21 Lições para o Século 21

Yuval Noah Harari · Capítulo 22 de 26

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21 Lições para o Século 21

17. Pós-verdade: Algumas fake news duram para sempre

17. Pós-verdade

Algumas fake news duram para sempre

 

Atualmente se repete que estamos vivendo uma nova e assustadora era da

“pós-verdade”, e que estamos cercados de mentiras e ficções. Não é difícil

oferecer exemplos. No final de fevereiro de 2014, unidades especiais russas, sem

ostentar insígnias de um exército, invadiram a Ucrânia e ocuparam instalações-

chave na Crimeia. O governo russo e o presidente Putin em pessoa negaram

repetidamente que eram tropas russas, e as descreveram como “grupos de

autodefesa” espontâneos que poderiam ter adquirido equipamento parecido com

o russo em lojas locais.1 Ao fazer essa declaração absurda, Putin e seus assessores

sabiam perfeitamente bem que estavam mentindo.

Nacionalistas russos são capazes de desculpar essa mentira alegando que ela

atende a uma verdade maior. A Rússia estava engajada numa guerra justa, e, se é

válido matar por uma causa justa, também não seria válido mentir? A causa mais

elevada que alegadamente justificaria a invasão da Ucrânia era a preservação da

sagrada nação russa. Segundo mitos nacionais, a Rússia é uma entidade que

perdurou por mil anos apesar de repetidas tentativas de inimigos perversos de

invadi-la e desmembrá-la. Depois dos mongóis, dos poloneses, dos suecos, da

Grande Armée de Napoleão e da Wehrmacht de Hitler, na década de 1990 foi a

Otan, os Estados Unidos e a União Europeia que tentaram destruir a Rússia,

desmembrando partes de seu território e formando com eles “falsos países”,

como a Ucrânia. Para muitos nacionalistas russos, a ideia de que a Ucrânia é uma

nação separada da Rússia é uma mentira muito maior do que qualquer coisa

pronunciada pelo presidente Putin durante sua missão sagrada de reintegrar a

nação russa.

Cidadãos ucranianos, observadores externos e historiadores podem sentir-se

ultrajados por essa explicação, e encará-la como uma espécie de “bomba atômica

da mentira” no arsenal russo de embustes. Alegar que a Ucrânia não existe como

nação e como país independente é desconsiderar uma longa lista de fatos

históricos — por exemplo, que durante os mil anos de suposta unidade russa,

Kíev e Moscou foram parte do mesmo país por somente trezentos anos. Isso

também viola numerosas leis e tratados internacionais que a Rússia tinha

aceitado e que salvaguardaram a soberania e as fronteiras da Ucrânia

independente. Mais importante, ignora o que milhões de ucranianos pensam de

si mesmos. Será que eles não têm o direito de dizer quem são?

Os nacionalistas ucranianos certamente concordariam com os nacionalistas

russos de que existem por aí alguns falsos países. Mas a Ucrânia não é um deles.

E, sim, esses falsos países são a “República Popular de Lugansk” e a “República

Popular de Donetsk”, que a Rússia estabeleceu para mascarar sua não provocada

invasão da Ucrânia.2

Seja qual for o lado que você apoia, parece que estamos realmente vivendo

uma era terrível da pós-verdade, quando não só incidentes militares específicos,

mas narrativas e nações inteiras podem ser falsificadas. Mas, se essa é a era da

pós-verdade, quando, exatamente, foi a era de ouro da verdade? Na década de

1980? De 1950? 1930? E o que desencadeou a transição para a pós-verdade — a

internet? A mídia social? A ascensão de Putin e Trump?

Uma análise superficial da história revela que a propaganda e a desinformação

não são nada novas, e até mesmo o hábito de negar nações inteiras e criar países

falsos tem um longo pedigree. Em 1931 o Exército japonês encenou ataques

simulados a si mesmo para justificar sua invasão da China, e depois criou o país

falso de Manchukuo para legitimar suas conquistas. A própria China negou

durante muito tempo que o Tibete alguma vez tenha existido como país

independente. A colonização britânica na Austrália foi justificada com a doutrina

legal de terra nullius (“terra de ninguém”), que efetivamente apagou 50 mil anos

de história aborígene.

