A Águia de Sharpe

Bernard Cornwell · Capítulo 10 de 29

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A Águia de Sharpe

Capítulo VIII

 

A ponte resistia a ser destruída. Havia dois milênios que estava sobre as águas do Tejo e a pedra velha rendia-se lentamente aos modernos explosivos. O pilar central estremeceu profundamente e o movimento sentiu-se até onde estava Sharpe e a sua companhia, que deram meia volta para verem qual era a causa. Das fendas da obra saiu uma nuvem de pó. Durante um segundo pareceu que a ponte ia agüentar, as pedras arquearam e então partiram-se com lentidão agonizante até que, por fim, a pólvora negra venceu e a obra ruiu numa obscena bola de fumaça e chamas. O caminho da ponte voou pelos ares, ficou suspenso por um momento e, em seguida, desmoronou na água. O pilar, dois arcos, a base da ponte, tudo foi destruído pela explosão atroadora que rolou interminavelmente pelos prados, assustando os cavalos franceses, fazendo com que os cavalos dispersos dos que tinham lutado a pé relinchassem e fugissem impulsivamente a galope pela erva, como se fossem à procura da segurança humana. Uma enorme coluna de fumaça, fervendo de pó antigo, elevou-se por cima dos arcos derrocados; a água borbulhava, as pedras caíram nas profundidades verdes ao longo da corrente; pouco a pouco o silêncio seguiu-se ao trovão, o rio adaptou-se às novas pedras no seu leito e a fumaça negra seguiu à deriva para oeste como uma pequena nuvem de tempestade baixa e malévola. Hogan não devia ter se preocupado. Tinham ruído quarenta pés de ponte, Wellesley estava a salvo da cavalaria que o poderia pilhar a sul e Sharpe e os seus homens ficavam agora abandonados do outro lado do Tejo.

O capitão Leroy caiu no chão. Sharpe quis saber se algum pedaço de pedra da ponte teria se desviado e o atingido inesperadamente, mas o capitão negou com a cabeça.

— É a perna. Não se preocupe, Sharpe, eu me arranjarei. Por que diabos fizeram isto? — perguntou Leroy apontando com a cabeça para as ruínas fumegantes da ponte.

Sharpe teria gostado de saber. Teria sido por engano? Hogan decerto teria esperado que Sharpe e a sua companhia, aumentada agora com duzentos homens, alcançassem a segurança que a outra margem oferecia, antes de atear as mechas que conduziam à base do pilar. Ficou olhando para o outro lado do rio mas a atividade que via não tinha qualquer sentido, os homens desfilavam em companhias, pensou ver Simmerson sobre o seu cavalo cinzento rodeado de oficiais que olhavam fixamente para a destruição levada a efeito na ponte.

— Tenente, tenente.

Gataker, o fuzileiro, estava chamando-o. O oficial de caçadores francês chegara, um capitão, com o rosto curtido pelo sol e dividido por um comprido bigode preto. Sharpe dirigiu-se a ele e cumprimentou-o. O francês retribuiu o cumprimento e olhou para a carnificina que havia à volta.

— Felicitações pela batalha, monsieur.

O inglês dele era perfeito; cortês, grave, respeitoso. Sharpe devolveu-lhe o cumprimento.

— Também o felicitamos. Conseguiram uma vitória notável.

As palavras soaram altas e desapropriadas. Era extraordinário que os homens pudessem dilacerar-se selvagemente uns aos outros, lutar como demônios loucos e em pouco tempo tornarem-se educados, generosos até em relação aos danos que o inimigo lhes infligira. O capitão francês sorriu por instantes,

— Obrigado, monsieur.

Deteve-se por um momento, olhou para os corpos que jaziam próximo da ponte e, quando se voltou de novo para Sharpe, a sua expressão mudou; tornou-se mais curioso e menos formal.

— Porque atravessaram o rio?

— Não sei — respondeu Sharpe, encolhendo os ombros. O francês desmontou e enrolou as redes no pulso.

— Não tiveram sorte — disse, sorrindo para Sharpe. — Mas o senhor e os seus homens lutaram bem e para quê? — perguntou apontando com a cabeça para a ponte.

Sharpe voltou a encolher os ombros. O capitão de caçadores com o grande bigode olhou-o por uns instantes.

— Creio que ainda têm menos sorte que o seu coronel, não? — Falava em voz baixa de modo que os homens que olhavam fixamente e com curiosidade para o seu antigo inimigo não o ouviram. Sharpe não reagiu mas o francês estendeu as mãos.

