A Águia de Sharpe
Capítulo XVI
S enhor! Senhor!
Denny corria para ele, arrastando a espada, com o rosto escorrendo suor.
— O que descobriu?
— O coronel está no castelo, senhor. Creio que está com o general. Encontrei o capitão Leroy e o comandante Forrest. O capitão Leroy disse que esperasse por ele.
Sharpe viu, por cima do ombro de Denny, que Leroy saía a cavalo das inclinadas ruas que levavam ao castelo. Graças a Deus, o americano não tinha pressa. Trazia o cavalo a passo como se não tivesse qualquer urgência; se os homens do depósito de madeira percebessem pânico ou preocupação entre os oficiais, acreditariam que estavam ganhando e se obstinariam ainda mais.
O cavalo de Leroy fez as últimas jardas quase passeando. O americano cumprimentou Sharpe com a cabeça, tirou as mãos das rédeas e acendeu um charuto preto.
— Sharpe!
Sharpe sorriu.
— Leroy.
Leroy desceu do cavalo e olhou para Denny.
— Sabe montar, rapaz?
— Claro, Capitão.
— Bem, pois então suba neste cavalo e mantenha-se calado. Aqui est.
Leroy fez escada com as mãos e ajudou o rapaz a subir para a sela.
— Espere-nos com a companhia — disse Sharpe.
Denny foi embora a cavalo. Leroy voltou-se para Sharpe.
— Há um pânico tremendo lá em cima. Simmerson está negro de raiva e pede a artilharia aos gritos, Daddy Hill, disse-lhe que se acalmasse.
— Você estava lá em cima?
Leroy assentiu.
— Encontrei Sterritt. Vai ter um ataque, crê que tudo isto é por culpa dele, porque é o oficial de dia. Simmerson grita que é um motim. O que está acontecendo?
Continuaram a andar para o depósito de madeira. Sharpe recusou um charuto.
— Dizem que não vão formar. Mas na realidade ninguém ordenou que formassem ainda. Os meus rapazes fizeram-no sem problemas. Tal como estou vejo, temos de tirar os outros rapidamente.
Leroy lançou um fino fio de fumo para o ar.
— Simmerson já mandou buscar a cavalaria.
— O quê?
— Daddy Hill não tinha alternativa, não é? Chega um coronel e diz-lhe que as tropas se amotinaram. Assim, o general envia a LAR. No entanto ainda vão demorar; nem sequer tinham montado.
A Legião Alemã do Rei. Era a melhor cavalaria do exército de Wellesley; rápidos, eficientes, corajosos, e uma boa escolha para acabar com um motim. Sharpe não ousava pensar nos cavaleiros alemães desalojando o depósito de madeira com os seus sabres.
— Onde está Forrest?
Leroy apontou para o castelo.
— Vem para cá. Foi buscar o sargento-mor. Não creio que espere por Sir Henry e pela sua artilharia pesada.
Leroy sorriu abertamente. Chegaram à porta que estava entreaberta. Harper tinha se referido a barricadas mas Sharpe não via nenhuma. Leroy fez-lhe um sinal.
— Adiante-se, Sharpe. Deixo você falar. Acreditam que você é um maldito operador de milagres.
A sua primeira impressão foi a de um depósito cheio de homens deitados, de pé, sentados, com as armas amontoadas, as casacas e a equipagem postas de lado. Uma fogueira ardia no centro do pátio, o que lhe chamou a atenção dado o calor do dia e então lembrou-se dos troncos que Simmerson encomendara a mais para os açoites em massa. O coronel devia ter mandado fazer ali o trabalho e os homens queimaram as tábuas que tinham sido pregadas toscamente umas às outras, prontas para o castigo. Houve um silêncio momentâneo quando os dois oficiais entraram pela porta seguidos pelo zumbido de uma conversa excitada. Leroy apoiou-se na entrada, Sharpe abriu passagem lentamente por entre os grupos de homens, dirigindo-se para a fogueira que parecia ser o centro do pátio. Os homens bebiam, alguns já estavam embriagados, e enquanto Sharpe caminhava lentamente entre os murmúrios e os olhares hostis, um homem ofereceu-lhe ironicamente uma garrafa. Sharpe não fez caso, deu uma joelhada no braço do homem ao passar e ouviu a garrafa cair no chão. Chegou ao espaço em frente ao fogo e quando se voltou para se pôr de frente para a massa de homens, o murmúrio desapareceu. Achou que não haveria muito a discutir com eles, não havia nenhum líder que protestasse, apenas tinha ouvido tristes murmúrios.
