A Águia de Sharpe

Bernard Cornwell · Capítulo 14 de 29

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A Águia de Sharpe

Capítulo XII

 

 

O Senhor é o oficial de serviço?

Sharpe confirmou. O oficial comissário, um tenente gorducho, sorriu alegremente e fechou a porta.

— Boa tarde, Capitão. Pode assinar?

— Para quê?

— O tenente ficou surpreso. Olhou o pedaço de papel que estendia a Sharpe.

— Terceiro Batalhão de Destacamentos, não é verdade?

Sharpe confirmou.

— O seu aprovisionamento, Capitão. — Voltou a mostrar-lhe a relação.

— Pode assinar, Capitão?

— Espere — disse Sharpe olhando para a relação. — Setecentas e cinqüenta libras de carne de vaca? Que generosos, não acha?

O tenente esboçou um sorriso profissional.

— Receio que isto não seja só para hoje, senhor. É também para os próximos três dias.

— O quê? Três dias? Mas isso é só metade, raios!

O tenente estendeu os braços.

— Eu sei, senhor, eu sei, mas é o melhor que podemos fazer. Assina?

Sharpe tirou o chapéu e as armas de cima da mesa.

— Onde estão?

O tenente suspirou.

— Creio que não quer...

— Onde estão?

A voz de Sharpe ecoou na pequena divisão. O tenente sorriu, abriu a porta, e fez sinal a Sharpe indicando-lhe o pátio onde estava o grupo de trabalho do tenente junto a uma fila de mulas carregadas. O tenente levantou a tampa de uma barrica com pedaços de carne de vaca recém-abatida.

— Senhor?

Sharpe pegou o primeiro pedaço e agitou-o em frente ao rechonchudo oficial comissário.

— Nem sequer pode andar em cima dela.

O tenente sorriu, já tinha ouvido aquilo em outras ocasiões. Sharpe tirou outro pedaço de cartilagem da barrica.

— Isto não é comestível! Quantas barricas tenho?

O tenente apontou para as mulas.

— Tudo isso, Capitão.

Sharpe olhou para além do pátio, para a rua iluminada. Havia outra mula pacientemente à espera sob o sol do entardecer.

— E o que é aquilo?

— Uma mula, senhor.

O tenente sorriu generosamente. Viu o rosto de Sharpe.

— Desculpe, senhor. É apenas uma pequena piada — disse, ficando sério. — São as provisões para o castelo, senhor. Para Sir Arthur. Está vendo?

— Tem certeza?

Sharpe desceu a arcada até à mula, com o tenente ao lado, e fez sinal ao arrieiro para que fosse embora.

— Acontece que esta manhã é o dia de entrega de provisões ao castelo, tenente, e não faltava nada lá.

O tenente sorriu impotente. Sharpe mentia, os dois sabiam, mas o tenente também mentia, e os dois também sabiam. Sharpe levantou a tampa da barrica que estava mais próxima.

— Isto sim, tenente, é carne de vaca. Ficarei com duas barricas destas em vez de duas das outras.

— Mas, senhor! Isto é para...

— Para o seu jantar, tenente? E o senhor e os seus companheiros oficiais venderão o resto. Não é verdade? Fico com isto.

O tenente voltou a fechar a barrica.

— Senhor, permita-me que lhe ofereça um excelente frango que encontramos. Claro que é um presente.

Sharpe pôs a mão em cima da mula.

— Quer que eu assine, tenente? Creio que primeiro vou pesar a carne. — O tenente sentia-se derrotado. Sorriu alegremente e entregou a relação a Sharpe.

— Não quero que tenha esse incômodo. Digamos que o senhor fica com todas as barricas, incluindo estas?

Sharpe concordou. O regateio do dia tinha acabado e o seu próprio grupo de trabalho descarregou as mulas e levou a carne para fora de Oropesa onde estavam aquartelados os homens do batalhão. A situação de abastecimento era desesperadora e estava piorando. O exército espanhol tinha esperado em Oropesa e havia tempo que tinham comido tudo o que restara pelos arredores. As ruas íngremes da cidade estavam cheias de tropas, espanholas, britânicas e alemãs da Legião, e já surgiam desavenças entre os aliados. Patrulhas inglesas e alemãs da Legião tinham emboscado os carros de víveres espanhóis, tinham até matado os guardas, para ficarem com os alimentos que Cuesta prometera a Wellesley mas que não lhe entregara. As esperanças que o exército tinha de chegar a Madrid em meados de Agosto tinham se desvanecido ao ver que as tropas espanholas continuavam à espera. O regimento de Santa Maria estava em Oropesa e desfilava debaixo de bandeiras novas e enormes, e Sharpe interrogou-se se o general Cuesta não tinha limites no momento de substituir os troféus que iriam parar em Paris. Enquanto descia a encosta viu dois oficiais com as compridas espadas metidas debaixo do braço, estranha moda espanhola, e não havia nada neles, nem os seus esplêndidos uniformes, nem os seus finos cigarros, que desse uma pequena sensação de alívio a Sharpe a respeito de exército da Espanha.

