosidade, mas para saber como reduzir o sofrimento

no mundo. Sem a orientação dos estudos científicos, nossa compaixão muitas

vezes é cega.

Esses compromissos gêmeos com a verdade e com a compaixão também

resultam num compromisso com a igualdade. Embora opiniões difiram quanto a

questões de igualdade econômica e política, pessoas seculares são

fundamentalmente suspeitosas de todas as hierarquias anteriores. Sofrimento é

sofrimento, não importa quem o experimente; e conhecimento é conhecimento,

não importa quem o descobre. Privilegiar as experiências ou as descobertas de

uma determinada nação, classe ou gênero é como nos tornar insensíveis e

ignorantes. Pessoas seculares certamente se orgulham da singularidade de sua

nação, de seu país e de sua cultura — mas elas não confundem “singularidade”

com “superioridade”. Daí que apesar de as pessoas seculares terem consciência

de seus deveres especiais para com sua nação e seu país, não acham que esses

deveres são exclusivos, e, ao mesmo tempo, têm consciência de seus deveres para

com a humanidade como um todo.

Não seremos capazes de buscar a verdade e uma saída para o sofrimento sem a

liberdade de pensar, investigar e experimentar. Por isso as pessoas seculares

acalentam a liberdade e evitam atribuir autoridade suprema a qualquer texto, instituição ou líder como juiz definitivo do que é verdade e do que é correto.

Humanos deveriam ter sempre a liberdade de duvidar, de verificar novamente,

de ouvir uma segunda opinião, de tentar um caminho diferente. Pessoas

seculares admiram Galileu Galilei, que ousou questionar se a Terra de fato está

imóvel e no centro do universo; elas admiram as massas de pessoas comuns que

atacaram a Bastilha em 1789 e derrubaram o regime despótico de Luís XVI; e

admiram Rosa Parks, que teve a coragem de se sentar num lugar do ônibus

reservado a passageiros brancos.

É preciso muita coragem para combater preconceitos e regimes opressivos,

mas é preciso ainda mais coragem para admitir ignorância e se aventurar no

desconhecido. A educação secular nos ensina que se não sabemos algo, não

deveríamos ter medo de reconhecer nossa ignorância e de buscar nova evidência.

Mesmo se acharmos que sabemos alguma coisa, não deveríamos ter medo de

duvidar de nossas opiniões e nos questionar. Muita gente tem medo do

desconhecido, e quer uma resposta clara para cada pergunta. Medo do

desconhecido pode nos paralisar mais que qualquer tirano. Ao longo da história

havia a preocupação de que, a menos que puséssemos nossa fé em algum

conjunto de respostas absolutas, a sociedade humana ia desmoronar. Na

verdade, a história moderna demonstrou que uma sociedade de pessoas corajosas

dispostas a admitir sua ignorância e fazer perguntas difíceis geralmente não é

apenas mais próspera como também mais pacífica do que sociedades nas quais

todos têm de aceitar uma única resposta sem questionar. Pessoas temerosas de

perder sua verdade são propensas a ser mais violentas do que pessoas

acostumadas a olhar para o mundo de diferentes pontos de vista. Perguntas às

quais você não é capaz de responder são geralmente muito melhores para você

do que respostas que você não é capaz de questionar.

Por fim, pessoas seculares prezam a responsabilidade. Não acreditam em

nenhum poder superior que toma conta do mundo, pune os malvados,

recompensa os justos e nos protege da fome, da peste ou da guerra. Por isso nós,

mortais de carne e osso, temos de assumir total responsabilidade por tudo o que

fazemos — ou deixamos de fazer. Se o mundo está cheio de miséria, é nosso

dever encontrar soluções. Pessoas seculares orgulham-se das imensas conquistas

das sociedades modernas, como curar epidemias, alimentar os famintos e trazer paz a grandes partes do mundo. Não precisamos creditar essas conquistas a

nenhum protetor divino — elas resultaram de os humanos desenvolverem seu

próprio conhecimento e sua compaixão. Mas, exatamente pela mesma razão,

precisamos assumir responsabilidade total pelos crimes e falhas da modernidade,

do genocídio à degradação ecológica. Em vez de rezar por milagres, precisamos

perguntar o que podemos fazer para ajudar.

