A Águia de Sharpe
Capítulo XXIV
S harpe perdeu de vista a batalha quando se entrepôs o batalhão de tropas holandesas e a fumaça que se elevava como estranhas nuvens de nevoeiro sob o abrasador calor espanhol. Com a retirada da primeira linha das colunas francesas, os holandeses tinham se convertido num alvo para os canhões britânicos e, com muita sensatez, as tropas de casaca branca tinham abandonado a coluna e formado uma linha. Agora constituíam uma parede branca e suja, em ângulos retos com o riacho e em frente ao resto que fugia da Legião Alemã do rei que atravessava correndo à sua frente. Sharpe via que os holandeses atacavam e disparavam os mosquetes em direção aos batalhões dispersos mas não faziam qualquer movimento de avanço e arrematavam os sobreviventes. Sharpe achou que, morto o coronel pelo disparo de Hagman, o batalhão não sabia o que fazer e estava à espera do segundo ataque francês para se unir a eles.
— Capitão! Capitão! — gritou o alferes Denny puxando a casaca de Sharpe e apontando.
Por entre a fumaça que os canhões do Medellín levantavam, Sharpe viu um batalhão britânico descendo a colina.
— É o nosso! O nosso!
Denny estava excitado, aos saltos, enquanto o único estandarte abriu caminho entre a fumaça e se tornou totalmente visível na encosta. No entanto, estavam a um quarto de milha de distância e, atrás deles, apenas perceptível por entre a fumaça, Sharpe viu outro batalhão que marchava para a brecha, para se pôr em frente deste segundo e mais amplo ataque francês. Voltou a ouvir os tambores, tão persistentes como sempre, e pressentiu que o ponto crucial da batalha se aproximava; como que para confirmá-lo, os canhões franceses voltaram a soar e dos canhões quentes e chamuscados lançaram granada atrás de granada sobre o batalhão britânico que corria para formar uma nova linha com que enfrentar o ataque seguinte. Os franceses estavam muito perto da vitória, apenas tinham de romper a improvisada defesa que estava se formando com os restos e teriam ganho o dia.
Esqueceram-se dos homens de Sharpe. Era um pequeno grupo no fundo de um vale pouco profundo nos extremos de uma grande luta. Os batalhões tinham se dispersado de ambos os lados, havia centenas de mortos, corria sangue pelo riacho e agora, entre a fumaça e o ruído, marchavam milhares de franceses em direção à remendada linha britânica. O ataque atingiria o alvo a qualquer momento e as reservas britânicas desmoronariam ou agüentariam e Sharpe, com a espada na mão, ficou sem saber o que fazer. Harper deu-lhe um toque no braço e apontou para um cavaleiro que se aproximava deles lentamente vindo do Medellín.
— O tenente Gibbons, Capitão!
Sharpe voltou a olhar para o combate. Gibbons provavelmente vinha com ordens de Simmerson, mas Sharpe não tinha confiança no coronel e não estava particularmente interessado na mensagem que Gibbons trazia. O South Essex ainda estava distante para abrir fogo contra o batalhão de casacas-brancas que tinha pela frente e, quando o fizesse, sabia que os holandeses se voltariam contra os atacantes e não confiava na aptidão de Simmerson para lutar contra o batalhão. Era melhor não dar importância ao South Essex.
A fumaça cobria os holandeses. Quando a luta se tornou mais intensa, a fumaça da pólvora ficou mais espessa até se converter numa nuvem branca e suja que cobria tudo e os sons longínquos das trombetas da cavalaria competiam, numa sinistra ameaça. Sharpe descontraiu-se. Não podiam tomar decisões, a batalha seria decidida com os milhares de homens atrás da fumaça dos mosquetes holandeses e a Companhia Ligeira do South Essex cumprira o seu dever. Virou-se para Harper e sorriu.
— Está vendo o mesmo que eu?
Harper fez uma careta, os seus dentes pareciam de um branco brilhante no rosto preto da pólvora.
— É bastante tentador, capitão. Eu estava pensando no mesmo.
A duzentas jardas, no meio da linha holandesa, havia uma águia. Brilhava como ouro, sob a luz, as asas abertas faziam sombra na haste em que estava içada. Sharpe olhou fixamente para as costas da infantaria holandesa que disparavam contra um alvo invisível entre a fumaça.
— Com certeza que daria muito que falar.
Sharpe arrancou um talo de erva e mastigou-o, a seguir cuspiu-o.
— Não posso ordenar que venha comigo.
O sargento voltou a sorrir, um sorriso largo e feliz num rosto marcado.
— Não tenho nada melhor para fazer. Vamos precisar de mais dois.
Sharpe balançou a cabeça e sorriu brincalhão.
— O tenente Gibbons talvez nos dê uma ajuda.
Harper virou-se e ficou olhando para Gibbons que estava a cerca de cinqüenta jardas atrás da companhia.
— O que ele quer?
— Sabe Deus. Não lhe dê importância.
