A Águia de Sharpe

Bernard Cornwell · Capítulo 22 de 29

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A Águia de Sharpe

Capítulo XX

 

A bala de mosquete perdida zumbiu por cima da cabeça de Sharpe; os ruídos da batalha eram mais débeis agora que estava por baixo do cume e a única luz provinha dos reflexos macabros das fogueiras isoladas por baixo da fumaça da batalha que se elevava do planalto de Medellín.

— Sharpe! — Berry continuava a balbuciar. Deitou-se de costas e tentou subir, arrastando-se para o alto da colina, afastando-se do alto e escuro vulto do fuzileiro.

— Não deveríamos ir, Sharpe, e os franceses? Estão na colina.

— Eu sei. Matei pelo menos dois — disse Sharpe sustendo a espada contra o peito de Berry e detendo o seu esbracejar. — Voltarei para matar mais alguns.

Berry calou-se ao ouvir falar em morte. Sharpe reparou que ele o olhava fixamente mas estava muito escuro para adivinhar a expressão do seu rosto. Sharpe teve de imaginar os lábios úmidos, o rosto rechonchudo, o olhar temeroso.

— O que fez a Josefina, Berry?

O tenente ficou calado. Sharpe viu a espada fina que deixara cair na erva; o homem não lutava, não tinha intenção de resistir, tinha apenas a patética esperança de que Sharpe se acalmasse.

— O que fez, Berry?

Sharpe aproximou-se e a lâmina tremeu junto à garganta de Berry. Sharpe viu que o rosto se voltava de um lado para o outro, ouvia a respiração presa na garganta do tenente.

— Nada, Sharpe, juro, nada.

Sharpe sacudiu o pulso de modo a que a lâmina lhe tocasse no queixo. A folha estava afiada e ouviu o arquejo.

— Deixe-me ir embora. Por favor! Deixe-me ir embora!

— O que fez?

Sharpe ouviu o som característico das espingardas disparando à sua direita. O estalido envolvente dos mosquetes que se ouvia à esquerda e supôs que a coluna francesa tinha enviado os seus atiradores pelos flancos para dissipar os grupos dispersos que ainda ofereciam resistência. Não tinha muito tempo; queria estar com os seus homens e ver o que se estava acontecendo em cima da colina mas primeiro queria que Berry sofresse tanto quanto Josefina havia sofrido, que sentisse o mesmo medo que ela tinha sentido.

— Josefina suplicou? — A voz dele parecia o vento noturno do mar do Norte. — Pediu-lhe que não lhe fizesse mal?

Berry continuou calado. Sharpe voltou a pegar a espada.

— Pediu?

— Sim — respondeu num sussurro.

— Estava assustada? — perguntou colocando a ponta sobre a carne do pescoço de Berry.

— Sim, sim, sim.

— E mesmo assim a violou?

Berry estava aterrorizado demais para falar. Emitia ruídos incoerentes, balançava a cabeça, olhava fixamente a lâmina que surgia da figura escura e vingativa por cima dele. Sharpe sentia o cheiro penetrante da fumaça dos mosquetes na colina. Tinha de se apressar.

— Está me ouvindo, Berry?

— Sim, Sharpe, estou ouvindo-o.

Percebia-se na voz de Berry um mínimo indício de esperança. Sharpe cortou-o.

— Vou matá-lo. Quero que saiba que está tão aterrorizado como ela estava. Compreende?

O homem voltou a balbuciar, a suplicar, a balançar a cabeça, deixou cair a espada e juntou as mãos como se rogasse a Sharpe. O fuzileiro olhou para baixo. Lembrou-se de uma frase estranha que uma vez ouvira num ato religioso numa campanha longínqua, na Índia. Aparecera um capelão que ficara com a sobrepeliz branca na praça de armas e de entre todos o murmúrios sem sentido, uma frase, tinha ficado na cabeça, uma frase do Livro de Orações que agora lhe voltava à mente ao perguntar-se se realmente poderia matar um homem por ter violado uma mulher. “Liberta a minha alma da espada, a minha amada do poder do cão.”

Sharpe tinha pensado em deixar o homem se levantar, pegar a espada e lutar pela vida. Mas pensou no terror da jovem, deixou que a imagem do seu sangue nos lençóis alimentasse a sua cólera uma vez mais, viu o rosto carnudo murmurar por baixo dele e, como se estivesse cansado ou apenas quisesse repousar, apoiou-se com ambas as mãos no cabo da espada.

