21 Lições para o Século 21

Yuval Noah Harari · Capítulo 26 de 26

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21 Lições para o Século 21

21. Meditação: Apenas observe

21. Meditação

Apenas observe

 

Tendo criticado tantas narrativas, religiões e ideologias, nada mais justo do

que eu me colocar também na linha de fogo e explicar como alguém tão cético

ainda é capaz de acordar bem-humorado de manhã. Hesito em fazer isso, em

parte por medo de ser autoindulgente, e em parte porque não quero dar a

impressão errada de que se funciona comigo vai funcionar com todo mundo.

Estou muito consciente de que as peculiaridades de meus genes, neurônios,

história pessoal e darma não são compartilhadas por todo mundo. Mas talvez

seja bom que os leitores pelo menos saibam quais matizes colorem as lentes pelas

quais eu vejo o mundo, distorcendo com isso minha visão e minha escrita.

Eu fui um adolescente perturbado e inquieto. O mundo não fazia sentido para

mim, e eu não obtinha respostas para as grandes perguntas que fazia sobre a

vida. Em particular, eu não compreendia por que havia tanto sofrimento no

mundo e em minha própria vida, e o que poderia ser feito quanto a isso. Tudo o

que obtive das pessoas a minha volta e dos livros que lia eram elaboradas ficções:

mitos religiosos sobre deuses e paraísos, mitos nacionalistas sobre a pátria e sua

missão histórica, mitos românticos sobre amor e aventura ou mitos capitalistas

sobre crescimento econômico e sobre como comprar e consumir me faria feliz.

Eu tinha bom senso suficiente para me dar conta de que todos eles eram

provavelmente ficção, mas não tinha ideia de como achar a verdade.

Quando entrei na universidade, pensei que ela seria o lugar ideal para achar

respostas. Mas fiquei desapontado. O mundo acadêmico me proveu de

ferramentas poderosas para desconstruir todos os mitos humanos jamais criados,

mas não ofereceu respostas satisfatórias para as grandes questões da vida. Pelo contrário, ele incentivou-me a me focar em questões cada vez mais restritas.

Posteriormente eu me vi escrevendo uma tese de doutorado na Universidade de

Oxford sobre textos autobiográficos de soldados medievais. Por hobby eu lia um

monte de livros de filosofia e participava de um monte de debates filosóficos,

porém ainda que isso constituísse um infindável entretenimento intelectual, não

trazia um insight verdadeiro. Era extremamente frustrante.

Finalmente meu grande amigo Ron sugeriu que ao menos por alguns dias eu

deixasse os livros e as discussões intelectuais de lado e tentasse um curso de

meditação Vipassana. (“Vipassana” significa “introspecção” na língua pali da

Índia antiga.) Pensei que fosse alguma bobagem de Nova Era, e, uma vez que não

tinha interesse em ouvir mais uma mitologia, resolvi não ir. Mas após um ano de

paciente insistência, em abril de 2000 ele conseguiu que eu fosse para um retiro

Vipassana por dez dias.1

Antes disso eu sabia muito pouco sobre meditação, e supunha que devia

envolver todo tipo de teoria mística. Fiquei espantado com quão prático acabou

sendo o aprendizado. O professor do curso, S. N. Goenka, instruiu os estudantes

a se sentarem com pernas cruzadas e olhos fechados, e concentrarem sua atenção

na respiração entrando e saindo por suas narinas. “Não façam nada”, ele dizia,

“não tentem controlar a respiração ou respirar de uma determinada maneira.

Apenas observem a realidade do momento presente, qualquer que seja. Quando

a respiração está entrando, vocês só têm consciência de que agora a respiração

está entrando. Quando a respiração está saindo, vocês só têm consciência de que

agora a respiração está saindo. E quando perderem a concentração e sua mente

começar a vagar por memórias e fantasias, vocês terão consciência de que agora

minha mente está se afastando da respiração.” Essa foi a coisa mais importante

que alguém jamais me disse.

Quando as pessoas fazem as grandes perguntas da vida, normalmente elas não

têm interesse em saber quando sua respiração está penetrando em suas narinas e

quando está saindo. E, sim, querem saber coisas como o que acontece depois que

se morre. Mas o real enigma da vida não é o que acontece depois que se morre, e

sim o que acontece antes de morrer. Se você quer compreender a morte, precisa

compreender a vida.

