A Águia de Sharpe

Bernard Cornwell · Capítulo 11 de 29

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A Águia de Sharpe

Capítulo IX

 

 

O tempo para as lamentações viria depois, o tempo para se entristecer pela carnificina, para pensar em estar vivo e sem feridas, sobretudo para lamentar não ter passado mais tempo com Lennox quando este estava morrendo. Sharpe desembainhou o grande sabre, levantou a espingarda com a mão esquerda, voltou-se para os cento e setenta homens formados em três fileiras atravessadas na estrada.

— Em frente!

Enquanto marchavam, Sharpe pensou brevemente na conversa que tivera com Lennox. Teria sido capaz de convencer o moribundo? Julgava que sim. Lennox era um militar, compreendia que Sharpe tivesse pouco tempo, e o fuzileiro estava convencido que tinha visto alívio no rosto do escocês. Cumprir a promessa era outra coisa; primeiro teria de acabar os assuntos do dia. Forrest marchava a seu lado, ambos a poucos passos da única bandeira que ondulava sobre a pequena formação; o major estava visivelmente nervoso.

— Dará certo, Sharpe?

O alto fuzileiro sorriu.

— Por enquanto sim, Comandante. Pensam que estamos loucos. — Forrest tinha insistido em ir com ele em vez de ficar com os feridos junto à ponte. No entanto estava um pouco aturdido, afetado pelo golpe que tinha recebido na cabeça e recusara a oferta de Sharpe para comandar os sobreviventes contra o novo assalto francês.

— Nunca tinha estado numa batalha, Sharpe — disse Forrest. — A exceção de uma vez em que reprimi um distúrbio por causa da comida em Chelmford e não creio que isso conte.

Sharpe compreendia o nervosismo do major, agradecia a Forrest por ter dado a sua bênção ao que parecia um ato de completa loucura; no entanto, o instinto de Sharpe dizia-lhe que iria funcionar. Para os caçadores que observavam e aguardavam parecia que a pequena formação britânica tinha o propósito de se suicidar com uma carga mortal ou de glória sem qualquer chance de êxito, mas que pelo menos os livraria do desgaste de morrer a golpes dos artilheiros franceses. Forrest perguntara, quase queixoso, porque o inimigo continuava a lutar, acaso não tinham conseguido uma grande vitória? Mas os franceses deviam saber quão tristemente pequeno era o exército de Wellesley, pouco mais de vinte mil homens. Se pudessem destruir completamente o South Essex, os franceses eliminariam um terço da infantaria britânica e asseguravam aniquilar Wellesley quando a verdadeira batalha acontecesse. Além disso Sharpe estava oferecendo-lhes a chance de capturarem uma segunda bandeira britânica que desfilaria no acampamento francês para persuadir os soldados da fragilidade do novo inimigo.

— Está na hora, Sharpe? — Forrest estava ansioso.

— Não, Major, não. Falta um minuto.

Marchavam caminho acima, direito para o canhão que estava a trezentas jardas. O plano de Sharpe dependia de duas coisas, e o inimigo acabara por fazer as duas. Primeiro tinham aproximado o canhão dos britânicos, o máximo que a segurança permitia. Não deviam querer usar balas redondas contra a infantaria. Sharpe sabia que carregariam o canhão com uma carga de metralha, o contentor metálico mortal de balas de mosquete e ferro-velho que explodia assim que saía do canhão e borrifava com a sua mistura letal como se fossem pregos retorcidos disparados pelo trabuco de um cocheiro. Não havia dúvida de que os franceses esperavam que os britânicos se espalhassem pelo terreno acidentado junto ao rio, protegidos pelo declive da margem, mas as cargas de metralha os encontrariam mesmo ali e os matariam dois a dois, três a três. Em vez disso, os britânicos dirigiam-se diretamente para o canhão, como cordeiros a caminho do matadouro, e os artilheiros franceses provavelmente não precisariam mais do que três tiros para dispersá-los e deixar que a cavalaria acabasse com os sobreviventes aturdidos. O segundo cálculo de Sharpe tinha a ver com a cavalaria. Tinha sentido um grande alívio ao ver que desfilavam para a direita dos britânicos. Era o que esperava, mas se tivessem se dirigido para a esquerda o plano não teria sido possível e eles não teriam tido outra alternativa senão morrer junto à ponte. O terreno da direita estava limpo de corpos, não era como o da esquerda um caminho de obstáculos de homens e cavalos mortos, e Sharpe supusera que o oficial francês apontaria obliquamente o disparo do canhão e não quereria que os cavaleiros, que agora esperavam com as armas prontas a abrir fogo, tivesse de passar por um caminho obstruído.