— Nós também temos desses. Lamento, monsieur. — Era tudo demasiado educado, demasiado íntimo. Sharpe olhou para os corpos que jaziam no campo.

— Pretende falar dos feridos?

— Já o fiz, monsieur, já o fiz. Não é que tenhamos muitos mas necessito da sua permissão para revistar este pedaço de campo. No que respeita ao resto — disse fazendo uma reverência —, somos os donos.

Era verdade. Pelo campo cavalgavam agora caçadores encurralando os cavalos extraviados. Estavam ganhando um prêmio já que havia meia-dúzia de puros-sangue ingleses, perdidos por oficiais do South Essex, e Sharpe sabia que eram melhores cavalos do que os que se podiam comprar na Espanha. Mas havia algo de curioso nas palavras que o capitão tinha utilizado.

— Já o fez, meu Capitão? Mesmo? — perguntou Sharpe fixando os olhos compassivos do francês, que encolheu levemente os ombros.

— A situação mudou, monsieur — disse apontando com a mão para a ponte destruída. — Creio que terão problemas para alcançar a outra margem, não?

Sharpe assentiu, era evidente.

— Creio, monsieur, que o meu coronel quererá retomar a luta após um tempo conveniente.

Sharpe riu. Apontou para os mosquetes, para as espingardas e para as compridas baionetas.

— Quando estiverem prontos, senhor, quando estiverem prontos.

O francês também se riu.

— Eu o consultarei, monsieur, e o informarei com tempo suficiente — disse puxando pelo relógio. — Digamos que temos uma hora para tratar dos nossos feridos? Depois voltaremos a falar.

Sharpe não tinha outra alternativa. Uma hora não chegava para que os seus duzentos homens recolhessem os feridos, os levassem, apesar da sua agonia, para a entrada da ponte e idealizassem a maneira de mantê-los a salvo. Por outro lado, uma hora era muito mais do que os franceses precisavam e sabia que não podia pedir mais tempo. O capitão desenrolou as rédeas e preparou-se para montar.

— Felicitações de novo. Tenente?

Sharpe assentiu com a cabeça.

— E os meus mais sentidos pêsames. Bonne chance! — Montou e voltou a meio galope em direção ao horizonte.

Sharpe fez a recontagem da sua nova companhia. Os sobreviventes do quadrado acrescentavam uns setenta homens à sua unidade. Leroy era o oficial de patente mais alta, claro, mas a sua ferida obrigava-o a querer que Sharpe tomasse as decisões. Havia mais dois tenentes, Knowles, da Companhia Ligeira, e um homem chamado John Berry. Berry era gordo e de lábios carnudos, um jovem que perguntou com petulância a data de promoção de Sharpe e, ao inteirar-se que Sharpe era mais antigo, ficou com pior disposição do que se tivessem disparado sobre o seu cavalo. Sharpe suspeitava que esse era o único motivo por que Berry se mantivera junto às bandeiras.

Os grupos de trabalho tiraram as casacas dos mortos, amarraram as mangas aos mosquetes abandonados e fizeram umas macas rudimentares sobre as quais levaram os feridos para a ponte. Metade dos homens trabalhava nos montes que rodeavam o local onde Sharpe e Harper haviam trepado entre sangue e cadáveres para resgatar as bandeiras. A outra metade trabalhava entre os corpos em leque que acabava na entrada da ponte. Os franceses tinham terminado rapidamente e começavam a procurar por entre os corpos de casaca azul dos espanhóis. Não era piedade o que mostravam, mas sim o desejo de saquear os mortos e os feridos. Os britânicos fizeram o mesmo, não havia maneira de detê-los, os despojos de uma batalha eram a recompensa dos sobreviventes. Os fuzileiros, por ordens de Sharpe, recolheram os mosquetes abandonados, dezenas deles, e tiraram as munições dos mortos. Se os franceses iam atacar, Sharpe planejava armar cada homem com três ou quatro espingardas carregadas e enfrentar os cavaleiros com uma descarga contínua que destroçaria os atacantes. Isso não lhe devolveria as bandeiras. Estas já tinham ido para sempre ou até que num futuro impensável o exército pudesse marchar sobre Paris e trazer de volta os troféus. Enquanto avançava por entre a carnificina, orientando os trabalhos, duvidava que os franceses tivessem realmente intenção de voltar a atacar. As perdas que sofreriam mal compensariam o esforço; talvez esperassem que ele se rendesse.

