A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth
Introdução
I
Envasando O REGRESSO DE BEORHTNOTH
O Regresso desa a categorizações simples. Pode ser lido como escrita acadêmica, drama em verso aliterante ou cção histórica; já foi descrito como coda, epílogo, sequência e prequel de A Batalha de Maldon — e tudo isso é bem verdade. Alguns leitores talvez pre ram deixar discussões introdutórias de lado, ou pelo menos adiá-las, e entrar candidamente no texto; mas, para os que desejam uma breve cartilha, incluo um simples resumo do conteúdo de O Regresso nos três parágrafos a seguir.
O texto tem três partes. No centro está um diálogo dramático em verso aliterante (O Regresso propriamente dito) que relata a jornada ctícia de dois serviçais do Ealdormano (ou Duque) Beorhtnoth: Torhthelm (Totta) e Tídwald (Tída), enviados pelo abade de Ely para resgatar o corpo do seu senhor na noite após uma batalha entre os ingleses e as forças vikings perto de Maldon em 991, evento celebrado em A Batalha de Maldon, um fragmento que sobreviveu da poesia em inglês antigo. Totta “é um jovem, lho de menestrel; sua cabeça está cheia de antigas baladas” sobre as lendas do Norte; Tída, por outro lado, é um “velho lavrador que tinha visto muitas lutas”, ainda que nenhum deles tivesse lutado na batalha do dia anterior.
À medida que essa estranha dupla vaga pela sujeira e pelo sangue do campo de batalha, procurando no escuro pelo corpo decapitado de Beorhtnoth, seu diálogo explora as tensões entre juventude e velhice, romance e realismo, cosmovisões pagã e cristã. Depois de muita labuta e uma briga com ladrões de corpos desesperados, o que acaba deixando mais um morto sem necessidade, os dois conseguem colocar o corpo do duque na carroça e então partem na longa estrada até a abadia de Ely. Totta, meio adormecido na carroça, tem uma visão onírica na qual murmura os mais famosos versos do (até então não escrito) poema anglo-saxão Maldon, sugerindo que um dia talvez ele viria a escrevê-lo. Seu sonho é interrompido por um solavanco na estrada acidentada, e o pano cai com os monges de Ely cantando o Ofício de Defuntos em latim. Seu cântico, brevemente interrompido por uma misteriosa voz no escuro, encerra a lúgubre história do regresso de Beorhtnoth.
Esse núcleo dramático-poético é precedido por “A Morte de Beorhtnoth”, uma nota histórica prefacial sobre a batalha e seu desfecho; e sucedido por “Ofermod”, um ensaio que explora o tratamento dado ao heroísmo no poema inglês antigo, argumentando (com aprumo e na contramaré) que o poeta anônimo critica com severidade o cavalheiresco erro de Beorhtnoth ao deixar a tropa viking, muito maior, alcançar terra rme por uma rampa estratégica, para que a luta fosse “justa”. Esses dois ensaios foram evidentemente escritos para contextualizar o drama em verso e para se adequar ao público acadêmico do periódico Essays and Studies, e foram mantidos em reimpressões subsequentes (inclusive no presente volume).
Devido à natureza híbrida do texto, acaba sendo um desa o encontrar lugar para ele na prateleira de livros de Tolkien. Se visto como um todo, talvez seja a melhor demonstração da maneira como os “estudos acadêmicos [de Tolkien] fertilizavam sua imaginação”, produzindo o que Alan Bliss chama de “combinação única de erudição lológica e imaginação poética” (“Canute and Beorhtnoth”, p. 335; Finn and Hengest, prefácio). O drama em verso por si só poderia confortavelmente se acomodar junto de outros exemplos dos experimentos de Tolkien em ressuscitar no inglês moderno a métrica aliterante do inglês antigo. Alguns deles, como e Fall of Arthur [A Queda de Arthur], parecem partilhar do interesse de O Regresso em combinar as tradições do mundo primário e os ciclos de lendas que Tolkien amava e estudava. Mas muitos exemplos notáveis também adentram seu legendário, incluindo sua enorme, antiga e incompleta Balada dos Filhos de Húrin (em As Baladas de Beleriand), assim como poemas mais curtos como “A Canção dos Morros de Mundburg” em O Senhor dos Anéis. Se for lido como a coda imaginativa da Batalha de Maldon — ou como a história que deu origem ao poema que celebra a batalha — assemelha-se a outras “reconstruções” criativas como Sellic Spell, o tipo de estória de fadas que Tolkien supunha jazer na origem do Beowulf que conhecemos. Se dermos maior ênfase ao ensaio “Ofermod”, o texto encontra um lugar ao lado de “Beowulf: e Monsters and the Critics” [Beowulf: Os Monstros e os Críticos], e outros trabalhos de crítica literária. E, como parece ser o caso com qualquer obra de Tolkien, acadêmica ou criativa, publicada antes de 1954, ele será inevitavelmente julgado, em parte, por qualquer luz tênue que jogue na natureza ou no desenvolvimento de O Senhor dos Anéis, sem dúvida a obra-prima de Tolkien. Nesse sentido, O Regresso atrai
Sociedade do Anel. 1 “Beorhtnoth se foi, não Béowulf antigo”, escrutínio adicional por ter sido publicado menos de um ano antes de A
Tídwald admoesta seu jovem
companheiro no drama em verso, mas ele bem poderia estar se dirigindo a nós também. A nal, a Batalha de Maldon — mais recente, mais breve e majoritariamente histórica — mal se pode comparar a Beowulf, a pedra-ímã da imaginação de Tolkien, uma fonte aparentemente inesgotável para sua re exão acadêmica e inspiração criativa. Mas, excetuando-se Beowulf, A Batalha de Maldon bem pode ter sido “o poema em inglês antigo que mais in uenciou a
cção de Tolkien” (Holmes em e J.R.R. Tolkien Encyclopedia). Retomarei esse
assunto no apêndice nal deste livro.
