A Águia de Sharpe

Bernard Cornwell · Capítulo 28 de 29

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A Águia de Sharpe

Epílogo

 

O vinho dos copos de vidro tinha uma cor vermelho-escuro, a brilhante mesa maciça polida resplandecia sob a luz de uma vintena de velas em candelabros de prata, os quadros, cujo antigo verniz refletia o círculo de luz, mostravam graves e eminentes antepassados da família espanhola em cujo palácio de Talavera Sir Arthur Wellesley era o anfitrião do jantar. Até mesmo a comida era adequada a ocasião. Na semana posterior à batalha a situação do abastecimento tinha piorado, os espanhóis não haviam cumprido as suas promessas e as tropas só recebiam metade das escassas rações. Wellesley, como correspondia a um general, tinha recebido todo o possível e Sharpe tinha bebido um caldo de galinha ligeiramente aguado, desfrutara de uma lebre estufada. Comera com gosto o carneiro favorito de Wellesley e agora ouvia os outros convidados queixando-se da dieta enquanto bebiam intermináveis garrafas de vinho. Daddy Hill estava ali, corado e feliz, sorrindo continuamente para Sharpe, balançando a cabeça e dizendo “Bendito Sharpe, uma águia”. Robert Crawford estava sentado em frente do fuzileiro; Black Bob, que Sharpe não tinha visto desde a retirada para a Corunha.

Crawford tinha perdido a batalha de Talavera por um dia, apesar de ter feito marchar a sua excelente Companhia Ligeira quarenta e duas milhas em vinte e seis horas para ir encontrar-se com Wellesley. Entre as tropas que tinha trazido de Inglaterra estava o Batalhão de Fuzileiros do 95º que tinha recebido Sharpe com grande algazarra para celebrar a façanha. Tinham feito mais do que isso. Tinham-lhe oferecido uma farda nova e ele estava sentado à mesa com Wellesley, resplandecente e vestido de elegante verde, couro preto e adornos prateados. Guardara o uniforme velho. No dia seguinte, quando o exército se pusesse de novo em andamento, preferia vestir a farda de cavalaria manchada de sangue e as confortáveis botas francesas do que aquele imaculado uniforme e o frágil calçado.

Black Bob Crawford estava em forma. Era a pessoa mais disciplinada do exército, um tirano de cólera excessiva, amado e odiado pelas suas tropas.

Poucos generais exigiam mais dos seus homens, ou recebiam mais dele, e se as suas exigências se apoiavam em castigos selvagens, pelo menos os homens sabiam que a justiça de Crawford era imparcial. Sharpe recordava-se de uma vez que Crawford apanhara um oficial da companhia atravessando um ribeiro gelado nas montanhas do Norte nas costas de um homem.

— Deixe-o cair! Deixe-o cair! — gritara o general da segurança do seu cavalo ao surpreso soldado e para deleite da tropa martirizada, o oficial foi atirado à água sem qualquer cerimônia.

Agora Crawford fixava Sharpe com olhos cínicos e batia na mesa fazendo estremecer o serviço de prata.

— Teve sorte, Sharpe, teve sorte!

— Sim, meu General.

— Não me chame de “meu General”.

Sharpe viu Wellesley olhando para ele divertido. Crawford estendeu uma garrafa de vinho a Sharpe.

— Perdeu metade da sua maldita companhia! Se não tivesse voltado com a águia merecia ser rebaixado a soldado outra vez. Tenho ou não tenho razão?

— Sim, General — respondeu Sharpe inclinando a cabeça. Crawford riu satisfeito e ergueu o copo para o fuzileiro.

— Mas, de qualquer modo, esteve muito bem.

Ouviram-se gargalhadas à mesa. Lawford, enfeitado com rendas e prata fora promovido, pelo menos temporariamente, a comandante do South Essex. Inclinou-se e pôs mais duas garrafas abertas em cima da mesa.

— Como está o excelente sargento Harper?

— Se recuperando — Sharpe respondeu sorrindo.

— A ferida foi grave? — perguntou Hill, inclinando-se para a luz das velas com a sua cara redonda de fazendeiro cheia de preocupação.

— Não, senhor. O pessoal da messe de sargentos do primeiro batalhão quis comemorar com ele. Creio que propôs a teoria de que um homem de Donegal conseguia beber tanto como três ingleses.

Hogan deu um soco na mesa. O engenheiro irlandês estava alegremente bêbado e ergueu o copo em direção a Wellesley.

— A nós, irlandeses, nunca ninguém nos derrota. Não é, meu General?

Wellesley franziu a testa. Tinha bebido menos que Sharpe.

— Eu não me considero irlandês, capitão Hogan, apesar de partilhar essa característica com eles.