Esses são os valores básicos do mundo secular. Como já observado, nenhum

desses valores é exclusivamente secular. Judeus também dão valor à verdade,

cristãos valorizam a compaixão, muçulmanos valorizam a igualdade, hindus dão

valor à responsabilidade, e assim por diante. Sociedades e instituições seculares

ficam felizes de reconhecer essas conexões e de acolher religiosos judeus, cristãos,

muçulmanos e hindus, contanto que quando o código secular colidir com a

doutrina religiosa, esta deve abrir passagem. Por exemplo, para judeus ortodoxos

serem aceitos na sociedade secular espera-se que tratem não judeus como iguais,

cristãos deveriam evitar queimar hereges na estaca, muçulmanos teriam de

respeitar a liberdade de expressão e hindus precisariam abolir a discriminação

das castas.

Em contraste, não se espera que pessoas religiosas neguem a existência de

Deus ou abandonem ritos e rituais tradicionais. O mundo secular julga as

pessoas com base em seu comportamento, e não em suas roupas e cerimônias

favoritas. Uma pessoa pode seguir o mais bizarro código sectário de vestimenta e

praticar as mais estranhas cerimônias religiosas e ainda assim agir de acordo com

os valores centrais do secularismo. Há muitos cientistas judeus, ambientalistas

cristãos, feministas muçulmanos e ativistas de direitos humanos hindus. Se

forem leais à verdade científica, à compaixão, à igualdade e à liberdade, são

membros integrais do mundo secular, e não há nenhum motivo para solicitar

que tirem seus solidéus, suas cruzes, seus hijabs ou tilakas.

Da mesma maneira, educação secular não quer dizer uma doutrinação

negativa, que ensina crianças a não acreditar em Deus e a não participar de

quaisquer cerimônias religiosas. E sim, a educação secular ensina as crianças a

distinguir verdade de crença; a desenvolver sua compaixão por todos os seres que

sofrem; a apreciar a sabedoria e as experiências de todos os habitantes da Terra; a

pensar livremente sem temer o desconhecido; a assumir responsabilidade por suas ações e pelo mundo como um todo.

 

STÁLIN ERA SECULAR?

 

Não há, portanto, fundamento para criticar o secularismo por lhe faltar

compromissos éticos ou responsabilidades sociais. Na verdade, o principal

problema com o secularismo é o oposto. Ele provavelmente coloca o parâmetro

ético numa posição alta demais. A maioria das pessoas não é capaz de cumprir

um código tão exigente, e grandes sociedades não podem funcionar com base

numa busca em aberto por justiça e compaixão. Especialmente em tempos de

emergência — como uma guerra ou uma crise econômica — sociedades têm de

agir pronta e energicamente, mesmo que não tenham certeza de qual é a verdade

e de qual é a coisa mais compassiva a fazer. Elas precisam de diretrizes claras, de

lemas convincentes e de gritos de guerra inspiradores. Como é difícil enviar

soldados para a batalha ou impor reformas econômicas radicais em nome de

conjecturas duvidosas, os movimentos seculares repetidamente se transmudam

em credos dogmáticos.

Por exemplo, Karl Marx começou alegando que todas as religiões eram

fraudes opressivas, e estimulou seus seguidores a investigar por si mesmos a

verdadeira natureza da ordem global. Nas décadas seguintes as pressões da

revolução e da guerra tornaram o marxismo mais rígido, e na época de Stálin a

linha oficial do Partido Comunista Soviético dizia que a ordem global era

complicada demais para as pessoas comuns a compreenderem, e era melhor

sempre confiar na sabedoria do partido e fazer o que ele mandasse, mesmo

quando orquestrou a prisão e o extermínio de milhões de pessoas inocentes. Isso

pode parecer duro, porém, como os ideólogos do partido nunca se cansavam de

explicar, revolução não é piquenique, e, se você quer uma omelete, vai precisar

quebrar alguns ovos.

Considerar, ou não, Stálin um líder secular depende, portanto, de como

definimos secularismo. Se utilizarmos a definição negativa minimalista —

“pessoas seculares não acreditam em Deus” —, então Stálin definitivamente foi

secular. Se utilizarmos a definição afirmativa — “pessoas seculares rejeitam todos

os dogmas não científicos e são comprometidas com a verdade, com a compaixão e com a liberdade” —, então Marx foi um insigne secular, mas Stálin

foi qualquer coisa menos isso. Ele foi o profeta da religião sem deus mas

extremamente dogmática do stalinismo.