Observou os artilheiros franceses. Não pareciam ter pressa, não havia necessidade de correr, e olhavam continuamente para as forças britânicas que se dirigiam oportunamente para o canhão. Este apontava diretamente para Sharpe. Podia ver a carreta pintada de verde e suja, o canhão de bronze sem brilho e a boca enegrecida. Observara que a eficiente dotação levantava com uma alavanca os três quartos de tonelada, que o canhão de quatro pés e meio apontava diretamente para o caminho. Agora o artilheiro de casaca azul punha a bolsa de sarja contendo uma libra e meia de pólvora preta no canhão. Um segundo homem empurrou-a e Sharpe viu que um terceiro se inclinava sobre o canhão e a empurrava para baixo com uma estaca para que a bolsa de sarja se enfiasse e a pólvora pudesse voar com a mecha. Outro artilheiro avançava com a carga de metralha. Agora só faltavam alguns segundos para que o canhão ficasse pronto para disparar. Levantou a espingarda no ar e apertou o gatilho.

— Agora!

Os seus cento e setenta homens começaram a correr, uma corrida em que arrastavam os pés e arrebentavam os pulmões com os sapatos rotos. Cada soldado levava três mosquetes carregados, dois pendurados nos ombros, um nas mãos. Mantinham-se mais ou menos alinhados, se a cavalaria se movimentasse podiam fechar fileiras em segundos e formar a impenetrável parede de baionetas. Os artilheiros franceses ouviram o disparo da espingarda, pararam para observar o inimigo que desatava a correr pesadamente e sorriram zombeteiramente perante a inutilidade dos homens que acreditavam poder carregar contra um canhão de campanha. Então tudo mudou.

Durante os vinte minutos seguintes à visita do capitão de caçadores, os britânicos tinham continuado a recolher os seus feridos. Sharpe estava seguro de que os franceses não tinham notado nada de estranho no fluxo de homens que iam e vinham dos corpos que jaziam abundantemente no local em que ele e Harper tinham salvo a bandeira do regimento. Durante esses vinte minutos Sharpe tinha escondido trinta homens entre os mortos, dez fuzileiros que estavam vestidos com casacas-vermelhas emprestadas e vinte do South Essex. Cada fuzileiro tinha duas espingardas, uma emprestada por um companheiro, e cada casaca-vermelha estava deitado com três mosquetes carregados. Os franceses não tinham percebido isso. Deixaram o armão do canhão e fizeram pontaria, sem se importarem com os corpos dispersos que jaziam a uns cem passos à sua direita. O momento do saque viria depois; primeiro os artilheiros destruiriam os presunçosos ingleses que se dirigiam para eles metade correndo metade a passo.

Harper suava com a casaca emprestada. Era muito pequena para ele e tinha rasgado as costuras de ambas as axilas, mas, mesmo assim, o suor escorria-lhe pelas costas. As casacas vermelhas eram essenciais. Os franceses já tinham se habituado à visão dos mortos e teriam reparado se de repente tivessem aparecido dez corpos com uniformes verdes entre os cadáveres. O maior receio de Harper fora que os franceses tivessem resolvido revistar os corpos para saqueá-los, mas não lhes tinham prestado atenção. Viu que Sharpe vinha entre eles, ainda estavam a cento e cinqüenta jardas e ouviu o tenente Knowles suspirar de alívio quando Sharpe levantou a espingarda no ar. Knowles estava no comando dos trinta homens mas Harper tinha certeza que o inexperiente tenente não faria nada sem falar com ele primeiro e suspeitava que Sharpe dissera a Knowles, que deixasse Harper tomasse as decisões.

