A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth
Notas
(I)
A MORTE DE BEORHTNOTH
Æthelred II
Rei de 978–1013 e novamente de 1014 até sua morte em 1016. Seu reinado foi prejudicado por muitas invasões vikings. Em material rascunhado, Tolkien observa que “a tentativa de subornar os daneses com gafol (tributo) foi adotada pela primeira vez” como política inglesa após o desastre em Maldon. E mais de uma vez ele faz menção ao epíteto depreciativo de Æthelred, “o Despreparado”.
Beorhtnoth
Acerca da gra a incomum empregada por Tolkien para o herói de Maldon, Michael D.C. Drout observa:
A lição17 do nome no manuscrito é “Byrhtnoth”. Tolkien emendou o “y” para o ditongo “eo” […]
indicando seu entendimento quanto à provável pronúncia do nome no dialeto oriental em que foi
escrito, conforme crê a maioria dos acadêmicos. O poema, da maneira que chegou até nós, está no
dialeto saxão ocidental. (p. 161)
Isso é corroborado pelas palavras do próprio Tolkien sobre o assunto. Em meio às suas notas linguísticas sobre Maldon, ele descreve a mudança “Byrhtnoð no lugar de ★Beorht” como uma “mudança no saxão ocidental tardio” (MS. Tolkien A 30/2, f. 165). E, em materiais abandonados das porções acadêmicas de O Regresso, ele chama a atenção para o lapso que provavelmente jaz entre a composição oral e o registro escrito: o manuscrito de Maldon, “agora destruído pelo fogo, foi provavelmente feito quase um século depois da composição do poema” (MS. Tolkien 5, f. 88). Como seu drama se passa apenas um dia depois da batalha e seu interesse é, em parte, recuperar as origens do poema, Tolkien opta pela gra a mais antiga.
liderados […] por Anlaf […]
No poema, nenhum dos inimigos vikings é identi cado por nome. Ao longo da Parte I de O Regresso, Tolkien reconhece a “sopa de estórias” que dá forma ao nosso entendimento da batalha — a inconsistente Crônica Anglo-Saxã, o “tardio e em grande parte não histórico” Liber Eliensis — ao mesmo tempo em que prepara o terreno para incluir seu próprio drama em verso. Especulação adicional quanto à identidade dos invasores surge no material rascunhado: “os líderes vikings provavelmente se chamavam Jósteinn e Guðmundr” (MS. Tolkien 5, f. 62v).
cavalheirismo deslocado
Cavalheirismo, um termo anacrônico oriundo do francês antigo, é uma palavra-chave no trabalho de Tolkien sobre Maldon. É longamente examinada no ensaio “Ofermod” e, de modo notável, faz parte da glosa que Tolkien fornece para ofermod (“cavalheirismo supercon ante”) na tradução em prosa do poema anglo-saxônico. Tolkien provavelmente achou apropriadas as conexões com a reputação e com o “jogo” de honra cortês. Como anacronismo, o termo ecoa o interesse de Tolkien na mudança dos tempos e das atitudes; a escolha dissonante da palavra talvez enfatize algo do julgamento errôneo de Beorhtnoth quanto ao mau posicionamento de seus homens e do interesse mais abrangente de O Regresso na cambiante tradição heroica ao longo do tempo.
abadia de Ely
A patronagem da família na abadia de Ely continuou depois da morte de Beorhtnoth. Segundo o Liber Eliensis, entre os ricos presentes dados pela viúva, Ælfflæd, estava uma tapeçaria bordada, hoje perdida, retratando suas grandes façanhas.
cabeça tinha sido decepada
Outras descobertas arrepiantes foram narradas na carta de James Bentham para a Sociedade dos Antiquários em 1772:
É um fato curioso (relatado ao Editor por um Cavalheiro presente quando os ossos foram
examinados) que a clavícula, o osso do colo, encontrada na Cela de Brithnoth, parecia ter sido
cortada quase de fora a fora — talvez com um machado de guerra ou uma espada de duas mãos.
(Deegan, p. 291)
muitíssimos haviam tombado de ambos os lados O número preciso de corpos é, evidentemente, impossível de determinar. E.V. Gordon supunha que o poema fosse “em geral con ável” quanto aos fatos da batalha, ao passo que outras fontes talvez tendessem a exagerá-los, especialmente quanto às baixas nas forças vikings. A a rmação na Vita Oswaldi de que “os daneses […] mal tinham homens o bastante para guarnecer os navios” é, segundo Gordon, “certamente um exagero”, pois eles foram capazes de “continuar com seus saques ao longo das costas” pouco depois (pp. 5–7).