O stalinismo não é um exemplo isolado. No outro lado do espectro político, o

capitalismo começou também como uma teoria científica muito flexível, mas aos

poucos se solidificou num dogma. Muitos capitalistas continuam a repetir o

mantra de livres mercados e crescimento econômico, sem considerar a realidade.

Não importam quais terríveis consequências resultem ocasionalmente da

modernização ou da privatização, os verdadeiros crentes do capitalismo as

descartam como meras “dores do crescimento” e prometem que tudo ficará

muito bem mediante um pouco mais de crescimento.

Os democratas liberais, que estão a meio caminho, têm sido mais leais à busca

secular da verdade e da compaixão, mas até eles às vezes a abandonam em favor

de dogmas reconfortantes. Assim, quando se defrontam com a desordem de

ditaduras brutais e Estados falidos, os liberais depositam sua fé inquestionável

em eleições gerais. Eles fazem guerras e gastam bilhões de dólares em lugares

como Iraque, Afeganistão e Congo na firme crença de que a realização de

eleições gerais vai magicamente transformar esses locais em versões mais

ensolaradas da Dinamarca. Isso apesar de repetidos fracassos, e apesar do fato de

que mesmo em lugares com uma tradição estabelecida de eleições gerais, há

ocasiões em que esses rituais trazem ao poder populistas autoritários e resultam

em nada mais que ditaduras da maioria. Se tentar questionar a suposta sabedoria

das eleições gerais, você não será mandado para o gulag, mas provavelmente vai

ouvir um sermão sobre abuso dogmático.

Claro, nem todos os dogmas são igualmente danosos. Assim como algumas

crenças religiosas beneficiaram a humanidade, também o fizeram alguns dogmas

seculares. O único lugar no qual existem direitos é nas narrativas que os

humanos inventam e contam uns aos outros. Elas foram consagradas com

dogmas por si mesmos evidentes durante a luta contra a intolerância religiosa e

governos autocráticos. Embora não seja verdade que os humanos tenham direito

natural à vida ou à liberdade, a crença nessa narrativa refreou o poder dos

regimes autoritários, protegeu minorias de serem prejudicadas e salvaguardou

bilhões das piores consequências da pobreza e da violência. Com isso, é provável que tenha contribuído para a felicidade e o bem-estar da humanidade mais do

que qualquer outra doutrina na história.

Ainda assim é um dogma. O artigo 19 da Declaração de Direitos Humanos das

Nações Unidas diz que “Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e

expressão”. Se entendemos isso como uma exigência política (“todo ser humano

deveria ter direito à liberdade de opinião”), é bastante sensato. Mas, se

acreditamos que todo Sapiens está naturalmente investido de um “direito à

liberdade de opinião”, e que portanto a censura transgride alguma lei da

natureza, está nos escapando a verdade sobre a humanidade. Enquanto se definir

como “um indivíduo que possui direitos naturais inalienáveis”, você não saberá

quem você realmente é, e não compreenderá as forças históricas que moldaram

sua sociedade e sua mente (incluindo sua crença em “direitos naturais”).

Essa ignorância talvez pouco importasse no século XX, quando as pessoas

estavam ocupadas combatendo Hitler e Stálin. Mas poderia tornar-se fatal no

século XXI, porque a biotecnologia e a inteligência artificial estão procurando

mudar o próprio significado de “humanidade”. Se estamos comprometidos com

o direito à vida, isso implicaria que devemos usar a biotecnologia para superar a

morte? Se estamos comprometidos com o direito à liberdade, deveríamos

conferir poder a algoritmos que decifram e realizam desejos ocultos? Se humanos

desfrutam de direitos humanos iguais, super-humanos deveriam desfrutar de

superdireitos? As pessoas seculares encontrarão dificuldades para se envolver

nessas questões enquanto estiverem comprometidas com a crença dogmática em

“direitos humanos”.

O dogma dos direitos humanos foi moldado em séculos passados como uma

arma contra a Inquisição, o ancien régime, os nazistas e a Ku Klux Klan.

Dificilmente estará equipado para lidar com super-humanos, ciborgues e

computadores superinteligentes. Ainda que os movimentos de direitos humanos

tenham desenvolvido um arsenal muito impressionante de argumentos e defesas

contra vieses religiosos e tiranos humanos, esse arsenal dificilmente nos protege

contra excessos do consumismo e utopias tecnológicas.