No início do século XX, um dos lemas favoritos do sionismo falava do retorno

de “um povo sem terra [os judeus] a uma terra sem povo [Palestina]”. A

existência de uma população árabe local foi convenientemente ignorada. Em 1969 a primeira-ministra israelense Golda Meir disse que não existe e nunca

existiu um povo palestino. Essas ideias são muito comuns em Israel até hoje,

apesar de décadas de conflitos armados contra algo que não existe. Por exemplo,

em fevereiro de 2016, a parlamentar Anat Berko fez um discurso no Parlamento

de Israel no qual duvidava da realidade e da história do povo palestino. Sua

prova? A letra “P” nem sequer existe em árabe, então como pode haver um povo

palestino? (Em árabe, usa-se “f” em lugar de “p”, e o nome árabe para a Palestina

é Falastin.)

 

A ESPÉCIE DA PÓS-VERDADE

 

Os humanos sempre viveram na era da pós-verdade. O Homo sapiens é uma

espécie da pós-verdade, cujo poder depende de criar ficções e acreditar nelas.

Desde a Idade da Pedra, mitos que se autorreforçavam serviram para unir

coletivos humanos. Realmente, o Homo sapiens conquistou esse planeta graças,

acima de tudo, à capacidade exclusiva dos humanos de criar e disseminar ficções.

Somos os únicos mamíferos capazes de cooperar com vários estranhos porque

somente nós somos capazes de inventar narrativas ficcionais, espalhá-las e

convencer milhões de outros a acreditar nelas. Enquanto todos acreditarmos nas

mesmas ficções, todos nós obedecemos às mesmas leis e, portanto, cooperamos

efetivamente.

Assim, se você culpa o Facebook, Trump ou Putin por introduzir a nova e

assustadora era da pós-verdade, lembre-se de que séculos atrás milhões de

cristãos se fecharam dentro de uma bolha mitológica que se autorreforçava,

nunca ousando questionar a veracidade factual da Bíblia, enquanto milhões de

muçulmanos depositaram sua fé inquestionável no Corão. Por milênios, muito

do que era considerado “notícia” e “fato” nas redes sociais humanas eram

narrativas sobre milagres, anjos, demônios e bruxas, com ousados repórteres

dando cobertura ao vivo diretamente das mais profundas fossas do submundo.

Temos zero evidência científica de que Eva foi tentada pela serpente, que as

almas dos infiéis ardem no inferno depois que morrem ou que o criador do

universo não gosta quando um brâmane se casa com um intocável — mas

bilhões de pessoas têm acreditado nessas narrativas durante milhares de anos. Algumas fake news duram para sempre.

Estou ciente de que muita gente poderá se aborrecer por eu equiparar religião

com fake news, mas este é exatamente o ponto. Quando mil pessoas acreditam

durante um mês numa história inventada — isso é fake news. Quando 1 bilhão

de pessoas acreditam durante milhares de anos — isto é uma religião, e somos

advertidos a não chamar de fake news para não ferir os sentimentos dos fiéis (ou

incorrer em sua ira). Observe, no entanto, que não estou negando a efetividade

ou benevolência potencial da religião. Exatamente o contrário. Para o bem ou

para o mal, a ficção está entre os instrumentos mais eficazes na caixa de

ferramentas da humanidade. Ao unir pessoas, credos religiosos possibilitam a

cooperação em grande escala. Eles inspiram a construção de hospitais, escolas e

pontes, além de exércitos e prisões. Adão e Eva nunca existiram, mas a catedral

de Chartres continua linda. Grande parte da Bíblia pode ser ficcional, mas ainda

é capaz de trazer alegria a bilhões, e ainda é capaz de incentivar os humanos a

serem compassivos, corajosos e criativos — assim como outras grandes obras de

ficção, como Dom Quixote, Guerra e paz e Harry Potter.