— Caramba, senhor — grunhiu Crawford. — Eu o ouvi dizer que por um homem ter nascido num estábulo, isso não o converte em cavalo!

Ouviram-se mais gargalhadas. Sharpe recostou-se e ouviu a conversa à volta da mesa e deixou que a comida lhe descansasse pesadamente no estômago. Os criados traziam brandy e cigarros, o que significava que o serão em breve iria acabar, mas ele estava aproveitando-o bem. Não gostava muito das refeições oficiais; não tinha nascido para aquilo, tinha estado em poucas, mas aqueles homens o tinham feito se sentir em casa e tinham fingido não perceber que ele esperava que pegassem primeiro os talheres para saber qual deveria usar para em cada prato. Explicara uma vez mais a história de como ele e Patrick Harper tinham sido arrastados pelos fugitivos antes de abrirem caminho a golpes de espada e de machado.

Bebeu o vinho, remexeu os pés dentro dos sapatos novos e pensou de novo na sua sorte. Vinha-lhe à memória o desânimo da batalha anterior, o desgosto pelas promessas que não iria conseguir cumprir; no entanto tudo tinha corrido bem. Talvez fosse mesmo afortunado, como diziam os seus homens, mas gostaria de saber como conservar a sua sorte. Lembrava-se do corpo caído de Gibbons, com a baioneta bem espetada nas costas, e da visão de Harper que voltara precisamente a tempo de deter a descida do sabre sobre si. No dia seguinte, tinham queimado todas as provas do crime. Os mortos, com Gibbons entre eles, tinham sido amontoados nus em pilhas e os vivos tinham colocado pedaços de lenha entre os corpos e ateado fogo. Eram demais para serem enterrados; alimentaram a fogueira com madeira durante dois dias e o cheiro pairou sobre a cidade até que as cinzas se espalharam pelos vales do Portina, os únicos vestígios da batalha eram os restos do equipamento que ninguém se preocupou em recolher e a erva queimada onde as chamas tinham queimado os feridos.

— Sharpe?

Sobressaltou-se. Alguém tinha chamado por ele e não tinha ouvido o que estavam dizendo.

— Senhor, desculpe-me.

Wellesley sorria para ele.

— O capitão Hogan estava dizendo que o senhor está melhorando as relações anglo-portuguesas.

Sharpe lançou um olhar a Hogan que arqueou as sobrancelhas malicioso. O irlandês estivera durante toda a semana muito alegre em relação a Josefina, e Sharpe, com três generais a observá-lo, não teve outro remédio senão sorrir e encolher os ombros modestamente.

— A sorte está do lado dos valentes, não é, Sharpe? — disse Hill sorridente.

— Sim, senhor.

Encostou-se e deixou que a conversa fluísse. Estava sentindo falta dela. Só tinham se passado duas semanas desde a noite em que tinha ido do pátio da pousada para a escuridão junto ao riacho e desde esse momento passara apenas cinco noites com ela. E agora já não haveria mais nenhuma. Compreendera isso quando chegaram a Talavera, na manhã seguinte à batalha e ela o beijara e lhe sorrira enquanto atrás dela Agostinho enchia os alforjes e dobrava os vestidos que ele não tinha tido tempo de vê-la vestida. Tinha andado pelo braço dele pela cidade, olhando para o seu rosto como se fosse uma criança.

— Não teria durado, Richard.

— Eu sei — dissera, apesar de não pensar assim.

— Verdade?

Ela queria que ele lhe dissesse adeus sem dificuldade e era o mínimo que podia fazer. Explicou-lhe o caso de Gibbons; o último olhar antes que a baioneta a vingasse. Ela apertou-lhe o braço.

— Lamento, Richard.

— Por Gibbons?

— Não. Que tivesse de fazer isso. A culpa foi minha, fui uma tola.

— Não.

Era estranho, pensava ele, quando os amantes se despedem e culpam a si mesmos.

— A culpa não foi sua. Prometi que a protegeria e não o fiz. — Caminharam até um pequeno largo banhado pelo sol e pararam para olhar para o convento que constituía um dos lados da praça. Havia mil e quinhentos feridos no edifício e os cirurgiões do exército estavam no primeiro andar. Ouviam-se nitidamente os gritos através das janelas e, com eles, o fluxo macabro dos membros amputados que eram empilhados junto a uma árvore; um monte cada vez maior de braços e pernas, vigiados por dois soldados cuja missão era afugentar os cães famintos da carne mutilada. Sharpe estremeceu ao ver aquilo e rezou a oração dos soldados: que se livrasse dos cirurgiões com as suas serras e dos dentes delas secos de sangue. Josefina pegara-lhe no cotovelo e afastara-o do convento.

