A Águia de Sharpe
Capítulo XXV
A inda não tinha terminado, mas o fim estava muito próximo. Quando as tropas britânicas no meio do campo se fundiram em linhas exaustas junto à margem da descorada corrente do Portina, ouviram rajadas de tiros e os sons estridentes das trombetas de cavalaria provenientes do terreno a norte do Medellín. Mas pouco mais aconteceu; os Dragões Ligeiros do 23º efetuaram uma carga suicida, os canhões de seis britânicos pulverizaram doze batalhões franceses em quadrado e então os franceses renderam-se. Fez-se silêncio no campo. Os franceses estavam acabados, derrotados, e os britânicos tinham ficado com a vitória e com o campo.
E com este, os mortos e os feridos. Houve mais de treze mil baixas, mas naquele momento ninguém sabia. Não sabiam que os franceses não voltariam a atacar, que o rei José Bonaparte e os marechais franceses cavalgariam para leste durante a noite, então os exaustos e enegrecidos vencedores ficaram no campo. Os feridos gritavam pedindo água, chamando pelas mães, pedindo qualquer coisa que não fosse a dor e a impotência sob o calor. E o horror não se compadecia com eles. O sol queimara implacável durante dias, a erva do Medellín e do vale estava seca, e em algum lugar uma chama se acendeu e estendeu-se pela erva, queimando tanto feridos como mortos. O cheiro de carne queimada espalhou-se e elevou-se em persistentes nuvens de fumaça. Os vencedores tentaram retirar os feridos mas era muito tarde, as chamas estendiam-se e aqueles que tentavam resgatá-los maldiziam-se e deixavam-se cair junto ao sujo ribeiro mitigando a sede nas águas ensangüentadas.
Os abutres rondavam as colinas a norte. O sol caía a prumo e inclinava as sombras sobre os campos incendiados, sobre os homens que lutavam para escapar das chamas e sobre as tropas enegrecidas que se revolviam para saquear os mortos e retirar os feridos. Sharpe e Harper seguiam o seu próprio percurso, dois homens nas cortinas de fumaça e na erva que ardia, ambos sangrando mas com os rostos enrugados de íntima satisfação. Sharpe segurava a águia. Não era grande coisa; uma haste de oito pés de comprimento de cor azul-clara e, no extremo, o pássaro dourado com as asas abertas com a garra esquerda levantada, um raio pronto a ser lançado contra os inimigos de França. Não tinha nenhuma bandeira pregada; como muitos outros batalhões franceses os antigos donos tinham deixado a bandeira no depósito e só traziam a dádiva de Napoleão para a guerra. Tinha menos de dois palmos de largura e o mesmo de altura, mas era uma águia e era sua.
A Companhia Ligeira tinha-os visto ir. Só Sharpe, Harper e Denny tinham atravessado as tropas do batalhão inimigo e quando o ataque francês se precipitou, o resto da Companhia Ligeira tinha sido empurrada para um lado pela avalancha dos sobreviventes aterrorizados que fugiam das descargas pontuais. O tenente Knowles, com uma bala no ombro, observava como os homens continuavam a disparar contra os franceses em retirada e então conduzira-os de novo para junto do batalhão. Sabia que Sharpe e Harper estavam em qualquer lugar entre a fumaça e que em breve apareceriam com ou sem a águia.
O tenente-coronel William Lawford, a cavalo, olhava fixamente para os corpos no campo. Conduzira o South Essex, colina abaixo, e observara como disparavam os seus mosquetes, lentamente mas com calma, contra os inimigos de casaca branca. Vira a luta pela águia mas a fumaça que se alastrava provocada pelos tiros do batalhão tinha encoberto a cena e os sobreviventes da Companhia Ligeira pouco mais lhe puderam dizer. Um tenente trouxe quarenta e três homens sangrando e sujos, fazendo caretas como macacos, que falavam da águia, mas onde estava ela? Queria ver Sharpe, queria ver o rosto do amigo quando descobrisse que o seu companheiro da prisão de Seringapatam era agora o seu coronel; contudo o campo estremecia em chamas, então deixou de procurar e fez com que o batalhão começasse a assombrosa tarefa de despir os mortos e amontoar os corpos como se fossem lenha para uma fogueira. Eram muitos os que tinham de enterrar.
Sir Henry Simmerson estava acabado. Wellesley tinha-o amaldiçoado mas com fluidez, e tinha enviado Lawford para tomar conta do batalhão. Lawford esperava ficar com o posto, já era hora de comandar um batalhão, e havia muito que fazer com este. O major Forrest cavalgou até ele e cumprimentou-o.
— Major?