O som do disparo regular elevou-se no campo. Aliviado, Harper estendeu os músculos e ajoelhou-se para a frente. “Levem o tempo que for preciso, rapazes, deixem falar os tiros.”

Se fosse rápido, daria cabo do seu propósito. Os fuzileiros apontavam deliberadamente, deixaram os braços desintumescer, os primeiros disparos seriam os mais importantes. Hagman foi o primeiro, Harper esperava que assim fosse, e olhou com aprovação quando o caçador de Cheshire grunhiu sobre a mira e apertou o gatilho. O artilheiro que estava a ponto de introduzir a mecha afastou-se rodopiando do canhão. Durante os dois segundos seguintes outras oito balas mataram mais três franceses da dotação, os quatro sobreviventes correram desesperadamente para a escassa proteção oferecida pela carreta e pelas rodas do canhão. O canhão já não podia ser disparado pois a carga de metralha ainda não estava colocada. Harper via-a junto a um artilheiro morto que tinha caído ao lado da boca de bronze, e qualquer homem que ousasse meter o projétil no canhão seria com toda certeza derrubado pelas espingardas mortais. Os franceses deixaram de usar as espingardas no campo de batalha, tinham-nas abandonado porque eram muito lentas para carregar, mas estes artilheiros estavam aprendendo que até uma espingarda lenta tem as suas vantagens em relação ao rápido mosquete que nunca era preciso a cem pés de distância.

— Alto ao fogo!

Os fuzileiros olharam para Harper.

— Hagman!

— Sargento?

— Mantenha-os ocupados. Gataker, Sim, Harvey!

Os três olhavam para ele na expectativa.

— Carreguem para Hagman. Os outros apontem nos oficiais de cavalaria.

O tenente Knowles e os vinte homens com mosquetes estavam ali para protegerem os fuzileiros se a cavalaria francesa carregasse contra eles, como certamente iria acontecer. Harper olhou fixamente para os cavaleiros. Pareciam tão surpresos como os artilheiros e estavam sentados nos cavalos olhando fixamente para os homens de artilharia mortos, como se não acreditassem nos seus próprios olhos. Tinham esperado que o canhão fizesse saltar a infantaria britânica em pedaços e agora percebiam que não havia canhão, nem vitória fácil. Harper levantou a sua primeira espingarda, pôs a mira em posição vertical e calculou que os cavaleiros estivessem a trezentas jardas, era um tiro comprido para uma espingarda, mas não impossível, e os franceses tinham agrupado convenientemente os seus oficiais veteranos num pequeno grupo à frente da primeira linha. Quando apertou o gatilho ouviu outras espingardas dispararem, viu que o grupo se dividia, e que um cavalo caíra. Dois oficiais tombaram mortos ou feridos. Os franceses permaneciam temporariamente sem comandos. A iniciativa, tal como Sharpe planejara, estava totalmente nas mãos dos britânicos. Harper ficou de pé.

— O grupo de Hagman! Continuem a disparar. Os outros! Sigam-me! — Correu para o canhão, dando uma larga volta de maneira a que o campo de tiro de Hagman não fosse interrompido, e os homens seguiram-no. O plano para os fuzileiros fora destruir os artilheiros e permitir que a companhia de Sharpe capturasse o canhão, mas Harper viu que o seu tenente tinha ainda muito caminho pela frente e nem ele nem Sharpe pensavam que o canhão estivesse tão convenientemente próximo do grupo de emboscada. Knowles ficou surpreendido com a corrida para o canhão, mas o enorme irlandês era tão contagiante que Knowles deu por si a apressar os casacas-vermelhas que escapavam por entre os corpos e corriam para o canhão que cada vez ganhava mais importância. Os artilheiros sobreviventes viram os mortos que tinham regressado à vida e fugiram. Quando Harper percorreu as últimas jardas a toda a velocidade, percebeu que os tiros espaçados de Hagman paravam e que ele estava ali, com as mãos na boca de bronze e os homens à sua volta.