De novo, algumas pessoas podem se ofender com minha comparação da Bíblia

com Harry Potter. Se você é um cristão com mente científica poderia minimizar

todos os erros e mitos na Bíblia alegando que nunca se pretendeu que o livro

sagrado fosse lido como um relato factual, e sim como uma narrativa metafórica

que encerra profunda sabedoria. Mas isso não vale para Harry Potter também?

Se você é um cristão fundamentalista é mais provável que insista em que cada

palavra da Bíblia é verdade. Suponhamos por um momento que você tem razão,

e que a Bíblia realmente é a infalível palavra do único e verdadeiro Deus. O que,

então, você faz com o Corão, o Talmude, o Livro dos Mórmons, os Vedas, o

Avesta, o Livro dos Mortos egípcio? Você não fica tentado a dizer que esses

textos são elaboradas ficções criadas por humanos de carne e osso (ou talvez por

demônios)? E como vê você a divindade de imperadores romanos como Augusto

e Cláudio? O Senado Romano alegava ter o poder de transformar pessoas em

deuses, e depois esperava que os súditos do império cultuassem esses deuses. Isso

não era ficção? De fato, temos pelo menos um exemplo na história de um falso

deus que reconheceu a ficção numa declaração por sua própria boca. Como já

observado, o militarismo japonês na década de 1930 e início da de 1940 apoiava-se na crença fanática na divindade do imperador Hirohito. Após a derrota do

Japão, Hirohito proclamou publicamente que isso não era verdade, e que ele

afinal de contas não era um deus.

Assim, mesmo se concordarmos que a Bíblia é a verdadeira palavra de Deus,

isso ainda nos deixa com bilhões de devotos hindus, muçulmanos, judeus,

egípcios, romanos e japoneses que durante milhares de anos depositaram sua

confiança em ficções. De novo, isso não quer dizer que essas ficções são

necessariamente desprovidas de valor ou danosas. Ainda podem ser belas e

inspiradoras.

É claro que nem todos os mitos religiosos foram igualmente benevolentes. Em

29 de agosto de 1255, o corpo de um menino inglês de nove anos de idade

chamado Hugh foi encontrado num poço, na cidade de Lincoln. Mesmo sem

Facebook nem Twitter, rapidamente espalhou-se o boato de que Hugh tinha sido

vítima de um assassinato ritual realizado pelos judeus locais. A história foi

crescendo à medida que era recontada, e um dos mais renomados cronistas

ingleses da época — Matthew Paris — criou uma detalhada e sangrenta versão de

como judeus proeminentes de toda a Inglaterra reuniram-se em Lincoln para

engordar, torturar e finalmente crucificar o menino sequestrado. Dezenove

judeus foram julgados e executados pelo suposto assassinato. Libelos de sangue

semelhantes tornaram-se populares em outras cidades inglesas, levando a uma

série de pogroms nos quais comunidades inteiras foram massacradas.

Posteriormente, em 1290, toda a população judaica da Inglaterra foi expulsa do

país.3

A história não termina aí. Um século depois da expulsão dos judeus da

Inglaterra, Geoffrey Chaucer — o pai da literatura inglesa — incluiu um libelo de

sangue modelado na história de Hugh de Lincoln em seus Contos da Cantuária

(“Conto da Prioresa”). O texto culmina com o enforcamento dos judeus. Libelos

de sangue semelhantes tornaram-se subsequentemente componentes básicos de

todo movimento antissemita, da Espanha medieval à Rússia moderna. Pôde-se

ouvir um eco distante disso na fake news de que Hillary Clinton chefiava uma

rede de tráfico humano que mantinha crianças como escravas sexuais no porão

de uma pizzaria muito frequentada. Não foram poucos os americanos que

acreditaram na história, destinada a prejudicar a campanha eleitoral de Clinton, e uma pessoa até veio armada à pizzaria e exigiu ver o porão (constatou-se que a