Ele mesmo sentia fome enquanto seguia rua abaixo. O criado de Josefina tinha arranjado comida, a um certo preço, e pelo menos naquela noite ia comer, ainda que cada pedaço custasse quase o vencimento de um dia. Os dois quartos que ela tinha encontrado custavam por noite o vencimento de quinze dias, mas ao diabo com isso, pensou. Se acontecesse o pior e se visse obrigado a escolher entre um posto nas Índias Ocidentais e ficar como civil, era melhor maldizer logo o maldito dinheiro e desfrutá-lo agora no aluguel de quartos, pagar os olhos da cara por um frango ossudo que ao cozer se convertia em restos acinzentados, e levar dentro de si a febre da recordação do corpo de Josefina e do extraordinário luxo de um leito amplo e partilhado. No momento apenas tinha a recordação da noite na pousada, uma vez que ela tivera de se adiantar a ele, escoltada contra vontade por Hogan, enquanto Sharpe passava dois dias marchando entre o pó e o calor com o batalhão. Ele a tinha visto por um momento ao meio-dia, ficado deslumbrado por um sorriso de boas-vindas, e agora dispunha de toda uma noite, de uma longa noite, já que no dia seguinte não haveria marcha.

— Capitão!

Sharpe voltou-se. O sargento Harper corria na sua direção; vinha outro homem ao lado dele, um homem da Companhia Ligeira do South Essex.

— Capitão!

— Que aconteceu?

Sharpe reparou que Harper parecia excitado e preocupado, algo pouco habitual, mas sentiu uma pontada de impaciência ao retribuir a saudação. Malditos! Queria ir ver Josefina.

— E então?

— Os desertores, Capitão.

Harper quase se torcia de vergonha.

— Desertores?

— Já sabe, Capitão. Os que fugiram em Castelo. No dia em que se reuniram ao South Essex.

Sharpe recordava-se que os homens tinham sido açoitados porque quatro desertores tinham escapado por entre a guarda durante a noite. Olhou duramente para Harper.

— Como sabe?

— Kirby é companheiro deles, senhor.

Apontou para o homem que estava com ele. Sharpe olhou para ele. Era um homem pequeno a que não tinha quase nenhum dente.

— E então, Kirby?

— Não sei, senhor.

— Quer que te açoitem, Kirby?

Os olhos do homem viraram-se para os seus, surpreso.

— Como, senhor?

— Se não me disser, tenho de presumir que os está ajudando a fugir.

Harper e Kirby estavam calados. Por fim o sargento olhou para Sharpe.

— Kirby viu um deles na rua, senhor. Foi com ele. Dois estão feridos, Capitão. Kirby veio falar comigo.

— E o senhor vem falar comigo — disse Sharpe asperamente. — E o que espera que eu faça?

Mais uma vez nada disseram. Sharpe sabia que tinham esperança que ele fizesse um milagre, que de qualquer maneira o afortunado capitão Sharpe encontrasse um modo de salvar os quatro homens do selvagem castigo que o exército infligia aos desertores. Sentiu-se impaciente, ao mesmo tempo que uma tremenda raiva se apoderava dele. Que eles pensavam que ele era?

— Vá buscar seis homens, sargento. Três fuzileiros e três dos outros. Nos encontraremos aqui dentro de cinco minutos. Kirby, fica aqui.

Harper pôs-se em sentido.

— Mas, senhor...

— Vamos, acelerado!