Ajudou Leroy a ir até à ponte, encostou-o ao parapeito e cortou-lhe as calças brancas. O americano tinha uma ferida na coxa, escura e purulenta mas a bala de carabina tinha-a atravessado perfeitamente e, apesar do nojo evidente demonstrado por Leroy, Sharpe mandou Harper colocar as larvas na ferida antes de ligá-la com uma tira rasgada da camisa de um morto. Forrest estava vivo, aturdido e sangrando, tinham-no encontrado com a espada na mão, onde as bandeiras haviam caído. Sharpe apoiou-o até junto de Leroy. Forrest ainda levaria alguns minutos para recuperar a consciência e Sharpe duvidava que o major, que mais parecia um vigário, quisesse entrar de novo em ação naquele dia. Pôs a bandeira junto aos dois oficiais, pendurou a grande bandeira amarela no parapeito como símbolo de desafio aos franceses, mas e os britânicos? Por duas vezes tinha caminhado cautelosamente até o extremo destruído do caminho e vociferado para o outro lado, mas parecia que os homens que se encontravam lá estavam em outro mundo, andavam de um lado para o outro com as suas coisas, alheios à carnificina que tinham a umas centenas de pés. Pela terceira vez Sharpe foi até ao extremo da ponte por entre as pedras derrubadas.

— Eh! — Só devia restar meia hora. Fez de novo concha com as mãos. — Eehhu!

Hogan apareceu, saudou-o e aproximou-se pela outra parte da ponte destruída. Era tranqüilizante ver a casaca azul do oficial de engenharia e o seu tricórnio, mas o uniforme tinha qualquer coisa de diferente. Sharpe não sabia o que havia de estranho, mas qualquer coisa havia. Apontou com a mão para o buraco existente entre os dois.

— O que aconteceu?

— Não foi coisa minha — respondeu Hogan abrindo os braços. — Simmerson acendeu as mechas.

— Pelo amor de Deus, porquê?

— Porque havia de ser? Assustou-se. Pensou que os franceses iam cercá-lo. Lamento. Tentei detê-lo mas estou preso.

Era isso, Hogan não tinha o sabre. O irlandês sorriu amplamente para Sharpe.

— O senhor também, logicamente.

Sharpe proferiu uma série de palavrões. Hogan deixou-o acabar.

— Já sei, Sharpe, já sei. É uma estupidez. Tudo porque nos negamos a que os seus fuzileiros formassem uma linha de atiradores, lembra-se?

— Acha que o teríamos salvo?

— Tem que colocar a culpa em alguém. Não vai colocá-la em si mesmo, por isso sou eu o bode expiatório.

Hogan tirou o chapéu e coçou a careca.

— Pouco me importa, Richard. Isso só significa suportar o seu mau humor até que regressemos ao exército. Depois não saberemos mais nada dele. O general o afastará! Não se preocupe!

Parecia ridículo falar das suas mútuas prisões aos gritos através de um espaço onde a água esbarrava branca contra as pedras destruídas. Sharpe apontou com a mão para os dois feridos.

— O que acontecerá com todos estes? Temos dezenas de feridos e os franceses voltarão em breve. Precisamos de ajuda. O que ele está fazendo?

— O que ele está fazendo? — exclamou Hogan abanando a cabeça. — Parece uma galinha a quem cortaram o pescoço. Dá instrução aos homens, é isso que está fazendo. Todo o pobre desgraçado que não tenha mosquete terá sorte se receber apenas três dúzias de chicotadas. O grande sacana não sabe o que fazer!

— Pelo amor de Deus!

Hogan ergueu a mão.

— Já sei, já sei. Eu lhe disse que tem que conseguir tábuas e cordas — disse, apontando para a brecha de quarenta pés. — Não é que pense salvar esta ravina com madeira mas podemos fazer balsas e atravessar sobre elas. Mas aqui não há madeira! Tem de mandar buscá-la

— E ele fez isso?

— Não.

Hogan não disse mais nada. Sharpe imaginava a discussão que ele tinha tido com Simmerson e sabia que o oficial de engenharia tinha feito todo o possível. Por momentos falaram de nomes, de quem tinha morrido, de quem estava ferido. Hogan perguntou por Lennox mas Sharpe não tinha notícias e perguntava a si mesmo se o escocês estaria morto no campo. Então viu o tenente Christian Gibbons cavalgando pela ponte ao lado de Hogan. O tenente louro parou olhando para o oficial de engenharia.

