A Águia de Sharpe

Bernard Cornwell · Capítulo 7 de 29

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A Águia de Sharpe

Capítulo V

 

O regimento de Santa Maria teria conquistado o mundo se as palavras e a pompa tivessem sido suficientes. Mas a pontualidade não era uma das suas manifestas virtudes militares. O South Essex tinha marchado rapidamente durante quatro dias para chegar ao encontro em Plasência, mas não encontrou um único soldado espanhol na cidade. As cegonhas batiam preguiçosamente as asas nos ninhos sobre os telhados empinados que se elevavam até à antiga catedral que dominava tanto a cidade como a planície que a rodeava, mas não havia sinal do Santa Maria. O batalhão esperava. Simmerson tinha acampado fora das muralhas e os homens olhavam com inveja como outras unidades chegavam e marchavam para o interior das ruas tentadoras com as suas tabernas e as suas mulheres. Três homens desobedeceram à ordem taxativa de se manterem fora da cidade e foram capturados, completamente bêbados, pelo capitão de piquete à cidade e açoitados enquanto o batalhão formava junto ao rio Jerte.

Por fim, com dois dias de atraso, chegou o regimento espanhol e o South Essex passou por uma revista às cinco horas da manhã para iniciar a marcha para sul, para Valdelacasa. O ar estava fresco mas aqueceria ao despontar do Sol, e a hora prevista para a partida, as cinco e meia, passou sem que houvesse sinal do Santa Maria. Os homens batiam os pés e esfregavam as mãos para se livrarem do frio. Batiam as seis nos sinos da cidade. As crianças que esperavam junto às mães para verem marchar o batalhão começaram a se cansar e corriam por entre as fileiras, apesar dos gritos de Simmerson a que se seguiram os dos sargentos e dos cabos. O batalhão estava formado junto à ponte romana sobre o rio e Sharpe seguiu o capitão Hogan, resmungão, até aos antigos arcos e ficou olhando fixamente para a água que corria à volta dos enormes pedregulhos de granito que algum levantamento de terra tinha deixado no leito do rio. Hogan estava impaciente.

— Malditos! Porque é que não podemos iniciar a marcha e deixar que esses miseráveis nos alcancem mais à frente?

Sabia perfeitamente que isso não era possível. A resposta chamava-se diplomacia e parte do preço da cooperação com as susceptíveis tropas espanholas era que o regimento nativo devia marchar primeiro. Sharpe não disse nada. Ficou olhando fixamente para a água e para as grandes ervas que ondulavam à passagem da corrente. Estremeceu com a brisa do amanhecer. Partilhava a impaciência de Hogan misturada com as frustrações que se agitavam dentro de Simmerson como a erva do rio que se movia lentamente. Levantou os olhos para a catedral, banhada pelo sol do amanhecer, e tentou concentrar a sua apreensão quanto à operação de Valdelacasa. Parecia simples. Um dia de marcha até ao rio, um dia para Hogan destruir os arcos, já decrépitos, e um dia de marcha para regressar a Plasência, onde Wellesley estava concentrando as suas forças para a etapa seguinte de avanço dentro da Espanha. Mas havia algo, algo instintivo tão difícil de concretizar como as sombras cinzentas que retrocediam com o alvorecer, que lhe dizia que não iria ser assim tão fácil. Não eram os espanhóis que o preocupavam. Tal como Hogan, sabia que a presença deles era um imperativo político e uma farsa militar. Se fossem tão inúteis como a sua reputação sugeria, isso não importava; o South Essex era suficientemente forte para agüentar o que fosse necessário. E era esse o problema. Simmerson nunca tinha enfrentado o inimigo e Sharpe tinha pouca fé na habilidade do coronel para fazer o que era necessário. Se realmente houvesse franceses na margem sul do Tejo, e se o South Essex tivesse de repelir um ataque na ponte enquanto Hogan colocava as cargas, então Sharpe preferiria que fosse um soldado veterano a tomar decisões e não aquele coronel da milícia cuja cabeça estava abarrotada de teorias sobre batalhas e de táticas aprendidas nos seguros campos de Essex.