— À exceção da Companhia Ligeira, tivemos poucas baixas.
— Quantas?
Lawford olhou para Forrest que tirava um pedaço de papel da bolsa.
— Uma dúzia de mortos, talvez o dobro de feridos.
Lawford concordou.
— Saímo-nos bem, major. E a Companhia Ligeira?
— O tenente Knowles trouxe quarenta e três e a maior parte está ferida. O sargento Read ficou com o equipamento e com outros dois; isso soma quarenta e seis. Cinco homens estavam muito doentes para lutar e estão na cidade. — Forrest fez uma pausa. — Isso totaliza cinqüenta e um em relação a um efetivo de oitenta e nove.
Lawford não disse nada. Inclinou-se para a frente na sela e olhou por entre a fumaça que se elevava. Forrest pigarreou nervoso.
— O senhor acha que...? — disse sem terminar a pergunta.
— Não, major, não. — Lawford endireitou-se, desfez-se em explicações. — Conheço Richard Sharpe desde que eu era tenente e ele sargento. Devia ter morrido uma dúzia de vezes, major, pelo menos uma dúzia, mas não sei como consegue se safar. — Lawford sorriu. — Não estou preocupado com Sharpe, comandante. É muito melhor deixar que ele se preocupe consigo. Quem falta mais?
— O sargento Harper...
— Ah! — interrompeu Lawford. — O lendário irlandês.
— E o tenente Gibbons, Coronel.
— O tenente Gibbons?
Lawford lembrou-se do encontro no quartel-general de Wellesley em Plasência e da petulante expressão do rosto do tenente louro.
— Gostaria de saber como ele vai se arranjar sem o tio.
Lawford mal esboçou um sorriso; Gibbons era o que menos o preocupava. Havia ainda muito para fazer, muitos homens a recolher antes que as pessoas da cidade se espalhassem por entre a carnificina para saquearem os corpos.
— Obrigado, major. Teremos que esperar pelo capitão Sharpe. Por hora, poderia organizar um grupo para buscar água para os homens. E esperemos que esses franceses mortos tenham comida nas mochilas, senão vamos ter uma noite de fome.
Os franceses sim, tinham comida, e ouro, e Sharpe, como sempre fazia, repartia com Harper o que encontrava. O sargento levava a águia e olhava pensativo para a ave.
— Vale algum dinheiro?
— Não sei.
Para não perder o hábito, Sharpe estava recarregando a espingarda e resmungou enquanto tentava introduzir a baqueta pelo cano sujo.
— Mas nos recompensariam, senhor, não é verdade?
— Creio que sim — disse Sharpe, sorrindo brincalhão para o sargento. — O valor patriótico deveria ser de cem guinéus, quem sabe? — disse enquanto colocava a baqueta no lugar. — Talvez apenas digam “obrigado”. Obrigado, sargento Harper — disse ao mesmo tempo que fazia uma reverência.
Harper retribuiu-lhe desajeitadamente o cumprimento.
— Foi um prazer, capitão Sharpe — fez uma pausa. — Os grandes filhos da mãe fariam melhor pagando qualquer coisa. Estou desejoso de ver o rosto de Simmerson quando lhe entregar isto.
Sharpe riu, ansiava por esse momento. Tirou a águia de Harper.
— Vamos. Faríamos melhor indo ao seu encontro.
Harper tocou no ombro de Sharpe e ficou imóvel, olhando por entre a fumaça sobre o riacho. Sharpe não via nada.
— O que foi?
— Não o vê, Capitão? — Harper falava em voz baixa mas excitada. — Ali! Maldita! Foi embora.
— O quê, pelo amor de Deus, o quê?
Harper virou-se para ele.
— Pode esperar, senhor? Dois minutos?
— Um pássaro? — perguntou Sharpe fazendo uma careta.
— Sim. A pega de rabo azul. Sobrevoou o ribeiro, e não pode estar longe.
Harper tinha uma expressão satisfeita no rosto, de repente tinha esquecido a batalha, a captura da águia era uma ninharia, perante a descoberta do estranho pássaro que tanto desejava ver.
— Vá lá. Eu espero aqui — disse Sharpe sorrindo.
O sargento dirigiu-se lentamente para o riacho, deixando Sharpe entre a fumaça que se elevava dos corpos. Passou um cavalo a trote; absorto no seu trabalho, com uma mancha de sangue no flanco. E, afastado das chamas, Sharpe ouviu os clarins tocando para a formação dos vivos. Olhou fixamente a águia, o raio preso na garra, o anel que rodeava o pescoço do animal, e sentiu uma nova onda de alvoroço pela sua captura. Agora não podiam mandá-lo para as Índias Ocidentais! Simmerson podia fazer tudo o que quisesse, mas o homem que trouxera a primeira águia capturada dos franceses estava a salvo de Sir Henry. Sorriu, levantou a águia de maneira que o sol lhe batesse nas asas, e ouviu o som de cascos atrás de si.