O ar era transparente, aquele tipo de luz mesmo antes do crepúsculo quando o sol parece suspenso num líquido colorido. Zumbiu um mosquito irritante à volta do rosto de Sharpe e este espantou-o. Os sinos da igreja tocaram o Ângelus, uma mulher passou correndo rua abaixo e benzeu-se, e Sharpe blasfemou interiormente porque tinha prometido a Josefina que iria encontrá-la às seis em ponto. Malditos desertores! O sargento pensava realmente que Sharpe iria perdoar a deserção? Junto a ele, assustado e nervoso, Kirby impacientava-se olhando para a rua e Sharpe pensou com tristeza no que aquilo significaria para o batalhão. Todo o exército se sentia frustrado, mas pelo menos podia olhar o futuro com uma mistura de medo e ânsia para a inevitável batalha que dava um certo sentido ao seu presente incômodo. O South Essex não partilhava dessas esperanças. Fora desonrado em Valdelacasa, a sua bandeira tinha sido vergonhosamente perdida e os homens não tinham vontade nenhuma de combater de novo. O South Essex estava amargurado e de mau humor. Qualquer dos seus homens teria desejado o melhor para os desertores.

Harper voltou com os homens, todos eles armados, todos eles olhando com apreensão para Sharpe. Um deles perguntou nervoso se podia atirar contra os desertores.

— Não sei — exclamou Sharpe. — Guie-nos, Kirby.

Caminharam encosta abaixo até à parte mais pobre da cidade, até um emaranhado de becos, onde crianças meio nuas brincavam entre a porcaria que se atirava para a rua. A roupa lavada pendia entre as varandas, tapando a luz, e a estreiteza entre as paredes parecia produzir mais peste. Era um cheiro que os homens tinham conhecido pela primeira vez em Lisboa e ao qual tinham se habituado, se bem que a sua origem fizesse com que caminhar pelas ruas noite fora fosse um caso nauseabundo e arriscado. Os homens iam calados e ressentidos, seguiam Sharpe contra vontade para levar a cabo um trabalho que preferiam não fazer.

— Aqui, senhor.

Kirby apontou para uma casa que pouco mais era do que uma cabana. Estava parcialmente caída e o resto parecia que ia cair a qualquer momento, Sharpe virou-se para os homens.

— Esperem aqui. Sargento Peters, venha comigo.

Peters era do South Essex. Sharpe tinha-o como homem sensato e era mais velho do que a maioria. Precisava de alguém do mesmo batalhão que os desertores, de modo que ninguém pudesse pensar que o fuzileiro de casaca verde conspirara contra o South Essex.

Empurrou a porta para abri-la. Quase esperava que houvesse alguém escondido com uma arma, mas em vez disso encontrou-se num quarto incrivelmente sujo. Os quatro homens estavam no chão, dois deitados e os outros dois sentados junto às brasas amortecidas do fogo. A luz filtrava-se pelos buracos que já tinham sido janelas e através do telhado e dos pisos de superiores destruídos. Os homens estavam andrajosos.

Sharpe atravessou o quarto em direção aos homens doentes. Pôs-se de joelhos e olhou para o rosto deles; estavam pálidos e tremendo, quase sem pulso. Virou-se para os outros.

— Quem são vocês?

— Cabo Moss, senhor.

O homem tinha barba de quinze dias e as faces cavadas. Era óbvio que não comiam havia muito.

— Este é o soldado Ibbotson — disse, apontando para o companheiro. — E aqueles são os soldados Campbell e Trapper, Capitão.

Moss comportava-se com formalidade e educação, como se aquilo fosse salvá-lo do seu destino. O ar estava carregado de pó, o quarto estava cheio do fedor da doença e da porcaria.

— O que fazem em Oropesa?

— Viemos nos juntar ao regimento, Capitão — disse Moss com demasiada rapidez.

Fez-se silêncio. Ibbotson aproximou-se do fogo apagado e ficou olhando para o chão por entre os joelhos. Era o único que tinha arma, uma baioneta que mantinha na mão esquerda, e Sharpe calculou que ele não aprovava o que estava acontecendo.

— E as suas armas?

— Nós as perdemos, Capitão. E os uniformes também. Moss pretendia comprazer.

— Quer dizer que os venderam.

— Sim, Capitão — respondeu Moss encolhendo os ombros.

— E beberam com o dinheiro?

— Sim, Capitão.

De repente ouviu-se um ruído no quarto do lado e Sharpe deu uma volta para olhar para a porta. Não havia nada lá. Moss balançou a cabeça.

— São as ratazanas, senhor. Exércitos de asquerosas ratazanas.

Sharpe voltou a olhar para os desertores. Ibbotson olhava agora fixamente para ele, com os olhos fixos de um louco fanático. Sharpe perguntou-se se ele planejava usar a baioneta.