Torhthelm (coloquialmente Totta) […]. Tídwald (encurtado para Tída) Não encontrei nos papéis de Tolkien qualquer indicação sobre a procedência ou sobre algum signi cado especial dos nomes das duas principais vozes em O Regresso. Se, por um lado, Totta foi logo xado, substituindo Pudda nos rascunhos mais antigos, por outro, Tída surgiu mais tarde e em estágios sucessivos: Tibba > Tudda > Tída a partir da Versão H. Tom Shippey glosa Torhthelm como “elmo radiante” e Tídwald “regente do tempo” (“Tolkien and the Homecoming”, p. 326). Jessica Yates fascinantemente observou que os nomes sempre estiveram “bem debaixo do nosso nariz” no poema em inglês antigo Crist — “Torht ofer tunglas, þu Tida gehwane” — apenas três versos abaixo do famoso “Eala earendel ” que, pode-se dizer, deu origem à mitologia de Tolkien. Equilibrando-se em lados opostos da cesura, eles talvez capturem uma espécie de diálogo em miniatura do Regresso. Outras teorias poderiam se valer de topônimos ingleses. Tidwalditun certamente chama a atenção por ser o nome antigo de Heybridge, não muito longe de Maldon, em Essex. As aldeias de Little e Great Totham cam apenas algumas milhas ao norte de Heybridge. Mais distante ca Totanæs (hoje Totnes), em Devon, ou Tottenham, no norte de Londres.
heróis da antiguidade nortista Tais guras, com um pé na história e outro nas lendas, frequentemente ocupavam o coração dos estudos do próprio Tolkien. Há um prazer melancólico em espiar Tída e Totta numa época em que tais contos talvez fossem mais bem preservados. Para saber mais sobre lendas como essas, ver também Finn and Hengest e a discussão de Tolkien acerca de Fróda em “Sobre Estórias de Fadas” (Árvore e Folha, pp. 41–2).
Ælfwine
Esse nome, que signi ca “Amigo-dos-Elfos”, tem papel importante no legendário de Tolkien, de modo mais evidente como o marinheiro anglo-saxão em O Livro dos Contos Perdidos. Se o papel de Ælfwine desaparece em versões posteriores da mitologia, o conceito de Amigo-dos-Elfos certamente não some. Os Amigos-dos-Elfos, de Elendil a Bilbo, atuam dentro da moldura como protagonistas das aventuras e, fora dela, como autores e transmissores dos contos em si.
Fica subentendido aqui […]
Esse ponto é desenvolvido em “Beowulf: e Monsters and the Critics”. Tolkien observa que a “expressão doutrinal” da coragem do Norte de Beorhtwold “bem pode ter sido usada de fato pelo eald geneat, mas, mesmo assim (ou talvez precisamente por isso), provavelmente não deve ser vista como nova, mas como uma gnoma antiga e honrada de longa ascendência” (MC, p. 45 n. 11).
rima: pressagiando o m paulatino da antiga métrica aliterante Para outras informações sobre o poema de Canuto e suas ligações com a abadia de Ely, ver “Merry sang the monks”, de Eleanor Parker. Outra discussão acerca da rima em Maldon encontra-se no Apêndice II, seção (e).
pouco ou nada mais livre
Tolkien passa um bom tempo tecendo hipóteses acerca dos diferentes modos poéticos do inglês antigo em “A Tradição da Versi cação”. Na metade de uma folha entre as páginas 7 e 8 desse ensaio, ele classi ca três tipos: 1) “Épico estrito ou “tipo fornyrðislag”; 2) “Verso mais livre”; e 3) “Prosa poética ou emotiva”. Ele a rma que Maldon é o “principal exemplo” do tipo 2, mais livre, cujos traços incluem “maior liberdade na 2ª metade, anacruse não infrequente, o fonema aliterante principal ocasionalmente na 2ª tônica da 2ª metade — especialmente quando apoiado por uma aliteração cruzada, empregada com frequência. Tipos pesados e tipos soltos mais comuns” (f. 39).
