A Águia de Sharpe
Capítulo I
E ra possível ouvir os canhões muito antes de eles aparecerem. As crianças agarravam-se às saias das mães, perguntando-se que coisa tão espantosa provocava aqueles ruídos. Os cascos dos grandes cavalos misturavam-se com o som metálico de tirantes e correntes, com o estrondo cavo das rodas desconjuntadas e, sobretudo, com o estrondo de toneladas de latão, ferro e vigas que se chocavam contra o pavimento destroçado da cidade. Então apareceram os canhões, os armões, os cavalos e a escolta; os artilheiros pareciam tão duros quanto os canhões enegrecidos e atarracados que evocavam a luta que havia a norte, de onde a artilharia tinha arrastado as suas volumosas armas, por rios cheios e subido vertentes encharcadas pela chuva para esmagar o inimigo até à derrota. Agora voltariam a fazê-lo. As mães agarravam os filhos mais novos e apontavam para os canhões, seguras de que estes britânicos fariam Napoleão desejar ter ficado na Córsega para se dedicar a criação de porcos, que era a única coisa para que servia.
E por fim chegou a cavalaria! Os camponeses portugueses aplaudiam as fileiras de vistosos uniformes a trote, os sabres brilhantes e curvos desembainhados que se exibiam pelas ruas e praças de Abrantes, e o fino pó levantado pelos cascos dos cavalos era um preço barato a pagar pela visão dos esplêndidos regimentos que, segundo diziam os cidadãos, expulsariam completamente os franceses para além dos Pireneus, de volta aos esgotos de Paris. Quem poderia resistir perante tal exército? De norte a sul, desde os portos da costa oeste, estavam se reunindo e marchavam em direção a leste pela estrada que vai até à fronteira espanhola e até ao inimigo. Portugal ficaria livre, o orgulho da Espanha seria restaurado, a França seria humilhada e estes soldados britânicos voltariam às suas adegas e às suas tabernas deixando Abrantes e Lisboa, Coimbra e o Porto em paz. Eles, os soldados, não tinham tanta confiança em si próprios. Na verdade tinham derrotado o exército que Soult tinha a norte, mas, ao avançar para as suas sombras alongadas, perguntavam o que havia para além de Castelo Branco, a cidade mais próxima e a última antes da fronteira. Em breve voltariam a defrontar-se com os veteranos de Jena e de Austerlitz, que vestiam capote azul, os donos dos campos de batalha europeus, os regimentos franceses que tinham convertido em carne picada os mais distintos exércitos do mundo. Os habitantes da cidade estavam impressionados, pelo menos com a cavalaria e a artilharia, mas, aos olhos de um conhecedor, as tropas que se reuniam nos arredores de Abrantes eram infelizmente poucas e os exércitos franceses que ameaçavam o leste eram terrivelmente grandes. O exército britânico, que atemorizava as crianças de Abrantes, não assustaria os marechais franceses.
Enquanto o tenente Richard Sharpe, esperava ordens nos arredores da cidade, via a cavalaria embainhar os sabres ao mesmo tempo que os últimos espectadores ficavam para trás. Retomou então a tarefa de desenrolar da coxa a ligadura suja.
Quando as últimas polegadas tinham se soltado, caíram para o chão algumas sanguessugas e o sargento Harper ajoelhou-se para apanhá-las antes de olhar para a ferida.
— Já cicatrizou, tenente. Ótimo.
Sharpe resmungou. O golpe de sabre tinha se convertido em nove polegadas de tecido cicatrizado e enrugado, limpo e mais rosado em comparação com a pele mais escura. Tirou a última sanguessuga gorda e deu-a a Harper para que a guardasse.
— Vá lá, querida, você parece bem alimentada.
O sargento Harper fechou a lata e levantou os olhos para Sharpe.
— Teve sorte, senhor.