Mas não era só Simmerson. Olhou para o caminho que conduzia à cidade onde permanecia um confuso grupo de mulheres, as mulheres do batalhão, e perguntou-se se a jovem, Josefina Lacosta, estaria ali. Pelo menos já sabia como se chamava e a tinha visto, uma dúzia de vezes, montada na delicada égua com uma multidão de tenentes de Simmerson rindo e gracejando à sua volta. Tinha ouvido rumores acerca dela; era mulher de um rico oficial português, que a tinha abandonado. Ninguém tinha certeza, mas o que era verdade é que conhecera Gibbons num baile no Hotel Americano de Lisboa e, em poucas horas, tinha decidido ir para a guerra com ele. Dizia-se que tinham planejado se casar quando o exército chegasse a Madrid e que Gibbons lhe prometera uma casa e uma vida de bailes e diversão. Fosse qual fosse a verdade sobre Josefina, ninguém se privava da sua presença, extasiava todo o batalhão, coqueteava até com Sir Henry, que respondia com muita galanteria e dizia aos oficiais que os jovens são assim. “Christian precisa se exercitar, não é verdade?” Simmerson repetia a graça e ria cada vez que o fazia. A indulgência do coronel fora tal que permitiu que o sobrinho quebrasse o regulamento e alugasse vários quartos na cidade onde vivia com a jovem e acolhia os seus amigos em longas e calorosas noitadas. Gibbons era a inveja de todos os oficiais, Josefina a sua jóia da coroa, e Sharpe estremecia sobre a ponte e perguntava-se se ela iria algum dia para as terras planas de Essex e para uma grande casa construída com os lucros da salga de peixe. Bateram as sete e ouviu-se o rumor da excitação ao ver-se que um grupo de cavaleiros surgia das casas e cavalgava em direção ao batalhão que os esperava. Os cavaleiros afinal eram britânicos e a tropa voltou a acalmar-se. Hogan e Sharpe encaminharam-se para os seus homens formados junto à Companhia Ligeira de Lennox à esquerda do batalhão e viram que os recém-chegados cavalgavam para se reunir com Simmerson. Todos os cavaleiros usavam uniforme, menos um, que tinha calças azuis por baixo de um capote cinzento e trazia na cabeça um simples chapéu de dois bicos. O alferes Denny, de dezesseis anos e com mal contida excitação, estava de pé, perto dos fuzileiros, e Sharpe perguntou-lhe se sabia quem era o que parecia civil.

— Não, tenente.

— Sargento Harper! Diga ao senhor Denny quem é o cavaleiro com o capote cinzento.

— O general, senhor Denny. Sir Arthur Wellesley em pessoa. Nascido na Irlanda, como os melhores soldados!

Uma onda de risos percorreu as fileiras mas todos se puseram em sentido olhando para o homem que os levaria até Madrid. Viram que puxava um relógio e olhava para a cidade de onde deviam vir os espanhóis. Contudo, não havia sinal do regimento, apesar do sol já estar bem alto acima do horizonte e o orvalho ter desaparecido da erva. Um dos oficiais do estado-maior de Wellesley separou-se do grupo e fez o cavalo trotar até Hogan. Sharpe pensou que ele quisesse falar com o oficial de engenharia e afastou-se, voltando para a ponte, para dar a Hogan alguma intimidade.

— Sharpe! Richard!

A voz era familiar, como se pertencesse ao passado. Virou-se para ver o oficial do estado-maior, um tenente-coronel que lhe estava acenando com a mão e escondia o rosto com um tricórnio.

— Richard! Não se lembra de mim?

— Lawford! — O rosto de Sharpe abriu-se num sorriso. — Tenente-Coronel! Nem sequer sabia que estava aqui!

Lawford apeou rapidamente da sela, tirou o chapéu e balançou a cabeça.

— Você está com um aspeto horrível! Realmente devia comprar outro uniforme um dia destes — disse, sorrindo, enquanto estendia a mão a Sharpe. — Estou encantado por vê-lo, Sharpe.

— E eu a você. Tenente-coronel? As coisas correram bem!

— Custou-me três mil e quinhentas libras, Richard, e você bem o sabe. Bendito seja o dinheiro.

