A Águia de Sharpe

Bernard Cornwell · Capítulo 5 de 29

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A Águia de Sharpe

Capítulo III

 

N ão posso acreditar, senhor. Diga-me que não é verdade — o sargento Patrick Harper balançou a cabeça enquanto olhava, junto a Sharpe, como a Companhia Ligeira do South Essex disparava duas descargas às ordens de um tenente.

— Envie este batalhão para a Irlanda, Tenente. Seríamos um país livre em duas semanas! Não repeliriam nem o coro de uma igreja!

Sharpe confirmou tristemente. Não que os homens não soubessem carregar os mosquetes e dispará-los; simplesmente faziam-no com uma lentidão indolente e seguindo fielmente o livro de instruções que os sargentos impunham rigorosamente. Oficialmente havia vinte movimentos para carregar e disparar um mosquete, dos quais cinco se referiam a como se devia usar a baqueta de aço para meter a bala e carregar o cano, e a insistência do batalhão em fazê-lo conforme o livro, significava que Sharpe tinha cronometrado para os dois tiros de prova um tempo de mais de sessenta segundos. Tinha três horas, quando muito, para fazê-los chegar a vinte segundos por tiro e compreendia a reação de Harper perante semelhante tarefa. O sargento era claramente insolente.

— Deus nos livre de ter de enfrentar uma escaramuça ao lado destes sujeitos! Os franceses nos comeriam no café da manhã!

Tinha razão. Se a companhia nem sequer estava bem instruída para se manter na frente de batalha, ainda menos conseguiria enfrentar escaramuças com as tropas ligeiras em frente ao inimigo. Sharpe fez Harper calar-se quando um capitão de cavalaria se dirigiu para eles a trote. Era Lennox, capitão da Companhia Ligeira, que sorriu zombeteiramente para Sharpe.

— Terrível, não é verdade?

Sharpe não sabia o que responder. Confirmar poderia ser considerado uma crítica àquele escocês grisalho que parecia bastante amistoso. Sharpe deu uma resposta pouco comprometedora e Lennox desceu da sela para se pôr a seu lado.

— Não se preocupe, Sharpe. Já sei que são ruins, mas Sua Eminência insiste em fazê-lo desta maneira. Se deixasse por minha conta, faria com que os canalhas o fizessem direito, mas se saltamos uma única linha do regulamento então, são três horas de manobras com as mochilas carregadas — disse, olhando para Sharpe intrigado. — Esteve em Assaye?

Sharpe assentiu e Lennox voltou a sorrir.

— Sim, recordo-me de você. Nesse dia tornou-se famoso. Eu estava com o 78º.

— Eles também se tornaram famosos.

Lennox gostou da amabilidade. Sharpe lembrou-se do campo indiano e da imagem do Regimento das Terras Altas desfilando em perfeita ordem para assaltar as linhas de Mahratta. Abriram-se grandes brechas nas fileiras escocesas enquanto marchavam lentamente para a tempestade de artilharia, mas os escoceses tinham feito bem o seu trabalho massacrando os artilheiros e tinham carregado com ousadia frente à enorme massa de infantaria inimiga que não teve coragem para contra-atacar um regimento que parecia invencível. Lennox balançou a cabeça.

— Já sei o que pensa, Sharpe. Que diabos faço eu aqui com este bando? — Não esperou pela resposta. — Sou um velho, estava na reserva, mas a minha mulher morreu, o meio vencimento já não dava e precisavam de oficiais para o maldito Sir Henry Simmerson. Assim, estou aqui. Conhece Leroy?

— Leroy?

— Thomas Leroy. Também é capitão. É bom. Forrest é um tipo decente. Mas o resto! Só por vestirem um uniforme elegante pensam que são guerreiros. Olhe para aquele ali!

Apontou para Christian Gibbons, que montava o seu cavalo preto em direção ao campo.

— O tenente Gibbons? — perguntou Sharpe.

— Já o conhece? — riu Lennox. — Então não lhe vou dizer nada do senhor Gibbons, exceto que é sobrinho de Simmerson, que nada lhe interessa a não ser as mulheres e que é um canalha arrogante. Maldito inglês! Desculpe-me, Sharpe.