pizzaria nem tinha porão).4

Quanto ao próprio Hugh de Lincoln, ninguém sabe realmente como ele

morreu, mas foi enterrado na catedral de Lincoln e venerado como um santo. Foi

reputado como o realizador de vários milagres, e seu túmulo continua a atrair

peregrinos até mesmo séculos depois da expulsão de todos os judeus da

Inglaterra.5 Foi somente em 1955 — dez anos após o Holocausto — que a

catedral de Lincoln repudiou a versão do libelo de sangue, colocando uma placa

junto ao túmulo, onde se lê:

Histórias inventadas de “assassinatos rituais” de meninos cristãos por comunidades judaicas eram

comuns em toda a Europa durante a Idade Média, e mesmo muito mais tarde. Essas ficções custaram a

vida de muitos judeus inocentes. Lincoln teve sua própria lenda, e a alegada vítima foi sepultada na

Catedral no ano de 1255. Essas histórias não redundam em crédito para a Cristandade.6

Bem, algumas fake news duram apenas setecentos anos.

 

UMA VEZ MENTIRA, SEMPRE VERDADE

 

Religiões antigas não foram as únicas que usaram ficção para cimentar

cooperação. Em tempos mais recentes, cada nação criou sua própria mitologia

nacional, enquanto movimentos como o comunismo, o fascismo e o liberalismo

modelaram elaborados credos que se autorreforçam. Diz-se que Joseph

Goebbels, o maestro da propaganda nazista, e talvez o mais realizado mago da

mídia da era moderna, explicou seu método sucintamente declarando que “uma

mentira dita uma vez continua uma mentira, mas uma mentira dita mil vezes

torna-se verdade”.7 Em Mein Kampf, Hitler escreveu que “a mais brilhante

técnica de propaganda não vai ter sucesso a menos que se leve sempre em conta

um princípio fundamental — ela tem de se limitar a alguns pontos e repeti-los

sem parar”.8 Será que algum vendedor de fake news atual é capaz de fazer melhor

do que isso?

A máquina de propaganda soviética foi igualmente ágil com a verdade,

reescrevendo a história de tudo, desde guerras inteiras até fotografias individuais.

Em 29 de junho de 1936, o jornal oficial Pravda (“verdade”, em russo) trazia na

primeira página uma foto de um sorridente Josef Stálin abraçando Gelya Markizova, uma menina de sete anos. A imagem tornou-se um ícone stalinista,

consagrando Stálin como o Pai da Nação e idealizando a “Feliz Infância

Soviética”. Gráficas e fábricas por todo o país produziram milhões de pôsteres,

esculturas e mosaicos da cena, que foram exibidos em instituições públicas de

uma extremidade da União Soviética a outra. Assim como nenhuma igreja

ortodoxa russa está completa sem um ícone da Virgem Maria segurando o

menino Jesus, nenhuma escola soviética poderia dispensar um ícone de papai

Stálin segurando a pequena Gelya.

Infelizmente, no império de Stálin a fama era quase sempre um convite à

catástrofe. Um ano depois da foto, o pai de Gelya foi preso sob a espúria

acusação de que era um espião japonês e um terrorista trotskista. Em 1938 foi

executado, uma das milhões de vítimas do terror stalinista. Gelya e sua mãe

foram exiladas para o Cazaquistão, onde a mãe logo morreu em circunstâncias

misteriosas. O que fazer agora com os incontáveis ícones mostrando o Pai da

Nação com a filha de um condenado “inimigo do povo”? Sem problema. Daquele

momento em diante, Gelya Markizova desapareceu, e a “Feliz Criança Soviética”

na imagem ubíqua foi identificada como Mamlakat Nakhangova — uma menina

tadjique de treze anos que recebeu a Ordem de Lênin colhendo diligentemente

grandes quantidades de algodão nos campos (se alguém achasse que a menina na

foto não parecia ter treze anos, pensava duas vezes antes de mencionar tal heresia