— Sargentos!
Ninguém se mexeu. Tinha de haver sargentos no pátio. Voltou a gritar:
— Sargentos! Rápido! Aqui!
Ainda ninguém se mexia mas pelo canto do olho captou a imagem de um grupo de homens, de camisa e calças, que se mexiam, inquietos. Apontou para eles:
— Vamos. Depressa! Ponham o equipamento!
Vacilaram. Por um momento perguntou-se se os sargentos seriam os líderes, mas chegou à conclusão de que provavelmente tinham medo dos homens. No entanto, pegaram as casacas e os cinturões. Ouviram-se alguns assobios mas ninguém fez um gesto para detê-lo. Sharpe começou a sentir-se mais relaxado.
— Não!
Um homem levantou-se à esquerda. Fez-se silêncio, ninguém se mexia, os sargentos olharam para o homem que tinha falado. Era um homem alto com aspeto inteligente. Virou-se para os homens e falou num tom razoável:
— Não vamos. Decidimos isto e temos de manter nossa decisão!
A sua voz, tal como a do falecido Ibbotson, era educada. Virou-se para Sharpe.
— Os sargentos podem ir, senhor, mas nós não. Não é justo.
Sharpe não lhe prestou atenção. Não era o momento de discutir se a disciplina de Simmerson era justa ou injusta. A disciplina, num momento destes, não era tema que se pudesse discutir. Existia, e isso era tudo. Voltou-se para os sargentos:
— Vamos! Mexam-se!
Cerca de uma dezena de sargentos dirigiu-se obediente para a fogueira. Sharpe percebeu de repente o calor do lume que, juntamente com o sol, lhe encharcava as costas. Os sargentos detiveram-se.
Sharpe falou em voz alta:
— Têm dois minutos. Quero todos formados neste pátio, e uniformizados. Os homens que tiverem de ser açoitados, só de calças e camisa. A companhia de Granadeiros junto à porta, façam formar o restante. Vamos!
Hesitaram. Sharpe deu um passo em frente em direção a eles e de repente puseram-se em movimento. Virou-se e avançou para os homens em massa.
— De pé! Formar! Depressa!
O homem corpulento tentou fazer um último protesto mas Sharpe deu-lhe um soco.
— Quer que haja mais execuções, raios? Mexa-se!
Tudo tinha acabado, teve de dar uns pontapés nas pernas dos bêbados, mas a pequena batalha estava ganha.
Leroy juntou-se a Sharpe e, com os sargentos, alinharam as companhias. Os homens estavam numa desgraça. Os uniformes não estavam escovados, manchados do pó da madeira, os cintos estavam oxidados e os mosquetes sujos. Alguns homens estavam pálidos da bebida. Sharpe nunca tinha visto um batalhão em tão má forma, ainda que isso fosse melhor do que uma multidão amotinada e acossada pela eficiente cavalaria alemã.
Leroy abriu as portas de par em par, Sharpe deu ordens e o batalhão marchou para fora em formação para se alinhar com a Companhia Ligeira. Forrest estava lá fora. Ficou boquiaberto quando viu sair a primeira companhia. Estavam com ele um grupo de oficiais e sargentos e correram para as suas companhias gritando ordens. O batalhão começou a marchar com determinação, o sargento-mor colocou-os no lugar, ordenou descanso, e deixou-os nessa posição. Sharpe aproximou-se do cavalo de Forrest, chamou-lhe a atenção e fez continência.
— Batalhão formado, Major!
Forrest baixou os olhos para ele.
— O que aconteceu?
— A que se refere, senhor? Nada.
— Mas me disseram que eles se recusavam a formar.
Sharpe apontou para o batalhão. Os homens estavam pondo em ordem os uniformes, escovando o pó das casacas, dando pancadas nas barretinas para lhes restaurarem a forma. Forrest olhou para eles fixamente e em seguida voltou os olhos para Sharpe.
— Isto não vai agradar o coronel.
— Ao coronel, senhor?
Forrest sorriu zombeteiramente.
— A cavalaria vem para cá, Sharpe. E o general Hill.
Forrest abandonou o sorriso, que era impróprio, mas Sharpe entendeu a piada. Simmerson ficaria furioso; tinha incomodado o general, tinha requisitado um regimento de cavalaria e tudo isso por um motim que não existia. Esta idéia agradou-lhe.
