21 Lições para o Século 21
5. Comunidade: Os humanos têm corpos
5. Comunidade
Os humanos têm corpos
A Califórnia está acostumada com terremotos, mas assim mesmo o tremor
político das eleições americanas de 2016 chegou como um choque violento ao
Vale do Silício. Ao constatar que eles poderiam ser parte do problema, os magos
da computação reagiram fazendo o que os engenheiros fazem melhor: buscaram
uma solução técnica. Em nenhum outro lugar a reação foi mais contundente do
que na sede do Facebook, em Menlo Park. Isso é compreensível. Como o negócio
do Facebook é a rede social, é ele que está mais sintonizado com perturbações
sociais.
Após três meses de exame de consciência, em 16 de fevereiro de 2017 Mark
Zuckerberg publicou um audacioso manifesto sobre a necessidade de construir
uma comunidade global, e sobre o papel do Facebook nesse projeto.1 Num
discurso que pronunciou em seguida, na inauguração da Cúpula de
Comunidades, em 2 de junho de 2017, Zuckerberg explicou que as convulsões
políticas de nossa época — do desenfreado crescimento do vício em drogas a
regimes totalitários sangrentos — resultam em grande medida da desintegração
das comunidades humanas. Lamentou o fato de que “durante décadas a
participação em todo tipo de grupos tinha diminuído em uma quarta parte. Há
muitas pessoas que agora precisam encontrar propósito e apoio em outro
lugar”.2 Prometeu que o Facebook iria assumir a liderança na reconstrução
dessas comunidades e que seus engenheiros assumiriam o fardo que fora
descartado por líderes locais. “Vamos começar a lançar algumas ferramentas”, ele
disse, “para facilitar a construção de comunidades.”
Explicou também que “Demos início a um projeto para ver se melhoramos nossa capacidade de sugerir grupos que serão significativos para vocês. Para isso,
começamos a construir inteligência artificial. E funciona. Nos primeiros seis
meses, ajudamos um número 50% maior de pessoas a se juntarem a
comunidades significativas… Se conseguirmos, isso vai não só reverter todo o
declínio na participação em comunidades que estamos vendo há décadas como
começar a fortalecer nosso tecido social e fazer o mundo ficar unido”. Esse é um
objetivo tão importante que Zuckerberg jurou “mudar toda a missão do
Facebook para poder assumir esta”.3 Zuckerberg tem razão ao lamentar a
desagregação de comunidades humanas. Porém vários meses após ter feito essa
promessa, e exatamente quando este livro estava no prelo, o escândalo da
Cambridge Analytica revelou que dados que foram confiados ao Facebook
tinham sido colhidos por terceiros e usados para manipular eleições em todo o
mundo. Isso pôs no ridículo as sublimes promessas de Zuckerberg, e destruiu a
confiança do público no Facebook. Só se pode esperar que, antes de empreender
a construção de novas comunidades humanas, o Facebook comprometa-se
primeiro a proteger a privacidade e a segurança das comunidades existentes.
Entretanto, vale a pena considerar em profundidade a visão comunitária do
Facebook, e examinar se, uma vez reforçada a segurança, as redes sociais on-line
serão capazes de construir uma comunidade humana global. Mesmo que no
século XXI os humanos possam ser elevados à categoria de deuses, em 2018 ainda
somos animais da Idade da Pedra. Para podermos florescer precisamos nos
basear em comunidades íntimas. Durante milhões de anos, os humanos
adaptaram-se a viver em pequenos bandos de não mais de algumas dezenas de
pessoas. Mesmo hoje em dia, para a maioria de nós é impossível conhecer de fato
mais de 150 indivíduos, não importa quantos amigos no Facebook alardeamos
ter.4 Sem esses grupos, os humanos sentem-se solitários e alienados.