antirrevolucionária).9

A máquina de propaganda soviética era tão eficiente que conseguiu esconder

as atrocidades monstruosas em casa ao mesmo tempo que projetava uma visão

utópica no exterior. Hoje os ucranianos se queixam de que Putin conseguiu

enganar grande parte da mídia ocidental quanto às ações da Rússia na Crimeia e

em Donbas. Mas na arte da enganação ele dificilmente se equipara a Stálin. No

início da década de 1930, jornalistas e intelectuais ocidentais de esquerda

louvavam a União Soviética como uma sociedade ideal, enquanto ucranianos e

outros cidadãos soviéticos morriam de fome aos milhões por causa das políticas

orquestradas por Stálin. Apesar de, na era do Facebook e do Twitter, ser às vezes

difícil decidir em quais versões de um acontecimento acreditar, pelo menos já

não é mais possível um regime matar milhões sem que o mundo saiba.

Além de religiões e de ideologias, empresas comerciais também se apoiam em ficção e fake news. Divulgar uma marca envolve recontar a mesma narrativa

ficcional várias vezes, até as pessoas ficarem convencidas de sua veracidade. Que

imagens ocorrem quando você pensa em Coca-Cola? Você pensa em pessoas

jovens e saudáveis praticando esportes e se divertindo? Ou pensa em pessoas

com diabetes e sobrepeso deitadas numa cama de hospital? Beber Coca-Cola não

te deixará mais jovem, mais saudável, nem mais atlético — e sim mais propenso a

sofrer de obesidade e diabetes. Mas durante décadas a Coca-Cola investiu bilhões

de dólares associando sua imagem a juventude, saúde e esportes — e bilhões de

humanos subconscientemente acreditam nessa associação.

O fato é que a verdade nunca teve papel de destaque na agenda do Homo

sapiens. Muita gente supõe que se uma determinada religião ou ideologia não

representa a realidade, cedo ou tarde seus adeptos acabarão descobrindo, porque

não serão capazes de competir com rivais mais esclarecidos. Bem, esse é apenas

mais um mito reconfortante. Na prática, o poder da cooperação humana

depende de um delicado equilíbrio entre a verdade e a ficção.

Se você distorcer demais a realidade, isso na verdade vai enfraquecê-lo,

fazendo-o agir de maneira irrealista. Por exemplo, em 1905 um médium da

África Oriental chamado Kinjikitile Ngwale alegou estar possuído pelo espírito

da cobra Hongo. O novo profeta tinha uma mensagem revolucionária para o

povo da colônia alemã da África Oriental: unam-se e expulsem os alemães. Para

tornar a mensagem mais atraente, Ngwale proveu seus seguidores de remédios

mágicos que, supostamente, transformariam as balas dos alemães em água (maji,

em suaili). Isso deu início à Rebelião Maji Maji. Ela fracassou. Porque no campo

de batalha as balas alemãs não se transformaram em água. Em vez disso, elas

rasgaram impiedosamente o corpo dos mal armados rebeldes.10 Dois mil anos

antes, a Grande Revolta Judaica contra os romanos foi inspirada, de forma

parecida, por uma ardente crença de que Deus lutaria pelos judeus e os ajudaria a

derrotar o aparentemente invencível Império Romano. Isso fracassou também,

levando à destruição de Jerusalém e ao exílio dos judeus.

Por outro lado, você não será capaz de organizar com eficiência grandes

massas sem se apoiar em alguma mitologia. Se ficar preso à realidade crua,

poucas pessoas o seguirão. Sem mitos, teria sido impossível organizar não só as

revoltas Maji Maji e judaicas, mas também as muito mais bem-sucedidas rebeliões dos Mahdi e dos Macabeus.