As pessoas perguntam: “Quando eu morrer, eu simplesmente desapareço por completo? Irei para o céu? Renascerei num novo corpo?”. Essas perguntas

fundamentam-se na suposição de que existe um eu que perdura do nascimento

até a morte, e a pergunta é: “O que acontece com este eu na morte?”. Mas o que é

que perdura do nascimento até a morte? O corpo muda a cada momento, o

cérebro muda a cada momento, a mente muda a cada momento. Quanto mais de

perto você se observa, mais óbvio fica que nada perdura, mesmo que de um

momento para o momento seguinte. Então o que dá unidade à vida? Se você não

sabe qual é a resposta para isso, não compreende a vida, e certamente não

compreenderá a morte. Se e quando você alguma vez descobrir o que dá unidade

à vida, a resposta à grande questão da morte também ficará aparente.

As pessoas dizem: “A alma perdura do nascimento até a morte e portanto dá

unidade à vida” — mas isso é só uma narrativa. Você alguma vez já observou

uma alma? Você é capaz de explorar isso a qualquer momento, não só no

momento da morte. Se for capaz de compreender o que acontece com você

quando um momento termina e outro começa — você também compreenderá o

que vai acontecer com você no momento da morte. Se for realmente capaz de

observar a si mesmo na duração de uma única respiração — você vai

compreender tudo isso.

A primeira coisa que aprendi observando minha respiração foi que não

obstante os livros que li e as aulas às quais assisti na universidade, eu não sabia

quase nada quanto a minha mente, e tinha muito pouco controle sobre ela.

Apesar de meus melhores esforços, não fui capaz de observar a realidade de

minha respiração entrando e saindo por minhas narinas por mais de dez

segundos antes que minha mente se afastasse, vagueando. Durante anos vivi com

a impressão de que era o senhor da minha vida, e o presidente executivo da

minha própria marca pessoal. Mas poucas horas de meditação foram suficientes

para me mostrar que eu quase não tinha controle sobre mim mesmo. Eu não era

o presidente executivo — mal era o guarda no portão de entrada. Tinham me

dito para me postar no portão de meu corpo — as narinas — e apenas observar o

que entrava e o que saía. Mas após alguns momentos perdi meu foco e abandonei

meu posto. Foi uma experiência que abriu meus olhos.

À medida que o curso prosseguia, os estudantes foram ensinados a observar

não só sua respiração, mas as sensações em seu corpo. Não sensações especiais de felicidade ou êxtase, e sim as mais mundanas e comuns das sensações: calor,

pressão, dor e assim por diante. A técnica de Vipassana baseia-se no conceito de

que o fluxo mental é intimamente interligado com as sensações do corpo. Entre

mim e o mundo há sempre sensações corporais. Eu nunca reajo aos

acontecimentos no mundo lá fora; sempre reajo às sensações de meu próprio

corpo. Quando a sensação é desagradável, reajo com aversão. Quando a sensação

é agradável, reajo com vontade de ter mais. Mesmo quando pensamos que

estamos reagindo ao que fez outra pessoa, ao último tuíte do presidente Trump

ou a uma longínqua memória da infância, a verdade é que sempre reagimos a

nossas sensações corporais imediatas. Se estamos injuriados porque alguém

insultou nossa nação ou nosso deus, o que faz o insulto ser insuportável são as

sensações de ardência na boca do estômago e a faixa de dor que aperta nosso

coração. Nossa nação não sente nada, mas nosso corpo realmente dói.

Quer saber o que é a raiva? Bem, apenas observe as sensações que surgem em

seu corpo e o percorrem quando você está com raiva. Eu tinha 24 anos quando

fui para o retiro, e tinha sentido raiva provavelmente umas 10 mil vezes antes

disso, mas nunca me dera ao trabalho de observar qual é realmente a sensação de

raiva. Sempre que ficava com raiva, eu me focava no objeto de minha raiva —

algo que alguém tinha feito ou dito —, e não na realidade sensorial da raiva.

Penso que aprendi mais sobre mim mesmo e sobre seres humanos em geral

observando minhas sensações naqueles dez dias do que tinha aprendido em

minha vida inteira até aquele momento. E para isso eu não tive de aceitar

nenhuma narrativa, teoria ou mitologia. Tive apenas de observar a realidade tal

como ela é. A coisa mais importante que constatei foi que a origem mais

profunda de meu sofrimento está nos padrões de minha própria mente. Quando

quero alguma coisa e ela não acontece, minha mente reage gerando sofrimento.