Infelizmente, nos dois séculos passados as comunidades íntimas se
desintegraram. A tentativa de substituir grupos pequenos de pessoas que
efetivamente se conhecem pelas comunidades imaginárias das nações e dos
partidos políticos nunca poderia ter sucesso total. Seus milhões de irmãos na
família nacional e seus milhões de camaradas no Partido Comunista não são
capazes de lhe dar a cálida intimidade que lhe dão um único irmão de verdade ou
um amigo. Consequentemente, as pessoas vivem vidas cada vez mais solitárias num planeta cada vez mais conectado. Muitas das rupturas sociais e políticas de
nossa época podem ser atribuídas a esse mal-estar.5
A visão de Zuckerberg de reconectar humanos uns com outros é portanto
oportuna. Mas palavras custam menos que ações, e para poder implementar essa
visão o Facebook pode ter de mudar todo o seu modelo de negócios. É difícil
construir uma comunidade global quando você ganha seu dinheiro capturando a
atenção das pessoas e a vendendo a anunciantes. Apesar disso, só a disposição de
Zuckerberg para formular essa visão já merece elogios. A maior parte das
corporações acredita que devia focar-se em ganhar dinheiro, que o governo devia
fazer o menos possível, e o gênero humano devia deixar as forças do mercado
tomarem por nós as decisões realmente importantes.6 Daí que, se o Facebook
tenciona ter um real compromisso ideológico de construir comunidades
humanas, os que temem seu poder não deveriam empurrá-lo de volta para seu
casulo corporativo sob gritos de “Grande Irmão!”. Em vez disso, deveríamos
instar outras corporações, instituições e governos a competir com o Facebook
assumindo seus próprios compromissos ideológicos.
É claro que não faltam organizações que lamentam a desagregação das
comunidades humanas e esforçam-se por recompô-las. Todo mundo, desde
ativistas feministas até fundamentalistas islâmicos, está no negócio da construção
de comunidades, e examinaremos alguns desses esforços em capítulos
posteriores. O que faz da iniciativa do Facebook única é seu escopo global, seu
respaldo corporativo e sua profunda fé na tecnologia. Zuckerberg parece estar
convencido de que a nova IA do Facebook é capaz não só de identificar
“comunidades significativas” como também de “fortalecer nosso tecido social e
fazer o mundo ficar unido”. Isso é muito mais ambicioso do que usar a IA para
dirigir um carro ou diagnosticar o câncer.
A visão de comunidade do Facebook talvez seja a primeira tentativa explícita
de usar IA para engenharia social com planejamento centralizado mas em escala
global. Consiste, portanto, num teste importantíssimo. Se tiver sucesso, é
provável que vejamos muito mais dessas tentativas, e os algoritmos serão
reconhecidos como os novos senhores das redes sociais humanas. Se fracassar,
vai revelar as limitações das novas tecnologias — algoritmos podem ser bons
para navegação de veículos e para curar doenças, mas, quando se trata de resolver problemas sociais, deveríamos ainda confiar em políticos e sacerdotes.
ON-LINE VERSUS OFF-LINE
Em anos recentes o Facebook tem tido espantoso sucesso, e hoje tem mais de 2
bilhões de usuários ativos on-line. Para poder implementar essa nova visão, ele
terá de cobrir o abismo que existe entre on-line e off-line. Uma comunidade
pode começar como um agrupamento on-line, mas para poder realmente
florescer terá de deitar raízes no mundo off-line também. Se um dia algum
ditador banir o Facebook de seu país, ou desconectar totalmente o plugue da
internet, será que as comunidades vão evaporar, ou se reagruparão para reagir?
Serão capazes de organizar uma demonstração sem terem uma comunicação on-
line?
Zuckerberg explicou em seu manifesto de fevereiro de 2017 que as
comunidades on-line ajudam a fomentar comunidades off-line. Isso às vezes é
verdade. Mas em muitos casos o on-line acontece às expensas do off-line, e há
uma diferença fundamental entre os dois. Comunidades físicas têm uma
profundidade que comunidades virtuais não são capazes de atingir, ao menos
não no futuro próximo. Se eu estiver doente de cama em casa, em Israel, meus
amigos on-line na Califórnia podem falar comigo, mas não poderão trazer-me
sopa ou uma xícara de chá.