As histórias falsas têm uma vantagem intrínseca em relação à verdade quando

se trata de unir pessoas. Se você quer calibrar a lealdade de um grupo, pedir às

pessoas que acreditem num absurdo é um teste muito melhor do que pedir que

acreditem na verdade. Se um grande chefe disser “o sol nasce no leste e se põe no

oeste” não se requer lealdade para aplaudi-lo. Mas se o chefe disser “o sol nasce

no oeste e se põe no leste” apenas os que lhe forem verdadeiramente leais baterão

palmas. Da mesma forma, se todos os seus vizinhos acreditarem na mesma

história absurda, você pode contar com eles em momentos de crise. Se só aceitam

acreditar em fatos comprovados, o que isso prova?

Poder-se-ia alegar que, ao menos em alguns casos, é possível organizar pessoas

mediante acordos consensuais e não por meio de ficções e mitos. Assim, na

esfera econômica, dinheiro e corporações unem pessoas muito mais efetivamente

do que qualquer deus ou livro sagrado, apesar de todos saberem que isso é

apenas uma convenção criada por humanos. No caso do livro sagrado, um

verdadeiro crente diria “eu acredito que o livro é sagrado”, enquanto no caso do

dólar, um verdadeiro crente diria apenas que “eu acredito que outras pessoas

acreditam que o dólar tem valor”. É óbvio que o dólar é apenas uma criação

humana, porém pessoas do mundo inteiro o respeitam. Se é assim, por que os

humanos não são capazes de abandonar todos os mitos e ficções, e se organizar

com base em convenções consensuais, como o dólar?

Essas convenções, no entanto, não são claramente diferentes de ficção. A

diferença entre livros sagrados e dinheiro, por exemplo, é muito menor do que

pode parecer à primeira vista. Quando veem uma nota de dólar, a maioria das

pessoas esquece que aquilo é apenas uma convenção humana. Quando veem o

pedaço de papel verde com a figura do homem branco que já morreu, elas o

veem como algo valioso em si mesmo e por si mesmo. Dificilmente pensam: “Na

verdade, isto é um pedaço de papel sem valor, mas, como outras pessoas o

consideram valioso, posso fazer uso dele”. Se você observar um cérebro humano

num escâner de ressonância magnética funcional, verá que quando se mostra a

alguém uma mala cheia de cédulas de cem dólares, as partes do cérebro que

começam a zumbir excitadamente não são as partes céticas (“outras pessoas

acreditam que isto é valioso”) e sim as partes gananciosas (“Puta merda! Eu quero isso!”). Inversamente, na grande maioria dos casos, as pessoas só começam

a santificar a Bíblia ou os Vedas ou o Livro dos Mórmons após uma longa e

repetida exposição a outras pessoas que os consideram sagrados. Aprendemos a

respeitar livros sagrados da mesmíssima maneira que aprendemos a respeitar

notas de dinheiro.

Daí que, na prática, não existe uma divisão clara entre “saber que algo é

apenas uma convenção humana” e “crer que algo é inerentemente valioso”. Em

muitos casos, as pessoas são ambíguas ou desatentas a essa divisão. Para dar

outro exemplo, se você sentar e tiver uma profunda discussão filosófica sobre

isso, quase todo mundo concordaria que corporações são narrativas ficcionais

criadas por seres humanos. A Microsoft não é os prédios que possui, as pessoas

que emprega ou os acionistas aos quais ela serve — e sim uma intricada ficção

legal tecida por legisladores e advogados. Mas em 99% do tempo não estamos

engajados em profundas discussões filosóficas, e tratamos as corporações como

se fossem entidades reais no mundo, assim como tigres ou humanos.

Embaçar a linha entre ficção e realidade pode servir a muitos propósitos,

começando com “divertimento”, até “sobrevivência”. Você não pode jogar jogos

ou ler romances a menos que suspenda sua descrença, ao menos por um

momento. Para realmente curtir o futebol, você tem de aceitar as regras do jogo,

e esquecer, ao menos durante noventa minutos, que elas são apenas invenções

humanas. Se não fizer isso, vai achar ridículo que 22 pessoas fiquem correndo

atrás de uma bola. O futebol pode começar como diversão, mas depois se tornar

coisa muito mais séria, como qualquer hooligan inglês ou nacionalista argentino

atestará. O futebol pode ajudar a formar identidades pessoais, pode cimentar

comunidades em grande escala e pode até mesmo ensejar motivos para violência.