A espingarda estava no chão e teve de deixá-la ao rodar desesperadamente para evitar o ataque de Gibbons. O tenente, com o sabre curto desembainhado, tinha os olhos enlouquecidos e apoiava-se na sela; a espada silvou sobre a cabeça de Sharpe, este caiu, continuou a rodar, e ajoelhou-se para ver Gibbons puxar o freio do cavalo, fazê-lo girar com uma mão, e voltar a lançá-lo para frente. O tenente nem sequer deu tempo a Sharpe de puxar a espada, em vez disso apontava-lhe o sabre como se fosse uma lança e meteu esporas ao cavalo para que este avançasse de maneira que a lâmina se enterrasse no ventre de Sharpe. Este deixou-se cair e o cavalo chegou como um raio a seu lado, virou-se sobre as patas traseiras, e Gibbons estava por cima dele, apontando para baixo com o sabre. Nenhum dos dois disse nada. O cavalo relinchou, recuou e bateu com os cascos, Sharpe desviou-se quando o sabre desceu para atingi-lo. Agitou a águia, apontando para a cabeça do animal mas Gibbons era muito bom cavaleiro e sorriu enquanto se esquivava do golpe violento. O tenente ergueu o sabre com ambas as mãos.
— Dê-me a águia, Sharpe.
Sharpe olhou à sua volta. A espingarda carregada estava a cinco jardas e correu para ela, sabendo que estava muito longe, ouvindo os cascos atrás de si, e então o sabre desceu sobre a mochila e atirou-o ao chão. Caiu por cima da águia, rodou para a direita, e o cavalo fazia piruetas por cima dele, os cascos eram como martelos por cima do seu rosto, e a lâmina do sabre era uma luz curva por trás das ferraduras brilhantes. Voltou a se desviar, sentiu um golpe paralisante quando um casco lhe pisou um ombro, mas continuou a se desviar afastando-se do sabre de Gibbons. Era inútil. A erva metia-se pelo nariz, o ar estava cheio do ruído dos cascos, o cavalo estava por cima dele, batendo com as patas no solo a seu lado. Esperou que a espada o atravessasse e o cravasse contra o chão. Estava aborrecido consigo mesmo, por ter sido apanhado, por se esquecer de Gibbons e perguntava-se por quanto tempo o tenente estivera à espreita por entre a fumaça.
Mal conseguia mexer o braço direito, todo ele parecia estar paralisado pela pancada do casco, mas arremetia para cima com a águia como se fosse uma barra, tentando afastar os cascos do seu corpo. Sorte maldita! Será que Harper não ouvia a luta? Nesse momento o sabre parou por cima do seu estômago e viu o rosto sorridente de Gibbons a olhá-lo.
— Ela gostou. E eu vou ficar com a águia também.
Parecia que Gibbons ria dele, a boca do tenente alargava-se cada vez mais, mas não o atacava. Os olhos alargaram-se e Sharpe começou a mover-se, afastou-se do sabre, pôs-se de pé e viu que brotava sangue da garganta de Gibbons e que este caía, lentamente, por cima do sabre. Sharpe continuava a mover-se, balanceando a águia, e a asa do troféu francês bateu contra a boca de Gibbons, partindo-lhe os dentes, empurrando-lhe a cabeça para trás, mas o tenente estava morto. A águia apenas o tinha obrigado a se deitar para trás, mas o corpo estava inclinado para Sharpe e no meio, entre as costelas, havia a baioneta de um mosquete francês. O sargento Harper estava do outro lado do cavalo e sorriu para Sharpe.
O corpo de Gibbons caiu junto à montaria e ficou olhando fixamente para ele, para a baioneta e para o estranho mosquete francês que lhe tinha entrado tão certeiramente nos pulmões e ali estava cravado, oscilando sobre o corpo. Olhou para Harper.
— Obrigado.
— Foi um prazer.
O sargento sorria encantado, como se estivesse agradecendo a Sharpe por ter salvado a sua vida.
— Só para fazer isto vale a pena estar neste exército.
Sharpe inclinou-se sobre a águia, respirou fundo, aterrado com a proximidade da morte. Balançou a cabeça olhando para Harper.
— O canalha quase me acertou!
E a voz saiu-lhe espantada, como se parecesse incrível que Gibbons pudesse sair vencedor.