O MANUSCRITO E A HISTÓRIA DA PUBLICAÇÃO
Uma grande coleção de manuscritos sem data e datiloscritos relacionados a O Regresso encontra-se na Biblioteca Bodleiana em Oxford, coleção essa identi cada como MS. Tolkien 5. omas Honegger, em um artigo de 2007 no periódico Tolkien Studies, rotula os onze textos em MS. Tolkien 5 cronologicamente de A até K, e usa a letra grega α para se referir a um fragmento antigo publicado por Christopher Tolkien em A Traição de Isengard. Os rascunhos delineiam a transformação da obra — ora sutil, ora radical — de um breve diálogo rimado (como na versão A) até o drama maduro em verso aliterante com o aparato acadêmico apenso contido no datiloscrito nal que Tolkien enviou para a editora (versão K). Aqui e ali há outros fragmentos, talvez mais antigos. Christopher Tolkien descreve um texto mal-acabado, rabiscado na parte de trás de uma versão do poema “Errantry” [Vida Errante] de Tolkien, e observa que um texto ainda mais antigo pode ser encontrado em meio às ilustrações de Tolkien guardadas na Biblioteca Bodleiana, no verso de um esboço a lápis de uma paisagem rural (TD [Tolkien Drawings] 88, f. 24). O Arquivo Tolkien-Gordon na Universidade de Leeds também preserva um rascunho antigo do diálogo rimado que parece se encaixar entre as versões B e C da Biblioteca Bodleiana.
Segundo Christopher Tolkien, esses fragmentos, os mais antigos a sobreviverem, chegam a datar do início dos anos 1930, mais de vinte anos antes da consequente publicação em 1953. Os estágios da longa gestação do texto não foram datados com muita clareza; o biógrafo de Tolkien, Humphrey Carpenter, observa apenas que ele “já existia em 1945”. A importância dessa data é esclarecida pela observação de Christopher Tolkien na Nota ao Texto publicada em e Lay of Aotrou and Itroun [A Balada de Aotrou e Itroun]: “Meu pai visitou Aberystwyth como examinador em junho de 1945 e deixou com seu amigo, o Professor Gwyn Jones, vários trabalhos inéditos, Aotrou e Itroun, O Regresso de Beorhtnoth e Sellic Spell”. Que estágio O Regresso tinha alcançado em 1945 permanece obscuro, mas, oito anos depois, ele acabaria dividindo espaço com “Language, Style, and the Anglo-Welsh” [Linguagem, Estilo e os Anglo-Galeses], de Gwyn Jones, no mesmo volume de Essays and Studies.
Desde sua publicação inicial em outubro de 1953, O Regresso tem sido reimpresso em várias antologias, incluindo e Tolkien Reader (1966), Poems and Stories (1980) e edições mais recentes de Árvore e Folha. Excetuando-se um livreto de tiragem limitada em 1991, a presente edição é a primeira publicação independente de O Regresso.
PERFORMANCES E GRAVAÇÃO
A primeira nota de rodapé no ensaio “Ofermod” a rma que o drama em verso tem a “intenção de que funcione como uma recitação para duas pessoas, duas formas em ‘vaga sombra’”, mas, é claro, “nunca teve uma montagem”. Contudo, isso deixou de ser verdade logo após a publicação de O Regresso: a estação ird Programme da BBC produziu uma adaptação radiofônica transmitida pela primeira vez em 3 de dezembro de 1954 e que foi então reprisada em 17 de junho do ano seguinte. Alguns registros da correspondência dessa época entre Tolkien e Rayner Happenstall da BBC sobrevivem — no
m, Tolkien cou insatisfeito com a produção. De fato, ele produziu sua
própria versão do drama durante a preparação da performance da BBC; ele “gravou a coisa toda em ta”, incluindo efeitos sonoros criados em seu escritório. Essa gravação foi incluída em uma ta cassete, juntamente com a leitura que Christopher Tolkien fez de “A Morte de Beorhtnoth” e “Ofermod”, e presenteada aos participantes da Tolkien Centenary Conference, realizada em Oxford em 1992.