— Pensei que estava preso, Capitão, e detido.

Hogan levantou os olhos para o tenente arrogante.

— Precisava urinar.

Sharpe riu. Hogan acenou-lhe com a mão, desejou-lhe boa sorte e virou-se para o convento deixando Sharpe frente a Gibbons. O uniforme do tenente estava limpo e brilhante.

— Você está preso, Sharpe, e tenho ordens para lhe dizer que Sir Henry pedirá um conselho de guerra.

Sharpe riu. Era a única resposta possível, o que enfureceu o tenente.

— Não é para rir! Ordena-lhe que me entregue o seu sabre.

Sharpe olhou para a água.

— Quer vir buscá-lo, Gibbons? Ou eu tenho de levar?

Gibbons não fez caso do comentário. Tinham-lhe dito que desse um recado e estava determinado a dá-lo até o fim quaisquer que fossem as dificuldades.

— E ordena-lhe que devolva a bandeira do regimento.

Era incrível. Sharpe nem acreditava no que ouvia. Estava em cima de uma ponte destruída, debaixo de um calor que torrava enquanto que atrás de si havia filas de feridos cujos gritos se ouviam nitidamente e, no entanto, Simmerson tinha enviado o sobrinho para ordenar a Sharpe que entregasse o sabre e a bandeira.

— Porque explodiram a ponte?

— Isso não é assunto seu, Sharpe.

— Raios o partam, é sim, Gibbons, estou no lado oposto, raios. — Olhou para o elegante tenente cujo uniforme não estava manchado de terra nem de sangue. Suspeitava que o uniforme de Simmerson estaria na mesma. — Pensavam em abandonar os feridos, Gibbons? Não é verdade?

O tenente olhou para Sharpe com desagrado.

— Você me fará o favor de buscar a bandeira, Sharpe, e de atirá-la para este lado da ponte?

— Vá embora, Gibbons — respondeu Sharpe com idêntico desdém. — Vá buscar o seu precioso tio para falar comigo, não vou falar com o seu cão. A bandeira? Fica aqui. Vocês a abandonaram e eu lutei por ela. Os meus homens lutaram por ela e ficará conosco até que vocês nos levem de volta através do rio. Entendeu? — perguntou com a voz cada vez mais carregada de raiva. — Diga isto ao seu gordo charlatão! A bandeira dele fica conosco. E diga-lhe que os franceses vão voltar a atacar. Querem esta bandeira e por isso fico com o meu sabre, Gibbons, para poder lutar por ela!

Desembainhou as trinta e cinco polegadas de aço. Não tinha tido tempo para limpar a espada e Gibbons apenas pôde desviar os olhos do sangue incrustado.

— E, Gibbons, se quiser pode vir buscá-lo.

Virou as costas ao tenente e dirigiu-se para os feridos e mortos, onde Harper esperava com o rosto desfigurado.

— Sargento?

— Encontramos o capitão Lennox, tenente, está ferido.

Sharpe seguiu Harper por entre as filas de feridos que olhavam fixamente para ele sem dizer nada. Era tão pouco o que podia fazer! Podia vendar as feridas mas não havia maneira de lhes aliviar as dores. Precisava de conhaque, de um médico, de ajuda. E agora Lennox.

O escocês estava pálido, o roto contorcido pelas dores, mas balançou a cabeça e sorriu amplamente quando Sharpe se acocorou junto a ele. Sharpe sentiu uma ponta de remorso ao recordar as últimas palavras que tinha trocado com o capitão da Companhia Ligeira a alguns passos apenas daquele local; tinha sido “divirta-se”. Lennox fazia esgares de dor.

— Eu lhe disse que ele era louco, Richard, e agora isto. Vou morrer! Vou morrer!

Falava com realismo. Sharpe balançou a cabeça.

— Não. Vai ficar bom. Estão fazendo balsas. Vamos levá-los para casa, para que seja visto por um médico, ficará bem.

Agora era Lennox quem balançava a cabeça. Movia-se com uma lentidão agonizante e mordeu o lábio superior ao sentir que o atingia uma nova pontada de dor. O corpo estava encharcado em sangue da cintura para baixo e Sharpe não se atrevia a tirar o uniforme ensopado e rasgado, com medo de piorar a ferida. Lennox suspirou profundamente.