 

TOMANDO CONSCIÊNCIA DA SOMBRA

O secularismo não deveria ser equiparado ao dogmatismo stalinista ou aos

frutos amargos do imperialismo ocidental e à industrialização desenfreada. Mas

tampouco pode se esquivar de toda responsabilidade por eles. Movimentos

seculares e instituições científicas têm hipnotizado bilhões com promessas de

aperfeiçoar a humanidade e utilizar as benesses do planeta Terra para o benefício

de nossa espécie. Essas promessas resultaram não só na debelação de pestes e da

fome, mas também em gulags e no derretimento das calotas polares. Você pode

alegar que tudo isso é por culpa de pessoas que não entendem e distorcem os

ideais seculares centrais e os fatos verdadeiros da ciência. E você estará

certíssimo. Mas esse é um problema comum de todos os movimentos influentes.

Por exemplo, o cristianismo tem sido responsável por grandes crimes como a

Inquisição, as Cruzadas, a opressão de culturas nativas por todo o mundo e o

desempoderamento das mulheres. Um cristão poderia ofender-se com essa

afirmação e replicar que todos esses crimes resultaram de um entendimento

totalmente errado do cristianismo. Jesus pregou apenas o amor, e a Inquisição

baseou-se numa horrível distorção de seus ensinamentos. Podemos simpatizar

com essa afirmação, mas seria um erro inocentar o cristianismo com tanta

facilidade. Os cristãos que ficaram horrorizados com a Inquisição e as Cruzadas

não podem simplesmente lavar as mãos dessas atrocidades — deveriam em vez

disso se fazer algumas perguntas muito difíceis. Como exatamente a “religião do

amor” permitiu ser distorcida dessa maneira, e não uma só, mas muitas vezes? A

protestantes que tentem pôr toda a culpa no fanatismo católico recomenda-se a

leitura de um livro sobre o comportamento dos colonizadores protestantes na

Irlanda ou na América do Norte. Da mesma forma, marxistas deveriam se

perguntar como os ensinamentos de Marx pavimentaram o caminho para o

gulag, cientistas deveriam se perguntar como o projeto científico prestou-se tão

facilmente à desestabilização do ecossistema global, e, em especial, os geneticistas

deveriam extrair uma advertência do modo como os nazistas sequestraram as

teorias darwinianas.

Toda religião, ideologia e credo tem sua sombra e, não importa qual o credo

que você segue, deveria tomar consciência de sua sombra e evitar a ingênua

certeza de que “isso não pode acontecer conosco”. A ciência secular representa

pelo menos uma grande vantagem em relação às religiões mais tradicionais, a saber, ela não está aterrorizada com sua sombra e, em princípio, quer admitir

seus erros e pontos cegos. Se você acredita numa verdade absoluta revelada por

um poder transcendente, não pode se permitir admitir qualquer erro — pois isso

anularia toda a sua história. Mas, se você acredita na busca da verdade por

humanos falíveis, admitir erros é parte inerente do jogo.

É também por isso que movimentos seculares não dogmáticos tendem a fazer

promessas relativamente modestas. Cientes de suas imperfeições, eles esperam

efetuar pequenas mudanças incrementais, elevando o salário mínimo em alguns

dólares ou reduzindo a mortalidade infantil em uns poucos pontos percentuais.

É uma marca das ideologias dogmáticas que, devido a sua excessiva

autoconfiança, elas rotineiramente prometem o impossível. Seus líderes falam

muito livremente sobre “eternidade”, “pureza” e “redenção”, como se, ao se

implementar alguma lei, ao se construir um templo, ou ao se conquistar um

pedaço de território elas fossem capazes de salvar o mundo inteiro num só

grande gesto.

Quando estamos próximos de tomar as decisões mais importantes da vida, eu

confiaria mais naqueles que admitem ignorância do que naqueles que alegam

infalibilidade. Se você quer que sua religião, ideologia ou visão de mundo lidere o

mundo, minha primeira pergunta a você é: “Qual é o maior erro que sua religião,

ideologia ou visão de mundo cometeu? O que ela entendeu errado?”. Se você não

for capaz de responder seriamente, eu, por mim, não confiaria em você.