Historia Eliensis
O Liber Eliensis é uma história da abadia de Ely em latim que data do século XII, começando com sua fundação em 673.
Rei Canuto
Nem a honrada resistência de Beorhtnoth e nem o tributo monetário de Æthelred II manteriam os invasores do Norte longe por muito tempo. O feroz, mas cristão, Canuto (ou Cnut) tornou-se Rei da Inglaterra em 1016 e, posteriormente, reivindicou as coroas da Dinamarca e da Suécia, governando um vasto — mas efêmero — Império do Mar do Norte, que colapsou com sua morte em 1035.
(II)
O REGRESSO DE BEORHTNOTH, FILHO DE
BEORHTHELM
Ouve-se o som […] na escuridão. Em “Sobre Estórias de Fadas”, Tolkien assinala que a Fantasia “di cilmente chega a ter sucesso no Drama […] visível e audivelmente representada” (p. 59). Talvez seja por isso que pouco ou nada é visto no drama em verso de Tolkien. Mas, assim como a lanterna escura de Tída, O Regresso é capaz de iluminar o tecido da fantasia de Tolkien.
Abantesmas [barrow-wights]18
Esses espíritos que assombram antigas colinas tumulares aparecem no primeiro dos poemas coligidos em As Aventuras de Tom Bombadil e nas primeiras desventuras dos hobbits no capítulo oito de A Sociedade do Anel , “Neblina nas Colinas-dos-túmulos”.
Pare com a poesia! [gleeman’s stuff] Um gleeman é um menestrel, um cantor pro ssional, talvez descendente do scop, ou bardo, anglo-saxão. Tída se refere ao ofício familiar de Totta com uma nota de menosprezo.
era de Woden
Ou seja, na Inglaterra pré-cristã. Woden é o nome inglês antigo do deus nórdico Odin.
tem duas patas
As palavras “lobo” e “criminoso/proscrito” são interrelacionadas em nórdico antigo (vargr) e inglês antigo (wearh), e essa conexão é retomada também nos malignos wargs de O Senhor dos Anéis. Quando encontram os ladrões de corpos logo em seguida, a sugestão de Tída se prova verdadeira. Ver também a nota a Maldon, v. 91, na Parte Dois.
É só uma coruja. […] Traz má sorte
Essa diferença de opinião acerca do pássaro é uma deixa oportuna para observar que O Regresso tem algo em comum com poemas medievais de debate, tais como A Coruja e o Rouxinol, em inglês médio, o qual Tolkien estudou, traduziu e sobre o qual ensinou em vários momentos de sua carreira.
O lho-da-irmã!
Mais sobre essa relação especial pode ser lido na nota de Tolkien a Maldon, v. 115, na Parte Dois.
Um fado cruel leva-o assim logo
Essa pungente imagem faz recordar A Spring Harvest [Uma Colheita de Primavera], antologia poética de G.B. Smith editada por Tolkien e publicada em 1918, após a morte prematura de Smith na Primeira Guerra Mundial. Mark Atherton nota paralelos entre o poema “Glastonbury”, de Smith, e O Regresso (ere and Back Again, p. 158).
mau é ver barbados que às costas põem broquel […] os bastardos É uma referência à fuga dos lhos de Odda relatada no poema. Ver a nota de Tolkien a Maldon, v. 190, na Parte Dois.
arma nova do ferro antigo
Ælfwine é descrito aqui como uma espada reforjada — um tópos familiar ao legendário de Tolkien, como se vê em Narsil > Andúril e Anglachel > Gurthang.
car para trás [left with the luggage]19
Em O Senhor dos Anéis, os hobbits fazem comentários autodepreciativos nesses termos. Quando estão no Grande Rio, Sam se considera “só bagagem num barco”; e Pippin, capturado pelos Uruk-hai, re ete lugubremente sobre seu papel na companhia: um “incômodo: um passageiro, uma peça de bagagem” (pp. 540; 665).
quem é livre e desvalido […] pode ser mais duro […] que dalgos de escol Apesar das dúvidas acerca da coragem de Totta, o sentimento, repleto de lealdade e inesperada determinação, é certamente hobbitesco. Em uma carta de 1955 para W.H. Auden, Tolkien nota “o valor dos Hobbits, ao colocar terra debaixo dos pés do “romance” e ao fornecer alvos para o “enobrecimento” e heróis mais dignos de elogios do que os pro ssionais” (Cartas, n. 163).
cuja raça remonta a reis antes de Woden
Algumas das árvores genealógicas mais imaginativas da Crônica Anglo-Saxã fazem justamente isso.
corta a espada
De modo parecido, a tradução que Tolkien fez de Beowulf diz que a espada do herói “não morderia” a mãe de Grendel (v. 1273). É uma imagem familiar nas lendas de Tolkien, notavelmente no apetite por sangue da senciente Gurthang no Conto de Túrin Turambar, e a lâmina de Gondolin, chamada pelos Gobelins em O Hobbit simplesmente de Mordedora.