Era verdade, pensou Sharpe. O hussardo francês quase que acabara com ele; a sua espada estivera a meio caminho de lhe desferir um tremendo golpe quando a bala do fuzil de Harper o obrigara a levantar da sela e o rosto do francês, envolto em estranhas trancas, se transformara com a agonia da dor. Sharpe desviara-se desesperadamente e o sabre, que lhe apontara para o pescoço, tinha-lhe cortado a coxa deixando-lhe outra cicatriz como recordação dos dezesseis anos no exército britânico. Não fora uma ferida profunda, mas Sharpe vira morrer muitos homens por causa de golpes menores, com o sangue envenenado e a carne descorada e pestilenta. Os médicos eram incapazes de fazer outra coisa que não fosse deixar que o ferido suasse e apodrecesse até morrer nas charneiras que chamavam de hospitais. Um punhado de sanguessugas fazia mais do que um exército de doutores, pois devoravam o tecido doente e deixavam a carne sã cicatrizar naturalmente. Sharpe levantou-se e tentou mexer a perna.
— Obrigado, sargento. Está como nova.
— Fico satisfeito, senhor.
Sharpe vestiu o traje da cavalaria que usava em vez dos calções verdes regulamentares dos Fuzileiros do 95. Estava orgulhoso do macacão verde com reforços de couro preto que tinha tirado do cadáver de um coronel de caçadores da guarda imperial de Napoleão no Inverno anterior. A parte lateral exterior de cada uma das pernas estava decorada com mais de vinte botões de prata e com esse metal tinha pago comida e bebida quando o seu pequeno bando de fuzileiros havia fugido para sul através das neves da Galiza. O coronel tinha sido uma boa presa; não havia muitos homens em ambos os exércitos tão altos quanto Sharpe, mas as calças assentavam-lhe perfeitamente e as botas de couro preto, bonito e macio, eram feitas à sua medida. Patrick Harper não tivera tanta sorte. O enorme sargento irlandês era uns dez centímetros mais alto que Sharpe e ainda não tinha encontrado calças para substituírem as suas, já sem cor, remendadas e feitas em retalhos, que apenas serviam para espantar os corvos num campo de nabos. Toda a companhia estava assim, pensava Sharpe, com os uniformes velhos e as botas literalmente presas com tiras de couro. Enquanto o batalhão principal estivesse na pátria, na Inglaterra, a pequena companhia de Sharpe não encontraria um único oficial comissário desejoso de complicar a vida com dois livros de contabilidade, que lhes proporcionasse calças e calçados novos. O sargento Harper entregou-lhe a casaca do uniforme.
— Quer que lhe dê um banho húngaro, tenente?
Sharpe negou com a cabeça.
— Está bem assim.
A casaca não tinha muitos piolhos, pelo menos não suficiente para ter de impregná-la com fumaça de fogo feito com erva e cheirar carvão durante os dois dias seguintes. A casaca estava tão gasta como as do resto da companhia, mas nada, nem o cadáver mais bem vestido de Espanha ou Portugal, o teria convencido a tirá-la. Era verde, a casaca verde-escura dos Fuzileiros do 95, e era o emblema de um regimento de elite. A infantaria vestia vermelho, mas a melhor infantaria britânica vestia verde, e mesmo depois de três anos no 95 Sharpe gostava da distinção do uniforme verde. Nada mais tinha do que esse uniforme e do que podia transportar às costas. Richard Sharpe não tinha outro lar a não ser o regimento, nem outra família além da sua companhia, nem outros haveres senão o que lhe cabia na mochila e nas cartucheiras. Não conhecia outra forma de viver e esperava morrer dessa maneira. Ajustou a faixa vermelha de oficial à volta da cintura e cobriu-a com o cinto preto de couro com fivela prateada em forma de serpente. Após um ano na península apenas a faixa e o sabre denotavam o seu posto de oficial e até mesmo a espada, tal como as calças, não eram regulamentares. Os oficiais de fuzileiros, tal como todos os de infantaria ligeira, usavam um sabre curvo de cavalaria, mas Sharpe detestava tal arma. Em lugar dela usava a espada comprida e reta da cavalaria pesada; uma arma horrível, mal calibrada e brutal, mas Sharpe gostava da sensação de uma lâmina selvagem que pudesse derrotar as finas espadas dos oficiais franceses e amassar um mosquete e uma baioneta.
