A Águia de Sharpe

Bernard Cornwell · Capítulo 20 de 29

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A Águia de Sharpe

Capítulo XVIII

 

H oje um homem...

— Sim?

Sharpe olhava de cima para Josefina que estava sentada, nua, em cima da cama, com os joelhos encolhidos, tentando limar as unhas dos pés com o fio da sua espada. Ria das tentativas e então deixou cair a espada e olhou para ele.

— Era lindo. Trazia uma capa azul com traços brancos aqui. — Esfregou o peito com as mãos. — E um monte de cordões dourados.

— A cavalo?

Ela assentiu.

— E levava uma bolsa pendurada...

— Era a bainha do sabre. E uma espada curva?

Ela voltou a assentir e Sharpe sorriu zombeteiramente.

— Esse parece dos dragões do príncipe de Gales. Muito rico.

— Como o sabe?

— Todos os soldados de cavalaria são ricos. Pouco inteligentes, mas ricos.

Ela levantou a cabeça no seu gesto característico e franziu a testa.

— Pouco inteligentes?

— Todos os oficiais de cavalaria o são. O cavalo põe o cérebro e eles o dinheiro.

— Ah, de acordo — disse, encolhendo os ombros nus. — Não interessa. Eu tenho cérebro suficiente para os dois. — Olhou para ele e sorriu, brincalhona — Está com ciúmes?

— Sim.

Ele tinha captado a sua inclinação para a sinceridade. Ela assentiu com ar sério.

— Estou aborrecida, Richard.

— Eu sei.

— Não é por você — disse, levantando os olhos dos pés e olhando fixamente para ele com ar grave. — Você é bom para mim. Mas há uma semana que estamos aqui e não acontece nada.

Sharpe inclinou-se e puxou as botas por cima das calças.

— Não se preocupe. Algo se vai acontecer amanhã.

— Tem certeza?

— Amanhã vamos combater.

Desta vez, pensou, sem dúvida que nos superarão em número. Ela encolheu os joelhos e encostou-os ao corpo, rodeou-os com os braços e pousou o queixo em cima deles.

— Está com medo?

— Sim.

Ela arqueou as sobrancelhas.

— Quem vencerá?

— Não sei.

Ela sorriu.

— Tenho um presente para você depois da batalha.

— Não quero presente nenhum. Quero você.

— Você já me tem.

Ela já sabia o que ele queria dizer, mas dissimulou. Viu-o pôr-se de pé.

— Quer a espada?

— Sim.

Sharpe apertou bem o cinto, pondo a bainha no lugar. Ela sorriu, brincalhona.

— Venha buscá-la.

Pôs a grande espada em cima da cama e rolando por cima dela pôs o ventre nu sobre o aço frio. Sharpe aproximou-se dela.

— Me dê.

— Venha pegá-la.

O corpo dele era cálido e forte, os músculos endurecidos pelo exercício, e colou-se a ele. Sharpe afastou-lhe o rosto e olhou-a fixamente nos olhos.

— O que acontecerá? — perguntou.

— Você conseguirá a sua águia. Você sempre consegue o que quer.

— Quero você.

Ela fechou os olhos e beijou-o com força, depois separou-se e sorriu.

— Somos simplesmente vagabundos, Richard. Andamos juntos sem rumo, mas efetuamos ambos uma travessia.

— Não estou entendendo.

— Sim, entende. Vamos por dois caminhos diferentes. Você quer um lar. Quer alguém que te ame e te deseje, alguém que te alegre o trabalho.

— E você?

Ela sorriu.

— Eu quero vestidos de seda e música. Serões até ao amanhecer.

Ele começou a dizer qualquer coisa, mas ela pôs-lhe um dedo sobre os lábios.

— Já sei o que está pensando. Que é loucura, mas é isso que eu quero. Talvez um dia queira uma coisa mais sensata.

— Eu sou sensato?

— Por vezes, querido, quando leva as coisas a sério demais.

— Estás se despedindo?

— Aí está! — disse rindo. — Está vendo? Leva as coisas muito a sério.

Beijou-o fugazmente na ponta do nariz.

— Volte depois da batalha. Venha buscar seu presente.

Ele abaixou-se para agarrar o punho da espada.

— Afaste-se, não quero te cortar.

Ela moveu-se para um lado e tocou a lâmina com o dedo.

— Quantos homens já matou com ela?

— Não sei.