— Não me engane, Sharpe. Estou morrendo e estou consciente disso. — O seu sotaque irlandês era mais acentuado. Levantou os olhos para o rosto de Sharpe.

— O louco tentou que eu formasse uma linha de atiradores.

— Comigo também.

Lennox concordou lentamente. Franziu ligeiramente a testa.

— Atingiram-me logo no início. Um canalha derrubou-me, abrindo-me com o sabre. Precisamente no estômago. Não pude fazer nada. Que aconteceu? — perguntou levantando de novo os olhos.

Sharpe explicou-lhe. Contou-lhe que os espanhóis tinham destroçado o quadrado britânico ao procurar segurança no seu interior, que os sobreviventes tinham se reunido e repelido o ataque francês, o fogo das carabinas e a perda da bandeira. Ao mencionar a bandeira real, Lennox deitou-se para trás de dor. Essa desonra doía-lhe mais do que o corpo rasgado que o estava matando.

— Tenente! Tenente!

Um soldado chamava Sharpe mas apontava com a mão para outro local. Lennox tentava dizer qualquer coisa mas o soldado insistiu:

— Tenente!

Sharpe voltou-se e viu três caçadores que cavalgavam a trote na sua direção. A hora devia ter passado.

— Mais problemas? — perguntou Lennox, sorrindo debilmente.

— Sim. Mas podem esperar.

Lennox agarrou a mão de Sharpe.

— Não. Posso esperar. Ainda não vou morrer. Ouça. Quero perguntar-lhe uma coisa. Você e esse irlandês grande, voltarão? Promete?

Sharpe assentiu.

— Prometo?

— Prometo.

Pôs-se de pé, surpreso por ter de enxugar os olhos, e caminhou por entre os feridos até onde os caçadores esperavam por ele. O capitão que viera anteriormente estava ali e, com ele, dois soldados de cavalaria que olhavam com curiosidade o cemitério que os seus sabres tinham provocado. Sharpe cumprimentou, dando conta de repente que ainda tinha a espada com a lâmina ensangüentada na mão, e o capitão francês fez um esgar de dor ao vê-la.

— Monsieur.

— Senhor.

— A hora passou.

— Ainda não recolhemos todos os nossos feridos.

O francês balançou a cabeça com gravidade. Olhou à volta do campo. Ainda havia trabalho para uma hora e isso antes de começarem a ocupar-se dos mortos. Virou-se para Sharpe e falou em voz baixa.

— Creio, monsieur, que devem se considerar nossos prisioneiros. — Fez calar com a mão os protestos de Sharpe. — Não, monsieur, eu o entendo. Pode atirar a bandeira aos seus compatriotas, não é isso que queremos, mas a sua situação é desesperada. Os mortos superam os vivos. Não podem continuar lutando.

Sharpe pensou nos mosquetes que tinha recolhido. Carregados todos eles, preparados, destruiriam os franceses se fossem suficientemente loucos para atacar. Fez uma breve reverência ao caçador.

— O senhor é muito amável, mas, como pode ver, eu não pertenço ao regimento cuja bandeira capturaram. Sou fuzileiro e não me rendo.

Um pouco de valentia, pensou, não seria demais. No fim de contas, o capitão francês devia estar tentando intimidá-lo; tinha experiência suficiente para saber que os seus homens não quebrariam uma formação de infantaria bem comandada e comprovara que o fuzileiro alto com a espada ensangüentada podia comandar de forma conveniente. O capitão concordou como se estivesse à espera da resposta.

— Monsieur. Devia ter nascido francês. Hoje seria coronel!

— Comecei como soldado raso, senhor.

O francês mostrou-se surpreso. Não era nada extraordinário que recrutas franceses chegassem a oficiais, mas estava claro para o capitão de caçadores que tal parecia impossível no exército britânico. Levantou amavelmente a barretina com a corrente prateada.

— Felicito-o. O senhor é um adversário respeitável.

Sharpe considerou que a conversa se estava se tornando demasiado educada e floreada. Olhou intencionalmente para as suas fileiras de feridos.

— Tenho de continuar, senhor. Se pretender continuar a atacar, isso é consigo.

Voltou-se, mas o francês chamou-lhe a atenção.

— Não compreende, tenente.

Sharpe virou-se.

— Sim, senhor. Compreendo. Permite-me continuar?