— O que faz aqui, Ibbotson? Não quer se juntar ao regimento?

O homem não disse nada. Em vez disso levantou o braço que tinha escondido atrás das costas. Não tinha mão, só um coto envolto em trapos ensangüentados.

— Ibbs meteu-se numa briga, Capitão — disse Moss. — Perdeu a mão. Já não lhe serve de nada, senhor. Não é canhoto, sabe — acrescentou com rancor.

— Quer dizer que não serve para os franceses.

Houve um silêncio. O pó pesava no ar.

— É verdade — falou Ibbotson.

A voz dele era culta. Moss tentou fazê-lo calar, mas Ibbotson não fez caso do cabo.

— Poderíamos estar com os franceses há uma semana, mas estes loucos resolveram beber.

Sharpe olhou-o fixamente. Era estranho ouvir uma voz educada surgindo daqueles farrapos, barbas e ligaduras ensopadas em sangue. O homem estava doente, provavelmente tinha gangrena, mas agora pouco se importava. Ao admitir que corriam para o inimigo, Ibbotson tinha condenado os quatro. Se os tivessem apanhado tentando chegar a um país neutro, poderiam ter sido enviados, tal como Sharpe, para uma guarnição nas Índias Ocidentais onde a febre os mataria de qualquer maneira; assim só havia um castigo para os homens que se passavam para o inimigo. O cabo Moss sabia isso. Levantou os olhos para Sharpe e pediu-lhe:

— Na verdade, Capitão, não sabíamos o que estávamos fazendo. Esperamos aqui, senhor...

— Cala a boca, Moss!

Ibbotson olhou-o com frieza e depois virou-se para Sharpe, levantando a baioneta com a mão ainda que só para dar ênfase ao comentário.

— Vamos perder esta guerra. Qualquer idiota veria isso! Há mais exércitos franceses do que todos os que a Inglaterra pode formar em cem anos. Olhe para você! — A voz estava cheia de desprezo. — Pode vencer um general, e a seguir outro, mas continuarão sempre a vir! E vencerão! E sabe porquê? Porque têm um ideal. Chama-se liberdade, justiça e igualdade!

Deteve-se de repente com os olhos brilhantes.

— O que você é, Ibbotson? — perguntou Sharpe.

— Um homem.

Sharpe sorriu ao ouvir a resposta que soou com dramático desafio. A discussão não era nova, podia contar-se com o fuzileiro Tongue para repeti-la na maior parte das noites, mas Sharpe tinha curiosidade em saber o que fazia um homem educado como Ibbotson nas fileiras do exército e pregando as contra-senhas francesas da liberdade.

— O senhor é culto, Ibbotson. De onde é?

Ibbotson não respondeu. Por trás dele, Sharpe ouviu Harper e Peters arrastando os pés pelo chão duro. Moss aclarou a garganta e apontou para Ibbotson.

— É filho de um vigário, Capitão — disse, como se isso explicasse tudo.

Sharpe olhou para Ibbotson. Filho de um vigário? Talvez o pai tivesse morrido ou fosse uma família muito grande e a penúria podia ter chegado por qualquer dos caminhos. Porque teria o destino levado Ibbotson a alistar-se no exército? Para medir a sua insignificante força com os bêbados e endurecidos criminosos que eram o rebotalho vulgar que ia parar nas unidades de recrutamento? Ibbotson voltou a olhá-lo fixamente e então, para desagrado de Sharpe, começou a chorar. Largou a baioneta e escondeu o rosto no ângulo do seu cotovelo esquerdo e Sharpe perguntou-se se de repente tinha pensado no jardim de um vicariato junto a uma igreja e numa mãe saudosa cozendo pão num cálido Verão inglês. Voltou-se para Harper.

— Estão presos, sargento. Esses dois terão de ser levados. — Saiu do casebre para o beco pestilento.

— Kirby?

— Senhor?

— Pode ir embora.

O homem saiu correndo. Sharpe não queria que se encontrasse cara o rosto com os quatro desertores cuja prisão provocara.

— Os outros, lá para dentro.

Olhou para cima entre as estreitas paredes que mostravam um pedacinho de céu. Algumas andorinhas passaram pela abertura, as cores escureciam com a noite, e no dia seguinte haveria execuções. Mas primeiro havia Josefina.

Harper aproximou-se da porta.

— Estamos prontos, Capitão.

— Vamos então.