21 Lições para o Século 21
7. Nacionalismo: Problemas globais exigem respostas globais
7. Nacionalismo
Problemas globais exigem respostas globais
Dado que o gênero humano constitui agora uma única civilização, todos os
povos compartilhando desafios e oportunidades comuns, por que britânicos,
americanos, russos e diversos outros grupos voltam-se para o isolamento
nacionalista? Será que o retorno ao nacionalismo oferece soluções reais para os
problemas inéditos de nosso mundo global, ou é uma indulgência escapista que
pode condenar o gênero humano e a biosfera à catástrofe?
Para responder a essa pergunta devemos primeiro dissipar um mito muito
difundido. Ao contrário do que diz o senso comum, o nacionalismo não é inato à
psique humana e não tem raízes biológicas. É verdade que os humanos são
animais integralmente sociais, e a lealdade ao grupo está impressa em seus genes.
No entanto, por centenas de milhares de anos o Homo sapiens e seus ancestrais
hominídeos viveram em comunidades pequenas e íntimas, com não mais que
algumas dezenas de pessoas. Humanos desenvolvem facilmente lealdade a
grupos pequenos e íntimos como a tribo, um batalhão de infantaria ou um
negócio familiar, mas a lealdade a milhões de pessoas totalmente estranhas não é
natural para humanos. Essas lealdades em massa só apareceram nos últimos
poucos milhares de anos — em termos evolutivos, ontem de manhã — e exigem
imensos esforços de construção social.
As pessoas se deram ao trabalho de construir coletividades nacionais porque
se confrontavam com desafios que não podiam ser resolvidos por uma única
tribo. Tomem-se, por exemplo, as antigas tribos que viviam ao longo do rio Nilo
milhares de anos atrás. O rio era sua força vital. Ele irrigava os campos e
transportava o comércio. Mas era um aliado imprevisível. Se havia pouca chuva, as pessoas morriam de fome; se havia chuva demais, o rio transbordava e
destruía aldeias inteiras. Nenhuma tribo poderia resolver sozinha seus
problemas, porque cada tribo só dominava uma pequena seção do rio e não
poderia mobilizar mais do que poucas centenas de trabalhadores. Somente um
esforço comum para construir enormes barragens e cavar centenas de
quilômetros de canais poderia conter e controlar o poderoso rio. Esse foi um dos
motivos pelos quais as tribos aos poucos coalesceram numa única nação que teve
o poder de construir barragens e canais, regular o fluxo do rio, construir
reservatórios de grãos para os anos magros e estabelecer um sistema de
transporte e comunicação abrangendo todo o país.
Apesar dessas vantagens, transformar tribos e clãs em uma única nação nunca
foi fácil, em tempos passados ou hoje em dia. Para se dar conta de como é difícil
identificar-se com essa nação, você só precisa se perguntar: “Eu conheço essas
pessoas?”. Sei o nome de minhas duas irmãs e de meus onze primos, e sou capaz
de falar um dia inteiro sobre suas personalidades, seus caprichos e seus
relacionamentos. Não sei o nome das 8 milhões de pessoas que compartilham
comigo a cidadania israelense, nunca me encontrei com a maioria delas, e é
muito pouco provável que as encontre no futuro. Minha capacidade de, apesar
disso, sentir que sou leal a essa massa nebulosa não é um legado de meus
ancestrais caçadores-coletores, e sim um milagre da história recente. Um biólogo
marciano que conhecesse apenas a anatomia e a evolução do Homo sapiens seria
incapaz de adivinhar que esses macacos são capazes de desenvolver laços
comunitários com milhões de estranhos. Para convencer-me a ser leal a “Israel” e
seus 8 milhões de habitantes, o movimento sionista e o Estado israelense tiveram
de criar um gigantesco aparelho de educação, propaganda e patriotismo, assim
como sistemas nacionais de segurança, saúde e bem-estar social.