— Tenente?

— Sargento? — Knowles ofegava.

— Duas fileiras entre o canhão e a cavalaria?

Harper fez com que soasse como uma pergunta, mas Knowles assentiu como se tivesse sido uma ordem. O jovem tenente estava freneticamente nervoso. Vira a cavalaria destruir o seu novo batalhão, observara como a bandeira real era confiscada do campo, e lutara contra os sabres com a espada que o pai lhe tinha comprado por quinze guinéus na loja de Kerrigan em Birmingham. Observara como Sharpe e o sargento Harper tinham recuperado a bandeira do regimento e ficara estupefato com aquela ação. Agora queria demonstrar aos fuzileiros que os seus homens sabiam lutar com a mesma eficácia e alinhou o seu pequeno corpo, olhando fixamente para a cavalaria que por fim se movimentava. Parecia que uma centena de cavaleiros avançava para o canhão e os restantes dirigiam-se para Sharpe; Knowles lembrou-se dos sabres e do cheiro do medo e agarrou firmemente a sua espada. Estava decidido a não defraudar Sharpe. Pensou nas últimas palavras que este lhe dissera, nas mãos que lhe tinham agarrado os ombros e nos olhos que o trespassavam. “Espere!” — dissera Sharpe. — “Espere até que estejam a quarenta passos, então lance a descarga. Espere, espere, espere!” Parecia incrível a Knowles que ele e Sharpe tivessem o mesmo posto, estava seguro que ele nunca teria tais dotes de comando que pareciam naturais no fuzileiro alto. Knowles sentia-se intimidado pelos franceses. Eram os conquistadores da Europa, no entanto Sharpe via-os como homens a quem tinha de enganar e superar nos disparos e Knowles queria desesperadamente sentir a mesma confiança. Em vez disso estava nervoso. Queria lançar a sua primeira descarga agora, deter os cavalos franceses enquanto estivessem a uns cem passos, mas controlou o medo e observou como os cavaleiros se aproximavam, reparou que uma centena de sabres chiavam ao sair das bainhas e captavam o sol da tarde em filas curvas de luz. Harper chegou e ficou junto a ele.

— Temos um presente para os canalhas, tenente!

Parecia tão contente! Knowles engoliu a saliva e manteve a espada em baixo. Espere, disse para si mesmo, e surpreendeu-se ao ouvir que tinha falado em voz alta e que a sua voz tinha soado calma. Olhou para os homens. Confiariam nele!

— Muito bem, senhor. Permite-me? — disse Harper em voz baixa. Knowles concordou, sem estar seguro do que estava acontecendo.

— Pelotão!

Harper estava diante da diminuta linha de homens. Fez sinal aos homens da direita.

— Para o lado, quatro passos. Marchar! — Depois deu a mesma ordem para a esquerda. — Pelotão! Para trás, marchar!

Knowles recuou com eles, vendo como os franceses punham os cavalos a trote, e então compreendeu. Enquanto ele tinha olhado para os franceses, os fuzileiros tinham-se movimentado para o canhão. Em vez de apontar para baixo, para o caminho, agora estava apontado para a cavalaria francesa; de alguma maneira o tinham carregado e a carga de metralha que deveria ter varrido os britânicos do caminho, como uma dona de casa afugentando baratas com a vassoura, estava ameaçando a cavalaria. Harper estava na parte de trás do canhão, afastado da roda. Os artilheiros tinham feito a maior parte da carga, os fuzileiros tinham introduzido a carga de metralha no canhão e tinham encontrado a mecha lenta que ardia por um extremo. A espoleta estava no ouvido. Era uma lingüeta cheia de pólvora fina e quando Harper lhe tocasse, o fogo avançaria pelo tubo e acenderia a carga de pólvora que havia na bolsa de sarja.

— Reter fogo!

Harper gritava claramente, não queria que os homens sem experiência do South Essex disparassem ao mesmo tempo que o canhão.

— Reter fogo!