A espada não era a sua única arma. Richard Sharpe servira durante dez anos nas fileiras dos casacas-vermelhas, primeiro como soldado raso, depois como sargento, carregando um mosquete de alma lisa pelas planícies da Índia. Resistira na linha com o pesado fuzil de pederneira, entrara aterrorizado em brechas abertas a baioneta e, no entanto, usava uma arma comprida na batalha. A espingarda Baker era o seu distintivo, diferenciava-o de outros oficiais, e os alferes de dezesseis anos, recém-chegados com uniformes novos e brilhantes, olhavam desconfiados para o tenente alto de cabelo negro com a espingarda pendurada e a cicatriz que, exceto quando ria, lhe dava um ar de sinistra diversão ao rosto. Alguns perguntavam a si próprios se as histórias seriam verdadeiras, histórias de Seringapatam e Assye, do Vimeiro e de Lugo, mas a expressão dos seus olhos aparentemente brincalhões, ou a visão dos punhos gastos das suas armas, afugentava qualquer dúvida. Poucos oficiais novos se punham a pensar no que representava realmente a espingarda, a luta mais feroz que Sharpe já tivera, a ascensão do rancho geral à messe dos oficiais. O sargento Harper olhou pela janela para a praça iluminada pela luz da tarde.
— Aí vem o Feliz, Tenente.
— O capitão Hogan.
Harper não se importou com a repreensão. Ele e Sharpe estavam juntos havia muito tempo, tinham partilhado muitos perigos e o sargento sabia perfeitamente quais as liberdades que podia tomar com o seu taciturno oficial.
— Parece mais contente que nunca, Tenente. Deve ter outro trabalho para nós.
— Deus queira que nos mandem para casa.
Harper, destrancando suavemente a segurança da espingarda com as suas enormes mãos, fingiu não ter ouvido o comentário. Sabia o que queria dizer mas o tema era perigoso. Sharpe comandava o que restava de uma companhia de fuzileiros que tinha ficado isolada da retaguarda do exército de Sir John Moore durante a retirada para a Corunha no Inverno anterior. Fora uma campanha com um tempo terrível, mais apropriado às histórias de viajantes da Rússia do que ao Norte de Espanha. Alguns homens tinham morrido enquanto dormiam, com os cabelos gelados presos ao chão, enquanto outros tinham desistido, exaustos da marcha, à espera que a morte chegasse. A disciplina do exército ruíra e os bêbados vagabundos foram carne fácil para a cavalaria francesa, que chicoteara os animais esgotados até pisar os calcanhares do exército inglês. A chusma salvou-se do desastre graças a apenas alguns regimentos, como o 95, que mantiveram a disciplina e continuaram a lutar. De 1808 passou-se a 1809 e aquele pesadelo de batalha continuou, uma batalha em que se lutava com pólvora úmida e com os homens congelados que assomavam por entre a neve para vislumbrarem os capotes dos dragões franceses. Então, um dia em que o nevasca aumentava com o vento, mais parecendo um monstro malévolo, os cavaleiros cortaram a retirada à companhia. O capitão morreu, o outro tenente também, as espingardas não disparavam, os sabres do inimigo erguiam-se e caíam, e a neve úmida abafava todos os sons exceto os grunhidos dos dragões e os terríveis golpes das lâminas que abriam feridas fumegantes em contato com o ar gelado. O tenente Sharpe e alguns sobreviventes abriram caminho, lutando, e escaparam até os penhascos onde os cavaleiros não podiam segui-los mas, quando a tempestade passou e o último homem morrera selvagemente ferido, não houve qualquer possibilidade de se reunir ao grosso do exército. O segundo batalhão de Fuzileiros do 95 regressara à pátria, enquanto Sharpe e os seus trinta homens, perdidos e esquecidos, tinham se dirigido para o sul, afastando-se dos franceses, para se juntarem à pequena guarnição britânica de Lisboa.
Desde então, Sharpe tinha pedido uma dúzia de vezes que o mandassem para casa, mas os fuzileiros eram poucos, demasiado valiosos, e o novo comandante do exército, Sir Arthur Wellesley, mostrava-se renitente em perder nem que fossem trinta homens. Assim, tinham ficado e lutado com qualquer batalhão que precisasse do reforço da sua Companhia Ligeira e voltaram a marchar para norte, retrocedendo, e tinham estado com Wellesley quando este vingou Sir John Moore expulsando o marechal Soult e os seus veteranos do Norte de Portugal. Harper sabia que o seu tenente acalentava raiva e ressentimento. Richard Sharpe era pobre, terrivelmente pobre, e jamais teria dinheiro para comprar a promoção seguinte. Chegar a capitão, mesmo de um batalhão regular, custaria a Sharpe mil e quinhentas libras; se reunisse essa quantia até poderia esperar que o nomeassem rei de França. Tinha apenas uma esperança de promoção, por antiguidade no seu próprio regimento; subir à custa de homens que morressem ou fossem promovidos e cuja promoção tivesse sido comprada. Mas enquanto Sharpe estivesse em Portugal e o regimento na pátria, na Inglaterra, se esqueceriam dele, seria preterido uma vez e outra. Tal injustiça fazia com que o ressentimento fermentasse em Sharpe. Via que homens, mais novos que ele, compravam os seus postos de capitães, comandantes, enquanto ele, melhor soldado, ficava para trás por ser pobre e estar lutando em vez de estar a salvo na Inglaterra.