Isso não quer dizer que haja algo de errado com vínculos nacionais. Sistemas
imensos não são capazes de funcionar sem lealdades de massa, e expandir o
círculo de empatia humana tem seus méritos. As formas mais amenas de
patriotismo têm estado entre as mais benevolentes criações humanas. Acreditar
que minha nação é única, que ela merece minha lealdade e que eu tenho
obrigações especiais com seus membros inspira-me a me importar com os outros
e a fazer sacrifícios por eles. É perigoso acreditar que sem nacionalismos estaríamos todos vivendo em paraísos liberais. Mais provavelmente, estaríamos
vivendo num caos tribal. Países pacíficos, prósperos e liberais, como a Suécia, a
Alemanha e a Suíça, cultivam todos um forte senso de nacionalismo. A lista de
países aos quais faltam ligações nacionais robustas inclui o Afeganistão, a
Somália, o Congo e muitos outros Estados falidos.1
O problema começa quando o patriotismo benigno se transforma em
ultranacionalismo chauvinista. Em vez de acreditar que minha nação é única —
o que é verdadeiro para todas as nações —, eu poderia começar a sentir que
minha nação é suprema, que devo a ela toda a minha lealdade e que não tenho
obrigações relevantes com mais ninguém. Esse é um terreno fértil para conflitos
violentos. Durante gerações a crítica mais básica ao nacionalismo era que ele
levava à guerra. Mas a constatação de que havia relação entre nacionalismo e
violência dificilmente era capaz de conter os excessos nacionalistas,
particularmente quando toda nação justificava sua própria expansão militar
alegando a necessidade de se proteger contra as armações de seus vizinhos.
Enquanto a nação provia a maior parte de seus cidadãos com níveis inéditos de
segurança e prosperidade, eles estavam dispostos a pagar o preço com sangue.
No século XIX e início do século XX esse compromisso nacionalista ainda parecia
muito atraente. Embora o nacionalismo estivesse levando a terríveis conflitos
numa escala sem precedente, os Estados-nação modernos também construíam
sistemas robustos de saúde, educação e bem-estar social. Os serviços nacionais de
saúde faziam com que as batalhas de Ipres e de Verdun parecessem ter valido a
pena.
Tudo mudou em 1945. A invenção de armas nucleares abalou fortemente o
equilíbrio do arranjo nacionalista. Depois de Hiroshima, as pessoas não temiam
que o nacionalismo pudesse levar meramente à guerra — começaram a temer
que levaria a uma guerra nuclear. A aniquilação total serviu para aguçar a mente
das pessoas, e graças, não em pequena medida, à bomba atômica, o impossível
aconteceu e o gênio do nacionalismo foi espremido, ao menos em parte, de volta
para sua garrafa. Assim como os antigos aldeões da bacia do Nilo redirecionaram
parte de sua lealdade dos clãs locais para um reino muito maior capaz de conter
o perigoso rio, na era nuclear uma comunidade global aos poucos se desenvolveu
além e acima das várias nações, porque somente uma comunidade desse tipo seria capaz de conter o demônio nuclear.
Na campanha presidencial de 1964, Lyndon B. Johnson pôs no ar o famoso
“anúncio da margarida”, uma das mais bem-sucedidas peças de propaganda nos
anais da televisão. O anúncio começa com uma garotinha colhendo e contando
as pétalas de uma margarida, mas quando chega a dez uma voz metálica assume
a contagem regressiva, de dez a zero, como num lançamento de míssil. Ao chegar
a zero o clarão de uma explosão nuclear enche a tela, e o candidato Johnson
dirige-se ao público americano e diz: “É isto que está em jogo. Criar um mundo
no qual todos os filhos de Deus podem viver ou entrar na escuridão. Devemos ou
amar uns aos outros ou morrer”.2 Tendemos a associar o mote “faça amor, não
faça guerra” à contracultura do final da década de 1960, mas na verdade já em
1964 era consenso até mesmo entre políticos durões como Johnson.
Consequentemente, durante a Guerra Fria o nacionalismo cedeu lugar a uma
abordagem mais global da política internacional, e quando a Guerra Fria acabou
a globalização parecia ser a irresistível onda do futuro. Esperava-se que o gênero
humano abandonasse a política nacionalista, como se fosse uma relíquia de
tempos mais primitivos que atrairia no máximo os mal informados habitantes de
alguns países subdesenvolvidos. Acontecimentos em anos recentes provaram, no
entanto, que o nacionalismo ainda é capaz de seduzir até mesmo cidadãos da
Europa e dos Estados Unidos, mais ainda da Rússia, da Índia e da China.
Alienadas pelas forças impessoais do capitalismo global, e temendo pelo destino
de seus sistemas nacionais de saúde, educação e bem-estar social, pessoas em
todo o mundo vão buscar conforto e sentido no seio da nação.
Porém a questão levantada por Johnson no anúncio da margarida é ainda
mais pertinente hoje em dia do que em 1964. Vamos criar um mundo no qual
todos os humanos possam viver juntos ou vamos entrar na escuridão? Donald
Trump, Theresa May, Vladimir Putin, Narendra Modi e seus colegas serão
capazes de salvar o mundo apelando para nossos sentimentos nacionais, ou será
a atual torrente nacionalista uma forma de evadir o intratável problema global
que enfrentamos?
O DESAFIO NUCLEAR
Comecemos com a nêmese íntima do gênero humano: a guerra nuclear.