O murmúrio transformou-se quase num guincho, o corpo estremeceu uma vez mais, a espada trespassou a pele e o músculo grosso até à garganta de Berry e o tenente morreu. Sharpe deteve-se sobre a espada. Era um crime, sabia, um pecado capital e, no entanto, não se sentia culpado.

O que o preocupava era saber que devia se sentir culpado quando não se sentia.

Tinha vingado a jovem matando o cão. Tinha as mãos úmidas ao arrancar a espada, sabia que tinha cortado a jugular de Berry. Devia parecer-se com alguém de um matadouro mas sentia-se melhor e sorriu na escuridão ao deixar-se cair sobre um joelho e rebuscar rapidamente com as mãos os bolsos de Berry. A vingança, pensou, assentava-lhe bem e sacou do morto algumas moedas e meteu-as nos bolsos. Afastou-se do corpo caminhando em direção aos sons das espingardas, caminhando lentamente para o alto da colina, onde os fogos cuspiam balas em direção aos franceses, e afundou-se junto a Harper. O sargento olhou para ele, depois voltou-se para o alto da colina e apertou o gatilho. Saiu fumaça da caçoleta, vomitado pelo cano da espingarda, e Sharpe viu um voltigeur cair para trás numa fogueira. Harper sorriu satisfeito.

— Esse sujeito estava me aborrecendo. Estava andado por aqui aos saltos como se fosse um pequeno Napoleão.

Sharpe olhou fixamente para o alto da colina. Parecia-se com as pinturas do inferno que tinha visto nas igrejas espanholas e portuguesas. A fumaça girava vermelha em retalhos estranhos pela colina, densa no local em que a coluna abria caminho por entre as fogueiras que demarcavam as linhas britânicas, e débil onde pequenos grupos lutavam contra os atiradores que tentavam desalojá-los de lá de cima. Centenas de pequenos fogos iluminavam a batalha, os mosquetes bombeavam fumaça e chamas na noite, tudo isso acompanhado pelos gritos dos franceses e pelos lamentos dos feridos. Os fuzileiros tinham massacrado os atiradores franceses. Harper os alinhara nas sombras do alto do monte e eles tinham matado uma a uma as figuras azuis que corriam por entre as fogueiras, muito antes dos franceses estarem suficientemente perto para usarem os seus mosquetes com precisão. Sharpe puxou a espingarda e pegou um cartucho.

— Algum problema?

Harper balançou a cabeça e sorriu.

— Exercício de tiro.

— E o resto da companhia?

O sargento lançou a cabeça para trás.

— A maior parte está lá embaixo com o senhor Knowles, Capitão. Disse-lhe que não precisava deles aqui.

Por um segundo Sharpe perguntou a si mesmo se alguém teria visto como tinha matado Berry, mas afastou da cabeça esse pensamento. Confiava no seu instinto, o instinto que o advertira da presença do inimigo e, naquela noite, cada homem tinha sido seu inimigo até Berry ter morrido. Ninguém o tinha visto. Harper resmungou enquanto metia outra bala na espingarda.

— O que aconteceu, senhor?

Sharpe sorriu como uma raposa e não disse nada. Estava revivendo o instante da morte de Berry, sentindo a satisfação, o alívio da dor e do sofrimento de Josefina. Quem havia dito que a vingança era dura e inútil? Estavam enganados. Preparou o rifle, levantou-o e o fez deslizar para frente, mas não havia nenhum voltigeur à vista. A batalha tinha mudado para a esquerda onde relampejava e troava na escuridão.

— Senhor?

Virou-se e olhou para o sargento. Explicou-lhe, simples e brevemente, o que tinha acontecido e observou o enorme rosto do irlandês ficar cheio de raiva.

— Como ela está?

— Perdeu muito sangue — respondeu Sharpe balançando a cabeça. – Eles bateram nela.

O sargento procurou o chão à sua frente, examinou cuidadosamente o fogo e as sombras corcovadas, os fogos distantes dos mosquetes que tanto podiam ser franceses como ingleses. Quando falou, a voz era suave.

— E o que vai fazer com os dois?

— O tenente Berry morreu esta noite na batalha.

Harper virou-se e olhou para o capitão, para a espada vermelha que estava junto dele e sorriu calmamente.

— E o outro?

— Amanhã.