Lawford. Sharpe lembrava-se de quando o digno William Lawford era um tenente assustado e um sargento chamado Sharpe o tinha guiado através do calor da Índia. Depois Lawford saldara a sua conta. Numa cela da prisão de Seringapatam o aristocrata ensinou o sargento a ler e a escrever, e esse exercício impedira que ambos enlouquecessem no úmido inferno dos calabouços do sultão Tippoo. Sharpe balançou a cabeça.

— Não o via desde...

— Há meses. Muito tempo. Como está?

— Tal como vê — sorriu zombeteiramente Sharpe.

— Desalinhado? — sorriu Lawford.

Tinha a idade de Sharpe, mas era essa a única semelhança. Lawford era um dândi, vestia sempre a melhor roupa e Sharpe tinha-o visto pagar sete guinéus a um alfaiate do regimento para dar um acabamento melhor a um casaco por si de corte perfeito. Estendeu expressivamente as mãos.

— Pode deixar de se preocupar, Richard, Lawford está aqui. Os franceses se renderão com certeza quando souberem. Meu Deus! Custou-me meses conseguir este trabalho! Estava detido no Castelo de Dublin, rendendo a maldita guarda e procurando mil ligações para entrar para o estado-maior de Wellesley. E aqui estou! Cheguei há duas semanas!

As palavras retumbavam. Sharpe estava encantado por vê-lo. Lawford, tal como Gibbons, resumia tudo o que mais odiava no exército; como o dinheiro e as influências podiam comprar as promoções, enquanto outros, como Sharpe, apodreciam na miséria. No entanto, Sharpe gostava de Lawford, não podia sentir ressentimento e supunha que era porque o aristocrata, com toda a segurança da sua origem, correspondia a Sharpe da mesma maneira. E Lawford, apesar de todos os seus ornamentos e da sua suposta languidez, era um militar lutador. Sharpe levantou a mão para deter o fluxo de notícias.

— Que aconteceu, senhor? Onde estão os espanhóis?

— Na cama — respondeu Lawford abanando a cabeça. — Pelo menos estavam, os guerreiros vestiram as calças e disseram que já vinham.

Aproximou-se de Sharpe e baixou a voz.

— Que tal se dá com Simmerson?

— Não tenho de me dar com ninguém de maneira nenhuma. Trabalho para Hogan.

Parecia que Lawford não tinha ouvido a resposta.

— É um homem extraordinário. Sabia que pagou para promover este regimento?

Sharpe balançou a cabeça.

— Sabe quanto lhe terá custado isso, Richard? É impensável!

— Então é rico. Mas isso não o faz militar — disse Sharpe com amargura.

— Mas quer ser — disse Lawford encolhendo os ombros. — Quer ser o melhor. Vínhamos para cá no mesmo barco e tudo o que fazia diariamente era sentar-se a ler as normas e o regulamento para os exércitos de Sua Majestade! — exclamou abanando a cabeça. — Talvez aprenda. No entanto, não invejo você — disse virando-se para olhar para Wellesley. — Bem, não posso ficar aqui todo o dia. Escute. Tem de vir comer comigo quando voltar deste trabalho. Virá?

— Será um prazer.

— Formidável! — exclamou Lawford subindo para a sela. — Espera-os uma luta. Enviamos os Dragões Ligeiros para o sul e disseram que há um punhado considerável de franceses por lá com alguma artilharia. Estiveram tentando arrancar os guerrilheiros das colinas mas agora estão se dirigindo de novo para leste, como nós, por isso boa sorte. — Obrigou o cavalo a dar meia volta e então olhou para trás. — E... Richard.

— Senhor?

— Sir Arthur pediu que lhe desse os seus cumprimentos.

— Como?

Lawford baixou os olhos para Sharpe.

— Você é um idiota — disse-lhe amigavelmente. — Quer que dê cumprimentos ao general? Será o mais apropriado.

Sorriu brincalhão, saudou com o chapéu e foi embora.

Sharpe seguiu-o com a vista enquanto ele se afastava e a apreensão perante o frio amanhecer dissipou-se de repente com aquela imprevista avalanche de amizade. Hogan aproximou-se dele.

— Amigos em altos cargos?

— Um velho amigo. Estivemos na Índia.

Hogan não disse nada. Olhava fixamente para o campo, com a boca aberta de surpresa e Sharpe seguiu-lhe o olhar.

— Meu Deus.