O batalhão permaneceu sob o calor, os sinos da cidade bateram as cinco e um quarto, sacudiram tanto quanto puderam o pó dos uniformes. Talvez metade dos oficiais ali estivesse presente, vindo da cidade, mas o resto estava com Simmerson. Quando o relógio bateu as cinco e meia ouviu-se o estrondo de cascos, uma nuvem de pó, e com uma movimentação de forças calculada para desmoralizar as alegadas forças amotinadas, apareceram os dragões com o uniforme azul da Legião Alemã do Rei a galope em direção à praça do mercado. Estavam fantásticos com as casacas azuis, as peliças debruadas de pele e, na cabeça, os chapéus castanhos de pele. Traziam os sabres desembainhados e cavalgavam diretos ao armazém de madeira. Lentamente, foram percebendo que estava vazio e que as cabeças que lhes tinham mandado cortar estavam formadas. Ouviram-se gritar ordens, os cavalos viraram-se, a cavalaria submergiu num silêncio embaraçoso e olhou para a horda de cavaleiros de casaca vermelha que seguia para a praça do mercado; o coronel Sir Henry Simmerson com o general de divisão Rowland Hill, ajudantes-de-campo, oficiais do batalhão, como Gibbons e Berry, e atrás deles outros oficiais a cavalo que tinham chegado para ver a agitação.
Detiveram-se todos e ficaram olhando. Simmerson espreitou para o depósito de madeira, voltou a olhar para a formação e mais uma vez para o pátio do depósito. O sargento-mor cumpriu as ordens de Forrest.
— Batalhão! Sentido!
O Batalhão de Destacamentos pôs-se em sentido. O sargento-mor encheu o peito.
— Batalhão! Ombro arma!
Os três movimentos estavam perfeitamente sincronizados. Apenas se ouvia o som de seiscentas mãos dando uma palmada a seiscentos mosquetes ao mesmo tempo.
— O batalhão apresenta-se ao General!
Havia um general.
— Apresentar armas!
Sharpe apresentou o sabre. Atrás dele as companhias bateram com o pé direito no chão, com os mosquetes inclinados com magnífica precisão; a formação vibrou de orgulho. Daddy Hill retribuiu a continência. O sargento-mor ordenou “ombro arma”, “sentido” e a seguir “descansar”. Sharpe viu Forrest dirigir-se a cavalo até Simmerson, que estava em sentido. Viu gestos mas não conseguiu ouvir nada. Parecia que Hill fazia perguntas e Sharpe viu Forrest mexer-se na sela e a apontar na direção da Companhia Ligeira. O aceno de braço converteu-se numa chamada.
— Capitão Sharpe!
Sharpe avançou pela praça de armas como se fosse o sargento-mor do regimento num desfile real. Maldito Simmerson. Por ele podia ficar com o rosto afundada na lama. Deteve-se, fez continência e ficou à espera. Hill olhou para ele, o tricórnio fazia-lhe sombra no rosto.
— Capitão Sharpe?
— Senhor!
— O senhor formou o batalhão, não é verdade?
— Sim meu General!
Sharpe, quando era sargento, aprendera que repetir a palavra “meu” seguida pela correspondente graduação com ênfase e precisão suficientes podia facilitar à maior parte das conversas com oficiais veteranos. Hill pensava o mesmo. Olhou para o relógio e de novo para Sharpe.
— A revista está pronta com meia hora de antecedência. Porquê?
— Os homens pareciam estar aborrecidos, senhor. Pensei que um pouco de instrução lhes faria bem. Por isso o capitão Leroy e eu os pusemos em ação.
Hill sorriu, gostou da resposta. Olhou para as tropas que permaneciam imóveis ao sol.
— Diga-me, capitão, houve alguém que se negasse à formar?
— Negar-se, senhor? — respondeu Sharpe, surpreso.
— Nem um só homem, Capitão? — insistiu Hill com determinação.
— Não, senhor, nenhum.
Sharpe atreveu-se a olhar para Simmerson. O coronel mais uma vez passava por tolo. Tinha clamado “motim” ante um general de divisão e no fim de contas um capitão subalterno conseguira formar os homens. Sharpe reparou que Simmerson se agitava na sela, incomodado, quando Hill baixou perspicazmente os olhos.
— Estou espantado, Capitão.
— Espantado?
Hill sorriu. Tinha lidado com tantos sargentos durante a vida que sabia o que Sharpe estava fazendo.