Deslizou-a por entre a bainha, sentiu o seu peso agradável na anca. Pôs-se de cócoras junto à cama e abraçou-lhe a cintura nua. Olhou fixamente para o corpo dela, como se tentasse gravá-lo na memória: a sua plenitude, a sua beleza, o mistério que o fazia parecer inatingível. Acariciou-lhe o rosto com um dedo.

— Vá lutar.

— Eu voltarei.

— Eu sei.

 

Tudo parecia irreal a Sharpe. Os soldados pelas ruas de Talavera, as pessoas que se afastava ao passar, a tarde em si. No dia seguinte haveria uma batalha. Centenas morreriam, mutilados pelas balas, abertos pelos sabres da cavalaria, atravessados pelos tiros de mosquete, e, no entanto, a cidade fervilhava. Alguns estavam apaixonados, compravam comida, contavam piadas e, no entanto, haveria uma batalha. Ele amava Josefina. A muito custo podia pensar na batalha, na águia, apenas no seu rosto malicioso. Ela lhe escapava, bem sabia, no entanto não aceitava isso. A batalha era quase irrelevante face à irresistível necessidade de agarrá-la, de torná-la sua, e sabia que isso não podia ser.

Encaminhou-se para a porta da cidade que dava para a planície a oeste. A Companhia Ligeira fazia guarda à porta; Sharpe fez com a cabeça um sinal a Harper e subiu as inclinadas escadas do parapeito, onde Hogan olhava fixamente para baixo em direção aos olivais e aos bosques que estavam cheios de soldados espanhóis desfilando para as posições que Wellesley cuidadosamente lhes havia designado. Cuesta, após ter se negado a atacar no domingo anterior, tinha marchado impetuosamente atrás dos franceses que se retiravam. Agora, quatro dias depois, o seu exército regressava correndo, com o rabo entre as pernas, arrastando atrás de si um exército francês que tinha se multiplicado por dois. Amanhã, pensava Sharpe, os espanhóis teriam de lutar, os franceses os acordariam, o exército aliado que podia ter conseguido uma vitória no domingo anterior teria agora de lutar na defensiva contra as forças unidas de Victor, Jourdan e José Bonaparte.

Não que os espanhóis tivessem muito a ver com o morticínio propriamente dito, pensou Sharpe. Wellesley fizera retroceder o seu exército de modo a criar uma linha defensiva junto à cidade de Talavera. A extrema-direita da linha era constituída pelas muralhas da cidade, pelos olivais, campos e bosques emaranhados, tudo tornado inexpugnável graças ao bom trabalho de Hogan, Tinha abatido árvores, construído rapidamente trincheiras, reforçado as muralhas, e as tropas espanholas tomaram posições nessa teia de barricadas e obstáculos. Nenhum soldado de infantaria francês podia esperar abrir passagem pelo parapeito de Hogan desde que os defensores se mantivessem nos postos; conseqüentemente o exército francês viraria para norte, para o lado esquerdo da linha de Wellesley, onde os britânicos aguardariam o ataque. Sharpe olhou para a planície a norte. Nenhum oficial de engenharia teria disposto os obstáculos de melhor maneira, restava apenas o curso do Portina, que podia ser atravessado por um homem sem que a água lhe entrasse nas botas, e um prado ondulante que era um convite para os batalhões franceses e para as suas compridas linhas de esplêndida cavalaria. À distância estava o Medellín, o monte que dominava a planície, e Sharpe tinha experiência suficiente para saber o que iria acontecer no dia seguinte. As colunas francesas atravessariam o curso de água e atacariam as suaves encostas do Medellín. Era esse o lugar mortal. Trinta mil dos efetivos das tropas espanholas, podiam ficar a salvo atrás dos parapeitos e ficar vendo enquanto as Águias atacavam os britânicos na planície aberta do Norte e a fumaça cobria o Medellín.

— Como se sente? — perguntou Hogan.

— Bem — sorriu Sharpe.