Sharpe riu.

— Nem todos somos assim tão maus.

Reparou que Gibbons trazia delicadamente o cavalo a passo e se detinha a poucos metros deles. O tenente ficou olhando fixamente com arrogância para os dois oficiais. Então aquele, pensou Sharpe, era sobrinho de Simmerson?

— Precisam de nós aqui, Capitão?

Lennox balançou a cabeça.

— Não, senhor Gibbons. Vou deixar Knowles e Denny com o tenente Sharpe enquanto opera os seus milagres.

Gibbons tocou no chapéu e foi embora, esporeando o cavalo. Lennox viu-o afastar-se.

— Este não faz nada errado. É a menina dos olhos remelentos do coronel.

Virou-se e saudou a companhia.

— Deixo-lhe o tenente Knowles e o alferes Denny, ambos são bons rapazes mas mal ensinados por Simmerson. Têm um ou outro soldado veterano, isso será uma ajuda, e boa sorte, Sharpe, vai precisar dela! — Grunhiu enquanto subia para a sela. — Bem-vindo ao manicômio, Sharpe!

Sharpe ficou com a companhia, com os seus jovens oficiais e com as fileiras de rostos mudos que o olhavam fixamente, temerosos por algum novo tormento planejado pelo seu coronel. Caminhou para a frente da companhia, olhando para as caras vermelhas que inchavam com os pescoços apertados e brilhantes do suor, causado pelo calor intenso, e virou-se para eles.

Tinha a casaca desabotoada, a camisa aberta e não usava chapéu. Para os homens do South Essex era como um visitante de outro continente.

— Agora estão em guerra. Quando encontrarem os franceses muitos de vocês morrerão. A maioria. — Aquelas palavras assustavam-nos. — Vou lhes dizer porquê. — Apontou para o horizonte, para leste. — Os franceses estão por ali, à sua espera.

Alguns dos homens olharam para lá como se esperassem que o próprio Bonaparte surgisse através dos olivais dos arredores de Castelo Branco.

— Eles têm mosquetes e todos eles podem disparar três ou quatro cargas por minuto. Dirigidas contra vocês. E vão matá-los porque vocês são muito lentos. Se não os matarem primeiro, eles os matarão, é muito simples. Você, — disse, assinalando um homem da primeira fila —, traga-me o seu mosquete!

Pelo menos tinha atraído a atenção e alguns deles entenderiam o fato muito simples de que o lado que disparasse mais balas tinha mais chances de ganhar. Agarrou o mosquete do homem, um punhado de cartuchos e pousou a sua espingarda. Susteve o mosquete por cima da cabeça e começou pelo princípio.

— Olhem para ele! Um mosquete do tipo Índia. Cinqüenta e cinco polegadas e um quarto de comprimento com dois canos de trinta e nove polegadas. Dispara balas de três quartos de polegada, quase tão largas como um dedo médio, e até mata franceses!

Ouviu-se um riso nervoso, mas os homens o escutavam.

— Porém, com ele, não matarão nem um francês. Vocês são muito lentos! No tempo que demoram para efetuar dois disparos o inimigo provavelmente consegue fazer três. E acreditem em mim, os franceses são lentos. Assim, esta tarde aprenderão a disparar três cargas por minuto. Com o tempo, dispararão quatro por minuto e, se forem realmente bons, poderão chegar a cinco!

A companhia observava-o carregar o mosquete. Havia tempo que não disparava com uma espingarda de alma lisa, mas comparado com a espingarda de Baker era ridiculamente fácil. O cano não tinha ranhuras para prender a bala e não era preciso empurrar a baqueta com força bruta nem mesmo encaixá-la com golpes. Um mosquete era carregado tão rapidamente que, por essa razão, a maior parte dos exércitos o usavam em vez da espingarda, mais lenta mas muito mais precisa. Experimentou a pederneira, que era nova e estava bem colocada, pegou a arma e a levantou.

— Tenente Knowles?

O jovem tenente pôs-se em sentido.

— Sim, tenente!

— Tem relógio?

— Sim, tenente.

— Pode cronometrar um minuto?

Knowles sacou de um enorme relógio de bolso de ouro e abriu a tampa em seguida.