A porta da cabana abriu-se de rompante e o capitão Hogan entrou. Envergando capa azul e calças brancas parecia um oficial da marinha, e afirmava que tinham confundido o seu uniforme com o de um francês tão freqüentemente, que tinham disparado mais vezes sobre ele do lado dos seus homens do que do inimigo. Era oficial de engenharia, um dos raríssimos engenheiros militares que havia em Portugal; esboçou um largo sorriso enquanto tirava o chapéu de três bicos e inclinava a cabeça para a perna de Sharpe.
— O guerreiro está restabelecido? Como vai essa perna?
— Perfeita, Capitão.
— Foram as sanguessugas do sargento Harper, não é verdade? Bom, nós, os irlandeses, somos uns diabos espertos. Sabe Deus onde estariam vocês, os ingleses, sem nós.
Hogan tirou a caixa de rapé e cheirou um bom bocado. Enquanto Sharpe esperava o inevitável espirro cravou os olhos no capitão baixinho e de meia-idade. Durante um mês, os seus fuzileiros tinham escoltado os homens de Hogan, pois o oficial de engenharia tinha desenhado um mapa dos caminhos que atravessam as passagens mais altas da Espanha. Já não era segredo nenhum que a qualquer momento Wellesley levaria o seu exército para a Espanha seguindo o Tejo, que apontava como uma lança para a capital, Madrid, e Hogan, além de desenhar intermináveis mapas, reforçara as confluências dos rios e as pontes para que agüentassem as toneladas de bronze e madeira que a artilharia de campanha deslocaria no seu caminho até ao inimigo. Fora um trabalho bem feito e em boa companhia, até que choveu e os fuzis não disparavam quando o hussardo francês, com cara de louco, quase conseguiu um lugar entre os heróis com a sua carga solitária contra os fuzileiros. Contudo, o sargento Harper conseguira que a umidade não entrasse na caçoleta da sua espingarda, e Sharpe ainda tremia ao pensar no que podia ter acontecido se a arma não tivesse disparado.
O sargento fez recuar as peças de segurança da espingarda como se fosse se retirar, mas Hogan agarrou-o pela mão.
— Fique, Patrick. Tenho um presente para você; um que agradaria inclusive a um selvagem de Donegal.
Tirou uma garrafa escura da mochila e arqueou as sobrancelhas enquanto olhava para Sharpe.
— Não se importa?
Sharpe assentiu. Harper era um bom homem, bom em tudo que fazia, e nos três anos que se conheciam Sharpe e Harper tinham se tornado amigos, ou pelo menos eram tão amigos quanto podem ser um sargento e um oficial. Sharpe não podia conceber uma batalha sem o enorme irlandês a seu lado, o irlandês receava lutar sem Sharpe, e juntos formavam o par mais formidável que Hogan tinha visto no campo de batalha. O capitão pousou a garrafa em cima da mesa e tirou a rolha.
— Conhaque. Conhaque francês das adegas do próprio marechal Soult e requisitadas como despojos no Porto. com as saudações do general.
— De Wellesley? — perguntou Sharpe.
— Do próprio. Perguntou por você, Sharpe, e eu disse-lhe que estava se tratando, pois assim não sendo, estaria comigo.
Sharpe não disse nada. Por um momento, Hogan parou de verter cuidadosamente o líquido.
— Não seja injusto, Sharpe! Ele gosta de você. Crê que se esqueceu de Assaye?
Assaye. Sharpe recordava perfeitamente. O campo semeado de mortos no exterior da aldeia indiana, onde tinha sido promovido em pleno campo de batalha. Hogan estendeu-lhe um copo de estanho.
