A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth

J. R. R. Tolkien · Capítulo 4 de 17

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A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth

PARTE UM: O Regresso de Beorhtnoth, Filho de Beorhthelm

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O Regresso de Beorhtnoth, Filho de Beorhthelm

 

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I

 

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Em agosto do ano de 991, no reinado de Æthelred II, uma batalha foi travada perto de Maldon, em Essex. De um lado, estava a força de defesa de Essex; de outro, uma hoste viking que devastara Ipswich. Os ingleses eram comandados por Beorhtnoth, lho de Beorhthelm, o duque de Essex, um homem renomado em sua época: poderoso, destemido, soberbo. Estava agora velho e grisalho, mas ainda era vigoroso e valente, e sua cabeça branca se erguia muito

acima de outros homens, pois ele era excepcionalmente alto.3 Os “daneses” — nessa ocasião, eles provavelmente eram, em sua maior parte, noruegueses — eram liderados, de acordo com uma versão da Crônica Anglo-Saxã, por Anlaf, famoso nas sagas e nas histórias nórdicas como Olaf Tryggvason, mais tarde, rei

da Noruega.4 Os nortistas haviam subido o estuário do rio Pante, hoje chamado de Blackwater, e acamparam na ilha de Northey. Os nortistas e os ingleses estavam, assim, separados por um braço do rio; quando ele era engrossado pela maré alta, só podia ser cruzado por uma “ponte” ou rampa

difícil de ultrapassar diante de uma defesa determinada.5 A defesa foi resoluta. Mas os vikings sabiam, ou assim parecia, com que tipo de homem tinham de lidar: pediram permissão para cruzar o vau, de forma que uma luta justa pudesse acontecer. Beorhtnoth aceitou o desa o e permitiu que atravessassem. Esse ato de soberba e cavalheirismo deslocado se mostrou fatal. Beorhtnoth foi morto, e os ingleses debandaram; mas a “casa” do duque, seu heorðwerod, que continha os cavaleiros e o ciais escolhidos de sua guarda pessoal, alguns dos quais membros de sua própria família, continuaram a lutar, até que todos tombaram mortos ao lado de seu senhor.

Um fragmento — um fragmento grande, com 325 versos — de um poema contemporâneo foi preservado. Não tem m, nem começo, nem título, mas hoje é geralmente conhecido como A Batalha de Maldon. Conta a exigência de tributo por parte dos vikings em troca de paz; a recusa orgulhosa, o desa o de Beorhtnoth e a defesa da “ponte”; o pedido matreiro dos vikings e a travessia da rampa; a última luta de Beorhtnoth, a queda de sua espada de punho dourado de sua mão aleijada e a mutilação de seu corpo pelos pagãos. O m do fragmento, quase a metade dele, conta o último combate da guarda pessoal. Os nomes, os feitos e as falas de muitos dos ingleses estão registrados.

O duque Beorhtnoth era um defensor dos monges e um patrono da Igreja, especialmente da abadia de Ely. Depois da batalha, o abade de Ely obteve seu corpo e o enterrou na abadia. Sua cabeça tinha sido decepada e não foi recuperada; no túmulo, foi substituída por uma bola de cera.

De acordo com o relato tardio e em grande parte não histórico do Liber Eliensis, escrito no século XII, o próprio abade de Ely foi com alguns de seus monges até o campo de batalha. Mas, no poema a seguir, supõe-se que o abade e seus monges só tenham chegado até Maldon e que lá tenham permanecido, mandando dois homens, servos do duque, para o campo de batalha, que cava a certa distância dali, na tarde do dia depois da batalha. Eles levaram uma carroça e tinham a tarefa de trazer de volta o corpo de Beorhtnoth. Deixaram a carroça perto do m da rampa e começaram a procurar entre os mortos; muitíssimos haviam tombado de ambos os lados. Torhthelm (coloquialmente Totta) é um jovem, lho de menestrel; sua cabeça está cheia de antigas baladas acerca dos heróis da antiguidade nortista, tais como: Finn, rei da Frísia; Fróda dos Hetobardos; Béowulf; Hengest e Horsa, líderes tradicionais dos vikings ingleses nos dias de Vortigern (chamado pelos ingleses de Wyrtgeorn). Tídwald (encurtado para Tída) era um velho ceorl, um lavrador que tinha visto muitas lutas nas milícias de defesa inglesas. Nenhum desses homens tinha chegado a estar na batalha. Depois de deixar a carroça, eles se separaram no crepúsculo que chegava. A noite cai, escura e nublada. Torhthelm se acha sozinho numa parte do campo onde os mortos jazem aos montes.

Do velho poema vêm as palavras orgulhosas de Offa, num conselho antes da batalha, e o nome do valente e jovem Ælfwine (varão de uma antiga casa nobre de Mércia), cuja coragem foi elogiada por Offa. Nesse texto, também são encontrados os nomes dos dois Wulfmærs: Wulfmær, lho da irmã de Beorhtnoth, e Wulfmær, o jovem, lho de Wulfstan, o qual, ao lado de Ælfnoth, tombou gravemente ferido ao lado de Beorhtnoth. Perto do m do fragmento sobrevivente, um velho vassalo, Beorhtwold, enquanto se prepara para morrer no último combate desesperado, pronuncia as palavras famosas, um resumo do código heroico, que aqui são faladas por Torhthelm durante um sonho:

Hige sceal þe heardra, heorte þe cenre,

Mod sceal þe mare þe ure mægen lytlað.

“A vontade será mais severa, o coração mais ousado, o espírito maior, conforme nossa força diminui.”

Fica subentendido aqui, como de fato é provável, que essas palavras não eram “originais”, mas uma expressão antiga e venerável da vontade heroica; é muito mais, e não menos, provável que Beorhtwold, por essa razão, as tenha realmente usado em seus momentos nais.

A terceira voz inglesa no escuro, falando depois que o Dirige6 é ouvido pela primeira vez, usa rima: pressagiando o m paulatino da antiga métrica aliterante. O antigo poema está composto numa forma livre do verso aliterante, sendo o último fragmento sobrevivente do antigo cancioneiro heroico inglês. Nessa mesma métrica, pouco ou nada mais livre que os versos de A Batalha de Maldon (ainda que usada para diálogos), o poema moderno está escrito.

As linhas que rimam ecoam alguns versos preservados na Historia Eliensis, referentes ao rei Canuto:

Merie sungen ðe muneches binnen Ely,

ða Cnut ching reu ðerby.

“Roweð, cnites, noer the land

and here we ther muneches saeng.”7

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Notas

3 De acordo com uma estimativa, ele media 1,98 metro. Esse dado se baseia no comprimento e tamanho de seus ossos quando foram examinados em seu túmulo em Ely, no ano de 1769. [N.A.]

4 Que Olaf Tryggvason tenha mesmo estado presente em Maldon é um dado hoje considerado duvidoso. Mas seu nome era conhecido dos ingleses. Ele estivera na Grã-Bretanha antes e, certamente, esteve no local de novo em 994. [N.A.]

5 De acordo com a interpretação de E.D. Laborde, hoje, geralmente, aceita. A rampa ou “ladeira” entre Northey e a terra rme ainda está lá. [N.A.]

6 “Conduz”, palavra em latim que inicia orações tradicionais pelos mortos na liturgia católica e de outras denominações cristãs. [N.T.]

7 Alegres cantavam os monges em Ely / Quando o rei Canuto veio remando por perto / “Remem, rapazes, perto da terra / E ouçamos a canção dos monges.” [N.T.]

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