A cavalaria estava a setenta jardas, impelindo os cavalos a meio galope, dez cavaleiros na primeira fila. Harper calculou que houvessem cinqüenta homens no campo de tiro do pequeno grupo à volta do canhão e tinha mais cinqüenta de reserva. Tocou na mecha com a lingüeta. Soou um ruído sibilante, uma bola de fumaça proveniente do ouvido, e então ouviu-se uma enorme explosão. Saiu fumaça branca e acinzentada pela boca; o canhão, sobre as rodas de cinco pés, atirou para trás os seus quinze quintais que cravaram os lados da carreta e fizeram saltar as rodas do chão. A fina lingüeta metálica partiu-se ao sair da boca e Harper viu por entre a fumaça que as balas de mosquete e a metralha derrubavam a cavalaria. As primeiras filas foram destroçadas, as outras estavam aturdidas, eram incapazes de avançar sobre os cadáveres sangrentos e os feridos que cambaleavam, sangrando espantados. Harper ouviu Knowles gritar:

— Reter fogo! Reter fogo!

Bom rapaz, pensou o irlandês. A cavalaria tinha se dividido para ambos os lados da carnificina, parte da reserva aproximava-se a galope, mas os cavaleiros pareciam estonteados pela repentina explosão. Continuaram a avançar para o canhão mas mantiveram-se afastados da sua linha de fogo e Knowles observava as duas alas de cavaleiros que se aproximavam. Esperou, esperou até que meteram esporas nos cavalos e tentaram dar os últimos passos a galope; depois baixou a espada.

— Fogo!

Uma segunda descarga destroçou os cavaleiros que tentavam aproximar-se de ambos os lados do canhão. Caíram mais cavalos, mas os homens atiraram-se das selas num monte de braços, pernas, sabres e bainhas. Os cavaleiros de trás continuaram, deram a volta por trás do canhão e as espingardas iniciaram a sua missão e mais cavalos foram abatidos. Knowles estava surpreso por não ver cavalos em frente ao canhão, fez virar os seus homens, mudou para o terceiro mosquete e atirou uma terceira descarga por cima das cabeças dos fuzileiros ajoelhados.

— Obrigado, tenente!

Harper sorriu. A cavalaria se fora, dispersa pela metralha, ensangüentada pela descarga tão próxima, sem ter podido se acercar da infantaria por causa das barreiras de cavalos mortos e feridos. Harper viu que Knowles mandava os homens carregar os mosquetes. Virou-se para o canhão. Havia tanto a recordar! Limpar com os escovilhão, voltar a encher o ouvido; disse aos fuzileiros que voltassem a carregar o canhão capturado.

 

Sharpe tinha visto o canhão disparar, tinha observado os cavaleiros rasgados como uma ligadura ensangüentada, então voltara-se para os caçadores que atacavam a sua própria formação. Quando a cavalaria tinha se aproximado mandara deter as três filas, ordenara-lhes que se virassem de frente para os franceses, à exceção da última fila que deu meia volta para enfrentar os cavaleiros que cercariam a pequena unidade. Os cavaleiros estavam com um humor selvagem. Tinham lhes arrancado uma vitória fácil, o capitão fora capturado, mas ainda restava a bandeira insolente ondulando sobre o pequeno grupo de infantaria. Esporearam os cavalos em direção a Sharpe, quebrando a disciplina, simplesmente com intenção de vingança e determinação de massacrar aquele corpo diminuto como o tacão de uma bota esmaga um escorpião. Sharpe observou como se aproximavam. Forrest deitou-lhe um olhar nervoso e aclarou a garganta, mas Sharpe balançou a cabeça.

— Espere, Major, aguarde um momento.

Ele e Forrest estavam junto à bandeira provocadora. Era uma armadilha para os franceses. Correram para ela, a trombeta tocou a sua carga gelada, os caçadores clamavam vingança, levantaram os sabres e morreram.