Quando o anúncio da margarida foi ao ar, em 1964, dois anos após a crise dos
mísseis de Cuba, a aniquilação nuclear era uma ameaça palpável. Especialistas e
leigos temiam que o gênero humano não tivesse sabedoria para evitar a
destruição, e que era apenas questão de tempo para a Guerra Fria ferver. Na
verdade, o gênero humano provou-se à altura do desafio nuclear. Americanos,
soviéticos, europeus e chineses mudaram o modo com que a geopolítica fora
conduzida durante milênios, e assim a Guerra Fria terminou com pouco
derramamento de sangue, e uma nova ordem mundial internacionalista
fomentou uma era de paz sem precedente. Não só se evitou a guerra nuclear,
como diminuíram as guerras de todos os tipos. Desde 1945,
surpreendentemente, poucas fronteiras foram redesenhadas mediante agressão
direta, e a maior parte dos países cessou de usar a guerra como instrumento
político padrão. Em 2016, apesar da guerra na Síria, na Ucrânia e vários outros
focos de tensão, menos pessoas morreram devido à violência humana do que a
obesidade, acidentes de carro ou suicídio.3 Essa talvez seja a maior realização
política e moral de nossos tempos.
Infelizmente, estamos tão acostumados a essa conquista que a tomamos como
certa e garantida. É por isso, em parte, que há quem se permita brincar com fogo.
A Rússia e os Estados Unidos embarcaram recentemente numa nova corrida
nuclear, desenvolvendo novas máquinas do juízo final que ameaçam desfazer
tudo o que se ganhou a duras penas nas últimas décadas e nos levar de volta à
beira da aniquilação nuclear.4 Enquanto isso o público aprendeu a parar de se
preocupar e de amar a bomba (como sugeriu o dr. Fantástico), ou simplesmente
esqueceu que ela existia.
Assim, o debate do Brexit na Inglaterra — uma importante potência nuclear
— girou principalmente em torno de questões de economia e imigração,
enquanto a contribuição vital da União Europeia para a paz europeia e global foi
amplamente ignorada. Após séculos de terríveis carnificinas, franceses, alemães,
italianos e britânicos finalmente construíram um mecanismo que garante a
harmonia continental — até o público inglês sabotar essa máquina milagrosa.
Foi extremamente difícil construir o regime internacional que impediu uma
guerra nuclear e salvaguardou a paz no mundo. Não há dúvida de que precisamos adaptar esse regime às novas condições globais, por exemplo,
apoiando-nos menos nos Estados Unidos e atribuindo um papel maior a
potências não ocidentais, como China e Índia.5 No entanto, abandonar
totalmente esse regime e reverter para uma política nacionalista de poder seria
uma aposta irresponsável. É verdade que no século XIX os países jogaram o jogo
nacionalista sem destruir a civilização humana. Mas isso foi na era pré-
Hiroshima. Desde então, as armas nucleares elevaram as apostas e mudaram a
natureza fundamental da guerra e da política. Enquanto os humanos souberem
como enriquecer urânio e plutônio, sua sobrevivência depende de saberem dar
preferência à prevenção de uma guerra nuclear em detrimento dos interesses de
qualquer nação em particular. Nacionalistas fervorosos que gritam “Nosso país
em primeiro lugar!” deveriam se perguntar se seu país é capaz de, sozinho, sem
um robusto sistema de cooperação internacional, proteger o mundo — ou a si
mesmo — da destruição nuclear.
O DESAFIO ECOLÓGICO
Além da guerra nuclear, nas próximas décadas o gênero humano vai enfrentar
uma nova ameaça existencial que os radares políticos mal registravam em 1964: o
colapso ecológico. Os humanos estão desestabilizando a biosfera global em
múltiplas frentes. Estamos extraindo cada vez mais recursos do meio ambiente, e
despejando nele quantidades enormes de lixo e veneno, mudando a composição
do solo, da água e da atmosfera.
Não temos sequer ideia das dezenas de milhares de maneiras com que
rompemos o delicado equilíbrio ecológico que se configurou ao longo de milhões
de anos. Considere, por exemplo, o uso de fosfato como fertilizante. Em
pequenas quantidades é um nutriente essencial para o crescimento de plantas.
Mas em quantidades excessivas torna-se tóxico. A agricultura industrial moderna
baseia-se em fertilizar artificialmente os campos com muito fosfato, mas a grande
quantidade de fosfato que escorre das fazendas vai envenenar rios, lagos e
oceanos, com impacto devastador na vida marinha. Um agricultor que cultiva
milho em Iowa pode estar inadvertidamente matando peixes no golfo do México.