Chegara o regimento de Santa Maria. Dois trombeteiros com perucas empoadas encabeçavam a procissão. Montavam cavalos pretos e brilhantes, engalanados com uniformes que eram um escândalo de ouro e prata, as trombetas engalanadas com cintas, borlas e bandeirolas.

— Diabos! — exclamou uma voz entre as fileiras. — As fadas estão do nosso lado.

As bandeiras vinham depois, cobertas de brasões, bordadas a ouro, com borlas, laços, coroas, floreados, transportadas por cavaleiros cujos animais davam passos delicadamente altos com se a terra fosse pouco adequada para suportar tão esplêndidas criações.

Os oficiais vinham atrás. Devia ser um prazer para Sir Henry Simmerson, pois tudo o que podia ser areado tinha sido polido com tal intensidade que feria a vista; quer fosse de pele, bronze, prata ou ouro. Dragonas de cordões dourados incrustadas de pedras semipreciosas; casacos debruados com fios de prata, com plumas e alamares, com faixas, tudo reluzente. Era um espetáculo deslumbrante.

Os soldados vinham a seguir, uma desordem que avançava vacilando, movida por tambores enérgicos mas irregulares. Sharpe estava espantado. Tudo o que tinha ouvido a respeito do exército espanhol parecia estar certo, pelo menos no que se referia ao grosso do regimento; as armas estavam baças e descuidadas, não havia coragem no seu porte, e Madrid parecia de repente muito longe se era aquela a qualidade dos aliados que ajudariam a desobstruir o caminho. Sentiu-se uma renovada intensidade dos tambores espanhóis quando os dois trombeteiros desafiaram o céu com uma fanfarra. Depois fez-se silêncio.

— E agora? — murmurou Hogan.

Discursos. Wellesley, sábio em questões de diplomacia, fugiu quando o coronel espanhol se aproximou para arengar ao South Essex. Não havia tradutor oficial, mas Hogan que falava alguma coisa de espanhol estava oferecendo aos ingleses uma oportunidade, uma pequena oportunidade, de partilhar o glorioso triunfo dos guerreiros espanhóis contra os seus inimigos. Os gloriosos guerreiros espanhóis, incitados pelos seus sargentos, aplaudiram o discurso enquanto o South Essex, incitado por Simmerson, fez o mesmo. Trocaram-se saudações, apresentaram-se armas, houve mais fanfarras, mais tambores, chegou tudo ao clímax quando apareceu um sacerdote que, montando um pequeno burro cinzento, benzeu o Santa Maria com a ajuda de alguns rapazes vestidos com sobrepelizes brancas. Intencionalmente, os pagãos britânicos não foram incluídos nas preces ao Todo-Poderoso.

Hogan puxou sua caixinha de rape.

— Acredita que lutarão?

— Sabe Deus.

Sharpe sabia que no ano anterior, um exército espanhol tinha forçado a rendição de vinte mil franceses, não havia dúvida de que os espanhóis podiam lutar se o seu comando e a sua organização se equiparassem com as suas ambições. Mas para Sharpe, a evidência deste regimento sugeria que os seus aliados imediatos não tinham a organização nem os chefes necessários para fazer outra coisa que não fosse, talvez, pronunciar discursos retumbantes.

Às dez e meia, com cinco horas de atraso, o batalhão pôs finalmente as mochilas às costas e seguiu o Santa Maria atravessando a velha ponte. Sharpe e Hogan iam à frente do South Essex e imediatamente atrás de uma retaguarda espanhola de aspeto pouco guerreiro. Uma recua de mulas estava sendo obrigada a avançar, bem carregada de luxos para que os oficiais espanhóis tivessem todo o conforto no campo; entretanto, no meio dos animais, cavalgava o sacerdote que se virava continuamente e sorria nervoso com os dentes enegrecidos aos pagãos que iam atrás dele. O mais estranho de tudo eram três mulheres jovens vestidas de branco que montavam cavalos de pura raça e usavam guarda-sóis debruados. Riam constantemente com um riso tonto, voltavam-se e olhavam para os fuzileiros, pareciam três noivas a cavalo. Bela maneira de ir para a guerra, pensou Sharpe.