Sharpe colocou-se diante dos homens e olhou para eles.
Estavam ajoelhados na erva, com as caras sujas, olheiras fundas por causa da fumaça da pólvora e da fadiga da batalha. Tinham feito tudo muito bem. Olharam-no na expectativa.
— Portaram-se bem. Foram extraordinários e estou orgulhoso de vocês. — Sorriram, perturbados pelo elogio, agradecidos. — Não vou pedir mais nada. O batalhão vem para cá dentro de um minuto e o senhor Denny os conduzirá e os fará formar à esquerda como sempre.
Estavam confusos, os sorrisos esfumaram-se.
— O sargento Harper e eu não vamos com vocês. Creio que não está certo que o nosso batalhão só tenha uma bandeira, por isso vamos buscar outra. Aquela.
Apontou para a águia e viu que os homens espreitavam por trás dele. Alguns fizeram uma careta, a maioria parecia espantada.
— Vamos lá agora. Quem quiser vir é tolo, mas será bem-vindo. Os outros, todos, se quiserem, regressarão com o senhor Denny e o sargento e eu nos reuniremos a vocês quando pudermos.
— Eu quero ir, senhor! — protestou Denny. Sharpe balançou a cabeça em sinal de negação.
— Qualquer um pode vir, senhor Denny, exceto o senhor. Gostaria que chegasse a fazer dezessete anos.
Os homens sorriram brincalhões, Denny corou, e Sharpe afastou-se.
Ouviu Harper desembainhar a espada e logo se seguiu o ruído de outras lâminas encaixando-se. Começou a andar em direção ao inimigo, com a espada desembainhada e ouvia os passos atrás de si. Harper estava a seu lado e continuaram a andar em direção ao batalhão confiante.
— Todos vieram, senhor. Todos.
Sharpe olhou para ele.
— Todos? — disse, voltando-se para trás. — Senhor Denny? Volte ao batalhão! É uma ordem!
— Mas, senhor...
— Não, senhor Denny. Volte!
Observou como o rapaz dava meia volta e encetava alguns passos. Gibbons continuava montado no seu cavalo olhando para eles e Sharpe virou-se para lhe perguntar o que fazia o tenente, mas era irrelevante; a águia era tudo. Deu a volta, rezando para que o inimigo não os visse, rezando que houvesse mais para além do céu azul, misturado com a fumaça para que tivessem êxito. A águia era tudo o que desejava.
O inimigo ainda não olhara para eles, ainda disparava contra a fumaça, e o som da batalha crescia. Por fim, Sharpe ouviu as descargas regulares do pelotão e soube que o segundo ataque francês enfrentava à nova linha britânica e que a espantosa monotonia das rajadas britânicas lutava uma vez mais com o hipnótico rufar dos tambores. As balas dos canhões britânicos troavam por cima das suas cabeças e descreviam trajetórias terríveis nas invisíveis colunas francesas mas os rufares tornavam-se mais intensos, os gritos de Viva l’Empereur não diminuíam, e, de repente, encontraram-se a umas cem jardas da águia. Sharpe rodou a espada na mão e acelerou o passo. Com certeza o inimigo os veria!
Um rapaz que tocava tambor, rufando com as baquetas na retaguarda da linha inimiga, voltou-se para vomitar e viu o pequeno grupo que se aproximava silenciosamente por entre a fumaça. Lançou o aviso, mas ninguém o ouviu, voltou a gritar e Sharpe viu que um oficial se virava. A tropa moveu-se, os homens voltavam-se para enfrentá-los, mas tinham as baquetas meio enfiadas nos canos e ainda estavam carregando. Sharpe ergueu a espada.
— Continuem, continuem!