O capitão balançou a cabeça.

— Monsieur. Não me refiro aos nossos caçadores. Nós somos simplesmente a... — Fez uma pausa à procura da palavra certa. — A vanguarda? A sua situação, tenente, é verdadeiramente desesperada.

Apontou para o alto da colina ao longe no horizonte mas ali não havia nada. O capitão esperou e então virou-se para Sharpe com um sorriso pesaroso.

— A minha coordenação é irremediável, tenente. Eu teria sido um péssimo ator.

— Desculpe-me, senhor, não estou compreendendo.

Mas então, sim, compreendeu. O capitão não necessitou dizer mais nada porque se efetuou um repentino movimento lá em cima e Sharpe não precisou do seu telescópio para lhe dizer o que via. Cavalos, cavalos sem cavaleiros, não mais do que uma dúzia, mas Sharpe sabia o seu significado. Um canhão, os franceses tinham trazido um canhão, um canhão de campanha que podia atingir a sua pequena força até destruí-la. Voltou a olhar para o capitão, que encolheu os ombros.

— Compreende agora, tenente?

Sharpe ficou olhando fixamente o horizonte. Só um canhão? Provavelmente seria um pequeno canhão, mas porquê apenas um?

Estariam os franceses por trás, ou teriam concentrado os esforços para trazer o canhão? Se estivessem com falta de cavalos então era possível que os tivessem a várias milhas. Era de esperar que os caçadores tivessem enviado uma mensagem à sua unidade principal dizendo que se enfrentavam com dois regimentos de infantaria e os franceses teriam enviado o canhão o mais depressa possível para ajudar a romper os quadrados. Começou a conceber uma idéia. Olhou para o capitão.

— Isso não altera nada, monsieur. — Manteve a espada ao alto. — Hoje o senhor é a segunda pessoa que requisita a minha espada. Dou-lhe a mesma resposta. Venha o senhor mesmo buscá-la.

O francês sorriu, levantou a sua espada e fez uma saudação.

— Será um prazer, monsieur. Confio em que sobreviva ao confronto e me dê a honra de comer comigo depois. A comida é ruim.

— Então alegro-me de não ter a honra de prová-la.

Sharpe sorriu para si mesmo enquanto o capitão dava ordens em francês e os três homens deram a volta aos cavalos para subir a colina. Sendo um soldado saído das fileiras imaginava que tinha praticado como um mestre o jogo da diplomacia. Então pensou em Lennox e apressou-se a regressar, tentando fixar a idéia na sua mente. Havia muito a fazer, muitas ordens a dar e muito pouco tempo, mas tinha prometido a Lennox. Deu uma vista de olhos para trás. O canhão, com o seu armão, descia lentamente a colina. Ainda tinha uma hora.

Lennox continuava vivo. Falou em voz baixa e rápida a Sharpe e a Harper. Ambos olhavam para o escocês e prometeram cumprir a sua última vontade. Sharpe recordava o momento em que, no campo de batalha, tinha visto que os franceses arrebatavam a bandeira real, lembrava-se agora de qual era a idéia fugaz que lhe tinha passado pela cabeça, e apertou a mão de Lennox.

— Isso eu prometi a mim mesmo.

Lennox sorriu.

— Não me desiludirá, eu sei. E Harper e o senhor podem fazê-lo, sei que podem.

Tinham de deixá-lo morrer só, não havia outra possibilidade, é que a outra última vontade do escocês era poder morrer com uma espada na mão. Afastaram-se renitentes e o grande sargento olhou para Sharpe.

— Poderemos fazê-lo, tenente?

— Prometemos, não foi?

— É verdade, mas nunca foi feito.

— Então seremos os primeiros! — disse Sharpe ferozmente. — Agora vamos, há muito para fazer!

Fixou a vista no canhão. Avançava, deslizando e percebeu que a sua idéia podia funcionar. Havia cabos soltos, havia sempre perguntas sem resposta; colocou-se então no lugar dos inimigos, e procurou-as. Harper notou a excitação no rosto do seu tenente, viu que a sua mão segurava continuamente o punho do sabre e esperou as ordens com paciência.

Sharpe mediu as distâncias, os ângulos, as linhas de tiro. Estava excitado, voltava-lhe a alegria, tinha alguma esperança apesar do canhão. Chamou os tenentes, os sargentos, pôs-se à frente deles e bateu com um punho na palma da mão.

— Ouçam...