— Sabe que ele não pode fazê-lo capitão do 95. Não tem autoridade para isso!
— Sei.
Sharpe sorriu e levou o copo aos lábios. Mas Wellesley tinha autoridade para mandá-lo para a pátria, onde poderia ser promovido. Afastou esse pensamento da cabeça, sabendo que a ofensa contínua da sua promoção regressaria, e invejava Hogan que, sendo oficial de engenharia, só podia conseguir a promoção por antiguidade. Isso significava que Hogan era ainda capitão, apesar de estar na casa dos cinqüenta, mas, pelo menos, não havia ciúmes nem injustiça porque nenhum homem podia comprar a sua subida de escalão. Inclinou-se.
— E então, alguma novidade? Continuamos com você?
— Sim, e temos um trabalho. — Os olhos de Hogan brilharam. — E também é um bom trabalho.
Patrick Harper sorriu brincalhão.
— Isso significa um golpe duro e pesado.
Hogan assentiu.
— Tem razão, sargento. Uma ponte enorme a enviar pelos ares. — Tirou um mapa do bolso e abriu-o em cima da mesa. Sharpe reparou como o dedo calejado seguia o curso do rio Tejo desde o mar até Lisboa, passava por Abrantes, o local onde estavam sentados agora, e seguia para a Espanha, para parar aí, onde o rio rodava fazendo uma grande curva para o sul.
— Valdelacasa — disse Hogan. — Aí há uma velha ponte romana. Não agrada ao general.
Sharpe sabia porquê. O exército avançaria pela margem norte do Tejo até Madrid e o rio protegeria o seu flanco direito. Havia poucas pontes que os franceses pudessem atravessar para fustigarem as linhas de aprovisionamento, e essas pontes situavam-se em cidades como Alcântara, onde os espanhóis tinham guarnições que protegiam as passagens. A de Valdelacasa nem sequer estava assinalada. Se não havia povoação, não havia guarnição, e uma força francesa poderia atravessar e fazer estragos na retaguarda britânica. Harper inclinou-se e olhou para o mapa.
— Porque não está assinalada, Capitão?
Hogan esboçou um gesto depreciativo.
— Admira-me que o mapa situe Madrid, quanto mais Valdelacasa.
Tinha razão. O mapa de Tomás Lopez, o único disponível para os exércitos na Espanha, era um trabalho maravilhoso da imaginação espanhola. Hogan apontou com o dedo no mapa.
— A ponte é utilizada raras vezes , está em muito mau estado. Disseram-nos que só a muito custo poderá ser atravessada por uma carroça, imagine-se por um canhão, mas pode ser restaurada e poderíamos ter os “calças velhas” nas nossas costas de um momento para o outro,
Sharpe sorriu. “Calças velhas” era a estranha alcunha que os fuzileiros davam aos franceses e Hogan tinha adotado com gosto a expressão. O oficial de engenharia baixou a voz em tom conspirativo.
— Disseram-me que é um lugar estranho, há apenas um convento em ruínas e a ponte. Chamam-lhe Ponte dos Malditos. — Balançou a cabeça como se tivesse saído com a sua. Sharpe esperou alguns instantes e suspirou.
— Está bem. O que quer dizer com isso?
Hogan sorriu, triunfante.
— Surpreende-me que tenha de perguntar! A Ponte dos Malditos. Parece que, outrora, todas as freiras foram obrigadas a sair do convento e massacradas pelos mouros. Está assombrada, Sharpe, é espiada pelos espíritos dos mortos!
Sharpe inclinou-se para frente para olhar o mapa mais de perto. Dada a espessura do dedo de Hogan, a ponte devia estar sessenta milhas além da fronteira e eles estavam à mesma distância de Espanha.
— Quando saímos?
— Temos um problema — disse Hogan enquanto dobrava o mapa com cuidado. — Podemos sair para a fronteira amanhã, mas não vamos cruzá-la até que os espanhóis nos convidem formalmente a isso.
Inclinou-se para trás com o copo de conhaque.
— E temos de esperar pela nossa escolta.
— Escolta! — exclamou Sharpe aborrecido. — Nós somos uma escolta!
Hogan negou com a cabeça.
— Oh, não. A política é assim. Os espanhóis nos deixam-nos mandar a ponte pelos ares, mas só se um regimento espanhol for conosco. É uma questão de orgulho, pelo que se vê.