O TRABALHO DE TOLKIEN COM A BATALHA DE MALDON
Como será mostrado neste livro, O Regresso é apenas um seleto fruto tardio do trabalho muito mais longo de Tolkien com A Batalha de Maldon. Assim, parece apropriado nalizar esta introdução com algumas palavras do que se sabe acerca dos encontros de Tolkien com o poema que ele descreve como sendo “o último fragmento sobrevivente do antigo cancioneiro heroico inglês”.
Tais encontros certamente remontam, no mínimo, aos seus dias de graduação (1911–1915) no Exeter College, Oxford, quando A Batalha de Maldon teria sido uma pequena, mas inescapável, parte do curso de Inglês —
o exemplar pessoal de Tolkien do Anglo-Saxon Reader de Henry Sweet, escrito e 2 datado do Michaelmas assim como acontece hoje para alunos de inglês antigo. Stuart Lee observa que de 1911, contém várias anotações marginais sobre A
Batalha de Maldon (“Lagustreamas”, p. 158). Anos depois, o poema naturalmente fez parte de seu repertório como professor, particularmente no período em que foi Professor Rawlinson e Bosworth de Anglo-Saxão (1925– 1945) no Pembroke College, onde há pelo menos dois registros de palestras agendadas sobre Maldon, em 1928 e 1930 (Chronology, pp. 156, 165). Em 1937, E.V. Gordon, amigo de Tolkien e antigo colega na Universidade de Leeds, publicou aquela que seria por muitos anos a edição padrão de Maldon. Ainda que não tenha sido uma colaboração o cial como fora em 1925, na coedição de Sir Gawain e o Cavaleiro Verde, Gordon agradece a Tolkien no prefácio por suas “muitas correções e contribuições”, e observa que Tolkien, “com característica generosidade, deu [a ele] a solução para muitos dos problemas textuais e lológicos discutidos” na edição (p. vi).
As pegadas de Maldon nos escritos publicados de Tolkien fora de O Regresso são super ciais, ainda que, é claro, não estivesse longe da mente de Tolkien na famosa palestra “Beowulf: e Monsters and the Critics”, em que “as palavras de Byrhtwold” (vv. 312–13 de Maldon) são descritas como a “expressão doutrinal” da “exaltação da vontade invicta” (MC, p. 18). Uns trinta anos depois, no poema “For W.H.A.” [Para W.H.A.], parte da coleção de tributos na revista Shenandoah pelo sexagésimo aniversário de W.H. Auden, Tolkien recordou o xará lendário de seu amigo: “Tombado em combate o rebento de Wighelm, / à beira do Blackwater, com Byrhtnoth ao seu lado / no célebre insucesso”. Ainda assim, essas alusões escassas e esparsas dão uma falsa ideia acerca da notável abrangência e profundidade do interesse de Tolkien em Maldon, como revela até mesmo uma olhadela super cial nos papéis acadêmicos de Tolkien na Biblioteca Bodleiana. Aqui, pela primeira vez, está publicada uma amostra desse trabalho longo e frutífero.
Uma palavra nal acerca da organização que z: embora apresentado em primeiro lugar neste volume, O Regresso é claramente o mais tardio dos textos aqui reunidos. O leitor pode, com razão, perguntar por que Maldon não abre o livro, visto que é a inspiração para O Regresso. Por um lado, se esta disposição talvez reconheça o apelo mais geral de O Regresso e seu status como o extraordinário auge de muito daquilo que Tolkien pensava e sentia acerca de Maldon , por outro, ela também implicitamente realça o interesse duradouro de Tolkien no fazer poético e no processo de subcriação literária. Pois, ao colocar a jornada de Tída e Totta antes de A Batalha de Maldon, esta edição segue a cronologia interna da investigação ccional de Tolkien: é somente depois da ação em O Regresso que o famoso poema anglo-saxônico pode ser composto.
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Notas
1 No inglês, “Beorhtnoth we bear not Béowulf here”, ou seja, “É Beorhtnoth que estamos carregando aqui, e não Béowulf”. [N. T.]
2 O primeiro dos três períodos letivos da Universidade de Oxford, iniciado em setembro. [N.T.]
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