— Sim, tenente.

— Quando eu disparar, o senhor vai olhar para o relógio e me avisa quando tiver passado um minuto. Entendido?

— Sim, tenente.

Afastou-se da companhia e apontou o mosquete para um muro de pedra. Por Deus, rezou, que não falhe o tiro, e premiu o gatilho. O cão, com a sua pederneira agarrada, deu um salto para a frente, a pólvora da caçoleta incendiou-se, no instante a seguir explodiu a carga principal e ele sentiu o forte coice quando a bala de chumbo saiu disparada entre fumaça branca e espessa.

Agora tudo era instintivo; os movimentos que nunca eram esquecidos. A mão direita fora do gatilho, deixar cair a arma sobre a mão esquerda e quando a culatra toca no chão a mão direita já tem o cartucho seguinte. Arrancar a cápsula com os dentes. Vazar a pólvora para o cano mas lembrando-se de guardar uma pitada para a isca. Cuspir na bala. Movimentar a baqueta para cima e para baixo no cano. Um empurrão rápido e já estava mais uma vez de fora, o cano para cima, o percussor no lugar, pôr isca na caçoleta e disparar em meio a fumaça que restava do primeiro tiro.

Assim uma e outra vez, e as recordações de permanecer na linha junto a camaradas suados e com olhos enlouquecidos e ir continuando os movimentos como num pesadelo. Sem se importar com as ondas de fumaça, de gritos, aproximando-se pela esquerda e pela direita para preencherem os espaços deixados pelos mortos, só carregar e disparar, carregar e disparar, deixando que as chamas cuspam para a bruma de fumaça de pólvora, que as balas de chumbo batam contra o inimigo que não se vê e esperando que não se retire. Então ouve-se a voz de alto ao fogo e obedece-se, com o rosto negra e picada pelas explosões de pólvora na caçoleta a algumas polegadas da face direita, os olhos queimando da fumaça e dos grãos de pólvora, e quando essa fantasmagórica cortina se levanta aparecem pela frente os mortos e feridos, apoiamo-nos no mosquete e rezamos para que da próxima vez a arma não parta a pederneira ou pura e simplesmente se negue a disparar.

Sharpe apertou o gatilho pela quinta vez e a bala bateu ao longe no campo; o mosquete já estava apoiado no chão e a pólvora no cano antes de Knowles gritar: “Acabou o tempo!”

Os homens vibraram, riram e aplaudiram por um oficial ter ultrapassado as normas e mostrar que podia fazê-lo. Harper sorria abertamente. Ele pelo menos sabia quão difícil que era efetuar cinco disparos num minuto e Sharpe sabia que o sargento tinha reparado que astutamente fizera o primeiro disparo antes que se começasse a cronometrar. Sharpe fez calar o ruído.

— É assim que se utiliza um mosquete. com rapidez! Agora vocês vão fazer o mesmo.

Fez-se silêncio. Sharpe sentiu o diabo no corpo; por acaso não lhe dissera Sharpe que usasse os seus próprios métodos?

— Tirem os colarinhos!

Ninguém se mexeu. Os homens olharam fixamente para ele.

— Vamos! Depressa! Tirem os colarinhos!

Knowles, Denny e os sargentos observavam, espantados, enquanto os homens sustinham os mosquetes entre as pernas e utilizavam ambas as mãos para arrancarem com força os duros colarinhos de pele.

— Sargentos! Recolham os colarinhos. Tragam-nos aqui.

O batalhão fora tratado com muita brutalidade. Não havia maneira de lhes ensinar a ser soldados rápidos em disparar, a menos que lhes oferecesse a oportunidade de se vingarem do sistema que os tinha condenado a ser um batalhão de chicoteados. Os sargentos aproximaram-se dele, com ar desconfiado, e levando nos braços os odiosos colarinhos.

— Ponham-nos aqui.

Sharpe fez com que amontoassem os setenta e tantos colarinhos, uns quarenta passos à frente da companhia. Apontou para o monte brilhante.

— É esse o alvo! Cada um de vocês fará três disparos. Só três. E terão de efetuá-los em apenas um minuto! Os que conseguirem duas vezes seguidas, poderão ir embora e têm a tarde livre. Os outros continuarão a tentar uma e outra vez até serem capazes.