Olhos […] como à lua os de Grendel
Gordon argumenta que “Maldon é da mesma escola que Beowulf, e mais próximo a Beowulf em arte heroica e sentimento social do que qualquer outro poema em inglês antigo” (p. 23). Aqui, Tolkien sugere que, ainda que Totta não seja experimentado na batalha, ele conhece algo de Beowulf. No rascunho da versão C, “de Grendel” substitui a lápis a expressão mais genérica “de um morador do brejo” (MS. Tolkien 5 , f. 10).
a espada […] o punho que reluz [golden hilts]20 Para o desenvolvimento dessa cena nos rascunhos, ver o Apêndice V. Ver também a introdução de e Battle of Maldon , de Mark Atherton. Na estória de fadas Sellic Spell, o herói Beewolf é chamado de “o cavaleiro dos punhos dourados”.
Chorai para sempre […] enquanto dor ou verso durem no mundo O canto fúnebre, como Tída percebe, deve muito ao nal de Beowulf.
Valeu seu labor nas longas noites, a sós em vigília Em “A Tradição da Versi cação”, Tolkien fala da provável participação do poeta de Maldon em uma vigília solitária como essa. Era também parte de sua própria rotina. Em uma carta de 1944 para Christopher Tolkien, ao relatar o progresso de O Senhor dos Anéis, ele observa: “Iniciei seriamente um esforço para terminar meu livro e tenho cado acordado até muito tarde” (Cartas, n. 59). Os turnos de vigia noturna aparecem mais de uma vez nos capítulos de Rohan em O Senhor dos Anéis.
Se queria espadas, a ponta achou logo, direto na cara Isso claramente ecoa (ou antecipa) a conversa entre Beorhtnoth e o mensageiro no poema em inglês antigo (ver também Parte Dois, nota ao v. 46 de Maldon).
molhados
Batizados — convertidos ao cristianismo.
Cabeça de Edmund!
Edmundo, o Mártir, rei da Ânglia Oriental, foi decapitado pelos vikings mais de um século antes da Batalha de Maldon.
Quero tanto beber à memória dele [his funeral ale]21 Cerveja cerimonial bebida durante a celebração fúnebre. Tolkien memoravelmente descreve Beowulf nesses termos no ensaio “On Translating Beowulf” [Traduzir Beowulf]. Ao defender o poema de “um crítico famoso”, o qual a rmara que o poema não passava de “uma cervejinha”, ele faz frente: “Mas, se for mesmo cerveja, é bebida escura e amarga: uma solene cerveja fúnebre com sabor de morte” (MC, p. 49).
Que estranho, sabe, como eles passaram assim pela rampa Para o desenvolvimento dessa cena crucial, ver o Apêndice V.
para dar aos poetas grandiosas canções
De certo modo, Beorhtnoth é bem-sucedido nisso.
Tomba o último […] em tempos de antanho toda esta ilha A estrofe de Totta claramente ecoa os versos que fecham A Batalha de Brunanburh, uma Crônica poética que celebra uma vitória em 937. Mas aqui, em vez de celebrar a continuidade promovida pela conquista gloriosa no século V, a queda de Beorhtnoth parece representar o m de uma era. Um dos toques modernos de O Regresso é a maneira como reconhece a ironia cíclica nas devastações dos daneses da época; séculos antes, conduzidos por líderes como Hengest e Horsa, foram os “vikings ingleses” que
zeram o papel de invasores. Uma constante desalentadora em todos esses séculos de guerra parece ser,
como nota Tída, que é o corpo dos pobres que aduba a terra.
que morram os piratas
Ver Parte Dois, nota sobre a tradução de wicinga (Maldon, v. 26).