— Tenho um presente para você.

— Eu não tenho nada para você — dissera-lhe ele, baixando os olhos. Ela parecia embaraçada.

— Você deve vinte guinéus ao senhor Hogan?

— Você não vai me dar dinheiro! — exclamou ele mostrando a sua fúria. Josefina balançou a cabeça.

— Já o paguei! Não se aborreça!

Ele tinha tentado afastar-se, mas ela agarrou-o.

— Não pode fazer nada, Richard. Já o paguei. Você me levou a crer que tinha dinheiro que chegasse mas eu sabia que o pedia emprestado.

Ela deu-lhe um papelzinho enrolado sem olhar de frente para ele porque sabia que ele estava perturbado.

Dentro do papel havia um anel de prata com uma águia gravada. Não era a águia francesa com o raio, mas de qualquer maneira era uma águia. Ela levantou a vista para olhar para ele, entristecida por ver a sua expressão.

— Comprei-a em Oropesa. Para você.

Sharpe não soubera o que dizer. Agradecera-lhe tartamudeando e agora, sentado com os generais, fez com que os dedos apalpassem o anel de prata.

Tinham voltado para casa e havia um oficial de cavalaria com dois cavalos a esperá-los na porta.

— É ele?

— Sim.

— E é rico?

— Muito — confessara ela sorrindo. — É um homem bom, Richard. Devia gostar dele.

— Duvido — respondera Sharpe rindo.

Gostaria de lhe dizer o pouco que lhe tinha agradado Claud Hardy, com o seu estúpido nome sonoro, o rico uniforme e os seus puros-sangues. O dragão observava-os quando ela levantava os olhos para Sharpe.

— Não posso ficar com o exército, Richard.

— Então vai voltar para Lisboa?

Ela confirmou.

— Não vamos para Madrid, não é?

Ele negou com a cabeça.

— Bom, tem que ser para Lisboa.

Ela sorriu.

— Tem uma casa em Belém; é grande. Lamento.

— Não lamente.

— Não posso ir atrás do exército, Richard. — Estava pedindo que a compreendesse.

— Eu sei. Mas os exércitos vão atrás de você, não é verdade?

Era uma desastrosa tentativa de lhe fazer um galanteio e ela teria gostado mas, naquele momento, estava na hora de se separarem e ele queria que ela ficasse. Não sabia o que dizer.

— Josefina. Lamento.

Ela tocou-o no braço e nos seus olhos brilharam-lhe algumas lágrimas. Pigarreou e esforçou-se por parecer contente.

— Um dia, Richard, você se apaixonará pela mulher certa. Promete-me?

Sharpe não a viu partir com o dragão porque se voltou para se juntar à companhia entre a pestilência dos mortos do campo de batalha.

— Os capitães não deviam se casar — disse Crawford batendo na mesa e Sharpe sobressaltou-se. — Não é verdade?

Sharpe não respondeu. Pensava que Crawford tinha razão e decidiu, de novo, apagar Josefina da memória. Ela ia a caminho de Lisboa, para a grande casa, viver com um homem que ia se juntar à guarnição de Lisboa, manter uma vida de bailes e diplomacia. Ao diabo tudo aquilo. Bebeu o vinho, pegou a garrafa e limitou-se a ouvir a conversa que era tão triste como os seus pensamentos. Estavam falando dos mil e quinhentos feridos do convento que tinham de deixar ao cuidado dos espanhóis. Hill olhava para Wellesley com preocupação.

— Será que Cuesta vai tratar deles?

— Gostaria de poder dizer que sim — Wellesley bebeu um gole de vinho. — Os espanhóis faltaram com todas as promessas. Não é fácil deixar os nossos feridos aos cuidado deles, mas não temos outra alternativa, cavalheiros, não há outra alternativa.

Hill balançou a cabeça.

— A retirada não será bem recebida na Inglaterra.

— Maldita Inglaterra! — exclamou Wellesley asperamente com os olhos cheios de raiva. — Eu sei o que a Inglaterra vai dizer; que mais uma vez nos correram da Espanha, e é assim, cavalheiros!

Recostou-se na cadeira e Sharpe notou-lhe o cansaço no rosto. Os outros oficiais permaneciam em silêncio, ouvindo atentamente, e, tal como Sharpe, reparavam no rosto de Wellesley na dificuldade da decisão que este tinha tomado.

— Mas desta vez — disse o general passando o dedo pela borda do copo de vinho de forma a que se ouvisse —, mas desta vez os nossos aliados nos correram, não os franceses — deixou que o sarcasmo abafasse as palavras.