— Orgulho! — disse Sharpe mostrando a sua irritação de forma evidente. — Se o senhor tem todo um regimento de espanhóis, por que raios precisa de nós?
Hogan sorriu de forma apaziguadora.
— Preciso de vocês, mas há mais uma coisa, sabe?
Harper interrompeu-o. O sargento estava de pé junto à janela, alheio à conversa e olhando para a pequena praça.
— Que maravilha. Oh, tenente, com aquilo sim, tinha limpo a espingarda.
Sharpe olhou pela janela. Lá fora, montada numa égua preta, estava uma jovem também vestida de preto; calções pretos, casaco preto e um chapéu de abas largas, que lhe fazia sombra no rosto mas que não obscurecia a sua surpreendente beleza. Sharpe contemplou-lhe a boca, os olhos escuros, os cabelos encaracolados da cor da pólvora fina, e então ela percebeu que a observavam. Dedicou-lhes meio sorriso e deu a volta, deu uma ordem a um criado que agarrava o cabeçalho de uma mula e olhou fixamente para o caminho que ia da praça ao centro de Abrantes. Hogan emitiu um ronco de complacência.
— É alguém muito especial. Não se vê muitas vezes uma coisa assim. Quem será?
— A mulher de um oficial? — sugeriu Sharpe. Harper balançou a cabeça em sinal de discordância.
— Não usa aliança, Capitão. Mas está à espera de alguém, de um canalha com sorte.
E seria um canalha rico, pensou Sharpe. O exército estava juntando a normal fila de mulheres e de crianças que seguia os regimentos para a guerra. Cada batalhão apenas podia levar as mulheres de sessenta soldados para uma guerra no estrangeiro, mas nada podia impedir que outras mulheres se juntassem às esposas oficiais: garotas da região, prostitutas, costureiras e lavadeiras, todas elas vivendo à conta do exército. Aquela garota era diferente. Cheirava a dinheiro e a privilégios, como se tivesse fugido de uma casa rica de Lisboa. Sharpe pensou que seria amante de um oficial rico e que faria parte da sua equipe, tal como os cavalos puro-sangue, as pistolas de Manton, o serviço de prata para as refeições de campanha e os cães que correriam obedientes atrás do cavalo. Havia muitas jovens como ela, Sharpe sabia, jovens que custavam muito dinheiro. Sentiu que a velha inveja o invadia de novo.
— Meu Deus — Harper voltou a falar enquanto continuava a olhar pela janela.
— Que está acontecendo?
Sharpe inclinou-se para a frente e, tal como o seu sargento, não acreditava no que os seus olhos viam. Um batalhão de infantaria britânico entrava na praça marchando garbosamente, um daqueles batalhões que Sharpe não via há doze meses. Um ano em Portugal tinha convertido o exército no pesadelo de um sargento de instrução; os descorados uniformes tinham sido remendados com o tecido castanho onipresente entre os camponeses portugueses, tinham o cabelo comprido e havia já muito tempo que desaparecera o brilho dos botões e das condecorações. Sir Arthur Wellesley não se importava com isso; apenas se preocupava com que cada soldado tivesse sessenta cartuchos de munições e a cabeça desperta, se as calças eram castanhas em vez de brancas não tinha qualquer importância para o resultado da batalha. Mas aquele batalhão acabava de chegar da Inglaterra. Os casacos eram de um brilhante vermelho-escarlate, os cintos brancos como a espuma e as botas negras e engraxadas como o carvão. Todos os homens usavam polainas bem abotoadas e, mais surpreendente ainda, usavam o terrível colarinho; quatro polegadas de pele preta envernizada e rígida que comprimiam o maxilar, já que se pressupunha que assim manteriam o queixo dos homens alto, e as costas retas. Sharpe não se recordava de quando vira a última dessas golas; em campanha, os homens as "perdiam”, e com elas também desapareciam as chagas purulentas que se produziam junto ao maxilar onde a pele rígida se fundia com a carne suada.
— Enganaram-se no caminho para o Castelo de Windsor — disse Harper. Sharpe balançou a cabeça.
— É inacreditável!