Não cantam sua morte
A obra do poeta de Maldon na verdade logra registrar as palavras e os bravos feitos de mais gente do que apenas nobres vassalos. Se perseguirmos a ideia de que foi Totta, no m, o autor do poema, somos capazes de vê-lo aprendendo com Tída neste e em outros momentos, como quando ele reconhece o grave erro tático na rampa.
Mas nosso Æthelred […] há de ser presa mais fera […] A predição esperançosa de Totta, é claro, não se concretiza.
servo el
Uma expressão usada para Sam e Gollum em O Senhor dos Anéis.
Há treva! […] quando atroz é a sina, e a treva vence Anna Smol enxerga a visão onírica de Totta “penetrando o coração da tradição heroica” (“Bodies in War”, p. 275). As imagens impressionantes certamente lembram as que Tolkien usou na famosa palestra sobre Beowulf :
como em uma pequena roda de luz à volta dos seus salões, homens tendo a coragem por esteio
avançavam para a batalha contra o mundo hostil e o rebento da escuridão que para todos, mesmo
reis e campeões, acaba em derrota. (MC, p. 18)
Mais informações sobre o desenvolvimento dessa sequência onírica estão no Apêndice V.
quebrou-se meu sonho
Toda essa experiência noturna foi, para Totta, uma espécie de solavanco na estrada.
Mas estranhas palavras […] não me caem bem. Aqui, Tída friamente dispensa os mais famosos versos da poesia anglo-saxônica.
Dirige, Domine […]
O cantochão faz parte do Ofício de Defuntos católico, suplicando a Deus que mostre o caminho de casa. Ainda que talvez não seja o regresso que Beorhtnoth tinha em mente, tampouco o é o do heroísmo do Norte, desprovido de esperança.
Uma Voz no escuro Talvez a direção de palco mais clara para a voz esteja no rascunho guardado em Leeds. Conforme o cântico do Dirige esmorece, “ouve-se uma voz mais alta (num barco com vários homens, que chega na sombra e atravessa a frente do palco) dizendo as palavras em inglês”.
Em “A Tradição da Versi cação”, Tolkien questiona se rimas como as de Maldon, v. 271, foram escritas pelo poeta; o verso parece “destacável”, como se “tivesse escorregado de um estilo diferente”. Ele talvez estivesse pensando coisa parecida ao preparar a produção da BBC, pensando ser “melhor omitir” a voz no escuro, embora, no m, um ator tenha sido escalado para fazer o papel (Chronology, pp. 467–9). A voz misteriosa da água é uma constante desde os primeiros rascunhos de O Regresso, e ganha uma potência mais dissonante à medida que o restante do drama se move da rima para a aliteração.
A atribuição que Tolkien dá à fonte — as linhas “ecoam alguns versos […] referentes ao rei Canuto” — só nos leva até certo ponto. A ocasião festiva é invertida em O Regresso — os monges não cantam alegremente, mas “tristes”. E a ascensão de Canuto ao poder ainda está bem longe da época da demanda de Tída e Totta; ele talvez não fosse nem nascido quando a batalha de Maldon aconteceu. Seja lá o que pressagiam no m, o tinir da rima nos puxa para fora da tradição aliterante e, com o pedido para ouvirem
um instante,22 nossa atenção retorna para a tarefa de interpretar, no esforço de “ouvir o pranto no arpejo d’harpa”. Para uma discussão adicional sobre as ressonâncias históricas aqui, ver “Canute and Beorhtnoth” (West, pp. 350–53).
(III)
OFERMOD
Mas, para merecer um lugar em Essays and Studies […] O drama em verso parece preceder em muito o ensaio, embora não esteja clara a rapidez com que talvez tenha sido escrito; de toda forma, nenhum rascunho remanescente está guardado com os demais manuscritos na Biblioteca Bodleiana.