— Um exército faminto, cavalheiros, é pior do que não ter exército. Se os nossos aliados não podem nos alimentar temos que ir até onde possamos nos alimentar, e depois regressaremos com as nossas condições e não com as dos espanhóis.

Ouviram-se na mesa murmúrios de aprovação. Wellesley bebeu outro gole de vinho.

— Os espanhóis falharam em tudo. Prometeram comida e não nos forneceram nada. Prometeram que nos protegeriam ao norte do exército de Soult e agora dou-me conta de que não foi assim. Soult, meus senhores, está atrás de nós e, a não ser que nos movimentemos agora, acabaremos por ser um exército faminto, pura e simplesmente porque acreditamos no general Cuesta e nas suas promessas. — Wellesley balançou a cabeça.

— Já sei o que vai acontecer. Vai insistir em avançar para enfrentar os franceses, eles o vencerão, e a cidade ficará abandonada ao inimigo. — Encolheu os ombros. — Estou convencido, cavalheiros, que vão tratar os nossos feridos melhor do que os nossos aliados.

Fez-se silêncio à volta da mesa. As velas estremeciam refletindo o seu brilho sobre a madeira envernizada. De um lugar distante chegava o som de música mas desvanecia-se com a brisa por trás das pesadas cortinas. E o que aconteceria com Josefina? Sharpe encheu um copo de vinho e passou a garrafa a Hill. Se Wellesley tivesse razão, e tinha, em questão de dias os franceses seriam donos de Talavera e o exército britânico estaria a caminho de Portugal e provavelmente em Lisboa. Sharpe sabia que ainda gostava dela e interrogava-se sobre o que aconteceria se os agitados caminhos da guerra voltassem a reuni-los.

Uma pancada na porta interrompeu-lhe os pensamentos e viu entrar um capitão do estado-maior que entregou um papel selado a Wellesley.

Os oficiais conversavam, inventando outros temas de modo a que Wellesley pudesse abrir o papel e falar em particular com o capitão. Hill falava com Sharpe sobre o teatro Drury Lane. Sabia que tinha queimado em Fevereiro? Sharpe balançou a cabeça e sorriu, respondendo de forma adequada, mas olhava à volta da mesa, para os outros generais, para os aristocratas, e pensou nos orfanatos e nas prisões que conhecera desde pequeno. Recordava o pestilento quartel onde os homens partilhavam o catre, as sovas, a luta sem princípios apenas para continuar vivo. E agora aquilo? As velas dançavam no ar, vinho fino e intenso, e perguntava-se até onde os levaria o caminho que tinham que tomar no dia seguinte pelo frio amanhecer. Se Bonaparte tivesse de ser vencido a marcha do dia seguinte poderia durar anos até terminar às portas de Paris. O capitão saiu e Wellesley deu algumas pancadas na mesa. As conversas foram interrompidas e olharam para o general de nariz adunco que mostrou no ar o papel.

— Os austríacos assinaram a paz com Bonaparte — esperou que as exclamações acabassem. — com efeito, meus senhores, estamos sós. Podemos esperar mais tropas francesas, talvez Napoleão em pessoa, e até mais inimigos em casa.

Sharpe pensou em Simmerson, já de volta a casa, planejando conspirar contra Wellesley e contra o exército britânico no Parlamento e nos salões cheios de fumo de Londres.

— Mas, cavalheiros, derrotamos três marechais este ano, então deixemos que venham mais!

Os oficiais deram pancadas na mesa e ergueram os copos. Na cidade um relógio bateu oito horas e, de repente, Sir Arthur Wellesley pôs-se de pé e ergueu o copo.

— Vejo que os charutos estão aqui e que o serão já vai longo. Amanhã partimos cedo, meus senhores, portanto, pelo rei!

Sharpe empurrou a cadeira para trás, pegou no copo e juntou-se ao brinde.

— Pelo rei, Deus o abençoe!

Estava de novo sentado, esperando com prazer o brandy e um dos charutos do general, quando percebeu que Wellesley ainda estava de pé. Pôs-se de pé, amaldiçoando a sua falta de educação e esperando que os outros não tivessem reparado que estava corado. Wellesley estava à espera dele.

— Lembro-me de outra batalha, cavalheiros, que quase iguala em carnificina a nossa vitória recente. Depois de Assaye tive de agradecer a um jovem sargento; hoje brindo ao mesmo homem, agora capitão.

Levantou o copo em direção a Sharpe que estava cheio de vergonha. Viu os oficiais sorrindo para ele, erguendo-lhe os copos, e baixou os olhos para a águia de prata. Teria gostado que Josefina o visse naquele momento, que pudesse ouvir o brinde de Wellesley. Ele quase não o ouviu.

— Cavalheiros. Pela águia do império!