Sofrimento não é uma condição objetiva no mundo exterior. É uma reação

mental gerada por minha própria mente. Aprender isso é o primeiro passo para

cessar a geração de mais sofrimento.

Desde esse primeiro curso, em 2000, comecei a meditar durante duas horas

por dia, e todo ano faço um longo retiro por um ou dois meses. Não é uma fuga

da realidade. É entrar em contato com a realidade. Durante no mínimo duas

horas por dia eu efetivamente observo a realidade como ela é, enquanto nas outras 22 horas eu fico assoberbado com e-mails e tuítes e vídeos de cãezinhos

fofos. Sem o foco e a clareza que essa prática propicia, eu não poderia ter escrito

Sapiens e Homo Deus. Para mim, pelo menos, a meditação nunca entrou em

conflito com a pesquisa científica. Antes, tem sido outro instrumento valioso na

caixa de ferramentas científica, especialmente quando se tenta compreender a

mente humana.

 

PERFURANDO DE AMBAS AS EXTREMIDADES

 

A ciência tem dificuldade em decifrar os mistérios da mente em grande parte

porque nos faltam instrumentos eficazes. Muita gente, inclusive muitos

cientistas, tende a confundir a mente com o cérebro, mas são duas coisas muito

distintas. O cérebro é uma rede material feita de neurônios, sinapses e

substâncias bioquímicas. A mente é um fluxo de experiências subjetivas, como a

dor, o prazer, a raiva e o amor. Os biólogos supõem que o cérebro, de algum

modo, produz a mente, e que reações bioquímicas em bilhões de neurônios

produzem de algum modo experiências como as da dor e do amor. Contudo, até

agora não temos nenhuma explicação para o modo como a mente emerge do

cérebro. Como é que quando bilhões de neurônios disparam sinais elétricos num

determinado padrão eu sinto dor e quando disparam num padrão diferente eu

sinto amor? Não temos nenhuma pista. Daí que, mesmo que a mente de fato

emerja do cérebro, ao menos por enquanto estudar a mente é um

empreendimento diferente de estudar o cérebro.

A neurociência está progredindo a todo vapor, graças à ajuda de microscópios,

escâneres cerebrais e computadores poderosos. Mas não podemos ver a mente

num microscópio ou num escâner. Esses dispositivos nos permitem detectar

atividades bioquímicas e elétricas no cérebro, porém não nos dão acesso às

experiências subjetivas associadas a essas atividades. No ano de 2018, a única

mente que sou capaz de acessar é a minha própria. Se quiser saber o que outros

seres sencientes estão experimentando, só posso fazer isso baseado em relatos em

segunda mão, os quais, naturalmente, padecem de numerosas distorções e

limitações.

Sem dúvida poderíamos colher muitos relatos em segunda mão de várias pessoas, e empregar estatística para identificar padrões recorrentes. Esses

métodos capacitaram psicólogos e neurocientistas não só a compreender muito

melhor o cérebro, mas também melhorar e até salvar a vida de milhões. No

entanto, é difícil ir além de um certo ponto usando apenas relatos em segunda

mão. Na ciência, quando se investiga determinado fenômeno, o melhor é

observá-lo diretamente. Antropólogos, por exemplo, fazem extenso uso de fontes

secundárias, mas, se você quiser compreender realmente a cultura samoana, cedo

ou tarde terá de fazer as malas e visitar Samoa.

É claro que visitar não é suficiente. Um blog escrito por um mochileiro que

percorre Samoa não seria considerado um estudo antropológico científico

porque falta à maioria dos mochileiros os instrumentos e a formação necessários.

Suas observações são aleatórias e enviesadas. Para nos tornarmos antropólogos

confiáveis, temos de aprender como observar as culturas humanas de maneira

metódica e objetiva, livre de suposições e preconceitos. É isso que se estuda no

departamento de antropologia, e é isso que capacita os antropólogos a

desempenhar um papel tão vital construindo pontes sobre as lacunas que existem

entre culturas diferentes.

O estudo científico da mente quase nunca segue esse modelo antropológico.