— Primeiro teria de acabar comigo, senhor.
Disse isto alegremente, mas Sharpe sabia que o sargento dissera a verdade e sorriu em sinal de agradecimento e em seguida foi apanhar a espingarda.
Virou-se mais uma vez.
— Patrick?
— Senhor?
— Obrigado.
Harper fez-lhe um sinal como se rejeitasse o agradecimento.
— Procure apenas que me dêem mais cem guinéus. Não se captura uma maldita águia todos os dias.
Gibbons não trazia grande coisa. Um relógio que tinha se quebrado com a queda e o sabre caro que se viam obrigados a abandonar. Sharpe aproximou-se de Harper e, ajoelhando-se junto ao corpo caído, meteu a mão por entre o colarinho de Gibbons e encontrou o que quase esperava: um fio de ouro. Muitos soldados levavam ao pescoço qualquer coisa de valor e Sharpe sabia, que, se morresse, um inimigo qualquer encontraria a bolsa com as moedas pendurada no seu pescoço. Harper levantou os olhos.
— Esqueci disto.
Era um medalhão em cujo interior havia o retrato de uma jovem. Era loura, mas os lábios eram mais grossos do que os dele. Os olhos, apesar da pequenez da miniatura, pareciam fixar-se com vivacidade e alegria para fora do medalhão, Harper inclinou-se.
— O que diz, senhor?
Sharpe leu as palavras no interior da tampa aberta.
— Deus te guarde. Com carinho, Jane.
Sharpe assobiou baixinho.
— É bonita, senhor.
Sharpe pegou o medalhão, meteu-o na cartucheira e então voltou a olhar para o morto com o sangue brilhante por cima do rosto delicado. Sabia que tipo de pessoa era o irmão?
— Vamos, sargento.
Caminharam sobre a erva, por entre as chamas, até que viram a bandeira amarela e solitária do South Essex. O tenente Knowles foi o primeiro a vê-los, gritou e, de repente, a companhia rodeava-os, dando-lhes palmadas nas costas, dizendo-lhes palavras que eles não ouviam e empurrando-os para o grupo de cavaleiros que estavam junto à bandeira. Sharpe passou os olhos por um Forrest resplandecente e olhou para Lawford.
— Coronel?
Forrest riu ante a surpresa de Sharpe.
— Se não me engano, o senhor está no comando da minha Companhia Ligeira?
— Sua?
Lawford arqueou as sobrancelhas. Ficava esquisito com o galão prateado.
— Não concorda, capitão Sharpe?
— E Sir Henry?
— Digamos que Sir Henry sentiu um ardente desejo de voltar para as boas casas de Paglesham — respondeu Lawford encolhendo os ombros.
Sharpe teve vontade de rir. Tinha cumprido a promessa feita a Lennox mas sabia que a verdadeira razão por que tinha aberto caminho para a águia francesa fora para salvar a sua própria carreira, e teria afinal sido necessário? A morte de Denny e de tantos outros, tudo para não ter de ir para as Índias Ocidentais? O troféu estava escondido entre a multidão de homens, mas ele levantou-o de modo a que a estatueta dourada resplandecesse de repente sob a luz. Entregou-a a Lawford.
— A bandeira perdida do batalhão. Foi o melhor que o sargento Harper e eu pudemos fazer.
Lawford ficou olhando fixamente para os dois homens, para o cansaço sob as manchas de pólvora, para as rugas dos seus rostos sulcados com sangue das feridas na cabeça e para as manchas negras onde as baionetas tinham deixado sangue nas casacas-verdes. Pegou a águia, incrédulo, sabendo que era a única coisa que devolveria o orgulho ao batalhão e elevou-a ao alto. O South Essex, durante tanto tempo desprezado pelo exército, viu-a e soltou gritos de júbilo, os homens deram palmadas nas costas uns dos outros, elevaram os mosquetes ao céu e brincaram até que os outros batalhões se detiveram para ver a causa de tanto alarido.
Por cima deles, no Medellín, o general Hill ouviu o entusiasmo e apontou o telescópio para o batalhão que quase tinha perdido a batalha. Focou a águia com a lente e ficou de boca aberta.
— Raios me partam! Meu Deus! Que coisa mais esquisita! O South Essex capturou uma águia!
Ouviu-se um riso seco a seu lado e Hill voltou-se para olhar para Sir Arthur Wellesley.
— General?
— Raios me partam também, Hill. É apenas a terceira vez que o ouço praguejar — disse Wellesley enquanto pegava o telescópio de Hill e olhava através dele pela encosta abaixo. — Raios nos partam! Tem razão! Vamos lá ver esse animal esquisito.