Até o meio-dia a coluna apenas fizera cinco milhas e tinha parado. Soaram trombetas à cabeça do regimento espanhol; alguns oficiais percorreram a galope as fileiras, levantando violentas nuvens de pó e os soldados simplesmente deixaram cair as armas e as mochilas e sentaram-se na estrada. Todos os que tinham graduação começaram a discutir, o sacerdote cravado entre as mulas gritava histérico a um oficial a cavalo, enquanto as três mulheres definhavam visivelmente e abanavam-se com as mãos calçadas por luvas brancas. Christian Gibbons conduziu o cavalo para a cabeça da coluna e sentou-se olhando fixamente para elas.

Sharpe ergueu a vista para ele.

— A do meio é a mais bonita.

— Obrigado — disse Gibbons com pesada ironia. — É muito observador da sua parte, Sharpe.

Estava a ponto de esporear o cavalo para a frente quando Sharpe pôs uma mão na brida.

— Ouvi dizer que os oficiais espanhóis gostam de duelos.

— Ah — respondeu Gibbons olhando fixamente para Sharpe. — Talvez o senhor tenha razão.

Levou o cavalo caminho abaixo.

Hogan gritava em espanhol ao sacerdote, tentando averiguar porque tinham parado. O sacerdote sorriu com a boca enegrecida e elevou os olhos para o céu como para dizer que eram desígnios de Deus e não havia nada a fazer.

— Maldição! — exclamou Hogan olhando rapidamente à sua volta. — Maldição! Não percebem o tempo que perdemos? Onde está o coronel?

Simmerson não estava muito longe. Ele e Forrest chegaram produzindo um rápido martelar de cascos.

— Que diabos está acontecendo?

— Não sei, Coronel. Os espanhóis sentaram-se.

Simmerson umedeceu os lábios.

— Por acaso sabem que temos pressa?

Ninguém respondeu. O coronel olhou para os oficiais como se algum deles pudesse sugerir uma resposta.

— Vamos, então. Vejamos o que acontece. Importa-se de traduzir, Hogan?

Sharpe mandou dispersar os seus homens enquanto os oficiais a cavalo avançaram até à cabeça da coluna. Os fuzileiros sentaram-se à beira do caminho com as mochilas ao lado. Os espanhóis pareciam adormecidos. O Sol ia alto e a superfície da estrada refletia um calor asfixiante. Sharpe tocou por acaso no cano da espingarda e desviou-se para trás ao sentir o metal quente. O suor escorria-lhe pelo pescoço e a luz brilhante do Sol, refletida sobre os ornamentos metálicos da infantaria espanhola, era deslumbrante. Ainda faltavam quinze milhas. As três mulheres levaram lentamente os cavalos até à cabeça do regimento, uma delas virou-se e saudou os fuzileiros com ar coquete. Harper enviou-lhe um beijo e, quando já tinham ido embora, o pó caiu lentamente sobre a fina erva da beira do caminho.

Decorreram quinze minutos de silêncio antes de Simmerson, Forrest e Hogan voltarem com passo lento da sua reunião com o coronel espanhol. Sir Henry não vinha satisfeito.

— Malditos sejam! Vão parar durante o resto do dia!

Sharpe olhou para Hogan com ar curioso. O oficial de engenharia assentiu.

— É verdade. Há uma estalagem ali em cima e os oficiais instalaram-se nela.

— Malditos! Malditos! Malditos! — exclamou Simmerson batendo no arção da sela. — Que vamos fazer?

Os oficiais que iam a cavalo olharam uns para os outros. Simmerson era o homem que tinha de tomar a decisão e ninguém respondeu à sua pergunta, mas só se podia fazer uma coisa. Sharpe olhou para Harper.

— Formar, sargento.

Harper vociferou as ordens. Os arrieiros espanhóis, cujo descanso fora perturbado, olharam curiosos para a maneira como os fuzileiros carregavam as mochilas e formavam.

— Baionetas, sargento.

Deu a ordem e as compridas baionetas com punho de latão saíram das bainhas. Cada lâmina media vinte e três polegadas de comprimento, perfeitamente afiada brilhante debaixo do sol. Simmerson ficou nervoso ao ver as armas.

— Que raios está fazendo, Sharpe?

— Só se pode fazer uma coisa, Coronel.