Como resultado dessas atividades, hábitats são degradados, animais e plantas são extintos e ecossistemas inteiros, como a Grande Barreira de Corais
australiana e a Floresta Amazônica, podem ser destruídos. Durante milhares de
anos o Homo sapiens comportou-se como um assassino em série ecológico; agora
está se metamorfoseando num assassino em massa ecológico. Se continuarmos
no curso atual, isso não apenas causará a aniquilação de um grande percentual de
todas as formas de vida como poderia também solapar os fundamentos da
civilização humana.6
A ameaça maior é a mudança climática. Os humanos existem há centenas de
milhares de anos, e sobreviveram a inúmeras idades do gelo e ondas de calor. No
entanto, a agricultura, as cidades e as sociedades complexas existem há menos de
10 mil anos. Durante esse período, conhecido como Holoceno, o clima da Terra
tem sido relativamente estável. Qualquer desvio dos padrões do Holoceno
apresentará às sociedades humanas desafios enormes com os quais nunca se
depararam. Será como fazer um experimento em aberto com bilhões de cobaias
humanas. Mesmo que a civilização se adapte posteriormente às novas condições,
quem sabe quantas vítimas perecerão no processo de adaptação?
Esse experimento aterrorizante já foi acionado. Ao contrário de uma guerra
nuclear — que é um futuro potencial —, a mudança climática é uma realidade
presente. Existe um consenso científico de que atividades humanas,
particularmente a emissão de gases de efeito estufa como o dióxido de carbono,
estão fazendo o clima da terra mudar num ritmo assustador.7 Ninguém sabe
exatamente quanto dióxido de carbono podemos continuar lançando na
atmosfera sem desencadear um cataclismo irreversível. Mas nossas melhores
estimativas científicas indicam que a menos que cortemos dramaticamente a
emissão de gases de efeito estufa nos próximos vinte anos, a temperatura média
global se elevará em 2oC,8 o que resultará na expansão de desertos, no
desaparecimento de calotas de gelo, na elevação dos oceanos e em maior
recorrência de eventos climáticos extremos, como furacões e tufões. Essas
mudanças, por sua vez, vão desmantelar a produção agrícola, inundar cidades,
tornar grande parte do mundo inabitável e despachar centenas de milhões de
refugiados em busca de novos lares.9
Além disso, estamos nos aproximando rapidamente de um certo número de
pontos de inflexão além dos quais mesmo uma queda dramática na emissão de gases de efeito estufa não será suficiente para reverter essa tendência e evitar uma
tragédia de abrangência mundial. Por exemplo, à medida que o aquecimento
global derrete os mantos de gelo polar, menos luz solar é refletida do planeta
Terra para o espaço. Isso quer dizer que o planeta estará absorvendo mais calor,
as temperaturas se elevarão ainda mais e o gelo derreterá ainda mais
rapidamente. Quando esse ciclo ultrapassar um limiar crítico, ele vai criar um
impulso próprio irresistível, e todo o gelo das regiões polares derreterá mesmo
que os humanos parem de queimar carvão, petróleo e gás. Por isso não basta que
reconheçamos o perigo que enfrentamos. É crucial que façamos algo quanto a
isso agora.
Infelizmente, em 2018, em vez de haver uma redução na emissão de gás de
efeito estufa, a taxa global de emissão está aumentando. A humanidade dispõe de
muito pouco tempo para se desapegar dos combustíveis fósseis. Temos de
começar a desintoxicação hoje. Não no ano ou no mês que vem, mas hoje. “Oi,
sou o Homo sapiens, e sou viciado em combustível fóssil.”
Onde se encaixa o nacionalismo neste quadro alarmante? Haverá uma
resposta nacionalista à ameaça ecológica? Alguma nação, mesmo que poderosa,
será capaz de sozinha fazer parar o aquecimento global? Países podem,
individualmente, adotar uma variedade de políticas ambientais, muitas das quais
fazem sentido econômico e ambiental. Governos podem taxar emissões de
carbono, adicionar custos de externalidades ao preço do petróleo e do gás, adotar
regulamentos ambientais mais rigorosos, cortar subsídios de indústrias poluentes
e incentivar a mudança para energia renovável. Podem também investir mais
dinheiro na pesquisa e no desenvolvimento de tecnologias revolucionárias
ecologicamente corretas, numa espécie de Projeto Manhattan ecológico. Deve-se
ao motor de combustão interna muito dos avanços dos últimos 150 anos, mas, se
quisermos manter um meio ambiente física e economicamente estável, ele tem
de ser aposentado e substituído por novas tecnologias que não dependem da
queima de combustíveis fósseis.10
Inovações tecnológicas podem ser úteis em muitos outros campos além da
energia. Considere, por exemplo, o potencial de desenvolver uma “carne limpa”.