Deixou que os oficiais organizassem o exercício. Os homens sorriram amplamente e levantou-se um murmúrio entre as fileiras que ele não tentou acalmar. Os sargentos olhavam para ele como se tivesse cometido uma traição, mas ninguém se atreveu a contrariar o fuzileiro alto e moreno com a espada comprida. Quando estava tudo preparado Sharpe deu o sinal e as balas começaram a esbarrar contra o monte de pele. Os homens esqueceram as antigas instruções e concentraram-se em disparar o seu ódio contra os colarinhos de pele que lhes tinham ferido a carne e que representavam Simmerson e toda a sua tirania. No final das primeiras sessões apenas vinte homens tinham conseguido, quase todos soldados veteranos que tinham voltado a se alistar no novo batalhão, mas uma hora e três quartos mais tarde, quando o Sol avermelhava por trás de si, o último homem disparou a última bala em direção aos fragmentos de pele rígida que manchavam a erva.

Sharpe fez formar toda a companhia em duas filas e olhou para elas, satisfeito, quando soaram três descargas sob as ordens de Harper. Olhou através da fumaça branca que ainda flutuava no ar parado até ao horizonte, a leste. Ali, na Estremadura, os franceses estavam à espera, com as suas águias reunidas para a batalha que em breve chegaria, enquanto atrás dele, pelo caminho que vinha da cidade, via-se vir Henry Simmerson, disposto a proclamar a sua vitória e orgulhar-se das suas vítimas no triângulo.

— O que nos vem para cima — disse Harper baixinho.

— Cale-se! Faça-os carregar. Vamos fazer uma demonstração. — Sharpe viu os olhos de Simmerson quando lentamente começou a perceber o significado dos colarinhos desabotoados dos seus homens e das orlas de pele em cima da erva. Sharpe reparou que o coronel respirava fundo.

— Prontos! Fogo!

A ordem de Sharpe resultou numa descarga completa que ribombou como um trovão no vale. Se Simmerson gritava agora, as suas palavras perdiam-se por entre o ruído. Ao coronel só restava observar que os seus homens manejavam os mosquetes como veteranos às ordens de um sargento de fuzileiros, ainda maior que Sharpe, cujo rosto largo e confiante era dos que sempre haviam posto Sir Henry furioso, provocando as suas frases mais violentas desde o assento bem protegido de magistrado em Chelmsford.

A última carga sacudiu a parede de pedra e Forrest voltou a meter o relógio no bolso.

— Faltam dois segundos para o minuto, Sir Henry, e quatro tiros.

— Sei contar, Forrest.

Quatro tiros? Simmerson estava impressionado porque secretamente tinha se desesperado a ensinar os seus homens a disparar com rapidez, em vez de manusearem nervosamente os mosquetes. Mas os colarinhos de uma companhia! E no dia em que o sobrinho tinha voltado a cheirar como um moço de estrebaria!

— Maldito seja, Sharpe!

— Sim, Coronel.

A fumaça irritante da pólvora fez com que o cavalo de Sir Henry desse um esticão com a cabeça e o coronel acercou-se para acalmá-lo. Sharpe observou o gesto e pensou que tinha posto o coronel em ridículo ante os seus próprios homens, e também que isso tinha sido um erro. Sharpe tinha ganho uma pequena batalha, mas tinha feito um inimigo poderoso e influente. O coronel aproximou o cavalo de Sharpe e a sua voz era surpreendentemente calma.

— Este é o meu batalhão, senhor Sharpe. O meu batalhão. Lembre-se disso.

Por um momento pareceu que a sua ira ia rebentar, mas susteve-a e em vez disso, gritou a Forrest que o seguisse. Sharpe deu a volta e foi embora. Harper estava sorrindo brincalhão, os homens pareciam satisfeitos, e apenas Sharpe teve o pressentimento de uma ameaça, como um inimigo invisível que estivesse se aproximando. Afastou esse sentimento. Havia mosquetes para limpar, rações a distribuir e, depois das colinas limítrofes, inimigos suficientes para todos.