Enquanto antropólogos relatam suas visitas a ilhas distantes e países misteriosos,

os estudiosos da consciência empreendem essas jornadas pessoais aos reinos da

mente. Porque a única mente que posso observar diretamente é a minha, e, por

mais difícil que seja observar a cultura samoana sem viés e sem preconceito, mais

difícil ainda é observar objetivamente minha própria mente. Após mais de um

século de trabalho duro, os antropólogos dispõem hoje de poderosos

procedimentos para uma observação objetiva. Em contraste, ainda que cientistas

do cérebro tenham desenvolvido muitas ferramentas para colher e analisar

relatos em segunda mão, quando se trata de observar nossas próprias mentes mal

arranhamos a superfície.

Na ausência de métodos modernos para uma observação direta da mente,

poderíamos experimentar algumas das ferramentas desenvolvidas por culturas

pré-modernas. Várias delas dedicaram muita atenção ao estudo da mente, e

basearam-se não na coleta de relatos em segunda mão mas treinando pessoas a

observar sistematicamente a própria mente. Os métodos que desenvolveram estão reunidos sob o termo genérico “meditação”. Hoje esse termo é

frequentemente associado a religião e misticismo, mas, em princípio, meditação

é qualquer método para observação direta da própria mente. De fato, muitas

religiões fazem extenso uso de várias técnicas de meditação, mas isso não quer

dizer que a meditação seja necessariamente religiosa. Muitas religiões fizeram

também extenso uso de livros, e isso não quer dizer que o uso de livros é uma

prática religiosa.

Ao longo de milênios os humanos desenvolveram centenas de técnicas de

meditação, que diferem em seus princípios e sua eficácia. Minha experiência

pessoal foi com apenas uma técnica — Vipassana —, e assim é a única sobre a

qual posso falar com autoridade. Como inúmeras outras técnicas de meditação,

supostamente a Vipassana foi descoberta na Índia antiga por Buda. No decorrer

dos séculos, numerosas teorias e histórias foram atribuídas a Buda, muitas vezes

sem evidências. Mas você não precisa acreditar em nenhuma delas para meditar.

O professor com quem aprendi Vipassana, Goenka, era um instrutor muito

prático. Ele orientava os alunos a, na observação da mente, pôr de lado todas as

descrições de outras pessoas, dogmas religiosos e conjeturas filosóficas e se focar

em sua própria experiência e na realidade com a qual efetivamente se depararem.

Todo dia vários alunos vão a sua sala buscar orientação e fazer perguntas. Logo

na entrada lê-se num cartaz: “Por favor evite discussões teóricas e filosóficas, e

concentre suas perguntas em questões relativas a sua prática efetiva”.

Prática efetiva significa observar as sensações do corpo e as reações mentais às

sensações, de modo metódico e contínuo, revelando com isso os padrões básicos

da mente. Há quem às vezes transforme a meditação numa busca de experiências

especiais de felicidade e êxtase. Mas, na verdade, a consciência é o maior mistério

no universo, e sensações mundanas como calor e coceira são em tudo tão

misteriosas quanto sentimentos de euforia ou de unicidade cósmica. Os

praticantes de meditação Vipassana são advertidos a nunca sair em busca de

experiências especiais, e sim a concentrarem-se em compreender a realidade de

sua mente, seja qual for.

Nos últimos anos estudiosos tanto da mente quanto do cérebro demonstraram

interesse crescente nessas técnicas de meditação, mas a maioria dos

pesquisadores, até agora, só usou essa técnica indiretamente.2 Um cientista típico, na verdade, não pratica ele mesmo meditação. Em vez disso, convida

meditadores experientes a seu laboratório, cobre a cabeça deles de eletrodos,

pede que meditem e observa as atividades cerebrais resultantes. Isso pode nos

ensinar muitas coisas interessantes sobre o cérebro, mas, se o objetivo é estudar a

mente, estão faltando alguns dos aspectos mais importantes. É como se alguém

tentasse compreender a estrutura da matéria observando uma pedra com uma

lupa. Você vai até essa pessoa, entrega-lhe um microscópio e diz: “Tente com

isso. Você enxergará muito melhor”. Ela recebe o microscópio, pega a lupa na

qual tanto confia e cuidadosamente observa através da lupa o material de que é

feito o microscópio… A meditação é uma ferramenta que serve para observar a

mente de forma direta. Você perderá a maior parte de seu potencial se, em vez de

meditar você mesmo, monitorar atividades elétricas no cérebro de algum outro

meditador.

