A Águia de Sharpe
Capítulo XXII
A batalha explodira durante um curto espaço de tempo, mas mais tarde terminou, e quando o Sol se elevou no alto e a fumaça se desvaneceu, o vale do Portina encheu-se de homens, tanto britânicos como franceses, que iam recolher os feridos e enterrar os mortos. Homens que uma hora antes lutavam desesperadamente para se matarem uns aos outros conversavam agora e trocavam tabaco por comida e vinho por conhaque. Sharpe enviou uma dúzia de soldados para o riacho para procurarem quatro homens da Companhia Ligeira que faltavam. Não tinham morrido no tiroteio mas sim atingidos quando subiam de volta pela encosta com os prisioneiros. Os canhões franceses tinham aberto fogo, mas dessa vez com os canos baixos e os projéteis tinham rebentado por cima da tropa dispersa que caminhava colina acima. Os homens começaram a correr, os prisioneiros franceses tinham dado a volta e corrido para as suas próprias linhas, mas não havia proteção contra as granadas. Sharpe vira uma bola de ferro bater na toca de um coelho e ricochetear no ar com a fumaça rodopiando violentamente da espoleta. A granada, suficientemente pequena para caber numa mão, aterrou junto a Gataker. O fuzileiro tinha se baixado para arrancar a espoleta com um sacão mas era muito tarde, ela explodiu, salpicando-o com a cobertura partida e vomitando fumaça e chamas ao mesmo tempo que atirava para trás o seu corpo já sem vida. Sharpe ajoelhou-se junto a ele mas Gataker estava morto; o primeiro fuzileiro de Sharpe a morrer desde a luta nas montanhas do Norte no Inverno anterior.
Quando os canhões se calaram mandou-os voltar para enterrarem rapidamente os mortos e os homens cavaram buracos profundos na terra mole junto ao riacho. Também chegaram os franceses. Durante alguns minutos as tropas evitaram-se, mas em breve, alguém disse uma piada, estendeu uma mão, e em poucos minutos os inimigos apertavam as mãos, provavam as barretinas uns dos outros, partilhavam os tristes restos de comida e tratavam-se mais como velhos amigos do que como inimigos declarados. O vale estava coberto dos restos da batalha; granadas por explodir, armas, mochilas saqueadas, o lixo comum de uma derrota.
— Sharpe! Capitão!
Sharpe virou-se e viu Hogan abrindo caminho entre os mortos e feridos.
— Estava à sua procura! — disse o oficial de engenharia descendo do cavalo. — Você está bem?
— Estou bem.
Sharpe aceitou a garrafa de água que Hogan lhe oferecia.
— Como está Josefina?
Hogan sorriu.
— Adormeceu.
Sharpe olhou para as escuras olheiras debaixo dos olhos do irlandês.
— Mas o senhor não?
Hogan balançou a cabeça e então apontou para os corpos.
— Não vale a pena me queixar de uma noite sem dormir.
— E Josefina?
— Creio que está bem. Sinceramente, Richard. — Hogan balançou de novo a cabeça. — Está deprimida; infeliz. Mas o que se podia esperar depois da noite passada?
A noite passada, pensou Sharpe. Santo Deus, era só a noite passada. Deu a volta e olhou para a água ensangüentada do Portina e para os franceses que estavam escavando na outra margem um buraco comprido e um pouco profundo para o qual atirariam os mortos nus. Virou-se para Hogan.
— O que está acontecendo na cidade?
— Na cidade? Ah, preocupa-se com a segurança dela?
Sharpe acenou afirmativamente. Hogan pegou a caixa de tabaco.
— Está tudo calmo. Recolheram a maior parte dos espanhóis e já estão de volta às suas linhas. Há uma guarda na cidade para impedir qualquer saque.
— Então está a salvo?
Hogan olhou para os olhos avermelhados de Sharpe, para as sombras escuras da sua cara e confirmou.
— Está a salvo, Richard.
Hogan não disse mais nada. O rosto de Sharpe assustava-o; tinha uma expressão triste, pensou, como o rosto de um aventureiro desesperado que arriscaria tudo numa única jogada de dados. Os dois homens começaram a caminhar junto ao riacho e Hogan pensou no dragão do príncipe de Gales, um capitão com o braço quebrado que tinha batido à porta da casa de manhã cedo. Josefina tinha ficado surpresa ao vê-lo, mas tinha-lhe agradado, e dissera-lhe que tinha conhecido o oficial de cavalaria no dia anterior na cidade. O dragão tinha substituído Harper na vigilância mas aquele, pensou o oficial de engenharia, não era o momento para falar a Sharpe no capitão Claud Hardy. O homem tinha agradado a Hogan, tinha-lhe parecido simpática a descrição de Hardy de como caíra do cavalo e o irlandês vira quão aliviada se tinha sentido Josefina ao ter alguém a seu lado que lhe contasse piadas, lhe falasse alegremente de bailes e banquetes, de caça e cavalos, mas que astutamente compreendia os horrores que ainda se escondiam nas suas recordações da noite anterior. Hogan sabia que Hardy servia para Josefina, mas não era o momento de dizer isso a Sharpe.