Humanos têm corpos. Durante o século passado a tecnologia nos distanciou
de nossos corpos. Perdemos a capacidade de dar atenção ao que tem cheiro e
gosto. Em vez disso, ficamos absorvidos com nossos smartphones e
computadores. Estamos mais interessados no que está acontecendo no
ciberespaço do que no que está acontecendo lá embaixo na rua. Está mais fácil do
que nunca falar com meu primo na Suíça, mas está mais difícil falar com meu
marido no café da manhã, porque ele está constantemente olhando para seu
smartphone e não para mim.7
No passado, humanos não podiam se dar ao luxo de tal displicência. Nossos
ancestrais coletores estavam sempre alertas e atentos. Percorrendo a floresta em
busca de cogumelos, observavam o solo buscando qualquer protuberância
reveladora. Prestavam atenção ao movimento no capim para saber se não havia uma cobra de tocaia. Quando encontravam um cogumelo comestível, o
provavam com a maior atenção para distingui-lo de seus primos venenosos. Os
membros das atuais sociedades afluentes não precisam dessa atenção tão
apurada. Podemos caminhar pelos corredores de um supermercado enquanto
digitamos mensagens, e podemos comprar qualquer um de mil itens de
alimentação, todos supervisionados pelas autoridades sanitárias. Porém, o que
quer que escolhamos, acabamos comendo diante de uma tela, verificando e-mails
ou vendo TV, mal prestando atenção ao gosto.
Zuckerberg diz que o Facebook está comprometido a “continuar
aperfeiçoando nossas ferramentas para dar a você o poder de compartilhar suas
experiências com os outros”.8 Mas talvez as pessoas precisem mesmo é de
ferramentas para se conectarem com suas próprias experiências. Em nome do
“compartilhamento de experiências” as pessoas são incentivadas a entender o
que está acontecendo com elas em termos de como os outros as veem. Se
acontece algo excitante, o instinto dos usuários do Facebook é pegar seus
smartphones, tirar uma foto, postá-la on-line e esperar pelas curtidas. No
processo, mal percebem o que eles mesmos estão sentindo. Na verdade, o que
sentem é cada vez mais determinado pelas reações on-line.
Pessoas separadas de seus corpos, sentidos e entorno físico sentem-se
alienadas e desorientadas. Especialistas costumam pôr a culpa por esse
sentimento de alienação no declínio de ligações religiosas e nacionais, mas a
perda de contato com seu corpo provavelmente seja mais importante. Humanos
viveram milhões de anos sem religiões e sem nações — e são capazes de viver
felizes sem elas no século XXI também. Mas não são capazes de viver felizes se
estiverem desconectados de seus corpos. Se você não se sente em casa dentro de
seu corpo, nunca se sentirá em casa dentro do mundo.
Até agora, o modelo de negócio do Facebook estimulou pessoas a passarem
cada vez mais tempo on-line mesmo que isso significasse ter menos tempo e
energia para dedicar a atividades off-line. Será que é capaz de adotar um novo
modelo que estimule as pessoas a ficar on-line apenas quando for realmente
necessário, e a dedicar mais atenção a seu entorno físico, a seus próprios corpos e
sentidos? O que os acionistas achariam desse modelo? (Um esquema desse
modelo alternativo foi sugerido recentemente por Tristan Harris, ex-executivo do Google e filósofo da tecnologia que apresentou uma nova métrica de “tempo
bem utilizado”.)9
As limitações dos relacionamentos on-line também solapam a solução de
Zuckerberg para a polarização social. Ele ressalta, com razão, que só conectar
pessoas e expô-las a diferentes opiniões não vai ser uma ponte para unir divisões
sociais, porque “mostrar a pessoas um artigo com um ponto de vista contrário na
verdade aprofunda a polarização, ao enquadrar outros pontos de vista como
estranhos”. Em vez disso, Zuckerberg sugere que “as melhores soluções para
melhorar o discurso podem vir de cada um conhecer o outro como uma pessoa
inteira e não só como opiniões — algo para o qual o Facebook talvez seja o único
[instrumento] adequado. Se nos conectarmos com pessoas com base no que
temos em comum — equipes esportivas, programas de televisão, interesses —,
será mais fácil dialogar sobre aquilo de que discordamos”.10
Porém é dificílimo conhecer o outro como uma pessoa “inteira”. Isso leva
muito tempo, e exige interação física direta. Como disse antes, o Homo sapiens
mediano é incapaz de conhecer intimamente mais de 150 indivíduos. No mundo
ideal, a construção de comunidades não deveria ser um jogo de soma zero.