Não estou sugerindo que se abandonem as ferramentas atuais e as práticas de

pesquisa do cérebro. A meditação não as substitui, mas pode complementá-las. É

um pouco como engenheiros perfurando um túnel que atravessa uma enorme

montanha. Por que perfurar de um lado só? É melhor perfurar simultaneamente

dos dois. Se cérebro e mente são de fato uma e a mesma coisa, os dois túneis

terão de se encontrar. E se o cérebro e a mente não forem a mesma coisa? Então

será ainda mais importante perfurar dentro da mente, e não apenas no cérebro.

Algumas universidades e laboratórios começaram de fato a usar a meditação

como ferramenta de pesquisa, e não como mero objeto de estudos do cérebro.

Mas esse processo ainda está em sua infância, em parte porque requer um

investimento extraordinário dos pesquisadores. Uma meditação séria exige

muita disciplina. Se você tentar observar objetivamente suas sensações, a

primeira coisa que vai notar é como a mente é agitada e impaciente. Mesmo que

você se concentre em observar uma sensação relativamente clara e distinta, como

a respiração entrando e saindo por suas narinas, em geral sua mente é capaz de

fazer isso por não mais que alguns segundos, antes de perder o foco e se perder

em pensamentos, memórias e sonhos.

Quando um microscópio sai do foco, só precisamos girar uma pequena

manivela. Se ela estiver quebrada, podemos chamar um técnico para consertá-la.

Mas quando a mente perde o foco não conseguimos consertar isso tão fácil. Em geral é preciso muito treinamento para sossegar e concentrar a mente de modo

que possa começar a observar a si mesma metódica e objetivamente. Talvez no

futuro possamos tomar uma pílula e obter foco instantâneo. Como a meditação

visa a explorar a mente e não só se focar nela, esse atalho pode demonstrar-se

contraproducente. A pílula talvez nos deixe alertas e focados, mas ao mesmo

tempo pode nos impedir de explorar todo o espectro da mente. Afinal, hoje já

podemos com alguma facilidade concentrar a mente assistindo a um bom filme

de suspense na televisão — mas a mente está tão focada no filme que não é capaz

de observar sua própria dinâmica.

Porém mesmo que não possamos nos valer desses dispositivos tecnológicos,

não deveríamos desistir. Podemos nos inspirar nos antropólogos, zoólogos e

astronautas. Antropólogos e zoólogos passam anos em ilhas distantes, expostos a

uma pletora de doenças e perigos. Astronautas dedicam muitos anos a difíceis

regimes de treinamento, preparando-se para suas arriscadas excursões ao espaço

exterior. Se estamos dispostos a fazer esses esforços para compreender culturas

estrangeiras, espécies desconhecidas e planetas distantes, também valeria a pena

trabalhar duro para compreender nossa própria mente. E seria melhor

compreender nossa mente antes que os algoritmos assumam a tarefa por nós.

Observar a si mesmo nunca foi fácil, mas pode ter se tornado mais difícil com

o passar do tempo. À medida que transcorria a história, os humanos criaram

narrativas cada vez mais complexas sobre si mesmos, o que tornou cada vez mais

difícil saber quem realmente nós somos. Essas narrativas visavam a unir grande

número de pessoas, acumular poder e preservar a harmonia social. Foram vitais

para alimentar bilhões de pessoas famintas e assegurar que essas pessoas não

degolassem umas às outras. Quando pessoas tentavam observar a si mesmas, o

que comumente descobriam eram essas narrativas pré-fabricadas. Uma

exploração em aberto era perigosa demais. Ameaçaria solapar a ordem social.

À medida que a tecnologia se aperfeiçoava, aconteceram duas coisas. Primeiro,

quando facas de sílex evoluíram gradualmente para mísseis nucleares, ficou mais

perigoso desestabilizar a ordem social. Segundo, à medida que pinturas rupestres

gradualmente evoluíram para transmissões de televisão, ficou mais fácil iludir

pessoas. No futuro próximo, algoritmos poderão completar esse processo,

fazendo com que seja praticamente impossível que as pessoas observem a realidade por si mesmas. Serão os algoritmos que decidirão por nós quem somos

e o que deveríamos saber sobre nós mesmos.

Por mais alguns anos ou décadas, ainda teremos escolha. Se fizermos esse

esforço, ainda podemos investigar quem somos realmente. Mas, se quisermos

aproveitar essa oportunidade, é melhor fazer isso agora.

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