— Richard?
— Sim?
— Fez alguma coisa a respeito... — deixou escapar Hogan.
— De Gibbons e Berry?
— Sim.
Hogan chegou-se para um lado e afastou o cavalo de um francês que arrastava um cadáver pela erva. Sharpe esperou que o homem tivesse se afastado.
— Porquê?
Hogan encolheu os ombros.
— Estava pensando — disse Hogan com dúvidas. — Esperava que, depois de pensar durante uma noite, seria prudente. Poderia destruir a sua carreira. Um duelo, uma luta. Tenha cuidado.
Hogan estava praticamente implorando. Sharpe parou e virou-se para ele.
— Prometo-lhe uma coisa. Não farei nada ao tenente Berry.
Por um momento, Hogan deteve-se para pensar. O rosto de Sharpe era inexpressivo mas, por fim, o irlandês concordou.
— Suponho que isso seja bom. Mas está realmente decidido em relação a Gibbons?
Sharpe sorriu.
— O tenente Gibbons se reunirá em breve ao tenente Berry.
Deu meia volta e começou a caminhar encosta acima. Hogan correu atrás dele.
— Quer dizer...?
— Sim. Berry está morto. Diga isso a Josefina, por favor.
Hogan sentiu uma tremenda tristeza, não por Berry, que provavelmente merecia o que Sharpe lhe tinha feito, mas por Sharpe que via a vida como uma imensa batalha e tinha se preparado para lutar por ela com uma ferocidade inigualável.
— Tenha cuidado, Richard.
— Terei. Prometo.
— Quando o verei? — perguntou Hogan receoso de que Sharpe entrasse no quarto de Josefina e encontrasse Hardy lá.
— Não sei — responde Sharpe apontando para o exército francês que esperava. — Vai haver uma batalha do inferno e receio que tenhamos de ficar todos no campo até que uma das partes vá embora. Talvez esta noite. Provavelmente amanhã. Não sei.
Ouviram-se cornetins no vale chamando as tropas às suas posições e Hogan recolheu as rédeas. Os dois homens viram como os soldados britânicos e franceses apertavam as mãos e davam palmadas nas costas uns dos outros antes da carnificina recomeçar.
Hogan subiu para a sela.
— Direi a ela o que aconteceu a Berry, Richard. Tenha cuidado, não queremos perdê-lo.
Meteu esporas ao cavalo e partiu a meio galope, seguindo o rio de volta a Talavera.
Sharpe subiu a encosta do Medellín com os seus homens enquanto contavam os despojos que tinham recolhido dos mortos. Ele, por seu lado, nada recolhera mas, caminhando colina acima, sabia que haveria despojos melhores no campo antes que se pusesse o Sol; havia uma águia a depenar.
A manhã foi avançando. Os dois exércitos encontravam-se frente a frente, a cavalaria aborrecida por não haver infantaria dispersa para massacrar, a artilharia amontoando as munições para dispersar a infantaria, enquanto a infantaria estava sentada na erva, compunha as munições e limpava as seguranças dos mosquetes. Ninguém parecia ter pressa. O primeiro ataque tinha sido repelido e agora os franceses estavam duplamente determinados a destroçar o pequeno exército britânico que tinham pela frente. Através do seu telescópio, Sharpe observava os batalhões azuis posicionando-se preguiçosamente no seu lugar, regimento a regimento, brigada a brigada, até que pôde ver entre o Pajar e o Cascajal mais de trinta águias concentradas para atacar.
Forrest aproximou-se e sorriu nervoso ao pegar o telescópio que Sharpe lhe estendia.
— Estão se preparando, Sharpe?
Forrest examinou a linha francesa. Era óbvio o que ia acontecer. Sobre o Cascajal os artilheiros rodavam os canhões de maneira para poderem disparar contra as tropas à direita do South Essex, a Legião e a Guarda. Frente a estes regimentos estava se reunindo uma vasta horda de batalhões inimigos. Os franceses não tinham conseguido tomar o Medellín, nem de dia nem de noite, então estavam agora planejando um matraqueio de tal ordem que nenhuma tropa no mundo pudesse resistir à fúria e intensidade do seu ataque. Sharpe viu atrás da infantaria francesa a cavalaria impaciente esperando penetrar pela brecha e sacrificar os derrotados britânicos. O dia recuperava as suas forças, fazendo uma pausa antes da carnificina, preparando-se para a grande demonstração da superioridade francesa que destruiria o exército britânico, espalmando-o depreciativamente, e com essa finalidade, à uma em ponto, os canhões franceses voltaram a abrir fogo.