— Sim, Capitão. O senhor teve conhecimento que o seu coronel recebeu uma carta que dizia que os homens se recusavam a formar. Isso chama-se amotinação.
Sharpe desviou inocentemente os olhos para Simmerson.
— Uma carta, senhor? Recusando-se a formar?
Simmerson olhou para ele aborrecido; se pudesse teria matado Sharpe ali mesmo. Sharpe voltou a olhar para Hill e mudou da expressão de surpresa inocente para uma outra que simulava compreender os acontecimentos.
— Creio que se trata de uma brincadeira, senhor. O meu General sabe como os rapazes são brincalhões quando estão em vias de entrar em combate.
O general riu. Tinham-lhe passado pela mão muitos sargentos para saber quando devia parar de brincar.
— Bom! Muitas palavras, poucas ações! Hoje parece que é o dia do South Essex! É a segunda vez, em doze horas, que passo revista, Sir Henry. Creio que já está na hora de que seja o senhor a passar revista aos seus homens, Sir Henry.
Simmerson não disse nada. Hill voltou-se para Sharpe.
— Obrigado, Capitão. Do 95º, não é?
— Sim, senhor.
— Tenho ouvido falar de você. Sharpe, não é? Deixe-me pensar. — Fixou atentamente o fuzileiro e em seguida estalou os dedos. — Claro! É uma honra conhecê-lo, Sharpe! Sabia que os fuzileiros estão de volta?
Sharpe sentiu o coração saltar.
— Aqui, senhor?
— Talvez agora já estejam em Lisboa. Não se pode fazer nada sem os fuzileiros, não é, Simmerson?
Não houve resposta.
— Qual é o seu batalhão, Sharpe?
— O segundo, senhor.
— Que pena, então. Quem vem para cá é o primeiro. De qualquer modo, é agradável encontrar velhos amigos, não acha?
— Sim, senhor.
Hill parecia bastante satisfeito por estar conversando. Sharpe, por cima do ombro do general, vislumbrou Gibbons desconsoladamente montado no seu cavalo. O general espantou uma mosca.
— O que é que se diz dos fuzileiros, Capitão?
— Que são os primeiros a chegar ao campo de batalha e os últimos a partir, senhor.
Hill confirmou.
— Exatamente! Por isso o incorporaram no South Essex. Não foi?
— Sim, senhor.
— Bom, estou satisfeito por estar na minha divisão, Sharpe, estou muitíssimo satisfeito. Continue!
— Muito obrigado, senhor.
Fez continência, deu meia volta e regressou para junto da Companhia Ligeira. Quando se afastou ouviu Hill gritar para o comandante de cavalaria:
— Podem ir embora! Nada mais por hoje!
O general guiou o cavalo por entre as filas do batalhão e falou afavelmente com os homens. Sharpe tinha ouvido falar muito sobre Daddy Hill e compreendeu então porque lhe tinham dado aquele apelido. O general tinha o dom de fazer cada homem acreditar que se preocupava com eles, parecia interessado neles, queria que estivessem satisfeitos. Não havia a mínima chance de não saber em que estado se encontrava o batalhão. Tendo mesmo em conta as três semanas de marcha e a batalha da ponte, os homens tinham se fardado depressa e, apesar de estarem sujos, Hill fez de conta que não via. Quando chegou à Companhia Ligeira, acenou familiarmente com a cabeça a Sharpe, brincou com a altura de Harper e fez os homens rirem. Deixou a companhia sorridente e cavalgou em direção a Simmerson e ao seu séquito no centro da praça de armas.
— Vocês foram maus, rapazes! Decepcionaram-me esta manhã! — Falava lenta e claramente, de modo a que as companhias dos lados, como a de Sharpe, pudessem ouvi-lo perfeitamente. — Merecem o castigo a que Sir Henry os condenou! — Fez uma pausa. — Mas esta tarde estiveram muito bem! Formaram antes da hora!
Houve um sussurro de riso entre as tropas.
— Parecem ansiosos por receber o castigo!
Os risos pararam.
— Bom, vão ficar decepcionados. Graças ao seu comportamento esta tarde, Sir Henry pediu-me que suspenda a revista de castigo. Não estou completamente de acordo com ele, mas vou deixar que faça as coisas à sua maneira. Então não haverá açoites.
Ouviram-se suspiros de alívio. Hill respirou fundo.