“o único [poema] puramente heroico em inglês antigo que chegou até nós” A citação vem da edição de 1937 de E.V. Gordon (p. 24).
deixando de lado as armas
“Também descobri que esse fero matador, em sua selvageria, às armas não dá atenção. Então também eu hei de abster-me (para que me ame Hygelac, meu senhor!) de portar espada ou escudo largo” (Beowulf, ll. 349–352 na tradução de Tolkien).
como a sabedoria poderia levar até mesmo um herói a fazer […] longa passagem de “vanglória”
Essa ênfase na estratégia e nas obrigações éticas de um líder no combate, como observa Tolkien, é apenas um dos muitos ingredientes a serem considerados. A palestra de Tolkien sobre Dragões, proferida no dia de Ano-Novo de 1938, vê a decisão do herói sob outra luz:
Beowulf parece ter percebido a natureza dos dragões: que o poder deles cresce para se equiparar ao
poder oponente, de modo que eles podem destruir hostes e, geralmente, só podem ser destruídos
pela coragem. Ele era rei, mas se recusou a levar um exército. (“Dragons”, p. 52)
A passagem vangloriosa em questão mostra um “destemido” Beowulf falando sobre a infeliz necessidade de armas e instruindo seus homens a não se imiscuírem nessa façanha além da “medida” e esperarem no morro (Beowulf, ll. 2109–2129 na tradução de Tolkien).
tratasse uma batalha desesperada […] como um confronto com espírito esportivo
Mais sobre essa tentação pode ser lido no Apêndice VI.
contos e versos de poetas que agora se perderam, exceto por seus ecos O gosto de Tolkien por contos perdidos é uma constante em sua obra acadêmica e criativa.
Insensato demais para ser heroico
Em toda essa discussão acerca dos perigos do excesso de coragem, há uma conexão com o sobrenome do próprio Tolkien, que podia signi car “temerário” ou, como Tolkien adaptou para um personagem em Os
Documentos do Clube Notion , “Rashbold”.23 Em uma carta à Houghton Mifflin, ele escreveu:
Meu nome é TOLKIEN (não -kein). É um nome alemão (da Saxônia), uma anglicização de
Tollkiehn, i.e. tollkühn. Porém, exceto como um guia para a gra a, esse fato é tão falacioso quanto
todos os fatos em estado bruto. Pois não sou nem “foolhardy” [temerário], nem alemão, não
importando o que alguns ancestrais distantes possam ter sido. (Cartas, n. 165)
Para mais informações sobre a recorrência desse atributo na carreira de Tolkien e os vários disfarces do nome na sua cção, ver Fisher.
se o poema teve algum fecho bem azeitado
Tolkien especula que ele teria tido uns 600 versos de comprimento (ver Parte Três).
“A Carga da Brigada Ligeira”
Poema de Alfred, Lord Tennyson, escrito pouco depois da desastrosa investida na Batalha de Balaclava, em 1854.
mesmo apesar dos próprios autores
Se Totta acabar compondo o poema em inglês antigo, bem podemos imaginar a crítica severa a Beorhtnoth feita “apesar” dele, sem intenção.
dos snotere ceorlas
A tradução de Tolkien é “homens sábios”, sujeitos matreiros. Eles veem “pouca falta” na decisão de Beowulf em ajudar Hrothgar — “isto é, eles aplaudiram” (ll. 163–64, p. 110).
Wita scal geþyldig […]
Versos 65–69 do poema em inglês antigo e Wanderer [O Errante]. Em uma tradução inédita, Tolkien os verteu assim:
Um homem sábio (um conselheiro) deve ser paciente, não deve ser impetuoso demais de coração,
nem apressado demais na fala, nem brando demais na guerra, nem imprudente demais no coração,
nem covarde e temeroso demais, nem cobiçoso demais por riqueza, nem ávido demais por se
vangloriar antes que compreenda bem. (MS. Tolkien A 38/1, f.14).
OceanofPDF.com
Notas
17 Lição é o termo usado na crítica textual para as palavras variantes em cada versão manuscrita. Pode-se entendê-la, nesse contexto, como sinônimo técnico de leitura. [N.T.]
18 Na tradução brasileira de O Senhor dos Anéis, os barrow-wights são as Cousas-tumulares. [N.T.]
19 Isto é, “ car para trás junto com a bagagem”. [N.T.]
20 “Punhos dourados”. [N.T.]
21 Em inglês, “I wish we could drink his funeral ale”, isto é, “Gostaria que pudéssemos beber sua cerveja fúnebre”. [N.T.]
22 No verso em inglês, que diz: “Let us listen here a while!” [Ouçamos aqui um instante!]. [N.T.]
23 Rashbold é literalmente algo como “temerário, ousado”, mais ou menos o mesmo signi cado de Toll-kühn em alemão. [N.T.]
OceanofPDF.com