Atualmente a indústria da carne não só inflige imenso sofrimento a bilhões de
seres sencientes como também é uma das causas do aquecimento global, um dos principais consumidores de antibióticos e veneno e um dos maiores poluidores
do ar, da terra e da água. Segundo um relatório de 2013 da Institution of
Mechanical Engineers, são necessários 15 mil litros de água fresca para produzir
um quilograma de carne bovina, comparados com 287 litros necessários para
produzir um quilograma de batatas.11
A pressão sobre o meio ambiente provavelmente vai piorar à medida que a
prosperidade crescente de países como China e Brasil permitir que centenas de
milhões deixem de comer apenas batatas e passem a comer carne regularmente.
Seria difícil convencer chineses e brasileiros — isso sem mencionar americanos e
alemães — a parar de comer bifes, hambúrgueres e salsichas. Mas e se os
engenheiros fossem capazes de encontrar uma maneira de produzir carne a
partir de células? Se quiser um hambúrguer, crie apenas um hambúrguer, em vez
de criar e abater uma vaca inteira (e transportar a carcaça por milhares de
quilômetros).
Isso pode soar como ficção científica, mas o primeiro hambúrguer limpo foi
criado a partir de células — e depois comido — em 2013. Custou 330 mil dólares.
Quatro anos de pesquisa e desenvolvimento trouxeram o preço para onze dólares
por unidade, e dentro de mais uma década espera-se que a carne limpa
produzida industrialmente seja mais barata do que a carne abatida. Esse
desenvolvimento tecnológico pode salvar bilhões de animais de uma vida de
miséria abjeta, ajudar a alimentar bilhões de humanos malnutridos e ao mesmo
tempo ajudar a impedir o colapso ecológico.12
Há, portanto, muitas coisas que governos, corporações e indivíduos podem
fazer para evitar a mudança climática. Mas para que sejam eficazes devem ser
feitas num nível global. Quando se trata de clima, os países simplesmente não são
soberanos. Estão à mercê de ações realizadas por pessoas no outro lado do
planeta. A República de Kiribati — uma nação insular no oceano Pacífico —
pode reduzir sua emissão de gás de efeito estufa a zero, e assim mesmo ficar
submersa com a elevação das águas se outros países não seguirem seu exemplo.
O Chade pode pôr painéis solares em todos os telhados do país e ainda assim
tornar-se um deserto árido devido às políticas ambientais irresponsáveis de
estrangeiros longínquos. Até mesmo nações poderosas como China e Japão não
são soberanas no que concerne à ecologia. Para proteger Xangai, Hong Kong e Tóquio de inundações e tufões destrutivos, chineses e japoneses terão de
convencer os governos russo e americano a abandonar seu comportamento
tradicional.
O isolacionismo nacionalista talvez seja mais perigoso no contexto de
mudança climática do que no contexto de uma guerra nuclear. Uma guerra
nuclear em escala mundial ameaçaria destruir todas a nações, e assim todas as
nações têm interesse em evitá-la. O aquecimento global, em contraste,
provavelmente terá impacto diferente em diferentes nações. Alguns países,
notadamente a Rússia, podem se beneficiar dele. A Rússia tem poucos ativos em
seu litoral, daí estar muito menos preocupada que a China ou o Kiribati quanto à
elevação do nível do mar. E enquanto temperaturas mais altas provavelmente
transformariam a China num deserto, elas podem simultaneamente fazer da
Sibéria o celeiro do mundo. Além disso, enquanto o gelo derrete no extremo
norte, as rotas no mar Ártico dominado pela Rússia podem tornar-se a artéria do
comércio global, e Kamchatka poderá substituir Cingapura como o
entroncamento do mundo.13
Da mesma forma, é provável que a substituição dos combustíveis fósseis por
fontes renováveis de energia seja mais atraente para alguns países do que para
outros. China, Japão e Coreia do Sul dependem da importação de enormes
quantidades de petróleo e gás. Ficarão felizes de se livrar desse fardo. Rússia, Irã e
Arábia Saudita dependem da exportação de petróleo e gás. Suas economias
entrarão em colapso se o petróleo e o gás de repente derem lugar ao Sol e ao
vento.