Simmerson olhou para a direita e para a esquerda para Forrest e para Hogan, mas estes não lhe prestaram qualquer ajuda.

— Sugere simplesmente que continuemos, Sharpe?

Era isso que devia ter proposto, pensou Sharpe, mas confirmou.

— Não era o que o senhor pretendia, Coronel?

Simmerson não estava seguro. Wellesley tinha-o convencido da necessidade de serem rápidos, mas também havia o dever de não ofender os susceptíveis aliados. Mas o que se passaria se a ponte estivesse ocupada pelos franceses quando chegassem? Olhou para os fuzileiros, austeros com os seus uniformes escuros, e depois para os espanhóis que se esparramavam pelo caminho fumando tranquilamente.

— Muito bem.

— Senhor — disse Sharpe e virou-se para Harper. — Quatro fileiras, sargento.

Harper respirou profundamente.

— Companhia! Em filas de dois à direita!

Havia momentos em que os homens de Sharpe, apesar dos uniformes andrajosos, sabiam como surpreender um coronel da milícia. com um ruído e uma precisão mais apropriada à guarda real, as filas numeradas e iguais deram um passo atrás; toda a companhia, sob outra voz de comando, virou para a direita e, em lugar de duas filas, havia agora quatro de frente para os espanhóis. Harper fizera uma pausa de um segundo enquanto o movimento era efetuado.

— Marcha rápida!

Marcharam. As botas batiam no caminho pondo as mulas em fuga, com os arrieiros assustados à frente. O sacerdote deu uma olhadela, fincou os calcanhares e entrou pelo campo.

— Vamos, canalhas! — gritava Harper. — Marchem! — Aceleraram o ritmo até atingirem o habitual na infantaria ligeira, batendo com as botas no caminho de modo que o pó se elevava no ar. Atrás deles, o South Essex estava formado e seguia-os, à frente deles o regimento espanhol separava-se para os campos, os oficiais saíam correndo da pousada de paredes brancas e gritavam aos fuzileiros. Sharpe não fez caso deles. O coronel espanhol, como se fosse uma aparição envolvida em galões, saiu pelas portas da pousada para ver o seu regimento feito em pedaços. Os homens tinham se dispersado pelos campos e os britânicos dirigiam-se para a ponte. O coronel não tinha as botas calçadas e sustinha na mão um copo de vinho. Quando chegaram junto da pousada Sharpe virou-se para os seus homens.

— Companhia, continência à direita!

Tirou a comprida lâmina, manteve-a em posição de continência e os homens sorriram zombeteiramente enquanto apresentavam armas ao coronel. Pouca coisa podia fazer. Queria protestar mas honra era honra e a continência devia ser retribuída. O espanhol estava perante um dilema. Numa mão o vinho e na outra o grande charuto. Sharpe viu o conflito no rosto do coronel, tentando decidir o que largar primeiro, mas por fim o coronel do Santa Maria acabou por segurar o copo de vinho e o charuto numa cerimoniosa pirueta.

— Olhar em frente!

Hogan riu com vontade.

— Bem feito, Sharpe! — disse olhando para o relógio. — Chegaremos à ponte antes do anoitecer. Espero que os franceses ainda não tenham chegado.

Esperemos que os franceses nunca cheguem, pensou Sharpe. Derrotar um aliado era uma coisa, mas as suas dúvidas a respeito da habilidade do South Essex para enfrentar os franceses eram mais reais que nunca. Olhou para o caminho branco e poeirento que se estendia pela planície monótona e, durante um fugaz e desagradável momento, perguntou a si mesmo se voltaria. Afastou esse pensamento e agarrou a culatra da arma. com a outra mão tocou inconscientemente no vulto que sentia sobre o esterno. Harper viu o gesto. Sharpe pensava que era um segredo o fato de levar pendurada ao pescoço uma bolsa de couro em que guardava as suas riquezas mundanas, mas todos os homens estavam a par disso e o sargento sabia que quando Sharpe tocava na bolsa com as suas poucas moedas de ouro pilhadas em antigos campos de batalha, significava que o tenente estava preocupado. E se Sharpe estava preocupado... Harper virou-se para os fuzileiros.

— Vamos, canalhas! Isto não é um funeral! Mais depressa!