A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth
Prefácio
P
“Voltar para casa morto e sem cabeça (como o fez Beorhtnoth) não é muito prazeroso.” [Cartas, n. 229]. Foi assim que Tolkien ironizou em uma carta à editora Allen & Unwin em 1961, sagazmente capturando a essência de O Regresso de Beorhtnoth (doravante chamado de O Regresso), ao mesmo tempo em que expressava sua frustração quanto a uma descrição super cial do poema como se ele se tratasse de “outro famoso regresso”, uma das muitas apresentações equivocadas de sua obra feitas pelo primeiro tradutor sueco de O Senhor dos Anéis.
Leituras equivocadas como a sobredita não são incomuns quando se trata de O Regresso; por muitos anos, o texto manteve certa reputação de ser uma obscuridade no cânone de Tolkien. Poderíamos dizer que o precedente foi aberto desde o início. Foi publicado pela primeira vez em 1953, em um volume do periódico acadêmico Essays and Studies — apesar do fato de O Regresso ser, no coração de seu autor, uma peça em verso aliterante. Sua canhestra presença no periódico certamente não passou despercebida por Tolkien, que inclui uma espécie de justi cativa encabulada na abertura de “Ofermod”, o ensaio crítico que segue seu drama em verso. Ao mesmo tempo em que essa nota nal acadêmica — que provavelmente conquistou o lugar de O Regresso no periódico — recebeu considerável ímpeto (primeiro entre estudiosos de A Batalha de Maldon e, depois, entre aqueles interessados pelas histórias do próprio Tolkien), o resto do texto foi amplamente negligenciado, quando não terrivelmente mal compreendido. Para citar um exemplo notório: em algumas livrarias online, a sinopse padrão de Árvore e Folha — a antologia mais recente a incluir uma reimpressão de O Regresso — ainda hoje a rma erroneamente que os leitores serão “apresentados à tradução do relato de Tolkien da Batalha de Maldon, conhecida como O Regresso de Beorhtnoth”.
Esta nova edição de O Regresso, nas raias do 70º aniversário de sua primeira publicação, procura esclarecer essa confusão e fazer suas qualidades poéticas e acadêmicas únicas brilharem: é o raro espécime completo da maestria de Tolkien na poesia aliterante em inglês moderno e o repositório de algumas das re exões mais elucidativas do autor acerca de heroísmo, guerra e tradição poética.
Para que esse objetivo pudesse ser mais bem atingido, tenho o prazer de apresentar aqui, junto de O Regresso, dois trabalhos intimamente relacionados a ele, mas até agora inéditos: a tradução em prosa que Tolkien fez de A Batalha de Maldon, o poema anônimo que inspirou os acontecimentos no seu drama em verso, acompanhada de notas selecionadas e comentário; e “A Tradição da Versi cação em Inglês Antigo”, um ensaio abrangente sobre a natureza da tradição poética e artística e sobre o lugar de Maldon dentro do cânone antigo em língua inglesa. Para os leitores que desejarem se aprofundar, os apêndices incluem excertos adicionais do trabalho acadêmico de Tolkien com Maldon, uma versão antiga de O Regresso na forma de um diálogo rimado com um resumo do desenvolvimento criativo de O Regresso e (de minha própria lavra) uma breve re exão sobre como esse texto poderia ser posto em diálogo com as histórias do legendário de Tolkien. Espero que os leitores, novos e antigos, encontrem aqui algo de interesse.
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