Consequentemente, enquanto algumas nações como China, Japão e Kiribati
provavelmente farão forte pressão para a redução das emissões de carbono o
mais cedo possível, outras nações, como Rússia e Irã, podem ficar muito menos
entusiasmadas. Mesmo em países suscetíveis a grandes perdas com o
aquecimento global, como os Estados Unidos, nacionalistas talvez sejam míopes
e autocentrados demais para avaliar o perigo. Um exemplo pequeno, porém
eloquente, foi dado em janeiro de 2018, quando os Estados Unidos impuseram
uma tarifa de 30% sobre painéis solares e equipamentos de energia solar de
fabricação estrangeira, preferindo apoiar produtores americanos mesmo ao
preço de retardar a mudança para a energia renovável.14
Uma bomba atômica é uma ameaça tão óbvia e imediata que ninguém pode
ignorá-la. O aquecimento global, em contraste, é uma ameaça mais vaga e
prolongada. Daí que, sempre que considerações ambientais de longo prazo
exigem algum sacrifício, nacionalistas podem ser tentados a pôr interesses
nacionais em primeiro lugar, e se tranquilizam dizendo que podem se preocupar
com o meio ambiente mais tarde, ou deixar isso para pessoas de outros lugares.
Ou então podem simplesmente negar a existência do problema. Não é
coincidência que o ceticismo quanto à mudança climática tende a ser exclusivo
da direita nacionalista. Raramente veem-se socialistas ou a esquerda proclamar
que “a mudança climática é um embuste chinês”. Como não existe uma resposta
nacional ao problema do aquecimento global, alguns políticos nacionalistas
preferem acreditar que o problema não existe.15
O DESAFIO TECNOLÓGICO
É provável que a mesma dinâmica estrague qualquer antídoto nacionalista à
terceira ameaça existencial do século XXI: a disrupção tecnológica. Como vimos
em capítulos anteriores, a fusão da tecnologia da informação com a biotecnologia
abre a porta para uma cornucópia de cenários apocalípticos, que vão desde
ditaduras digitais até a criação de uma classe global de inúteis. Qual é a resposta
nacionalista a essas ameaças?
Não existe uma resposta nacionalista. Como no caso da mudança climática,
também no da disrupção tecnológica o Estado-nação é simplesmente o contexto
errado para enfrentar a ameaça. Uma vez que pesquisa e desenvolvimento não
são monopólio de nenhum país, nem mesmo uma superpotência como os
Estados Unidos pode restringi-los a si mesma. Se o governo dos Estados Unidos
proibir que se faça engenharia genética em embriões humanos, isso não impedirá
que cientistas chineses a façam. E se os desenvolvimentos daí resultantes
conferirem à China alguma vantagem econômica ou militar importante, os
Estados Unidos ficarão tentados a abolir sua própria proibição. Especialmente
num mundo xenofóbico em que um devora o outro, se um único país optar por
seguir um caminho tecnológico de alto ganho e alto risco, outros países serão
obrigados a fazer o mesmo, porque ninguém pode se dar ao luxo de ficar para trás. Para evitar uma corrida ao fundo do poço, o gênero humano provavelmente
vai precisar de algum tipo de identidade e lealdade global.
Além disso, enquanto a guerra nuclear e a mudança climática ameaçam
apenas a sobrevivência física do gênero humano, tecnologias disruptivas podem
mudar a própria natureza da humanidade, e estão entrelaçadas com as mais
profundas crenças éticas e religiosas humanas. Enquanto todos concordam que
devíamos evitar a guerra nuclear e o colapso ecológico, as pessoas têm opiniões
muito diferentes quanto ao uso da bioengenharia e da IA para aprimorar os
humanos e criar novas formas de vida. Se o gênero humano não conseguir
conceber e administrar diretrizes éticas globalmente aceitas, estará aberta a
temporada para o dr. Frankenstein.
Quando se trata de formular essas diretrizes éticas, acima de tudo é o
nacionalismo que sofre de um fracasso da imaginação. O nacionalismo pensa em
termos de conflitos territoriais que duram séculos, enquanto as revoluções
tecnológicas do século XXI deveriam ser compreendidas em termos cósmicos.
Depois de 4 bilhões de anos de vida orgânica evoluindo por seleção natural, a
ciência está nos levando à era da vida inorgânica configurada por design
inteligente.
Neste processo, o Homo sapiens provavelmente desaparecerá. Ainda somos
macacos da família dos hominídeos. Ainda compartilhamos com neandertais e
chimpanzés a maior parte de nossas estruturas corporais, habilidades físicas e
faculdades mentais. Não só nossas mãos, olhos e cérebro são distintamente
hominídeos como também nosso amor, nossa paixão, nossa raiva e nossos
vínculos sociais. Dentro de um ou dois séculos, a combinação de biotecnologia e
IA poderá resultar em traços corporais, físicos e mentais que se libertem
completamente do molde hominídeo. Alguns acreditam que a consciência
poderia até mesmo ser dissociada de toda estrutura orgânica, e surfar pelo
ciberespaço livre de todas as restrições biológicas e físicas. Por outro lado,
poderíamos testemunhar a total dissociação de inteligência e consciência, e o
desenvolvimento da IA poderia resultar num mundo dominado por entidades
superinteligentes, mas totalmente não conscientes.