Humanos podem ser leais a diferentes grupos ao mesmo tempo. Infelizmente,
relações íntimas provavelmente são um jogo de soma zero. Passando de um certo
ponto, o tempo e a energia que você despende para travar conhecimento com
seus amigos on-line do Irã ou da Nigéria será às expensas de sua disponibilidade
para conhecer seus vizinhos de porta.
O teste crucial do Facebook virá quando um engenheiro inventar uma nova
ferramenta que fizer as pessoas passarem menos tempo comprando coisas on-
line e mais tempo em atividades off-line interessantes com amigos. O Facebook
vai adotar ou suprimir uma ferramenta assim? Será que o Facebook vai arriscar
mudar sua convicção e privilegiar preocupações sociais em detrimento de
interesses financeiros? Se fizer isso — e conseguir evitar a falência — será uma
transformação marcante.
Dedicar mais atenção ao mundo off-line do que a seus balanços trimestrais
terá consequências também na política do Facebook quanto a impostos. Como
Amazon, Google, Apple e vários outros gigantes de tecnologia, o Facebook tem
sido acusado de sonegação fiscal.11 As dificuldades inerentes à taxação de atividades on-line fazem com que seja fácil para essas corporações globais
praticar todo tipo de contabilidade criativa. Se você achar que as pessoas vivem
principalmente on-line, e que você lhes fornece todas a ferramentas necessárias
para sua existência on-line, você pode se considerar um serviço social benéfico,
mesmo se evitar pagar impostos para governos off-line. Mas, quando lembrar
que os humanos têm corpos, e que portanto precisam de estradas, hospitais e
sistemas de esgoto, ficará muito mais difícil justificar a sonegação fiscal. Como
exaltar as virtudes da comunidade e ao mesmo tempo recusar-se a dar apoio
financeiro aos mais importantes serviços da comunidade?
Só podemos esperar que o Facebook seja capaz de mudar seu modelo de
negócio, adotar uma política fiscal mais voltada para o off-line, ajudar a unificar
o mundo — e ainda continuar lucrativo. Mas não devemos cultivar expectativas
irreais quanto à sua capacidade para concretizar essa visão de uma comunidade
global. Historicamente, corporações não foram o veículo ideal para liderar
revoluções sociais e políticas. Uma verdadeira revolução cedo ou tarde exigirá
sacrifícios que corporações, seus empregados e seus acionistas não querem fazer.
É por isso que revolucionários estabelecem igrejas, partidos políticos e exércitos.
As assim chamadas revoluções do Facebook e do Twitter no mundo árabe
começaram em esperançosas comunidades on-line, mas, quando emergiram no
confuso mundo off-line, foram sequestradas por fanáticos religiosos e juntas
militares. Se o Facebook tem agora como objetivo instigar uma revolução global,
terá de fazer um trabalho muito melhor na criação de uma ponte que atravesse a
brecha existente entre o on-line e o off-line. Ele e os outros gigantes on-line
tendem a ver os humanos como animais audiovisuais — um par de olhos e um
par de orelhas conectados a dez dedos, uma tela e um cartão de crédito. Um
passo crucial para a unificação do gênero humano é considerar que humanos
têm corpos.
É claro que essa consideração tem desvantagens. A constatação das limitações
dos algoritmos on-line pode só instigar os gigantes de tecnologia a estender
ainda mais seu alcance. Dispositivos como o Google Glass e jogos como
Pokemón Go são projetados para eliminar a distinção entre on-line e off-line,
fundindo-os numa única realidade aumentada. Num nível ainda mais profundo,
sensores biométricos e interfaces cérebro-computador diretas visam a erodir a fronteira entre máquinas eletrônicas e corpos orgânicos e, literalmente, entrar
debaixo de nossa pele. Quando os gigantes de tecnologia adquirirem
compreensão completa do corpo humano, poderão acabar manipulando todo o
nosso corpo da mesma maneira que manipulam nossos olhos, dedos e cartões de
crédito. Talvez venhamos a ter saudade dos bons e velhos tempos em que o on-
line era separado do off-line.