O irlandês virou-se para ver como os espanhóis ocupavam as posições que ele tinha preparado. Na planície do outro lado, ocultos entre as árvores onde o Alberche despejava as suas águas no Tejo, ouviu-se o ruído dos mosquetes. Durante toda a tarde houve algo parecido a um incêndio florestal distante e Sharpe viu dezenas de britânicos feridos levados através das portas da cidade. Os britânicos tinham coberto a última milha da retirada espanhola e os feridos diziam que os atiradores franceses tinham triunfado naquele dia. Dois batalhões britânicos tinham sido maltratados, corria até o rumor de que por pouco não tinham capturado o próprio Wellesley. Os espanhóis pareciam nervosos e Sharpe interrogava-se sobre que tipo de tropas teriam arranjado os franceses para lançar contra o exército aliado. Baixou os olhos para Harper. O sargento, com uma dezena de homens, fazia guarda à porta da cidade, não contra o inimigo, mas sim para deter os soldados britânicos ou espanhóis que se sentissem tentados a perder-se pelas ruelas obscuras de Talavera e se livrarem da luta que era inevitável. O batalhão estava em Medellín e Sharpe esperava ordens que enviassem a sua companhia pelo baixo Portina até encontrar o pedaço de erva que tinha de defender pela manhã.

— E como está a garota? — perguntou Hogan sentado numa pedra poeirenta.

— Está infeliz. Aborrecida.

— As mulheres são assim. Nunca estão contentes. Precisa de mais dinheiro?

Sharpe olhou para o oficial de engenharia de meia-idade e viu preocupação nos seus olhos. Hogan tinha emprestado mais de vinte guinéus a Sharpe, uma quantia que lhe seria impossível devolver a menos que tivesse sorte no campo de batalha.

— Não, por hora é suficiente.

Hogan sorriu.

— Tem sorte — disse encolhendo os ombros. — Pelo amor de Deus, Sharpe, ela é uma criatura adorável. Está apaixonado?

Sharpe olhou por cima do parapeito onde os espanhóis tinham ocupado as fortalezas provisórias de Hogan.

— Ela não deixará que eu chegue a isso.

— Então é mais sensata do que eu pensava.

A tarde passou lentamente. Sharpe pensou nela, aborrecida no quarto, e observou os soldados espanhóis que cortavam faias e sobreiros para acenderem as fogueiras da noite. Então, com uma brusquidão que Sharpe não esperava, viram-se clarões de luz distantes entre as confusas árvores e arbustos que ladeavam a planície a leste. Sabia que era o sol, que se refletia nos mosquetes e nos peitilhos. Sharpe deu uma ligeira cotovelada em Hogan e apontou para lá.

— Os franceses.

Hogan pôs-se de pé e ficou olhando fixamente.

— Meu Deus — disse em voz baixa. — São muitos.

A infantaria avançava para a longínqua planície como uma mancha escura espalhando-se sobre a erva. Sharpe e Hogan observavam como batalhão atrás de batalhão marchavam sobre os campos pálidos; esquadrão atrás de esquadrão de cavalaria, as pequenas formas rechonchudas dos canhões espalhadas entre as formações, o maior exército que Sharpe já tinha visto num campo. As galopantes figuras dos oficiais do estado-maior podiam distinguir-se com facilidade, uma vez que dirigiam as colunas para os seus postos, prontas para avançar e para a batalha do dia seguinte. Sharpe olhou para a esquerda para as fileiras britânicas que esperavam junto ao Portina. A fumaça de centenas de fogueiras impregnava o ar do entardecer, uma multidão de homens apinhados junto ao curso de água e, no Medellín, longe da vista do inimigo. Todavia as forças britânicas pareciam lamentavelmente pequenas em relação à enorme maré de homens, cavalos e canhões que cobria a planície para leste e crescia a cada minuto. O irmão de Napoleão, o rei José, estava ali juntamente com dois marechais da França, Victor e Jourdan. Comandavam sessenta e cinco batalhões de infantaria, uma parte enorme dos homens que tinham feito da Europa propriedade de Napoleão, e tinham vindo bater naquele pequeno exército britânico e enviá-lo destroçado para o mar. Planejavam destruí-lo para sempre e garantirem que a Grã-Bretanha nunca mais se atreveria a desafiar as águias em terra.

Hogan assobiou de leve.

— Atacarão esta noite?

— Não — respondeu Sharpe, examinando as linhas distantes. — Vão esperar pela artilharia.

Hogan apontou para leste, que ia escurecendo.

— Eles tem canhões. Olhe, estão lá atrás.

Sharpe balançou a cabeça.

— Esses são só os pequenos que acompanham todos os batalhões de infantaria. Não, os grandes filhos da mãe devem estar lá atrás, em algum lugar no caminho. Chegarão de noite.