O que tem o nacionalismo israelense, russo ou francês a dizer sobre isso? Para
poder fazer escolhas sensatas quanto ao futuro da vida, precisamos ir bem além do ponto de vista nacionalista e olhar para as coisas de uma perspectiva global,
ou até mesmo cósmica.
A ESPAÇONAVE TERRA
Cada um desses três problemas — guerra nuclear, colapso ecológico e
disrupção tecnológica — é suficiente para ameaçar o futuro da civilização. Mas,
tomados em conjunto, eles se somam a uma crise existencial sem precedente, em
especial porque provavelmente irão se reforçar e recompor mutuamente.
Por exemplo, mesmo que a crise ecológica ameace a sobrevivência da
civilização humana como a conhecemos, é improvável que detenha o
desenvolvimento da IA e da bioengenharia. Se você está contando com a elevação
dos oceanos, a constante diminuição no suprimento de alimentos e as migrações
em massa para desviar nossa atenção dos algoritmos e dos genes, pense
novamente. À medida que a crise ecológica se aprofunda, o desenvolvimento de
tecnologias de alto risco e alto ganho provavelmente só vai acelerar.
Na verdade, a mudança climática pode vir a desempenhar a mesma função das
duas guerras mundiais. Entre 1914 e 1918, e novamente entre 1939 e 1945, o
ritmo do desenvolvimento tecnológico disparou porque as nações envolvidas em
uma guerra total mandaram a cautela e a economia para o espaço e investiram
imensos recursos em todo tipo de projetos audaciosos e fantásticos. Muitos
desses projetos fracassaram, mas alguns resultaram em tanques, radar, gás
venenoso, jatos supersônicos, mísseis intercontinentais e bombas nucleares. Da
mesma forma, as nações, ante um cataclismo climático, poderiam ficar tentadas a
investir suas esperanças em apostas tecnológicas desesperadas. O gênero humano
tem muitas e justificadas dúvidas quanto à IA e à bioengenharia, mas em tempos
de crise as pessoas fazem coisas arriscadas. O que quer que você pense quanto a
regular tecnologias disruptivas, pergunte a si mesmo se é provável que essas
regulações se mantenham mesmo que a mudança climática cause escassez global
de alimentos, inunde cidades em todo o mundo e obrigue centenas de milhões de
refugiados a cruzar fronteiras.
As disrupções tecnológicas, por sua vez, poderiam aumentar o perigo de
guerras apocalípticas não só ao acirrar as tensões globais, mas também ao desestabilizar o equilíbrio do poder nuclear. Desde a década de 1950, as
superpotências evitam conflitos entre si porque sabem que uma guerra
significaria destruição mútua garantida. Mas, à medida que surgem novos tipos
de armas ofensivas e defensivas, uma superpotência tecnológica emergente
poderia concluir que é capaz de destruir seus inimigos impunemente. Por outro
lado, uma potência em declínio poderia temer que suas armas atômicas
tradicionais ficassem logo obsoletas e que seria melhor usá-las antes de perdê-las.
Tradicionalmente, confrontos nucleares se parecem com um jogo de xadrez
hiper-racional. O que acontecerá quando jogadores forem capazes de usar
ciberataques para se apoderar do controle das peças de um rival, ou quando
terceiras partes anônimas puderem mover um peão sem que ninguém saiba
quem fez a jogada — ou quando o Alfa-Zero for promovido do xadrez comum
ao xadrez nuclear?
Assim como desafios diferentes tendem a se reforçar reciprocamente, também
a boa vontade necessária para enfrentar um desafio pode ser corrompida devido
a problemas em outra frente. Países envolvidos em competição armamentista
não são propensos a concordar com restrições ao desenvolvimento de IA, e países
que se esforçam por ultrapassar as conquistas tecnológicas de seus rivais acharão
muito difícil concordar com um plano comum para deter a mudança climática.
Enquanto o mundo permanecer dividido em nações rivais será muito difícil
superar simultaneamente os três desafios — e o fracasso em uma única dessas
frentes pode se mostrar catastrófico.
Para concluir, a onda nacionalista que varre o mundo não pode fazer o relógio
recuar para 1939 ou 1914. A tecnologia mudou tudo ao criar um conjunto de
ameaças existenciais globais que nenhuma nação é capaz de resolver sozinha.