Nações e religiões são times de futebol hipertrofiados.

Humanos têm a notável capacidade de saber e não saber ao mesmo tempo.

Ou, mais corretamente, eles são capazes de saber alguma coisa quando de fato

pensam sobre ela, mas na maior parte do tempo não pensam sobre ela, por isso

não sabem. Se realmente se concentrar, você se dará conta de que dinheiro é

ficção. Mas normalmente você não se concentra. Se lhe perguntam sobre o

futebol, você sabe que é uma invenção humana. Mas no calor de um jogo,

ninguém lhe perguntará sobre isso. Se dedicar tempo e energia, você poderá descobrir que nações são elaboradas invencionices. Mas em meio a uma guerra

você não tem tempo nem energia. Se você exigir a verdade suprema, constatará

que a história de Adão e Eva é um mito. Mas quão frequentemente você exige a

verdade suprema?

Verdade e poder podem andar juntos só até certo ponto. Cedo ou tarde vão

seguir caminhos separados. Se você quer poder, em algum momento terá de

disseminar mentiras. Se quiser saber a verdade sobre o mundo, em algum

momento terá de renunciar ao poder. Terá de admitir coisas — como as origens

de seu poder, por exemplo — que vão enfurecer aliados, desengajar seguidores e

minar a harmonia social. Não há nada de místico nessa lacuna entre verdade e

poder. Como testemunho disso, apenas encontre um típico americano

protestante, anglo-saxão, branco e levante a questão de raça, localize um

israelense da corrente majoritária e mencione a Ocupação, ou tente falar com um

sujeito comum sobre patriarcado.

Ao longo da história, eruditos depararam com esse dilema repetidamente.

Deveriam servir ao poder ou à verdade? Deveriam manter as pessoas unidas,

garantindo que todas acreditassem na mesma narrativa, ou deveriam deixar que

soubessem a verdade, mesmo ao preço da desunião? Os intelectualmente mais

poderosos — fossem sacerdotes cristãos, mandarins confucianos ou ideólogos

comunistas — puseram a união acima da verdade. E justamente por isso eram

tão poderosos.

Como espécie, os humanos preferem o poder à verdade. Dedicamos muito

mais tempo e esforço tentando controlar o mundo do que tentando

compreendê-lo —, e mesmo quando tentamos compreendê-lo, normalmente

fazemos isso na esperança de que compreender o mundo fará com que nos seja

mais fácil controlá-lo. Por isso, se você sonha com uma sociedade na qual a

verdade reina suprema e os mitos são ignorados, não pode esperar muito do

Homo sapiens. Melhor tentar a sorte com os chipanzés.

 

ESCAPANDO DA MÁQUINA DE LAVAGEM CEREBRAL

 

Tudo isso não significa que as fake news não sejam um problema sério, ou que

políticos e sacerdotes tenham liberdade total para mentir descaradamente. Também seria errado concluir que tudo são apenas fake news, que toda tentativa

de descobrir a verdade está destinada ao fracasso e que não existe diferença entre

jornalismo sério e propaganda. Subjacentes a todas as fake news existem fatos

reais e sofrimentos reais. Na Ucrânia, por exemplo, soldados russos estão

realmente combatendo, milhares já morreram de verdade e centenas de milhares

perderam seus lares. O sofrimento humano pode ser causado por crença na

ficção, mas o sofrimento em si ainda é real.

Portanto, em vez de aceitar fake news como a norma, deveríamos reconhecer

que é um problema muito mais difícil do que supomos, e que deveríamos nos

esforçar ainda mais para distinguir a realidade da ficção. Que não se espere

perfeição. Uma das maiores ficções de todas é negar a complexidade do mundo e

pensar em termos absolutos numa pureza imaculada contra o mal satânico.