E pela manhã, pensou, os franceses começariam com um dos seus favoritos ataques de canhão, a artilharia concentrada lançaria a sua chuva de ferro contra as linhas inimigas antes que as colunas densas e acompanhadas de tambores seguissem as Águias atravessando o curso de água. As táticas francesas raramente eram sutis. A inteligente manobra de rodear o flanco de um inimigo não era típica deles. Em vez disso, uma vez e outra, concentravam os canhões e os homens e lançavam um terrível matraqueio sobre as linhas inimigas; e uma vez e outra, saíam bem. Encolheu os ombros.

Quem precisava de ser sutil? Os canhões e os soldados franceses tinham destroçado todos os exércitos enviados contra eles.

Ouviu gritos atrás de si, atravessou a ameia e olhou para baixo para a porta onde Harper e os seus homens estavam de guarda. O tenente Gibbons estava ali com Berry, ambos a cavalo, ambos gritando a Harper. Sharpe inclinou-se por cima do parapeito.

— O que está acontecendo? — Gibbons voltou-se lentamente. Sharpe percebeu que o tenente estava ligeiramente embriagado e tinha alguma dificuldade em se manter sobre o cavalo. Gibbons saudou Sharpe com a sua habitual ironia.

— Não o tinha visto, senhor. Lamento. — Inclinou-se. O tenente Berry soltou uma gargalhadinha. Gibbons endireitou-se. — Apenas estava dizendo ao seu sargento, aqui, que já pode regressar, de acordo?

— Mas pelo caminho pararam para beber alguma coisa, não foi?

Berry soltou uma sonora gargalhada. Gibbons olhou para ele e pôs-se também a rir. Voltou a inclinar-se.

— Digamos que sim, Capitão.

Os dois tenentes meteram esporas nos cavalos e começaram a subir o caminho para as linhas britânicas a norte. Sharpe viu-os ir.

— Canalhas.

— Causaram-lhe problemas? — perguntou Hogan sentado no parapeito.

— Não — respondeu Sharpe abanando a cabeça. — São apenas insolências, comentários idiotas, já sabe.

Pensou em Josefina. Hogan pareceu ler os seus pensamentos.

— Está pensando na moça?

— Sim — assentiu Sharpe. — Mas deveria estar bem — disse como se pensasse em voz alta. — Ela fecha a porta à chave. Estamos no último andar e não sei como poderiam nos encontrar.

Voltou-se para Hogan e sorriu.

— Deixe de se preocupar. Não fizeram nada; são covardes. Já desistiram!

Hogan balançou a cabeça em sinal de desacordo.

— Eles o matariam, Richard, lamentariam tão pouco como se sacrificassem um cavalo coxo. Lamentariam ainda menos. E quanto à garota, também tentariam fazer-lhe mal.

Sharpe virou-se para o espetáculo da planície. Sabia que Hogan tinha razão, sabia que havia muitas coisas por resolver, mas não era a sua vez de jogar; teria de esperar até depois da batalha. As tropas francesas tinham inundado o extremo da planície, fluíam entre bosques e casas, avançando sempre para o riacho e para a colina de Medellín. Escureciam a planície, enchiam-na com uma maré de homens pintalgados de aço, e continuavam a chegar; hussardos, dragões, lanceiros, caçadores, granadeiros e voltigeurs, os seguidores das Águias, os homens que tinham construído um império, o velho inimigo.

— Um trabalho duro para amanhã — disse Hogan, abanando a cabeça enquanto observava os franceses.

— Realmente — respondeu Sharpe e voltou-se para chamar Harper. — Venha cá!

O enorme sargento irlandês subiu correndo pela muralha caída e parou junto aos dois oficiais. Nas linhas francesas brilhou a primeira de milhares de fogueiras. Harper balançou a grande cabeça.

— Talvez se esqueçam de acordar amanhã.

Sharpe riu.

— Só têm de se preocupar com a manhã seguinte.

— Pergunto-me com mais quantos exércitos como este teremos de enfrentar, antes de estar tudo acabado — disse Hogan, pondo a mão em pala sobre os olhos.

Os dois fuzileiros não disseram nada. Tinham estado com Wellesley, no ano anterior, quando tinha derrotado os franceses na Roliça e no Vimeiro, todavia este exército era dez vezes maior do que o dos franceses na Roliça, três vezes maior do que o de Junot no Vimeiro e duas vezes maior do que o que tinham expulso de Portugal na Primavera. Era como se para cada francês morto saíssem outros dois ou três do depósito, e quando os matassem então vinha mais uma dúzia, e assim sucessivamente. Harper sorriu com malícia.