Quem quer que estivesse no comando daquele batalhão deveria ter transformado a vida daqueles homens num inferno para conseguir que se mostrassem tão imaculados apesar da travessia da Inglaterra em barcos cheios de gente e muito sujos e, apesar da longa marcha desde Lisboa, debaixo do calor do Verão, as armas brilhavam, o equipamento estava novo e era regulamentar, enquanto os rostos estavam inchados e vermelhos por causa dos colarinhos apertados e do sol a que não estavam habituados. À frente de cada companhia cavalgavam os oficiais; todos, reparou Sharpe, montavam magnificamente. A bandeira ia envolvida em couro brilhante e era escoltada por sargentos, cujas lâminas das alabardas tinham sido polidas até atingirem um aspeto brilhante e resplandecente. Os homens desfilavam com passo perfeito, sem olhar para a esquerda ou para a direita, exatamente, tal como Harper tinha dito, como se marchassem para uma guarda real em Windsor.
— Quem são?
Sharpe tentava recordar os regimentos que usavam canhões amarelos na manga do uniforme, mas aquele não se parecia com nenhum dos regimentos que conhecia.
— São os South Essex — disse Hogan.
— Quem?
— Os South Essex. São novos, muito novos. Recém-recrutados pelo tenente-coronel Henry Simmerson, primo do general Sir Banester Tarleton.
Sharpe assobiou baixinho. Tarleton lutara na guerra da América, ocupava agora um lugar no Parlamento e era o mais duro adversário militar de Wellesley. Sharpe tinha ouvido dizer que Tarleton queria o comando do exército em Portugal e tinha ficado amargamente ressentido pelo fato de terem preferido o jovem Wellesley. Tarleton era uma pessoa influente, um inimigo perigoso para Wellesley e Sharpe sabia o suficiente de política de alto nível para entender que a presença do primo de Tarleton no exército não ia ser bem-vinda por Wellesley.
— E aquele ali? — perguntou apontando para um homem corpulento que montava um cavalo cinzento no meio do batalhão.
Hogan confirmou.
— Aquele é Sir Henry Simmerson.
O tenente-coronel Sir Henry Simmerson tinha o rosto vermelho sulcado de veias púrpuras, com uma papada pendente. Os olhos, à distância a que Sharpe os via, pareciam pequenos e vermelhos, e dos dois lados do rosto desconfiado e penetrante surgiam orelhas proeminentes que pareciam os munhões sobressalentes de cada lado de um canhão. Tal e qual um porco a cavalo, pensou Sharpe.
— Nunca ouvi falar dele.
— Não é de estranhar. Não fez nada — disse Hogan com desdém. — Abastado, membro do Parlamento por Paglesham, juiz de paz e, Deus nos livre, coronel de milícia.
Hogan parecia surpreso pela sua própria falta de benevolência.
— Tem boas intenções. Não se dará por satisfeito até que estes rapazes sejam o melhor batalhão do raio do exército, mas creio que o homem terá um sobressalto quando vir a diferença entre nós e a Milícia.
Tal como outros oficiais, Hogan não tinha tempo a perder com a Milícia, o segundo exército britânico. Era utilizada exclusivamente dentro da Grã-Bretanha, nunca tinha de lutar, os soldados não passavam fome, nem tinham de dormir em campo aberto debaixo de um aguaceiro, no entanto desfilavam com pompa gloriosa e presunção. Hogan riu.
— Não podemos nos queixar. Somos felizardos por termos sir Henry.
— Felizardos? — disse Sharpe olhando para o oficial de engenharia grisalho.
— Claro que sim. Sir Henry chegou precisamente anteontem a Abrantes, mas disse-nos que era um perito na arte da guerra. O homem nem sequer viu um francês, mas já deu lições ao general de como vencê-los! E... — exclamou Hogan rindo e abanando a cabeça — ...talvez aprenda. Uma batalha vai tirar-lhe essa rigidez.
