A Águia de Sharpe
Capítulo XIV
O batalhão estava formado em companhias dando forma aos lados um quadrado. O quarto lado, em lugar do triângulo para as vergastadas, estava ocupado por dois planos inclinados que cresciam junto a um tanque pouco profundo. As bordas do tanque tinham sido pisadas pela cavalaria; o barro tinha secado e convertera-se em torrões ocres raiados de espuma verde. Entre as árvores tinham colocado o tambor do batalhão e sobre a pele cinzenta e tensa repousavam uma Bíblia aberta e um livro de orações. Não havia vento que pudesse virar as páginas, e o sol seguia o seu interminável assalto sobre a planície e sobre os homens que suavam em sentido com o uniforme de gala.
Sharpe estava diante da Companhia Ligeira, à esquerda da linha, e olhava por cima das cabeças da Companhia de Granadeiros, em frente ao Castelo de Oropesa que dominava a planície. As suas muralhas erguiam-se como lousas de pedra por cima dos telhados da cidade e Sharpe pensou inutilmente no que devia ter sido cavalgar completamente vestido com uma armadura de cavaleiro durante a época em que o castelo fora um verdadeiro obstáculo. A moderna artilharia perfuraria as aparentemente sólidas muralhas e derrubaria as pedras sobre as inclinadas ruelas provocando avalanches devastadoras. O suor fazia-lhe arder os olhos, pingava-lhe pela casaca verde e escorria pela espinha. Sentia-se curiosamente despreocupado, não num estado adequado para presenciar o envio dos desertores para a eternidade, e enquanto olhava fixamente para o castelo pensou em Josefina e de algum modo chegou à conclusão, na luz da manhã, de que a combinação não era má de todo. Ela seria sua enquanto precisasse dele, em troca, oferecia-lhe felicidade e vida. E quando acabasse a dita combinação? Ele sabia que um bom soldado planejava sempre uma batalha quando a tinha pela frente, mas não podia fazer planos para quando Josefina se fosse.
Olhou para Gibbons que estava formado, montado no cavalo com a Companhia Ligeira.
Simmerson montava no centro do quadrado junto ao general Daddy Hill que, junto com os seus oficiais, tinha vindo cumprir o dever de observar a execução. Gibbons estava sentado, com uma expressão petrificada, e olhava fixamente para frente. Tão depressa quanto a revista acabasse, Sharpe sabia que voltaria ao seguro amparo do tio; o tenente não tinha dito nem uma palavra a Sharpe, tinha simplesmente percorrido a companhia com o cavalo, dera a volta e permanecera sentado. Não havia nada a dizer. Sharpe sentia o ódio que o homem quase irradiava, a determinação de vingança, porque Sharpe não só conseguira a promoção que Gibbons queria, mas algo muito pior, o fuzileiro ficara também com a amante dele. Sharpe sabia que esse assunto não estava resolvido.
Catorze homens, todos culpados de crimes menores, marcharam para o interior do quadrado e colocaram-se de frente para as árvores. O castigo deles era ser o pelotão de fuzilamento e enquanto os homens ali permaneciam, com os mosquetes apoiados no chão, olhavam fixamente com fascinação para as duas sepulturas recém-abertas e para os rudes caixões de madeira que esperavam Ibbotson e Moss. Os outros dois prisioneiros tinham morrido durante a noite. Sharpe pensava que Parton, o médico do batalhão, os tinha ajudado a percorrer esse caminho em vez de obrigar o batalhão a olhar para dois homens gravemente doentes amarrados a duas árvores e crivados de balas até à morte. Quando criança tinha visto um enforcamento público e ouvira a multidão excitada quando as vítimas estrebuchavam e se debatiam bruscamente na forca. Tinha visto homens voando da boca decorada dos canhões de bronze, com os corpos destroçados contra a paisagem indiana, companheiros torturados pelas mulheres do Tippoo, alimentando as bestas selvagens, ele próprio enforcara homens à beira dos caminhos; no entanto, a maior parte das vezes tinha visto homens executados por um tiro com toda a pompa de uma execução ritual. Nunca gostara do espetáculo; supunha que nenhuma pessoa de juízo gostava, mas sabia que era necessário. Aquela execução, no entanto, era ligeiramente diferente. Não que Moss e Ibbotson não merecessem morrer, já que tinham desertado e pensado em se juntar ao exército inimigo, e não podiam esperar outro fim que não o pelotão de fuzilamento. No entanto, depois da batalha da ponte, das chicotadas de Simmerson, da sua insistente condenação por perder a bandeira, parte do batalhão via na execução o resultado do desprezo e o ódio contra eles. Sharpe poucas vezes tinha sentido nas tropas tal ressentimento.
À distância, abrindo caminho por entre a multidão de espectadores britânicos e espanhóis, surgiu o destacamento de prisioneiros e guardas. Forrest aproximou o seu cavalo de Simmerson.
— Batalhão! Armem baionetas!
As lâminas guincharam ao saírem das bainhas e o aço correu pelas fileiras das companhias. Os homens devem morrer com a devida cerimônia. Sharpe viu que Gibbons se baixava para falar com o alferes de dezesseis anos, Denny.
— É a sua primeira execução, Denny?
O jovem assentiu. Estava pálido e inquieto, tal como os soldados mais jovens. Gibbons riu entre dentes.
— É a melhor prática de tiro que os homens podem ter!
— Cale-se! — gritou Sharpe, olhando-o com frieza. Gibbons sorriu às escondidas.
— Batalhão!
O cavalo de Forrest deu de lado. O major acalmou-o.
— Ombro arma!