— Não vale a pena nos preocuparmos enquanto os observamos. O homem sabe o que faz.

Sharpe concordou. Wellesley não estaria à espera deles por trás do Portina se acreditasse que o dia seguinte lhes traria uma derrota. De todos os generais britânicos era o único em que os homens que levavam as armas confiavam, sabiam que tinha compreendido como tinha de lutar contra os franceses e, o mais importante, quando não tinha de lutar contra eles. Hogan apontou com o dedo.

— O que é aquilo?

A uns três quartos de milha de distância cavaleiros franceses disparavam com as suas carabinas. Sharpe não via o alvo. Observou as nuvens de fumaça e ouviu um débil estalido.

— Dragões.

— Isso eu já sei — disse Hogan. — Mas contra o que estão disparando?

— Serpentes?

Durante os seus passeios pelo Portina, Sharpe tinha reparado em pequenas serpentes pretas que ondulavam misteriosamente por entre a erva úmida junto ao riacho. Ele as tinha evitado mas supusera que possivelmente também viveriam na planície e os cavaleiros estavam simplesmente se divertindo com exercícios de pontaria. Já era tarde e as chamas das bocas das carabinas brilhavam intensamente à luz do crepúsculo. Era estranho, pensou Sharpe, como a guerra tantas vezes parecia bonita.

— Ora — disse Harper, apontando para baixo. — Acordaram os nossos valentes aliados. Parece um maldito formigueiro.

Por baixo da muralha, a infantaria espanhola estava nervosa. Os homens abandonaram as fogueiras e alinharam atrás da muralha de terra e pedras e puseram os mosquetes sobre os troncos caídos e amontoados que Hogan tinha colocado nas portas. Alguns oficiais permaneciam na muralha, com as espadas desembainhadas; ouviam-se gritos e empurrões, os homens apontavam nos distantes dragões e nos seus mosquetes refulgentes.

Hogan riu.

— Dá gosto ter aliados.

Os dragões, muito afastados para serem vistos com nitidez, continuavam a disparar contra o alvo invisível. Sharpe chegou à conclusão de que não passava de brincadeira. Os franceses pareciam alheios ao pânico que estavam causando entre as tropas espanholas. Todos os soldados da infantaria espanhola tinham se amontoado contra o parapeito, com as costas iluminadas pelas fogueiras, e os mosquetes apontados para o campo vazio. Os oficiais cuspiam ordens e Sharpe viu com horror que centenas de mosquetes estavam sendo carregados.

— Que diabo estão fazendo?

Ouviu o som das baquetas ao serem introduzidas nos canos das armas e viu que os oficiais levantavam as espadas.

— Observe isto — disse Hogan. — Pode aprender alguma coisa.

Não foi dada qualquer ordem. Em vez disso, um único mosquete disparou, a bala tamborilou inutilmente na erva, e seguiu-se a maior descarga que Sharpe já tinha ouvido. Milhares de mosquetes dispararam, soltando chamas e fumaça, e um trovão ribombou pelo ar; o som pareceu durar eternamente e, misturado com ele, ouviram-se os gritos dos espanhóis. O fogo e o chumbo entornaram-se sobre o campo vazio. Os dragões levantaram os olhos, sobressaltados, mas nenhuma bala de mosquete atingiria sequer um terço daquela distância, por isso ficaram sentados nas selas e observaram a nuvem de fumaça dos mosquetes elevando-se no ar.

Por um momento, Sharpe pensou que os espanhóis estavam celebrando a vitória frente à erva inocente mas, de repente, percebeu que os gritos não eram de triunfo mas sim de alarme. Tinham se assustado com a sua própria descarga, com o troar de dez mil mosquetes, e agora corriam para pôr-se a salvo. Cerca de um milhar fugiu por entre as oliveiras, largando os mosquetes, pisando as fogueiras, apanhados pelo pânico, pedindo ajuda aos gritos, com a cabeça levantada, agitando os braços para cima e para baixo, fugindo do seu próprio ruído. Sharpe gritou para os seus homens que estavam na porta:

— Deixem-nos passar!