Sharpe olhava para as companhias que desfilavam firmemente como autômatos pela praça. As condecorações de cobre sobre as barretinas refletiam o sol, mas os rostos por baixo do brilho eram inexpressivos. Sharpe adorava o exército, era a sua casa, o refúgio de que um órfão necessitara dezesseis anos antes, mas gostava dele sobretudo porque, de uma maneira torpe, lhe dava a possibilidade de demonstrar, uma e outra vez, que o apreciavam. Podia irritar-se com os ricos e com os privilegiados mas reconhecia que o exército o tinha tirado do abismo e lhe tinha posto uma faixa de oficial, e Sharpe não sabia de outro trabalho que oferecesse a um bastardo de origem modesta e foragido da justiça a possibilidade de graduação e de obter responsabilidade. Mas Sharpe também tivera sorte. Em dezesseis anos praticamente nunca tinha parado de lutar e tivera a sorte de que para as batalhas em Flandres, na Índia e em Portugal tivessem convocado homens que, como ele próprio, reagiam à frente do perigo como um jogador diante de um baralho de cartas. Sharpe suspeitava que iria odiar o exército em tempo de paz, com os seus desfiles religiosos e instruções sem sentido, as suas invejas mesquinhas e os seus requintes intermináveis, e via o exército em tempo de paz que não lhe agradava no South Essex.
— Suponho que ele é dos que gostam de chibatadas.
— Chibatadas, desfiles de castigo, manobras em excesso — acrescentou Hogan com uma careta. — Sir Henry usa tudo isso. Diz que só quer o melhor. E realmente o tem. O que acha deles?
Sharpe riu com aspereza.
— Que Deus me livre do South Essex. Isso não é pedir muito, não acha?
— Receio que seja — respondeu Hogan sorrindo.
Sharpe olhou para ele, sentindo que estava tudo perdido. Hogan encolheu os ombros.
— Disse-lhe que havia mais. Se um regimento espanhol se dirigir para Valdelacasa, Sir Arthur acredita que, a bem da diplomacia, também deve ir um britânico. Para mostrar a bandeira e essas coisas.
Deu uma olhadela às lustrosas fileiras e voltou-se para Sharpe.
— Sir Henry Simmerson e os seus elegantes homens vêm conosco.
Sharpe resmungou.
— Quer dizer que devemos cumprir as ordens dele?
— Não propriamente — respondeu Hogan apertando os lábios. — O tenente vai acatar as minhas ordens.
Tinha falado como jurista, de forma afetada e Sharpe olhou para ele com curiosidade. Só podia haver uma razão para que Wellesley tivesse subordinado Sharpe e os seus fuzileiros a Hogan, em vez de a Simmerson, e isso era porque o general não confiava em Sir Henry. Sharpe ainda não sabia porque precisava dele; no fim de contas Hogan podia esperar a proteção de dois batalhões inteiros, pelo menos mil e quinhentos homens.
— Será que o general pensa que haverá uma batalha?
— Não sabe — respondeu Hogan, encolhendo os ombros. — Os espanhóis dizem que os franceses têm um regimento completo de cavalaria na margem sul, com artilharia pesada, que tem perseguido os guerrilheiros ao largo do rio durante a Primavera. Quem sabe? Acredita que podem tentar impedir que destruamos a ponte.
— Continuo sem entender porque precisa de nós.
— Talvez não precise de nós — sorriu Hogan. — Mas não haverá qualquer outra ação militar durante um mês; os franceses permitirão que nos internemos bem dentro de Espanha antes de nos enfrentar, então Valdelacasa nos dará, pelo menos, a oportunidade de uma escaramuça. Quero comigo alguém em quem confie. Talvez eu só o queira comigo como um favor.
Sharpe sorriu. Um favor, acompanhar um coronel da milícia que pensava saber tudo; porém ocultou os seus sentimentos.
— Por você, Capitão, será um prazer.
— Quem sabe? — disse Hogan, sorrindo também. — Pode ser. A jovem vai embora.
Sharpe seguiu o olhar de Hogan através da janela e viu que a jovem vestida de negro saudava com a mão um oficial do South Essex. Sharpe teve a impressão de que se tratava de um homem louro, de uniforme imaculado, montado num cavalo que provavelmente custara mais do que a promoção do cavaleiro. A jovem impeliu a égua picando-a com as esporas e, seguida pelo criado e pela mula, juntou-se à retaguarda do batalhão que desfilava pelo caminho de Castelo Branco. A praça ficou de novo vazia; o pó assentou no calor abrasador. Sharpe virou-se para trás e começou a rir.
— Do que está rindo? — perguntou Hogan. Sharpe apontou com o copo de conhaque para o casaco andrajoso de Harper e para as suas calças esburacadas.
— Digamos que os novos aliados não vão agradar muito a Sir Henry. o rosto do sargento tornou-se sombria.
— Deus salve a Irlanda.
Hogan ergueu o copo.
— Assim seja.