— Amanhã marcharemos com os nossos aliados espanhóis contra os franceses! Vamos travar uma batalha em Talavera. Estou orgulhoso por tê-los na minha divisão. Juntos, mostraremos aos franceses o que significa ser soldado! — Levantou uma mão para eles em sinal de paz. — Boa sorte, rapazes, boa sorte!
Aclamaram-no até ficarem roucos, tiraram as barretinas e agitaram-nas saudando o general, que lhes devolveu um sorriso radiante como se fosse um pai indulgente. Quando cessou o ruído voltou-se para Simmerson.
— Mande desagrupar, coronel, mande desagrupar. Estiveram muito bem!
Não restava outra alternativa a Simmerson senão obedecer. Desagruparam, os homens espalharam-se pelo campo conversando e rindo. Hill dirigiu-se a trote para o castelo e Sharpe viu Simmerson e o seu grupo de oficiais cavalgando atrás dele. O homem tinha passado por idiota na frente de todos e ele, Sharpe, seria o culpado. O alto fuzileiro regressou lentamente para a cidade com a cabeça baixa. Na verdade não lhe tinha agradado aborrecer Simmerson, mas o coronel merecer; nem sequer tinha se dado ao trabalho de ver se os homens se recusariam a cumprir as ordens, limitara-se a chamar a cavalaria. Sharpe sabia que tinha feito muitas ofensas ao coronel e ao sobrinho. Duvidada que agora Simmerson se satisfizesse com a carta que já devia estar em Lisboa, à espera de um barco que transportasse o correio para Londres. A carta iria arruinar a carreira de Sharpe e a menos que pudesse operar um milagre na batalha que cada vez mais se aproximava, Simmerson teria a satisfação de ver Sharpe destroçado. Mas ainda havia mais. Havia a honra e o orgulho, e uma mulher. Duvidava que Gibbons conseguisse uma solução honrosa, duvidava que o tenente ficasse satisfeito com a carta que o tio escrevera, e estremeceu de receio ante o que pudesse acontecer. A garota se tornaria o alvo de Gibbons.
Um homem aproximou-se correndo.
— Senhor?
Sharpe virou-se. Era o homem corpulento que tentara impedir o batalhão de formar no depósito de madeira.
— Sim?
— Queria agradecer-lhe, senhor.
— A mim? Porquê?
Sharpe falou grosseiramente. O homem estava aturdido.
— Eles teriam nos fuzilado, senhor.
— Eu mesmo teria dado essa ordem.
— Então, obrigado, Capitão.
Sharpe estava impressionado. O homem podia ter ficado calado.
— Como se chama?
— Huckfield, senhor.
Era culto e Sharpe sentiu-se curioso.
— Onde obteve tanta educação, Huckfield?
— Era escriturário, senhor, numa fundição.
— Numa fundição?
— Sim, Capitão. Em Shropshire. Fabricávamos aço, senhor, dia e noite. Era um vale de fogo e fumaça. Pensei que isto seria mais interessante.
— Foi voluntário! — exclamou Sharpe, surpreso.
— Sim, Capitão — assentiu Huckfield.
Sharpe olhou fixamente para ele. Tinha ouvido homens falando sobre a nova “indústria” que estava nascendo na Grã-Bretanha. Tinham descrito, tal como Huckfield, paisagens inteiras cobertas de tijolo e salpicadas de fornos gigantes que produziam ferro e aço. Tinha ouvido contar histórias de pontes construídas sobre rios, pontes completamente feitas de metal, de barcos e de máquinas que funcionavam a vapor, mas nunca tinha visto nenhuma dessas coisas. Uma noite, à volta de uma fogueira no campo, alguém dissera que aquilo era o futuro e que os dias dos homens a pé ou a cavalo estavam contados. Claro que se tratava de pura fantasia, mas ali estava Huckfield que tinha visto aquelas coisas, e a imagem de um país entregue a enormes máquinas negras com ventres de fogo fazia-o se sentir inseguro. Fez ao homem um aceno com a cabeça.
— Esqueça-se do que se passou esta tarde, Huckfield. Não foi nada. — Não aceitou o agradecimento do homem. O sentir-se inseguro quanto ao futuro era o preço que tinha de pagar por ser militar. Sharpe não conseguia imaginar um exército que não estivesse em guerra; não conseguia imaginar o que faria se, de repente, estivessem em paz e ele não tivesse trabalho. Mas antes tinha de travar uma batalha, e ganhar uma águia e lutar por uma mulher. Embrenhou-se pelas ruas de Oropesa.