Não havia razão para tentar deter o pânico. Os doze homens de Sharpe seriam envolvidos pelas centenas de espanhóis que se juntaram junto à porta e entraram na cidade. Outros viraram em direção a norte para os caminhos que levavam para o oeste afastando-se dos franceses. Saqueariam o parque de bagagens, assaltariam as casas da cidade, semeariam o susto e a confusão mas não havia nada a fazer. Sharpe reparou que a cavalaria espanhola usava as espadas contra a infantaria fugitiva. Deteriam alguns, talvez pela manhã tivessem reunido a maior parte deles, mas o grosso da infantaria espanhola tinha se evaporado, assustada, derrotada por um punhado de dragões a três quartos de milha. Sharpe começou a rir. Era divertido demais, estúpido demais, sem dúvida muito próprio daquela campanha. Viu que a cavalaria espanhola ceifava furiosamente a infantaria, obrigando alguns grupos a regressar à linha, e, à distância, ouviu os clarins que pediam reforços para a caçada. Na planície, as fogueiras francesas formavam linhas de luz, milhares e milhares de chamas assinalando as linhas inimigas, e nenhum dos homens que estavam à volta dessas fogueiras saberia que acabavam de derrotar milhares de soldados da infantaria espanhola. Sharpe deixou-se cair sobre a muralha e olhou para Harper.

— Dizia alguma coisa, sargento?

— Senhor?

— Deus salve a Irlanda? Não poderá. Está com as mãos ocupadas com os espanhóis.

O ruído e o pânico diminuíram. Restava um punhado de homens no olival, outros eram trazidos de volta pela cavalaria espanhola, mas Sharpe calculou que os cavaleiros levariam a noite toda para reunir os fugitivos e a obrigá-los a voltar para os parapeitos, e, mesmo assim, milhares escapariam para propagar o rumor de uma grande vitória francesa nos arredores de Talavera. Sharpe pôs-se de pé.

— Venha, sargento, está na hora de regressarmos ao batalhão.

Uma voz chamou da rua.

— Capitão Sharpe! Senhor!

Um fuzileiro gesticulava e, junto a ele, estava Agostinho, o criado de Josefina. Sharpe sentiu que o seu humor descontraído desaparecia e via-se substituído por um susto horroroso. Desceu correndo pelo muro caído, Harper e Hogan atrás dele, e encaminhou-se para os dois homens.

— O que aconteceu?

Agostinho começou a falar português. Era um homem pequeno que normalmente falava pouco e olhava para tudo com os seus grandes olhos. Sharpe levantou a mão para pedir-lhe que se calasse.

— O que ele diz?

Hogan sabia português suficiente. O oficial de engenharia umedeceu os lábios.

— É Josefina.

— O que lhe aconteceu?

Sharpe teve um pressentimento frio de desgraça. Deixou que Hogan lhe pegasse no cotovelo e o afastasse, com Agostinho, dos ouvidos dos fuzileiros.

Hogan fez mais perguntas, deixou que o criado falasse, e finalmente voltou-se para Sharpe.

— Eles a atacaram. Fecharam Agostinho num armário.

— Eles?

Já conhecia a resposta. Gibbons e Berry. O sargento Harper aproximou-se deles, com um tom formal e correto.

— Senhor?

— Sargento?

Sharpe engoliu as centenas de temores que lhe restavam para poder ouvir Harper.

— Eu levo o homem, Capitão.

Sharpe anuiu. Ocorreu-lhe que Patrick Harper sabia mais do que se estava acontecendo do que ele supunha. Atrás das suas palavras cautelosas havia uma preocupação que fez com que Sharpe lamentasse não ter tido mais confiança em Harper. O irlandês também mostrava uma ira contida. Os seus inimigos, queria ele dizer, são os meus.

— Siga, sargento.

— Sim, Capitão. E o senhor? — disse Harper aflito. — Me permitirá saber o que está acontecendo?

— Sim, sargento.

Sharpe e Hogan correram pelas ruas escuras, resvalando na porcaria, abrindo passagem entre os fugitivos que estavam forçando as portas das tabernas e de casas particulares. Hogan arquejava para se manter junto ao fuzileiro. Seria uma noite ruim para Talavera, uma noite de saque, destruição e violação. Amanhã milhares de homens marchariam contra uma voragem de fogo e Hogan, vislumbrando o rosto de Sharpe quando rosnava aos soldados de infantaria espanhóis que se afastassem do seu caminho, temia pelo mal que parecia brotar com a antecipação da manhã. Chegaram por fim à pequena rua em que vivia Josefina e Hogan levantou os olhos para as silenciosas janelas, com as portas exteriores fechadas, e rogou que Sharpe não destruísse a si próprio com a sua enorme ira.