Começou a correr, sem pensar em mais nada que não fosse a águia e as caras espantadas do inimigo que desesperadamente se apressavam a carregar os mosquetes. Sharpe via os granadeiros com altos gorros de pele, alguns estavam armados de machados, protetores da honra francesa. Um mosquete disparou e uma baqueta deu uma volta sobre a sua cabeça; Harper estava a seu lado, com o sabre-baioneta na mão, e os dois homens soltaram o seu grito enquanto os rapazes dos tambores fugiam, cada um para o seu lado e os dois enormes fuzileiros se introduziam no meio da linha inimiga. Os mosquetes explodiram com um barulho terrível. Sharpe teve a impressão de ver homens vestidos de verde lançados para trás, mas depois só pôde ver um granadeiro alto que arremetia com golpes curtos e profissionais de baioneta. Sharpe desviou-se, deixou que a lâmina deslizasse ao seu lado, agarrou o cano do mosquete com a mão esquerda e atirou o granadeiro para cima da sua espada afiada. Alguém o atacou pela esquerda, um golpe baixo oscilante com um mosquete; moveu-se de maneira a que este caísse com um ruído surdo sobre a mochila e lançou o soldado para cima do corpo do granadeiro cujas mãos agarravam a espada cravada no estômago. Um tiro ensurdeceu-o e, de repente, viu-se livre, arrancando a lâmina do pesado cadáver e gritando morte aos homens que protegiam a águia. Harper tinha aberto caminho, tal como Sharpe, entre a primeira fila, mas a sua baioneta era muito curta e o irlandês foi repelido por dois homens com baionetas. Sharpe empurrou-os para o lado com a espada, cortando uma grande lasca do mosquete mais próximo e Harper saltou para a brecha, golpeando à esquerda e à direita, enquanto Sharpe forçava ao lado. Mais mosquetes, mais gritos, os casacas-brancas feriam-nos, voltando a carregar para destruir o diminuto grupo, com fogo de mosquete, que os dizimaria sem piedade. A águia retirava-se, afastava-se, mas o porta-estandarte não tinha outro lugar para onde ir senão em direção ao fogo de mosquete de um batalhão britânico invisível que estava em algum entre a fumaça que jorrava do choque da coluna contra a linha. Um dos homens com machado dirigiu-se a Sharpe; era um homem enorme, como Harper, e sorriu ao mesmo tempo que levantava a enorme lâmina e a fazia descer com força, desferindo um golpe que teria partido a cabeça de um boi. Sharpe desviou-se para o lado, sentiu o deslocamento de ar produzido pela lâmina, e viu cair o machado no chão empapado em sangue. Cravou a espada no pescoço do homem, soube que o tinha matado e viu que Harper apanhara o machado do chão e largava a baioneta. O irlandês berrava na língua dos seus antepassados e subia-lhe à cabeça o sangue enfurecido, brandindo o machado num círculo tão selvagem que até Sharpe teve de se abaixar quando Patrick Harper seguiu em frente; os lábios distorcidos e o rosto enegrecido, a barretina perdida, o cabelo comprido emaranhado pela pólvora, a grande espada prateada silvando nas mãos e, usando o antigo idioma, abrindo caminho por entre o inimigo.
O porta-estandarte saltou das fileiras para pôr a salvo a preciosa águia no batalhão mas ouviu-se um estalido, o homem caiu, e Sharpe ouviu o habitual “agarrei-o”, de Hagman. Então ouviu-se um novo ruído, mais tiros, e o batalhão holandês estremeceu como um animal ferido enquanto o South Essex se aproximava do seu flanco e começava a lançar descargas. Um oficial enlouquecido estava olhando para Sharpe, atirou-se a ele com uma espada, errou, e gritou de pânico quando Sharpe arremeteu com a ponta. Um homem de branco saiu correndo da formação para recolher a águia caída, mas Sharpe estava na mesma linha e deu-lhe um pontapé nas costelas, dobrou-se e apanhou o objeto do chão. Ouviu-se um grito informe, proveniente do inimigo, os homens arremeteram contra ele com baionetas e sentiu um golpe na coxa, mas Harper estava ali, com o machado e também Denny com a sua espada ridiculamente estreita.
Denny! Sharpe fez com que o rapaz se abaixasse, balançou a espada para protegê-lo mas tinha uma baioneta no peito, e embora Sharpe batesse com a espada na cabeça do homem, reparou que Denny estremecia e caía. Sharpe berrou, balançou a águia de cobre dourado em direção ao inimigo, viu que o seu brilho rasgava o ar e obrigou-os a retroceder, gritou de novo e saltou por cima dos corpos com a espada ensangüentada à procura de mais. Os holandeses afastaram-se aterrorizados, a águia vinha na sua direção e eles recuavam diante de dois enormes fuzileiros que grunhiam, lançando-se contra eles, sangrando de uma dezena de golpes mas mesmo assim continuando a avançar. Eram imortais! Agora vinham descargas da direita, de frente, e os holandeses, que tinham combatido tão bem para os seus amos franceses, já tinham que lhes bastasse. Correram, tal como os outros batalhões franceses, e, por entre a fumaça do vale do Portina, os restos dos batalhões como o 48º, os homens da Legião e os Guardas tinham voltado a formar adiantavam-se para voltar a combater, avançando sobre o terreno encharcado de sangue, investiam com as baionetas, obrigando as enormes colunas francesas a retroceder. O inimigo afastava-se do aço gotejante, retirava-se de uma cena que era como as imagens mais pavorosas do inferno. Sharpe nunca tinha visto tantos corpos, tanto sangue derramado num campo de batalha; nem sequer em Assaye, que acreditava ser incomparável no que dizia respeito a horror, tinha corrido tanto sangue.
Desde o Medellín, através da fumaça, Sir Henry observou todo o exército francês recuar, destruído e sangrando, tendo perdido a quarta parte dos seus efetivos; derrotados, destroçados pela linha, pelos mosquetes que faziam cinco disparos por minuto em um dia bom, e por homens que não temiam os tambores. E em pensamento, Sir Henry redigiu uma carta em que explicaria como a sua ordem de retirada do South Essex da linha tinha sido o movimento-chave que permitira a vitória. Acaso não dissera sempre que os britânicos venceriam?