Harper concordou e voltou à batalha. Os franceses haviam sido retidos a julgar pela posição dos fogos dos mosquetes, como se ao avançar para as linhas tivessem encontrado uma resistência, que afinal não podiam vencer. Sharpe perscrutou a escuridão, para a direita. Os franceses deviam ter enviado mais tropas mas não havia sinais delas. No terreno em frente deles não se distinguia qualquer movimento. Deu meia volta.

— Tenente Knowles!

— Capitão!

A voz provinha da escuridão mas precedia o rosto ansioso de Knowles que subia a encosta.

— Senhor! Está bem, senhor?

— Como peixe na água, tenente.

Knowles não compreendia porque Sharpe parecia tão contente. Tinham corrido rumores pela companhia pois Harper e os fuzileiros tinham voltado sem o capitão.

— Diga aos homens que preparem as baionetas e subam até aqui. Já está na hora de nos juntarmos.

— Sim, Capitão — respondeu Knowles sorrindo.

— De quantos homens dispomos?

— Vinte, meu Capitão, sem contar com os fuzileiros.

— Bom! Ao trabalho.

Sharpe pôs-se de pé e caminhou para o alto da colina. Fez um sinal com a mão aos fuzileiros para que avançassem e esperou que Knowles e o seu grupo subissem até à luz. Sharpe fez sinais para a direita e à esquerda com a espada.

— Ordem de escaramuça! Avancem lentamente. Não queremos enfrentar a coluna, mas eliminaremos os atiradores.

As baionetas brilhavam vermelhas à luz encarnada do fogo, a linha avançava firmemente, mas os atiradores inimigos tinham desaparecido. Sharpe conduziu-os até umas cem jardas da coluna inimiga e fez-lhes um sinal com a mão para que se acocorassem. Não podiam fazer outra coisa além de observar a demonstração da infantaria britânica. Os franceses tinham aberto caminho quase até ao extremo da colina mas haviam sido detidos por um batalhão que Sharpe pensou ter subido desde a base da colina e que agora se estendia diante dos franceses como uma barreira intransponível. O batalhão formava linha e disparava em controladas descargas de pelotão. Era soberbo. A infantaria nunca poderia resistir aos melhores britânicos e o batalhão destroçava a coluna com os mosquetes que retumbavam acima e abaixo da linha do batalhão, as baquetas faiscando em uníssono, os pelotões disparando em série, num irresistível martelar de disparos de fogo de mosquete que se espalhava na tropa compacta dos franceses. O inimigo fraquejava. Cada descarga dizimava as tropas da frente da coluna. Os homens da retaguarda da coluna não se adiantariam por aquela chuva de chumbo que fluía metódica e mortalmente dos mosquetes britânicos. Grupos de franceses, vestidos com a casaca azul, começaram a fundir-se na escuridão, um oficial britânico a cavalo viu e levantou a espada, a tropa vermelha aplaudiu e adiantou-se, apontando com as baionetas e, tão de repente como começara, a batalha terminou. Os franceses retrocederam, espezinhando os mortos, retirando-se cada vez mais rapidamente das espadas que os alcançavam. O inimigo portara-se bem. Uma única coluna tinha tomado a colina, mesmo sem as outras colunas terem chegado, mas agora o coronel francês tinha de voltar, tinha de retirar os seus homens do fogo dos mosquetes que os esmagava. Quando atingiam a linha de atiradores, alguns dos fuzileiros de Sharpe levantaram as armas mas ele ordenou-lhes que os deixassem ir. No dia seguinte haveria carnificina suficiente.

Sharpe abaixou-se junto à fogueira e limpou o sangue colado à espada na casaca de um francês morto. Era hora de recolher os mortos e contar os vivos. Queria que Gibbons se preocupasse com Berry, que tivesse medo na noite e, de novo, sentiu a excitação do golpe mortal. Ouviram-se os sinos da cidade baterem meia-noite e pensou por breves momentos na garota deitada à luz das velas, perguntando a si mesmo se pensaria nele. Harper acocorou-se junto a ele, com o rosto negro do fumaça da pólvora, e estendeu-lhe uma garrafa.

— Beba um pouco para dormir, Capitão. Bem precisa — disse, a sorrir. — Amanhã teremos de cumprir uma promessa.

Sharpe ergueu a garrafa para o sargento como se brindasse.

— Uma promessa e meia, sargento. Uma promessa e meia.