Nenhum político diz toda a verdade e nada além da verdade, mas alguns

políticos são bem melhores que outros. Se pudesse escolher, eu confiaria muito

mais em Churchill do que em Stálin, embora o primeiro-ministro britânico não

deixasse de dourar a pílula quando isso lhe era conveniente. Da mesma forma,

nenhum jornal está livre de vieses e erros, mas alguns fazem um esforço honesto

de descobrir a verdade, enquanto outros são uma máquina de lavagem cerebral.

Se eu tivesse vivido na década de 1930, gostaria de ter tido o bom senso de

acreditar mais no New York Times do que no Pravda e no Der Stürmer.

É responsabilidade de todos nós investir tempo e esforço para expor nossos

vieses e preconceitos, e para verificar nossas fontes de informação. Como

observado em capítulos anteriores, não somos capazes de investigar tudo

sozinhos. Mas exatamente por causa disso precisamos ao menos investigar com

cuidado nossas fontes de informação preferidas — seja um jornal, um site, uma

rede de televisão ou uma pessoa. No capítulo 20 vamos explorar com muito mais

profundidade como evitar a lavagem cerebral e como distinguir realidade de

ficção. Aqui, gostaria de oferecer de improviso duas regras gerais simples.

Primeira: se você quer uma informação confiável — pague por ela. Se obtiver

suas notícias gratuitamente, talvez o produto seja você. Suponha que um obscuro

bilionário lhe ofereça o seguinte negócio: “Vou lhe pagar trinta dólares por mês,

e em troca você permitirá que todo dia eu lhe faça uma lavagem cerebral durante

uma hora, instalando em seu cérebro quaisquer vieses políticos ou comerciais que eu queira”. Você aceitaria esse acordo? Poucas pessoas mentalmente sãs o

fariam. Assim, o obscuro milionário oferece um acordo um pouco diferente:

“Você permitirá que eu lhe faça uma lavagem cerebral diariamente, e em troca

não vou lhe cobrar nada pelo serviço”. Agora o acordo soa tentador para

centenas de milhões de pessoas. Não vá por esse caminho.

A segunda regra geral é que se algum assunto parece ser importante para você,

faça o esforço de ler literatura científica relevante sobre ele. E o que entendo por

literatura científica são artigos avaliados por pares, livros publicados por editoras

acadêmicas bem conhecidas e textos de professores de instituições respeitáveis.

Obviamente, a ciência tem suas limitações e se envolveu com muitas coisas

erradas no passado. Ainda assim, a comunidade científica tem sido nossa fonte

mais confiável de conhecimento, durante séculos. Se você acha que a

comunidade científica está errada quanto a alguma coisa, isso é bem possível,

mas pelo menos conheça as teorias científicas que está rejeitando, e apresente

alguma evidência empírica que sustente sua alegação.

Os cientistas, por sua vez, precisam estar muito mais envolvidos nos debates

públicos atuais. Não deveriam ter medo de se fazer ouvir quando o debate se

estender a seu campo de especialidade, seja a medicina ou a história. Silêncio não

é neutralidade, é apoio ao status quo. É claro que é extremamente importante

continuar a fazer pesquisa científica e publicar os resultados em revistas

científicas que só uns poucos especialistas leem. Mas é igualmente importante

comunicar as últimas teorias científicas ao público em geral por meio de livros de

divulgação científica e até mesmo mediante o uso inteligente da arte e da ficção.

Isso significa que cientistas deveriam começar a escrever livros de ficção

científica? Não seria má ideia. A arte desempenha um papel fundamental na

maneira pela qual as pessoas concebem o mundo, e no século XXI a ficção

científica é sem dúvida o gênero mais importante de todos, pois ela expressa

como a maioria das pessoas compreende coisas como a IA, a bioengenharia e a

mudança climática. De fato precisamos de boa ciência, mas de uma perspectiva

política, um bom filme de ficção científica vale muito mais do que um artigo na

Science ou na Nature.