Sharpe deixara que se aproximassem até quarenta jardas e a descarga destroçou a primeira linha em frente aos britânicos. A segunda linha de cavaleiros franceses meteu esporas aos cavalos. Estavam confiantes. Acaso os britânicos não tinha disparado já a sua carga? Saltaram por cima dos restos angustiados da primeira fila e viram com horror que as fileiras de casacas-vermelhas não estavam ocupadas recarregando mas sim apontando tranquilamente os mosquetes. Alguns puxaram desesperadamente as rédeas, mas era já tarde demais. A descarga do segundo grupo de mosquetes de Sharpe amontoou os cavalos junto aos cadáveres da primeira linha.

— Troquem de mosquetes!

A última fila disparou, uma, duas vezes. Sharpe virou-se mas os sargentos experientes tinham-no feito bem. Os seus homens estavam rodeados de cavalos, mortos e agonizantes, caçadores estonteados e feridos que lutavam entre o caos e fugiam para a ampla extensão de terreno. Os franceses tinham perdido toda a coesão, toda a possibilidade de voltar a atacar.

— Virar à esquerda! Em frente!

Continuou a correr. Via Harper e Knowles. O jovem tenente parecia tranqüilo e Sharpe viu o anel de franceses mortos que demonstrava que tinha aprendido a reter o fogo. O canhão voltou a disparar, envolvendo o grupo em fumaça, e Sharpe olhou para trás para ver que mais cavaleiros caíam onde estavam formando fileiras à sua direita. Alguns cavaleiros ainda cavalgavam à sua volta; Sharpe deteve-se e lançou uma descarga de vinte mosquetes para afastar um grupo de seis caçadores que avançavam a galope pelo flanco. Então os seus homens chegaram ao canhão. Sharpe agarrou Harper, deu-lhe umas palmadas nas costas, sorriu abertamente para o enorme irlandês e virou-se para felicitar Knowles. Tinham conseguido! Tinham capturado o canhão, tinham afastado a cavalaria, tinham causado danos terríveis aos homens e aos cavalos, e sem terem sofrido um só arranhão.

E era tudo. com o canhão nas mãos, Sharpe sabia que os franceses não se atreveriam a voltar a atacar. Viu que davam voltas bem afastados do campo de tiro, enquanto os britânicos formavam em quadrado. Forrest estava radiante, procurando a todos como um bispo que tivesse celebrado uma confirmação particularmente agradável.

— Conseguimos, Sharpe! Conseguimos!

Sharpe ergueu os olhos para a bandeira que ondulava sobre o pequeno quadrado. A honra tinha sido recuperada em parte, não o suficiente, mas em parte. Tinha sido capturado um canhão francês, os caçadores estavam maltratados, alguns do South Essex tinham aprendido a lutar. Mas não era tudo. Havia cordas atadas à carreta do canhão capturado. Compridas e resistentes cordas francesas que podiam ser esticada por cima da ponte destruída em vez de subir por vertentes íngremes. Cordas e tábuas, tudo o que necessitava para começar a fazer os feridos atravessarem o rio.

 

Na ponte Lennox viu que um oficial caçador se aproximava a cavalo do quadrado britânico. Agora era muito tarde para voltar a negociar. Tinha frio e estava intumescido, a dor desaparecera e sabia que não duraria muito. Agarrou a espada, uma recordação atávica qualquer disse-lhe que era o seu salvo-conduto para o outro mundo; talvez onde o esperasse a mulher. Sentia-se satisfeito, cansado mas satisfeito. Tinha visto Sharpe avançar como um suicida, perguntando-se o que estaria fazendo, então ouvira o som característico das espingardas, vira figuras correndo para o canhão e observara como a cavalaria francesa era derrubada pela descarga massiva da infantaria. Agora já tinha terminado. Os franceses recolheriam os seus feridos e iriam embora e Sharpe voltaria para a ponte. E cumpriria a sua promessa, Lennox já sabia; o homem que podia planejar a captura daquele canhão teria ânimo para fazer o que Lennox queria. Assim aquele dia não o entristeceria. A imagem da bandeira, afastando-se do campo envolto em fumaça, obscureceu os olhos do escocês. O sol aquecia e ao mesmo tempo fazia muito frio. Agarrou a espada e fechou os olhos.