Um inimigo comum é o melhor catalisador para a formação de uma identidade
comum, e o gênero humano tem agora pelo menos três desses inimigos — guerra
nuclear, mudança climática e disrupção tecnológica. Se apesar dessas ameaças
comuns os humanos privilegiarem suas lealdades nacionais particulares acima de
tudo, os resultados serão muito piores que os de 1914 e 1939.
Um caminho muito melhor é o que foi delineado na Constituição da União
Europeia: “enquanto permanecem orgulhosos de suas próprias identidades
nacionais e de sua história, os povos da Europa estão determinados a transcender suas divisões anteriores e, ainda mais estreitamente unidos, forjar um destino
comum”.16 Isso não significa a abolição de todas as identidades nacionais, o
abandono de todas as tradições locais e a transformação da humanidade numa
gosma homogênea e cinzenta. Nem significa o vilipêndio de todas as expressões
de patriotismo. Na verdade, ao prover um escudo protetor continental, militar e
econômico, a União Europeia sem dúvida fomentou o patriotismo local em
lugares como Flandres, Lombardia, Catalunha e Escócia. A ideia de estabelecer
uma Escócia ou uma Catalunha independentes fica mais atraente quando não se
teme uma invasão alemã e quando se pode contar com uma frente europeia
comum contra o aquecimento global e corporações multinacionais.
Por isso os nacionalistas europeus estão se portando com tranquilidade. Com
todo o discurso do retorno da nação, poucos europeus estariam efetivamente
dispostos a matar e serem mortos por isso. Quando os escoceses decidiram se
livrar do controle de Londres na época de William Wallace e Robert Bruce,
tiveram de pegar em armas. Em contraste, nem uma só pessoa foi morta durante
o referendo escocês de 2014, e se na próxima vez os escoceses votarem pela
independência, é altamente improvável que tenham de reeditar a Batalha de
Bannockburn. A tentativa catalã de se separar da Espanha resultou em violência,
mas tampouco se compara com as carnificinas de 1939 ou 1714 em Barcelona.
Oxalá o resto do mundo possa aprender com o exemplo europeu. Mesmo
num planeta unido haverá muito espaço para o tipo de patriotismo que celebra a
singularidade de minha nação e salienta minhas obrigações com ela. Mas, se
queremos sobreviver e florescer, o gênero humano não tem outra opção a não ser
complementar essas lealdades locais com obrigações reais para com a
comunidade global. Uma pessoa pode e deve ser simultaneamente leal a sua
família, sua vizinhança, sua profissão e sua nação — por que não acrescentar à
lista a humanidade e o planeta? É verdade que quando se tem múltiplas lealdades
os conflitos são às vezes inevitáveis. Mas quem disse que a vida era simples?
Em séculos passados as identidades nacionais eram forjadas porque os
humanos enfrentavam problemas e oportunidades que estavam muito além do
escopo de tribos locais, e somente com uma cooperação que abrangesse todo o
país poder-se-ia lidar com eles. No século XXI, as nações encontram-se na mesma
situação das tribos antigas: já não constituem mais o contexto no qual se tem de enfrentar os mais importantes desafios da época. Precisamos de uma nova
identidade global porque as instituições nacionais são incapazes de lidar com um
conjunto de situações globais sem precedentes. Hoje temos uma ecologia global,
uma economia global e uma ciência global — mas ainda estamos encalhados em
políticas nacionais. Essa incompatibilidade impede que o sistema político
combata efetivamente nossos principais problemas. Para ter uma política efetiva
temos ou de desglobalizar a ecologia, a economia e a marcha da ciência, ou
globalizar nossa política. Como é impossível desglobalizar a ecologia e a marcha
da ciência, e como o custo da desglobalização da economia seria provavelmente
proibitivo, a única solução real é globalizar a política. Isso não significa criar um
“governo global” — ideia duvidosa e pouco realista. Ao contrário, globalizar a
política significa que a dinâmica política dos países e até mesmo das cidades
deveria dar mais importância a interesses e problemas globais.
É pouco provável que sentimentos nacionalistas sejam de grande ajuda.
Talvez, então, possamos confiar nas tradições religiosas universais da
humanidade para que nos ajudem a unir o mundo? Centenas de anos atrás,
religiões como o cristianismo e o islamismo pensavam em termos globais, e não
locais, e estavam sempre profundamente interessadas nas grandes questões da
vida, e não apenas nas lutas políticas desta ou aquela nação. Mas as religiões
tradicionais ainda são relevantes? Teriam o poder de reconfigurar o mundo, ou
são apenas relíquias inertes de nosso passado, arremessadas aqui e ali pelas
poderosas forças de Estados, economias e tecnologias modernas?