Os homens perfilaram-se empunhando as baionetas. Fez-se silêncio. Os prisioneiros vestiam calça e camisa, não tinham casaca, e Sharpe supôs que as deviam ter ensopado em brandy asqueroso ou rum. Um capelão caminhava junto a eles, o murmúrio das suas palavras mal chegava a Sharpe, mas os prisioneiros não pareciam dar-lhe importância ao serem conduzidos para as árvores. O drama avançava inexoravelmente. Moss e Ibbotson estavam atados a duas árvores, com os olhos vendados, e Forrest mandou pôr o pelotão de fuzilamento em sentido. Ibbotson, o filho do vigário, estava mais perto de Sharpe que o viu mover freneticamente os lábios. Estaria rezando? Sharpe não entendia as palavras.
Forrest não deu ordens. O pelotão de fuzilamento tinha sido treinado para obedecer a sinais mais do que a ordens. Apresentaram armas e apontaram ao ver os movimentos da espada do major. De repente, a voz de Ibbotson tornou-se clara e audível, o tom de culto cheio de desespero, e Sharpe reconheceu as palavras. “Pecamos e desviamo-nos do caminho como ovelhas perdidas...” Forrest baixou a espada, os mosquetes dispararam, os corpos estrebucharam freneticamente, e um bando de pássaros voou dos ramos. Dois tenentes adiantaram-se correndo, de pistolas erguidas, mas as balas dos mosquetes tinham cumprido o seu trabalho e os corpos pendiam com os peitos ensangüentados e moídos em frente a última fumaça branca de mosquete.
Um murmúrio, apenas audível, percorreu as filas do batalhão. Sharpe virou-se para os seus homens.
— Silêncio!
A Companhia Ligeira calou-se. A fumaça do pelotão de execução pairava penetrante no ar. O murmúrio cresceu. Oficiais e sargentos gritaram ordens, mas os homens do South Essex tinham encontrado a forma de protestar e o murmúrio tornou-se mais insistente. Sharpe manteve a sua companhia calada, quase pela força, ficou olhando para eles com ferocidade com a espada desembainhada, mas não podia fazer nada contra o desprezo que os seus rostos refletiam. Não era dirigido a ele, mas para Simmerson, e o coronel puxou bruscamente as rédeas no centro do quadrado e rugiu pedindo silêncio. O ruído elevou-se. Os sargentos correram para o interior das filas e bateram nos homens que pensavam que produziam o som, os oficiais gritavam às companhias, fazendo com que aumentasse o estrépito, mas por de trás do batalhão provinham as zombarias dos soldados britânicos de outras unidades, que tinham saído da cidade para assistirem à execução.
Pouco a pouco o queixume e o murmúrio foram diminuindo, tão lentamente como a fumaça dos tiros se dissolveu no ar, e o batalhão ficou em silêncio. Daddy Hill não se mexera nem dissera nada, mas agora dirigia-se aos seus ajudantes-de-campo e o pequeno grupo afastou-se delicadamente a trote, passou junto ao pelotão de fuzilamento que estava levantando os corpos para colocá-los nos caixões, e foi em direção a Oropesa. O rosto de Hill era inexpressivo. Sharpe não conhecia Daddy Hill, mas sabia, como o resto do exército, que o general tinha reputação de ser agradável e considerado e Sharpe se perguntava o que ele achava de Simmerson e dos seus métodos. Rowland Hill estava ao comando de seis batalhões mas Sharpe tinha certeza de que nenhum lhe causaria tantos problemas como o South Essex.
Simmerson aproximou o cavalo das sepulturas, puxou o animal para baixo e pôs-se de pé sobre os estribos. Tinha o rosto avermelhado, sua raiva era óbvia e inflamada, a voz soava estridente no silêncio.
— Hoje às seis da tarde haverá uma revista de castigo. Equipamento completo!
Vão me pagar por isto!
Os homens ficaram em silêncio. Simmerson sentou-se na sela.
— Major Forrest! Aja em conformidade!
O batalhão desfilou, uma companhia atrás de outra, à frente os dois caixões abertos e os homens tiveram de olhar fixamente para os corpos destroçados que aguardavam sepultura. Isso, dizia o exército, é o que vai lhes acontecer e mais que isso, pois os nomes dos mortos eram enviados para Inglaterra para serem afixados num painel da paróquia de maneira que a vingança recaísse também sobre as suas famílias. As companhias desfilaram pela frente, em silêncio.
Quando o batalhão se foi e os outros espectadores tinham olhado para os restos de olhos muito abertos, um grupo de trabalho baixou os caixões para as sepulturas. Jogaram terra nas covas, e voltaram a colocar as capas de erva de maneira que à primeira vista não se notasse que havia alguém enterrado ali. Não estavam nitidamente demarcadas, essa era a última afronta, mas depois dos soldados partirem, os camponeses espanhóis encontraram as sepulturas e cravaram cruzes de madeira na erva. Não era uma questão de respeito, era simplesmente precaução de gente sensata. Os mortos eram protestantes, estavam enterrados fora de um cemitério, e as cruzes rudimentares estavam ali para fazer com que os seus espíritos agitados ficassem debaixo da terra. O povo espanhol já tinham muitos problemas com a guerra; os exércitos da França, Espanha e agora da Grã-Bretanha cruzavam uma e outra vez as suas terras. Pouco podia fazer um camponês contra isso, ou contra os homens que lutavam na guerrilha. Mas os fantasmas dos ingleses pagãos eram outra coisa. Que necessidade havia de espantarem o gado e espreitarem pelos campos durante a noite? Cravaram bem as cruzes e dormiram tranqüilos.